Apocalipse

9 Capítulo 8 – Primavera


Valahia, 1456

A fazenda é afastada da cidade mais movimentada da Romênia, na região da Transilvânia há muitos produtores de vinhos, e alguns caçadores. As cabras balem na frente da casa, o cervo está parcialmente esviscerado e secando pendurado na árvore, na cozinha, há mais atividade. Um prato de comida fora derrubado, as panelas ainda exalam o cozido de frango e ervilhas tortas, a mão feminina segura com força na mesa de madeira larga.

A mulher olha com apatia para a parede com seus olhos verdes. Na verdade, apenas um dos olhos. O outro fora cortado pelo homem atrás de si, a muitos anos atrás, quando a esposa dele morreu de um espancamento mal calculado. O caçador bêbado sempre abusara das mulheres à sua volta, a parteira, e agora, a filha. O movimento repetitivo do pai é oscilado com o arfar baforando aguardente de batatas, ela de mãos calejadas da lavoura apenas espera ele acabar.

A neblina verde adentra na cozinha, como muitas vezes, Mefisto costuma observar a camponesa, mas hoje pretende fazer algo diferente. O demônio ainda está em sua forma invisível quando para ao notar o rosto de Lucy. Ela sorri disfarçadamente quando o pai tosse. O corpulento homem apoia-se na mesa e começa a tossir ainda mais forte. Seus cabelos gordurosos e parcialmente trançados antes balançavam em luxúria incestuosa, agora, em estranheza. Ele se afasta das ancas da mulher e cai de costas com as calças arriadas aos pés.

Ele tosse mais forte, arqueia o corpo e fica de quatro. Surpreendido com a nova atitude da mulher, Mefisto guarda a adaga que carregava e decide observar escondido. Os olhos negros do demônio fitam Lucy levar as mãos para trás e baixar as camadas de saia. Ela levanta-se da mesa que ainda tinha parte do jantar parcialmente mastigado.

Está satisfeito, pai? Espero que tenha gostado do frango. — Ele responde em uma tosse cuspindo uma porção bolhosa de sangue no chão de terra batida. — É um tempero novo...

O homem está com o rosto vermelho, as veias saltadas próximas aos olhos e garganta estão azuladas. Ele rasteja até a lateral da mesa, tentando alcançar a faca, a mulher toca no utensílio e o afasta da beirada.

Não vai querer se machucar, não é? Preciso me preparar para o casamento com meu querido, e rico Conde. Aliás, ainda tenho que pensar em como fazer uma virgindade a ele, claro que meu futuro esposo não sabe do que você me faz, ou dos meus serviços atrás da igreja.

O homem segura nas saias dela, agarra com força tentando respirar enquanto os olhos se tornam amarelados. Ela o empurra com a perna, sobe em seu peito e fala próximo ao seu rosto.

Não ouse me tocar de novo, seu desgraçado imundo. Espero que encontre mamãe no inferno, que lá ela tenha mais coragem do que teve aqui. Um dia eu me juntarei a vocês dois, mas não será hoje.

Ele emite um ganido falho, os olhos viram para cima e solta o último ar. Ela o observa com seu único olho verde, a cicatriz cobre quase todo o lado esquerdo de seu rosto. É uma linda meia mulher, mas o lado fragmentado é a sua verdadeira face. O som de um vulto chama a atenção da parricida, a névoa verde sai da cozinha deixando-a sozinha com o cadáver.

*********

— A muito tempo você me chamava a atenção, mas foi naquele dia que a desejei mais do que apenas uma amante, minha querida. — fala Mefisto para Lucy.

A vampira está deitada no peito do amado demônio, rei dos infernos. A pedra fria do chão não incomoda o corpo quente e parcialmente envolvidos nos lençóis de seda após a manhã de entrega. Ela fala enquanto acaricia a pele acamurçada azul dele.

— Naquele dia, eu vi uma neblina verde, era você?

Mefisto responde em um sorriso debochado. Os gritos dos cidadãos de Valahia ressoam pelo quarto.

— Eu vou dominar esse mundo, você não irá se incomodar se eu precisar matar alguns de seus vizinhos, não é?

Ela levanta a cabeça ouvindo o povo do lado de fora, vira notando o corpo de Vlad caído no chão e volta o olhar para o recém esposo.

— Esses homens de Valahia me dominaram, consumiram ou abusaram de alguma forma. Eu quero é que você me garanta que não será piedoso com eles, e eu lhe garanto que lhe darei um exército de vampiros.

Primavera, Minas Gerais

O grupo conseguiu roupas e lentes de contato castanha para cobrir os olhos acinzentados, característica dos nomans. Os gêmeos caminham no meio da multidão, ambos usa uma sobrecapa clara, preservando o hábito de se vestirem iguais. Dominique fica analisando o traje.

— Essas roupas do pessoal da redoma são bem legais.

— Sim, claro. O único problema é a completa apatia de não poderem se expressar. — responde Aradia, andando ao lado deles apressadamente.

— Está sentindo falta da emoção lá de fora? Dos gases tóxicos e fuligem?

Aradia repara em uma sombra e olha para o alto, uma Karen paira logo acima deles.

— Talvez. Lá fora pelo menos somos nós mesmos, e eu posso te socar.

Dimitri solta uma risada contida, o som que sai é somente de sua respiração, Aradia percebe e sorri de volta ao noman.

— Pelo que eu saiba você me socou pensando que eu era o Dimi. Então, tecnicamente você queria socar o meu irmão.

— É, mas a minha mão foi na tua cara. Satisfeito?

Eles caminhavam distraídos quando ela tromba em uma Karen parada na rua.

— Oh! Me desculpe... eu não percebi que...

A alien observa os forasteiros e estranha o comportamento.

— Estão entrando em área restrita. — fala com voz monofônica.

— Estávamos contornando a área, foi um acidente... — responde Dimitri.

Os outros membros do grupo olham preocupados mais a frente, se escondem e preparam para um possível combate. A alien olha desconfiada e levanta uma pistola leitora.

— Fique parado. — avisa.

Dominique fica estático, ele percebe que Dimitri está suando, muito tenso. O período nos laboratórios foi muito pior para o irmão que agora segura a pistola horusiana, a bruxa toca em seu braço tentando acalmá-lo.

A alien aponta a pistola leitora para o colar de Aradia, as luzes vermelhas vão de encontro ao sinal piscante da gargantilha metálica.

— Senhora Daniela Soares. — lê a alien no visor. — Sempre morou aqui?

— Não, fui assimilada a dois anos.

— Tem apresentado alguma habilidade extra? Notou algo diferente?

Outras duas aliens se aproximam cercando o grupo.

— Não.

— Conhece alguém com habilidades especiais? Um corrompido ou um noman?

— Não conheço.

— Tem consciência que eles podem transmitir doenças e que devem ser imediatamente trazidos até uma sede da Aliança?

— Sim. Mas não conheço nenhum. — reafirma Aradia.

A alien vira-se para Dimitri.

— Senhor Carlos Eduardo Aguiar.

Ele confirma com a cabeça.

— Pode confirmar o nome, por favor?

— Ele é mudo! — declara Dominique. — Meu irmão é mudo, desde a nascença.

A alien vira-se rapidamente para Dominique com a pistola de identificação.

— Nome de registro: Natália Alonso. Nome Social: Christofer Aguiar.

— O que? — responde irritado Dominique.

— Oh! Me desculpe, não queria te expor. Não se preocupe, a Aliança tem grande abertura com transgêneros.

— Eu não...

— Algo mais que precisamos esclarecer? — interrompe Aradia, questionando a Karen.

— Não, tudo bem. Seus registros estão atualizados e equivalentes. A Aliança é a justiça.

— A Aliança é a salvação da humanidade. — respondem os três em uníssono.

As aliens levitam e se dispersam permitindo a passagem dos três, eles se juntam ao resto do grupo.

— Que história é essa de eu ser um transgênero, Henrique? — reclama Dominique.

O grupo ri, mas a voz de outra mulher chama a atenção.

— Arthur?

A grávida de sete meses apresenta a barriga proeminente, o vestido ajustado e elegante combina com os sapatos vermelhos. O velocista olha de forma emocionada, se aproxima rapidamente, mas para a dois passos dela, não chegando a tocá-la.

— Serena... oi. — fala com o olhar entristecido colocando as mãos para trás do corpo.

— Não deu mais notícias, achei que tivesse morrido. — fala ela dando um passo à frente, ele recua.

— Estou bem. Eu não pude mandar...

— Desculpe, gente. Acho melhor sairmos da rua, as aliens estão desconfiadas. — fala Henrique.

— Venham comigo, sei onde posso levá-los. — Serena avisa e os conduz.

Casa de Serena, Primavera

O chá de camomila e erva doce é servido em copos de vidro transparente. Dimitri pega um deles e entrega nas mãos de Aradia, ela estranha, mas sorri com o gesto, Daniele descansa no sofá.

— Salto alto... acho que isso foi criado apenas para mulheres não guerrearem.

— Aposto que você consegue lutar mesmo de salto. — responde Henrique massageando seus pés.

Na cozinha, Serena está enrolando uma mecha de cabelo no dedo e Arthur fica afastado.

— Não vai nem me tocar? — Ela pergunta levantando a blusa e exibindo a barriga avantajada.

— Você sabe que é melhor não. — responde ele com pesar, colocando novamente as mãos atrás do corpo. — Eles fizeram testes na Aliança?

— É uma das vantagens de se trabalhar lá. Eu te garanto, se você tivesse me contaminado, eu já estaria morta. Não tenho nenhum sinal de...

— Então é melhor continuar assim. — interrompe ele. — Se você precisar de algo que eu possa trazer de fora...

— Eu preciso de meu marido. Seu filho vai precisar de um pai. — Ele levanta os olhos para ela. — É um menino, você quer escolher o nome?

Arthur está de olhos marejados e rapidamente leva a mão no rosto quando Henrique chega.

— Podemos falar do plano?

Os dois confirmam e vão para a sala. Jonas repara que Arthur volta a colocar as mãos para trás, uma delas treme ininterruptamente.

— Eu disse que seria melhor que Serena não fosse envolvida. — fala o velocista. — Não tentem me convencer que ela aparecer foi uma infeliz coincidência.

Ele olha para todos do grupo.

— Foi eu quem a avisou, ela já tinha me procurado por meio do refúgio de Pernambuco. — responde Jonas. — Você se propôs a correr no acelerador de partículas, ainda está bancando o herói de sempre. Mas até heróis precisam da família.

Arthur olha furioso para o rebelde de capuz, o aracnídeo puxa o casaco expondo cicatrizes no pescoço e peito.

— Eu não queria estar aqui, é definitivamente o último lugar que eu gostaria de vir e duvido muito que os gêmeos também quisessem. Mas estamos, pois, precisamos de todas as chances que isso dê certo, precisamos salvar essa merda de mundo. Você é o único herói que nos sobrou, Raiju.

Arthur se emociona ao ser chamado pelo codinome que usava antigamente.

— Faz muito tempo que não sou mais um herói, Jonas. Ultimamente eu tenho matado demônios e vampiros, tenho apenas sobrevivido como todos vocês.

Serena chama a atenção de todos.

— Então já que estamos juntos, eu posso abrir caminho até o acelerador para vocês, mas ainda não entendi o que precisam dele... vai servir como um tipo de arma?

— Se tudo der certo, a arma virá por ele, junto de Arthur. — responde Henrique. — Mas como entraremos na sede?

— Durante o turno da noite é menos movimentado de oficiais, apenas as Karens ficam de vigia.

O grupo se entreolha apreensivo.

— “Apenas?” — questiona apreensivo Dominique.

— Se forem somente elas, eu posso dar conta. — responde Aradia.

— Como?

— Na hora que “esbarrei” na alien, eu me aproveitei. — A mulher de vestes de penas negras ergue a mão exibindo um fio de cabelo dourado.

— Mãos leves... — murmura Henrique. — Mas o que pretende fazer?

— Vocês cuidam dos oficiais, eu, das clonadas. — responde ela colocando o fio na mesa e pegando um fio de contas do pescoço.

— Certo... então prestem atenção no plano.

Nos preparativos da noite, todos estão tensos, em poucas horas terão que entrar em uma das sedes mais vigiadas por oficiais da aliança e centenas de Karens. Jonas prepara os cartuchos e pistolas e está deixando para cada membro do grupo. São inúteis para as aliens, mas ainda bons para os militares. Ele ouve um gemido e vai rapidamente para o quarto, encontra Arthur se contorcendo de dor, ele morde uma camisa empelotada para abafar o grito.

Finalmente vendo o velocista sem o uniforme, descobre que o corpo dele está coberto de protuberâncias. Parte dessas cascas negras e marrons ficam grudadas nas ataduras, sendo tiradas por Dimitri, deixando o herói em carne-viva.

— Meu Deus! — O Aracnídeo murmura assustado.

Arthur nota e faz um gesto pedindo que Jonas feche a porta. Ele obedece e se aproxima devagar. O velocista se segura na mesa, o rosto vermelho em agonia transparece a dor que está sentido, Dimitri suspira e arranca de uma vez o restante da atadura. Ele se afasta fazendo com que Jonas também recue, isso, pois Arthur começa a tremer. Quando treme o corpo todo faz com que crie uma imagem trêmula e quase duplicada, rapidamente Arthur alcança um frasco de líquido amarelo, usa uma seringa para aplicar no próprio pescoço. Os tremores vão parando devagar e uma aura brilhante vai se esvaindo, tons azuis e amarelos saem em um pulsar de seu corpo até finalmente parar. O herói sua frio, vira os olhos e tomba no chão desmaiado.

— O que está acontecendo?

Jonas olha ao redor e nota outras ataduras espalhadas, o uniforme prata rasgado deixa à mostra que há mais protuberâncias pelas pernas do caído. Dimitri, como sempre, nada fala, começa a recolher as ataduras e faz um gesto com a cabeça, pedindo o saco de lixo. Eles recolhem, minutos depois eles notam que Arthur está sangrando por um dos ferimentos.

— Precisamos chamar alguém, ele precisa de... — Jonas se levanta para sair, mas a mão de Dimitri o segura.

Ele indica para ficar, Jonas obedece, segura os punhos de Arthur no chão e Dimitri faz com que suas palmas fiquem incandescentes. O noman baixa as palmas brilhando em brasa, até as costas do velocista que rosna contido.

Instantes depois, o velocista fica consciente, ainda trêmulo senta-se arqueado no chão.

— Então é por isso que nunca tira essa droga de roupa?

— Eu disse, tudo o que acontece com vocês, acontece comigo de forma muito mais acelerada. Os contaminantes radioativos são absorvidos e ativados em meu corpo, eu sou... uma bomba de nêutrons ambulante.

— Você emite radiação?

— A roupa é um tipo de isolante, impede dela sair, um pouco escapa pelas mãos e rosto que não é coberto pele tecido feito pela Aliança. Se eu não usasse isso, teria morrido a dez anos já. Mas ao conter a radiação, os tumores começaram a aparecer, Dimitri descobriu por acidente, está me ajudando a cauterizar alguns, melhorar minha mobilidade.

— Ontem e hoje eu vi você colocar as mãos para trás perto de Serena.

— Para vocês é uma radiação pequena, mas para um bebê em formação... eu provavelmente mataria meu filho, só de ficar perto dele.

— É por isso dos tremores? Das dores de cabeça? — Jonas pergunta de forma arisca.

Arthur vira-se para ele com os olhos cabisbaixos.

— Quando eu fui levar a Karen na Aliança, eles fizeram testes em mim e descobriram o câncer. Os tumores da pele é a radiação que está saindo, é o que não conseguiu se acumular no... — Arthur para por um instante. — ... no tumor do cérebro.

Jonas arregala os olhos, encosta na parede e desliza até o chão sentando.

— Não há um tratamento que você possa...

— Olha pela janela, Jonas... que tratamento me dariam? — Arthur mostra a seringa vazia, e o frasco de líquido amarelo pela metade. — Isso é um sedativo poderoso, para uma pessoa normal levaria ao coma, para mim, é o suficiente para conter os tremores, isso são como convulsões, o meu corpo tentando expelir o contaminante. Mas eu e a radiação já somos uma coisa só, quando ele sair por completo eu também morrerei... eu sou a droga de um velocista que não tem muito tempo.

— Como é? — A voz de Serena invade o quarto.

— Serena, não! — grita Arthur tentando cobrir o resto do corpo com o uniforme.

— Você não me disse que estava assim, por que não me falou que... — Ela entra no quarto indo em direção ao velocista no chão.

Dimitri deixa o saco de ataduras cair, de olhar arregalado ele se direciona até a frente dela, impedindo-a de se aproximar. Jonas tenta acalmá-la também, mas ela insiste.

— Arthur, você vai me falar o que está acontecendo agora mesmo! Chega de se esconder de mim!

Ele concorda com a cabeça, termina de vestir o uniforme, ela fica chocada ao ver todos os ferimentos em seu corpo coberto de escaras. Leva as mãos na boca, horrorizada.

— Me deixem com ela, por favor. — O velocista fala, visivelmente abalado.

Dimitri e Jonas saem do quarto, encostam a porta. O silêncio paira por alguns instantes antes de Serena o questionar:

— A quanto tempo você sabe disso? A quanto tempo... me esconde?

Ele fecha o zíper da roupa devagar, o olhar dela acompanha o tecido cobrindo a pele com ferimentos e hematomas.

— Quatro anos. — Ele vira o rosto ao falar.

— Quatro anos? A gente tentava sair daqui e nunca me disse isso? Foi por isso que depois disse que era melhor eu ficar?

— Serena, lá fora, ou tem fuligem radioativa, ou é um lugar vigiado por demônios e vampiros... como iria sobreviver grávida lá? Aqui, pelo menos não vai morrer tossindo como o Jonas, como os saqueadores...

— Você poderia ter ficado. — contesta ela.

— Se eu ficasse, poderia te contaminar, e o bebê.

— ISSO VOCÊ DISSE! EU NÃO SEI QUANTAS VEZES FALOU, EU NÃO AGUENTO MAIS! — Ela se exalta em lágrimas. — Você só fala de me proteger, mas e quanto a viver comigo, com seu filho, isso não tem importância?

— É claro que tem... O que você quer que eu diga?

— Eu posso convencer os oficiais da Aliança a te tratar de alguma forma, você tem uma chance de viver aqui, comigo.

— Eu não acho que...

— Você sequer tentou! Eu sei que odeia essa gente, eu também odeio esse lugar, mas é onde posso ficar, onde é mais seguro para o bebê. Todos me falam do quanto você é importante, do quanto você salvou todos durante a guerra, que sempre correu pelos outros... por favor, ao menos uma vez... corra para casa dessa vez, para seu filho.

Arthur gagueja no que tentava contestar. Ele repara no rosto de pele alva e cabelos avermelhados na altura do ombro, formando um cacho delicado que ele sempre gostava de enrolar nos dedos.

— Você não sente saudades, é isso? — falam os lábios rosados e trêmulos dela.

Ele olha, profundamente ele admira a mulher a frente, carregando seu filho, entregue como eles sempre foram, desde muito jovens. Ele procura desesperadamente suas luvas, ela pega na beirada da cama e estende a ele. Arthur pega veste-as devagar.

— Eu estou cansado, essa será a última corrida, Serena.

Os olhos castanhos dele testemunham os dela encherem d’água, o rosto delicado toma outra forma, um sorriso alegre e cheio de esperança.

— Você jura?

Arthur vai até ela e a segura em um beijo intenso nos lábios. Ela o envolve nos braços, a leve pressão provoca dor nas costelas e costas do velocista, mas ele não se importa. Finalmente pode parar aliviado, finalmente poderá descansar.

— Eu te amo, foguenta. — sussurra ele ao seu ouvido.

*********

Naquela mesma noite, o grupo se aproxima, a poucos metros da entrada da sede, Aradia pede que todos parem por um instante. Ela pega uma boneca de tecidos envolta de pingentes e conchas, o fio de cabelo dourado é colocado na parte interna da boneca e a linha é puxada, fechando-a. Ela faz isso enquanto sussurra palavras em alguma língua antiga, que os outros não conseguem entender.

Então pega a ponta de uma fita azul e enlaça na cabeça da boneca, como que cobrindo os seus olhos. A fita azul é longa e ela amarra no próprio pulso, depois passa para Dimitri, dando um laço no pulso dele, logo depois no de Dominique, Jonas, Arthur, Daniele até finalmente Henrique.

— Vamos ter que ficar enlaçados, como em uma fila de crianças indo no parque? — questiona Henrique, impaciente.

— Que bom que você lembra dessa época... é, vamos ficar assim mesmo, e ainda em silêncio, pois o feitiço é curto e só nos tornará invisíveis a elas por pouco tempo. — responde Aradia ainda concentrada. — A não ser que você prefira lutar com as dezenas de aliens que estão de vigia.

Ele se cala, Daniele fica apreensiva.

— Por pouco tempo? Quanto isso dura?

— Eu não sei. Infelizmente eu não tenho sangue ou algo mais carnal para poder controlá-las com mais estabilidade. Então cerca de seis, no máximo dez minutos. Saberemos pela fita que irá se deteriorar aos poucos.

— Só precisamos entrar, lá eu posso esconder do sistema de vigilância interno. — Serena completa.

O último nó é dado e a fita começa a brilhar em um azul suave. Aradia leva o indicador até a frente do lábio pedindo silêncio a todos. Serena caminha a frente, vai até o portão vigiado por duas aliens. O grupo vai atrás, caminham devagar e param bem de frente às clonadas.

A Karen de fuzil olha para Serena e em torno.

— O que veio fazer a essa hora, doutora?

— Vim buscar o material de minha pesquisa e conferir alguns dados no laboratório. Eu esqueci os aparelhos ligados.

Fala mostrando o crachá com a identificação de neurofísica experimental da Aliança. A alien de uniforme vai até o controle e o portão começa a deslizar lateralmente, permitindo a passagem. O grupo caminha silenciosamente, tomando cuidado para não esbarrar em nada.

— Doutora? — chama a vigilante.

Serena para, gira o corpo de volta, tensa.

— Sim.

— O crachá. — Estendendo o cartão para Serena.

— Ah! Sim, obrigada.

Eles seguem apressadamente, vão até a entrada, passam pelo vão central, uma porta blindada, corredor, outra porta com senha, outro corredor. Quando estão sozinhos, finalmente Henrique pode falar.

— Quanto mais falta? — Ele sussurra apreensivo, observando a fita se deteriorar no pulso.

— Vamos descer mais um andar e logo chegaremos no...

O abrir de portas do elevador faz Serena se calar, Manson, só de regata branca, segurava uma caneca de café quando levanta os olhos para os invasores. Ele quebra a caneca na porta metálica e avança em direção a cientista, antes que ela grite, Arthur se solta da fita e segura-o contra a parede do elevador.

— INVA... — berrava o oficial antes do velocista fechar sua jugular com a mão.

O major golpeia as costelas de Arthur com a caneca quebrada, a porcelana corta o uniforme e rasga sua carne. Daniele corta a fita e salta dando um soco no oficial, que bate a cabeça no canto do elevador e apaga no chão.

Arthur cambaleia para trás, todos entram no elevador às pressas e descem.

— Temos sorte das câmeras não pegarem aqui agora, mas na saída precisávamos dessa proteção. — Serena fala segurando o velocista e olhando para a fita destruída no chão. — Lá embaixo há outras...

— Eu preciso de pouco tempo, apenas me levem até o acelerador. — fala Arthur de forma descompassada.

— Então vamos fazer uma limpeza. — Dominique estrala os dedos, Dimitri sorri e se direciona junto do irmão para a porta do elevador.

Duas Karens estão no andar de baixo, assim que o agudo toque anuncia a chegada do elevador a porta se abre e uma gigantesca labareda de fogo toma todo o corredor. Dimitri e Dominique baixam a mão quando o sistema de incêndio é acionado, jatos d’água são dispersados do teto umedecendo as duas caídas no chão. O alarme toca em tom elevado, todos saem do elevador e vão para o salão do gerador.

O gigantesco túnel cilíndrico é visto parcialmente por uma parede de vidro espesso, uma porta com feixe de pressão separa os ambientes. Serena vai direto para a mesa de controle tocando no painel para liberar a porta. Dimitri deixa Manson desmaiado dentro do elevador, quando fecha a porta, o noman enfia a mão incandescente lacrando o transportador. Ele fica na porta do laboratório e pega a arma horusiana, quando a carrega o clique faz uma luz amarela surgir aos poucos na lateral.

Dominique cauteriza o corte das costelas de Arthur que berra com a fumaça cheirando a carne queimada. Dentro do elevador, o major acorda zonzo, percebe que a porta está parcialmente derretida.

— Malditos nomans!

Ele aciona o alarme do elevador chamando alguém da central. O sinal estridente agora compete com o do incêndio, luzes de emergência são acionadas e as Karens comunicam-se nos rádios. Dominique solta rajadas de fogo contra uma Karen no corredor, Daniele vê que a outra está se levantando então pelos começam a crescer em seu rosto. Em poucos instantes, começam os estalos dos os ossos sendo reajustados no seu corpo, o dorso rapidamente fica muito maior e ela urra de dor com a musculatura crescida. O rosnado falho e arfante indica que a licantropa está pronta para caçada, ela corre e salta sobre a outra Karen que atingiria Dimitri.

— Está pronto e aumentando a energia! — grita Serena para Arthur.

O som do acelerador de partículas é cada vez mais elevado. É possível ver feixes de luz azul e amarela passando pelo corredor tubular a frente do vidro espesso.

— Estou indo. Eu irei acelerar o máximo possível o meu próprio corpo para passar. Marquem cinco minutos, se eu não voltar deixem esse lugar! — avisa Arthur se direcionando para a porta.

— Acelerar? — Jonas percebe o que está acontecendo e vai até o velocista. — Não, Arthur, o medicamento...

— Não se preocupe, eu não tomei desde ontem, não estou mais sob efeito.

— Mas se acelerar a radiação irá sair e...

— É por pouco tempo, por isso eu tenho que voltar logo.

— Arthur, isso é insano!

— O quê? — Serena grita tentando entender o que eles falam acobertados pelo som de labaredas de fogo, socos e partículas subatômicas em plasma condensado.

— Cinco minutos. — grita Arthur com a mão espalmada para a esposa.

— Arthur, para com isso, a gente tem que achar outra maneira... — Jonas segura o braço do velocista.

Henrique vê a situação, torna-se um gorila e agarra o aracnídeo por trás, o afastando do velocista que fecha a porta atrás de si. Serena imediatamente eleva uma alavanca pesada fazendo com que os feixes iluminados fiquem muito intensos. Arthur vai até a frente do vidro, fala algo para ela que sorri de volta ao ler seus lábios. Após o cumprimento da cabeça ele dispara a correr no tubo, a cada passada pelo vidro as luzes amarelas vão se tornando cada vez mais azuladas. Ele corre lateralmente, pisando diretamente nas paredes laterais para lhe dar maior estabilidade, nunca fora tão rápido antes, nunca pode usar todo seu poder.

O som de metal sendo retorcido avisa que a porta do elevador foi aberta no andar de cima. Dimitri escuta e começa a puxar todos para dentro do salão de eventos. Aradia usava uma adaga amaldiçoada para acertar uma Karen, Dominique recua ainda que soltando bolas de fogo na cabeça da outra mais afastada. Daniele luta com outra alien no fundo do corredor, a alien a prende na parede, mas as pernas fortes de loba a afastam. De repente, um grande estrondo e tremor vindo do elevador.

— AGORA!!! VENHAM JÁ! — berra Dominique.

A porta do elevador é socada de dentro e retorce metal blindado, dedos aparecem pela abertura forçando o deslizar. K3.316 aparece, a alien uniformizada traja o uniforme que a identifica como comandante, outras clonadas estão atrás dela. Aradia entra, Dimitri vira-se com a arma horusiana para a uniformizada, atira.

A comandante de cabelos curtos desvia com o corpo fazendo com que o imenso projétil faça um buraco na parede.

Dominique entra e Daniele vai logo atrás, Dimitri recua para dar passagem quando a naurú é agarrada na densa pelagem das costas.

— NÃO! — berram alguns do grupo.

Henrique agarra o braço da naurú e a puxa para si com a força de um gorila, K3.316 se aproxima do rosto de Daniele.

A Aliança é a justiça. — fala em tom robótico.

O clique da arma próximo da alien chama sua atenção, ela olha para baixo e percebe que Dimitri encaixou o bocal da pistola horusiana em seu queixo.

O tiro é surdo, abafado pelo maxilar da clonada. O crânio se despedaça na parte superior e o corpo cai para trás no chão molhado. O grupo puxa a naurú para dentro da sala e fecha a porta blindada. O vidro ainda permite ver que outras aliens estão chegando e Manson acaba de saltar dentro do elevador, portando uma submetralhadora e um cinto tático.

Dimitri e Dominique lacram cada porta e janela usando suas mãos incandescentes. Serena vê os passos cada vez mais rápidos de Arthur, ele é já um feixe prateado dando voltas nas luzes coloridas. Ele só vê o caminho cada vez mais largo, iluminado em um túnel azul e a frente é escuro. Acelera mais, sente ferimentos se abrirem com o esforço, ele grita em dor e vê a luta acontecendo do lado de fora do tubo a cada passada pela janela.

Então ele nota que o laboratório começa a ficar distante; ele corre; à sua frente uma massa negra começa a se formar; ele corre; as paredes se tornam completamente brancas e prateadas, quase o cega; ele corre ainda mais.

Por um instante ele vê sua perna se mover lentamente, seus olhos são muito mais rápidos e observa tudo ao redor. As mãos geraram múltiplas imagens de si mesmas, a cada movimento de seu corpo é como se deixasse para trás outra imagem de si. De repente, algo passa rápido no sentido contrário, o vulto chama sua atenção, gritos. Uma voz feminina e outra masculina. Ele olha, e fica assustado. É um outro velocista, ele carrega uma mulher de cabelos pretos ele corre sempre passando muito próximo a ele mesmo.

Ele corre. Por um instante ele estende a mão e o outro velocista percebe. Os dedos múltiplos de ambos quase chegam a se tocar. A poucos centímetros disso acontecer, a massa negra se expande, tomando o lugar. Tudo fica negro e frio. E depois, um ponto branco aparece no fim do longo corredor. Arthur pode ouvir a própria respiração ofegante, o coração acelerado parece saltar em seu peito. Finalmente, ele corre até o ponto e atravessa o portal, pisa no asfalto quente.