Apocalipse Blues
1 Capítulo 1
É bobagem pensar que tudo foi como foi por que assim deveria ser?
Esse fatalismo que me ronda um dia foi diferente, foi força de convicção e não fraqueza de comodidade.
O tempo tudo vence, e não há carne, rocha, oceano ou idéia que se interrompa a parábola da inquestionável flecha do tempo.
A decadência é o fim último das coisas.
Assim parece ser, quando assisto esse filme passar. Sendo qualquer os nomes ou as figuras de linguagem que usamos, a decadência e o fim parecem ser onipresentes em toda a nossa história.
Assim foi que senti em minha carne o calor difuso do amanhecer. Era a fase da lua crescente. Era a primavera. Abri meus olhos, cegos com o sol, e estava inebriado com os aromas de flores e com os sons dos pássaros.
Era uma droga. Eu gostava do frio do inverno e da solidão da madrugada.
Ah, se o sol não se levantasse!
O sol traz consigo toda a mediocridade que tanto odeio. Traz consigo as pessoas que não arriscam penetrar na escuridão. Traz consigo as pessoas que somente saem quando o caminho já está fartamente iluminado e já sabem pra onde ir.
As ruas enchiam-se, e – que ódio! – ninguém seguia caminho algum que não fosse a rota preestabelecida de sua estúpida rotina!
E assim, olhando com nojo enquanto a rotina deformava os neurônios daqueles ao nosso redor, veio a primeira nuvem. Não choveu, mas ela cobriu o sol, e sob as sombras, as verdades mais obscuras de nossos corações surgiram para meus olhos atentos. E assim, a sabedoria em mim cresceu, assim como meu conhecimento.
E assim, o sol chegou no meio do céu. Era o meio-dia. Era o meu verão. Era a lua cheia. Enquanto todos buscavam refúgio do sol abrasivo, eu pude sentar e descansar, observando as ruas, as multidões que buscavam suas casas, suas refeições, seus descansos, sem olhar nos rostos umas das outras.
Foi quando eu descobri que, para esconder-nos, não precisamos de escuridão. Precisamos apenas da nossa vontade. Mesmo sob o sol do meio-dia, ninguém olharia por você, se você quisesse não fazer a diferença.
Mas a que preço?
O calor parecia que ia engolir o mundo. Era o verão maldito, o caos flamejante que se perpetrava sobre a humanidade faminta que devorava coisas que desconheciam, viviam num mundo que não compreendiam, olhavam para um céu de estrelas sem nome.
Mas eu sabia que minha adorada noite chegaria. Por isso aguardei, enquanto o sol descia e o calor diminuía e as rotinas continuavam a ser fardos que as pessoas conseguiram vendendo seu quinhão de liberdade.
E chegou meu alvorecer. Meu outono. Meu quarto minguante. Chegaram as primeiras chuvas, e eu sorri quando o chuvisco esfriou minha pele quente. Sorria enquanto as pessoas voltavam correndo para casa, fugindo das sombras que se alongavam. Sorria enquanto notava como era verdade que tudo possui grande sombra no amanhecer e no anoitecer.
Esfriava.
Faltava algo. O tempo foi passando enquanto as rotinas atiravam as pessoas longe de seus demônios, para mantê-los guardados das dores do parto da consciência, para mantê-los sob as cobertas da ignorância, e o tempo passava.
As folhas foram caindo, e não havia mais abrigo. Tinha de voltar pra casa, pois a chuva começava a cair pesada. Mas não achava o caminho. Tudo estava ficando diferente.
Pingando, esforcei a mente para encontrar o que faltava...
Sim...! Faltava... Algo... Alguém! Quando dormi, na noite anterior, havia alguém comigo!
Pra onde teria ido?
O desespero abateu-se como as crescentes sombras que iam engolindo o mundo. Sentei-me. A chuva cessara. Talvez, ao anoitecer novamente...
E anoiteceu. Chegou o inverno. E, irônicamente, justamente quando se precisava da luz da lua, chegou a lua nova. O escuro era total.
Minha noite não voltou. O inverno não era o mesmo. O frio que eu tanto idolatrava agora congelava meus ossos. Dessa vez não estava em casa. E dessa vez, aquele tal alguém não estava comigo.
E a volta do inverno não o trouxe de novo.
O passado é um quadro incompleto. O futuro não existe. O presente, essa unidade de tempo indivisível, é tão pequeno que nada adianta pensar nele; A flecha do tempo é mais rápida que nosso pensamento.
E é isso.
A decadência é a finalidade da existência.
Existimos para acabar. Sozinhos. Encharcados. Numa noite escura e sem lua, por que a lua já foi cheia quando o sol estava a pino.
Meus ossos doem. Não sei até quando conseguirei narrar o que acontece. Meus pensamentos agora, sob as sombras, sozinho, são atormentados pelos demônios da verdade e da consciência.
O frio que eu adorava não me trouxe conforto.
E agora eu definho.
E me falta alguém.
E, ah, dor... É não saber de quem se trata.
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