Apocalipse

14 Capítulo 13 – Entre cães e gatos


Uma fenda se abre no salão destruído por Dimitri, Baal passa por ela e olha ao redor, verificando se não há mais nenhum saqueador ou vermelho. Ele prende seu machado no suporte das costas, e olha para o morro de entulho com metais retorcidos a frente. Bufa uma vez, pensando no trabalho que terá, se aproxima devagar para evitar ruídos e começa a tirar as pedras imensas que caíram no teto. Após muitas pedras e metais que ainda brilhavam incandescentes ele finalmente encontra a mão de Lucy. Carbonizada e com as garras quebradas.

Momentos depois ela acorda, sente o seu corpo sendo carregado, mesmo que não sentido seu corpo inteiro. Os olhos se fecham. Depois sente o gosto férreo na boca, instintivamente ela bebe, algo cresce dentro de si mesma, seus ossos estalam crescendo novamente. Depois o breu novamente. Sonhos, sensações estranhas de seu corpo estalando, músculos se regenerando. Muito tempo depois, após muitos goles, ela finalmente consegue abrir os olhos despertada. A mão de Baal segura o ombro do oroba que relincha desesperado, Lucy o segura com as garras em suas costelas. O comandante consegue libertar o guerreiro que se ofertou como alimento da rainha.

Ela aspira o ar pelas presas sujas de sangue, os olhos finalmente ficam verdes novamente e a pele do rosto torna-se viva. Agora, apenas suja da fuligem do que era o seu corpo, a dor passara, o nada deixara de existir. Baal nota que ela já está consciente e faz um gesto com a mão dispensando os orobas e vampiros que fizeram tal “caridade”. Ele arqueia o corpo cansado, coça o peito com queimaduras provocadas pelo tiro de bazuca da Sara e aguarda ela se pronunciar.

Lucy olha ao redor, a “cama” é na verdade alguns tecidos de cortinas jogados no chão imundo de poeira e fuligem atômica. O casarão que eles estão, na verdade fora destruído na primeira guerra, provavelmente era alguma casa de fazendeiro rico que já foi saqueada inúmeras vezes.

— Que merda de lugar é esse?

— A resistência tomou o Palácio.

Lucy olha descrente no que ouve.

— Onde está aquele aleijado desgraçado...

— Não foi culpa dele. — relincha Baal. — Você sabe que os vermelhos organizados são muito fortes, e agora, unidos aos saqueadores... eu não vi, mas meus orobas disseram que a bruxa e o garoto de fogo se mostraram um problema.

Lucy vira o rosto, irritada, ele continua.

— Temos o mundo todo, a Ásia e a Europa estão tomados de forma muito mais estável, deixe esse espaço para eles.

— Por mais que eu deteste admitir, você está certo. Precisamos organizar isso melhor, unir os orobas e vampiros restantes e ir para outro local.

— É o que venho tentando dizer a tempos.

Lucy olha para o rosto de bisão de Baal e acena concordando.

— Está bem, eu vou falar com Mefisto para acertarmos isso.

Ela se curva para tocar o chão e invocar o esposo, mas Baal intervém.

— Ele não virá.

Lucy volta o corpo para ele.

— Onde está meu marido?

— Está ocupado.

Lucy para franzindo as sobrancelhas.

— Ocupado?

— Foi ele mesmo quem pediu que eu te resgatasse de lá.

— Ele me deixou nos escombros? A quanto tempo foi isso?

— Senhora, isso não impor...

— A quanto tempo?! — inquere a mulher.

— Três dias.

— Fazem só três dias que foi a luta?

— Faz uma semana. Você ficou três dias nos escombros, eu estou te alimentando a quatro... — rebate ele, a vampira fica surpresa. — Quando te achei, só tinha um braço e parte do dorso. O resto tinha virado fuligem.

Ela olha aceitando, de fato, nunca vira um noman tão poderoso antes, ela o subestimou, assim como subestimou Aradia. O demônio retoma.

— Os saqueadores e vermelhos já deixaram o Palácio depois de levarem armas e comida. Mas não acho seguro voltarmos para lá.

— Foda-se o Palácio, eu não me importo com isso, não é...

Ela rosna ao sentir dor.

— Tem algo que preciso lhe contar. — Baal fala constrangido. — Mefisto... eu acho que ele está tramando algo para te tirar do poder.

Lucy começa a rir, de nervoso.

— Eu sei.

Ela tenta se conter por causa da dor que ainda sente, abre a camisa e tira um pedaço de barra metálica que estava em seu abdômen. Então se acalma com a pele regenerando e retoma a fala.

— Eu sei disso, Baal. Ele quer substituir os vampiros por goetias.

— Mas então...

— Querido, você é ótimo estrategista de combate, um excelente general, mas quando se trata de tramas... eu aprendi a ter meus próprios planos com Mefisto. Ele acha que está sob controle de tudo, que poderá me tirar o que conquistei dando meu próprio sangue, mas não irá.

Uma lágrima de sangue desce em seu rosto, ela não disfarça, recolhe e lambe o líquido vermelho aproveitando cada gota.

— Não entendo como podem estar juntos...

— Baal, eu estou junto de meu marido, mas ele não está. Eu só estou me defendendo, garantindo que ele não faça nenhuma besteira. O máximo que faço é causar pequenas irritações a ele de forma sutil.

— Como ter libertado Lúcifer?

Lucy sorri.

— Agora me senti apanhada em flagrante.

— Eu desconfiei. — rindo de lado.

— Vai me denunciar a meu esposo por isso?

— Não. — O bisão pausa bufando. — Vou oferecer os orobas a você, se precisar.

— Baal, eu agradeço por isso, mas não posso pedir que você traia seu rei.

— Nem se eu não quisesse. Os orobas sempre lutam junto dos vampiros. Eles jamais aceitariam que Mefisto simplesmente os trocassem, nós temos um código de honra, mesmo sendo o que somos.

Lucy observa os cornos curvados do bisão.

— Alguém mais sabe disso?

— De Mefisto querer dispensar os vampiros, ou de você libertar Lúcifer?

— Ambos.

— A quem eu contaria?

Ela olha aliviada, então nota o tecido em torno do pulso dele, seus batimentos lentos indicam a perda de sangue recente. Ele a alimentara, literalmente.

— Sim. Eu agradeço então.

Um silêncio paira entre os dois, o demônio se levanta e vai em direção a porta do quarto. Quando se vira para avisar da saída, nota que as cortinas no chão estão vazias, ele olha confuso e encontra Lucy na porta, frente a ele. Ela agarra o pescoço do demônio dando-lhe um beijo sedento, por um instante ele se choca, mas logo segura a cintura pela mulher, jogando-a na mesa.

Ele toma o seu corpo em carícias brutas, o que a agrada. Eles derrubam os poucos objetos da mesa e ela empurra-o para o chão, subindo sobre ele. Imerso no prazer, ele fecha os olhos sentindo a pele alva dela em seu couro acinzentado, então reabre os olhos, assustado.

As garras da vampira rasgaram o seu ventre, arrancando de dentro parte de seus órgãos, ele urra de dor tentando se levantar, mas ela o golpeia com o cotovelo. Alimentada com sangue demoníaco, ela se levanta, pegando o machado de Baal e batendo com a base na cabeça do oroba iludido. Ele leva as mãos a frente arrastando-se no chão, seus olhos não creem quando ela levanta o machado para ele.

— Ma-mas o que eu fiz?

Ela olha como se lamentasse e ajusta a posição do machado acima da cabeça.

— Nada.

O golpe é certeiro, separando a gigantesca cabeça de bisão do corpo robusto. Os gritos dele atraíram os outros orobas, seus cascos anunciam que se aproximam. Ela rapidamente usa a lâmina do machado no próprio rosto, fazendo um profundo retalho em toda sua face direita. Coloca a arma no chão, deixa-se sangrar andando pelo enquanto corta os antebraços com as garras. Ao ouvir as batidas na porta, se ajoelha ao lado do corpo do oroba, abraçando seu dorso esviscerado e berrando como se estivesse em desespero. Os guerreiros entram no quarto, a encontram ferida, aos prantos, ao lado do comandante.

— Rainha, o que aconteceu?

— Meu esposo... ele... — As lágrimas caem no rosto deformado pelo corte profundo. — Mefisto tentou me matar, ele teve... oh... ele teve ciúmes do... meu querido Baal...

Ela cai inconsolável no corpo do demônio que acabara de matar.

*********

Aradia medita de frente a sua tenda, as velas ao redor têm suas chamas calmas e acompanham o balançar se seu corpo, flutuante. De pernas cruzadas, a bruxa paira a poucos centímetros do chão, seus olhos fechados estão vendo tudo através dos olhos de suas aves. A boca sussurra palavras em alguma língua antiga e então, ela sorri.

— Oh! Hoje é dia de visitas de novo. — fala ela, interrompendo seu mantra.

Ela baixa o corpo devagar tocando o tecido bordado que forra a terra, ao abrir os olhos ela apaga as chamas de suas velas. Então, uma delas, acende sozinha a sua frente. Ela estranha, se curva e sopra a pequena chama, que cambaleia para trás, mas permanece queimando.

Ela franze o cenho, leva o indicador e polegar aos lábios, lambendo-os. Ergue a mão até a vela e apaga a chama, provocando um pequeno ruído característico. Então uma chama surge, acima de sua mão, passa a se moldar na forma de um corvo, que “caminha” em seu braço, a poucos centímetros de sua pele. Aradia observa o belo contraste do amarelo com o negro de sua pele.

— Eu peço desculpas por ter te assustado, outro dia. — fala Dimitri, de trás de uma árvore.

— Eu entendo que estava instável. Não precisa se desculpar... — Ela olha para os lados procurando seu controlador pirotécnico. — ou se esconder.

O noman sai detrás da árvore, ainda olhando baixo para ela.

— Espero não ter te atrapalhado. — fala constrangido.

— Por ter ficado me observando meditar? Não me incomoda.

— Você murmurou, “hoje é dia de visitas”, achei que...

— Não me referia a você. — Aradia se levanta e caminha até ele. — Ultimamente eu tenho observado muitas pessoas, e outros também estão interessados em nós.

— Seremos atacados? Os Cains? A aliança? — questiona ele em tom preocupado.

— Não, acho que não agora. Vai ficar aqui, ou me acompanhar?

— Onde?

— Preciso falar com Henrique e Daniele. Isso se eu não interromper nada entre eles...

*********

— Eu não entendi. — fala Daniele. — Acham que devemos atacar quem e como?

— Quando os saqueadores foram pegar tudo que havia no Palácio do Planalto encontraram vários indícios do Tigre do Caveira. — esclarece Henrique.

— Sim, e quer que eu faça o que com essa informação? Eu sou uma naurú, não uma mulher gato! Aliás, é capaz de você conseguir se comunicar com eles, não acha? Transforme-se em um!

— Eu só me transformo, não me comunico com eles.

— Para mim, parece estar se comunicando muito bem, no momento. — rebate Lúcifer, com um sorriso sarcástico.

Henrique e Daniele olham feio para ele.

— Que foi? Isso por acaso é uma fala racista?

Enquanto o grupo discute do lado de dentro da casa, K3.316 observa do lado de fora. Faz quase dez dias que ela os acompanha em suas reuniões, mas não faz sentido eles estarem discutindo um assunto aparentemente banal. A alien apoia as mãos na parede da casa, observando pela janela, quando sua visão fica turva e escura.

— Mas o que...

Antes mesmo que consiga terminar sua fala, ela percebe que na verdade está envolta de uma esfera negra, a densa massa de energia impede sua visão e aos poucos a imobiliza. Assustada, ela tenta escapar, mas a camada parece se mover no ar sendo espessa o suficiente para seus socos não surtirem efeito. Ela ouve um som surdo “do lado de fora” da esfera em que está, então sente que sua cela móvel baixa.

Silêncio, e depois a luz aparece de uma vez. A massa negra sai de sua volta e passa a ser uma faixa larga prendendo seus braços, punhos e pernas. Caindo no chão, K3.316 olha ao redor e vê o grupo todo a sua volta. Aradia está com os olhos fechados, um corvo pousado em seu ombro olha atentamente para a alien, enquanto as mãos da feiticeira apontam para a prisioneira. Ela ainda pronuncia palavras em tom baixo quando Daniele se aproxima da alien.

— Então, por que está nos visitando?

— O jeito mais fácil de resolver isso é apagar rapidamente o problema. — fala Dimitri levantando sua mão com uma bola de fogo.

Aradia levanta uma das mãos a frente dele.

— Não escutou o que eu disse a pouco tempo, Dimitri? Ela não é nossa inimiga.

Daniele intervém.

— Eu tendo a concordar com ele, Aradia.

— Escutem todos. — Aradia fala irritada, uma aura negra pulsa ao redor dela, que abre os olhos e o corvo desaparece de seu ombro. — Ela estava aqui no dia que o Caveira atacou. Ela lutou contra traficantes e me ajudou. Se ela fosse nossa inimiga, teria contado para a Aliança onde estávamos. Teríamos sido dizimados, lá ou aqui.

— Eu garanto que não contei a ninguém de onde vocês estavam. — K3.316 finalmente se pronuncia, deixando todos chocados pela forma que fala.

— Por que você... — Henrique fala confuso.

— Por causa dele! — K3.316 aponta com os olhos para Dimitri. — Assim como outras irmãs, eu já estava apresentando falhas no controle, mas quando ele atirou em mim, acabou tirando o chip que me subordinava ainda. Minha consciência foi se restabelecendo aos poucos, eu tenho que agradecer por ter quase me matado.

— Foi no dia que invadimos o laboratório, quando Arthur... — balbucia Henrique.

— Tenho que dizer, eu avisei a bruxa que ela pode ser uma boa parceria. — fala Lúcifer. — A Aliança não é o que aparenta para vocês.

— Na verdade, não é o que aparentava nem mesmo a mim. — fala a alien. — Aquilo é uma prisão, eles manipulam minhas irmãs e as usam deturpando a realidade.

O grupo finalmente se abre a ouvir a garota que passa a contar de como aos poucos foi enxergando o medo que a população tinha delas. Mesmo acreditando que só faziam o bem, “a Aliança é a salvação da humanidade” era um mantra entoado, mas não executado. O horror de descobrir que eram doutrinadas e descartadas de forma cruel fez com que até mesmo Daniele contorcesse o rosto em alguns momentos.

— Tenho que admitir, se eu tivesse sido o demônio que tomasse a terra, no lugar de meu irmão, eu teria usado esses métodos. É genial. — declara Lúcifer, o único se divertindo com o relato da prisioneira.

— Sim, mas na verdade perdeu o trono para o irmãozinho caçula. — rebate a voz do Soldado Fantasma, pairando no ar em sua negra penumbra. — Deve ser humilhante para você, não é?

Lúcifer olha torto para ele, pega uma das frutas parcialmente mordidas e joga em sua direção. Ela atravessa a fumaça negra batendo na parede atrás de si. Daniele volta-se para o príncipe dos infernos.

— Lúcifer, você disse que a Cimitarra de Luz pode matar Mefisto.

— A espada de meu pai pode matar qualquer demônio ou vampiro com facilidade. É por isso que Mefisto sempre a carrega consigo, para eu poder matá-lo, terei que tomar a cimitarra dele.

— Somente essa arma serve? Não há mais nada? — questiona Aradia.

— Outros objetos sagrados e amaldiçoados podem afetá-lo, mas para matar um rei dos infernos somente as espadas gêmeas.

— E a outra é a azul flamejante, que foi destruída...

— Exatamente. O cerco está fechado nesse aspecto.

— Estamos perdidos. — conclui Dimitri.

*********

No dia seguinte, no casarão em ruínas, a rainha dos condenados tem uma grande e cicatriz, da sobrancelha ao maxilar. Seu rosto é de fúria que lança olhares frios acima dos orobas a volta. Asmodeus, oroba general ligo abaixo de Baal agora é o novo comandante, ele se aproxima e de joelhos, oferta o grande embrulho a rainha. Ela olha, e acena com a cabeça dando a permissão. O demônio então tira o tecido, vai atrás de Lucy e a coroa com o crânio de Baal que fora entalhado e moldado.

O funesto elmo com os chifres e parte da face do demônio morto torna-se um símbolo que Asmodeus ainda é subcomandante. A mulher levanta-se, se aproxima da janela e fala a centenas de orobas e vampiros abaixo.

— Eu errei. Eu falhei como esposa, vocês sabem, o que aconteceu. São demônios, não anjos para acharem que foi apenas um mal-entendido matrimonial. Mefisto descobriu e vocês sabem o final.

Marcos se aproxima, espreitando entre os caveiras. Ele fica apreensivo, já que sabe que ela nunca lhe teve grande apreço. Ela continua.

— Baal tentou me avisar o que meu marido pretendia, eu não acreditei. Ele disse que vocês já estão cientes.

Muitos dos orobas balançam a cabeça confirmando em silêncio, os vampiros se entreolham confusos.

— Sim, meus filhos do sangue. Mefisto pretendia nos substituir, por outra classe de demônios.

Sujos. — sussurram os orobas entre si.

— Sujos ou não, os goetias também são demônios. Mas isso eu mesma irei cuidar. Quantas vezes eu já lutei junto de vocês?

Os orobas relincham e bufam em confirmação, os vampiros vociferam indignados pela traição de Mefisto.

— Esse mundo foi tomado por nós, por vampiros, por orobas. Mefisto luta, mas manda muito mais do que levanta a cimitarra. Eu lutei com vocês na Europa. Eu levei vocês na China. As outras esposas dele tomaram cidades, países, eu levei vocês por continentes inteiros. Agora só falta a América, primeiro vamos escravizar até o último vermelho, vamos se alimentar até a última criança saqueadora. Por último, tomaremos o que resta da Aliança!

Os orobas urram.

— Vamos nos alimentar do que restam desses humanos! — Ela profere com seu único olho negro voltado para o Caveira, ao chão. Ele percebe que ela está se referindo aos traficantes. — Humanos foram feitos para servir, seja por sangue, ou com a carne!

Os orobas batem seus machados, lanças e clavas no chão e no peito, os vampiros urram. Ela faz um gesto para Asmodeus e ele corta a própria mão, os outros orobas repetem o movimento e todos falam de forma caótica.

Mefistófeles.

A invocação de tantos demônios juntos não pode deixar de ser ouvida, e ao lado da vampira um portal se abre, a neblina verde logo aparece com o demônio invocado, sem saber o que ocorre.

Assim que chega, o rei dos infernos olha ao redor e se espanta com o rosto cortado de Lucy.

— O que está acontecendo?

A pergunta não é respondida, os orobas rapidamente avançam sobre ele correndo entre o sorriso maléfico da vampira coroada. Ele se defende fazendo esferas esverdeadas afastando os demônios e erguendo a cimitarra contra os próprios guerreiros antes fiéis. Assistindo ao caos Marcos está sentindo uma estranha sensação, sabe que a vampira o quer morto. Mas por algum motivo, ao invés de aproveitar a confusão para sair dali, ele faz o inverso e se aproxima cada vez mais.

Os orobas atacam Mefisto por todos os lados, vampiros se aproximam, mas são pulverizados no ar pelas chamas esverdeadas do rei. Um grito corta o caos e todos param, recuando devagar.

— Já chega! — berra Lucy.

Eles se afastam, permitindo que a mulher coroada caminhe entre eles de encontro ao marido que logo percebe os cornos do elmo macabro da mulher.

— Isso... isso é Baal? O que estão...

— Isso era o meu querido Baal, que você tirou de mim.

Ela se aproxima com o machado do oroba morto, a arma pesada é levantada em posição de ataque.

— Me traíste diversas vezes esposo, com tuas vadias infernais, com demônios mais baixos... mas me tirar Baal, isso nunca irei lhe perdoar.

Ela avança sobre o demônio que faz uma esfera verde em defesa. O machado amaldiçoado é cravado nessa parede e as rachaduras se espalham. O resto do impulso no golpe permite que a lâmina corte os tecidos do peito de Mefisto. Ele ergue a cimitarra que é bloqueada pela base do machado.

— Eu não sei do que está falando! Ele era meu amigo, não o mataria. — Ele dá um impulso e soca a mulher no estômago, fazendo-a se afastar. — Mas sim, eu estava pensando em te matar, você não é como as outras... Me cansei de você.

Para os outros que assistiam, isso era apenas uma confirmação da versão da vampira. Para ela, apenas o indicativo que precisava tornar-se viúva. Ela faz um movimento circular de baixo para cima, Mefisto precisa recuar. Lucy gira o corpo dando impulso na lateral, ele tenta bloquear com a cimitarra, mas a vampira está muito mais forte e o desarma. A cimitarra cai para a lateral, próxima da parede. Quando a mulher avança com o machado no alto, o demônio responde com uma rajada de fogo verde a fazendo ficar em chamas.

Ela cambaleia deixando o machado cair, porém ainda com o corpo em chamas, salta para ele, cravando suas garras em seu peito. Ele vai ao chão de costas, ela levanta a garra rasgando o peito superior dele, as chamas se apagam aos poucos.

— EU TE AMEI, MALDITO!

Ele berra em dor, mas consegue conjurar uma lança verde em sua mão, empalando a vampira. A derruba ao lado, e assim que vê que os orobas se aproximam, ele abre uma fenda no chão caindo para as profundas e escapando de seu destino.

Quando ele foge, a lança se desfaz, a vampira tem o ferimento regenerando rapidamente assim como as queimaduras. Ela conseguiu o enfraquecer. Os vampiros rapidamente vão ajuda-la, mas ela recusa qualquer toque, levanta-se com o olho completamente negro em fúria.

— Ele escapou, mas está ferido. — fala Asmodeus para rainha dos condenados.

— Ele não escapará outra vez. Tragam a cimitarra a mim.

Os orobas olham, estavam todos voltados para a luta, o canto da parede onde estava a espada se encontra vazio.

*********

A caminhonete 4x4 em alta velocidade atravessa a estrada levantando poeira atômica atrás de si. No carregamento a jaula com um tigre está firmemente amarrada para evitar danos ao animal que está inquieto.

— Os cachorros vão te comer vivo. — fala o tigre para o dono que dirige rapidamente.

Marcos passa a marcha e apenas espia o felino atrás de si, antes de retomar a visão para a estrada.

— Cala boca, gato.

— Tô te falando, não gosto dos cachorros. Mesmo que seus filhotes estejam lá... aposto que eles também são cachorros vermelhos como a mãe, aquela cadela pulguenta.

— Eu mandei calar a boca! — berra o Caveira tirando seu único olho da estrada.

Dessa vez uma lança atinge o pneu dianteiro fazendo o carro derrapar. O caveira segura forte o volante tentando conter o carro, mas a roda trava e rapidamente ele vira em seu primeiro giro no ar. Quando cai novamente no chão, o vidro da frente se estilhaça no rosto do motorista, o gato rosna atrás mas estranhamente ele não gira novamente. Algo o segura.

De ponta cabeça, Marcos reabre o olho vendo as mãos que seguram a lateral do carro que impediram que capotasse mais. Os dedos delicados são seguidos pelo rosto alvo e cabelos louros cortados abaixo da orelha. A Alien observa o homem zonzo e rapidamente o puxa de dentro do veículo.

Ele ouve vozes quando sua audição começa a voltar aos poucos, a luz amarelada e o calor da fogueira próxima são presentes. Ele sua, a mão segura seu maxilar e balança seu corpo.

— Acorda, seu filho da puta!

A mão dá um tapa violento em seu rosto, o fazendo sangrar o lábio. Daniele é sua primeira visão, a sobrinha poderia ter preparado a fogueira tal como eram as intermináveis torturas que o Caveira fez a ela. Mas na verdade, não havia fogueira, apenas Dimitri.

— Aí está você...

— Espera! — Ele percebe estar acorrentado em um pilar de ferro, Seu braço mecânico fora desconectado e está distante, no chão. O galpão em ruínas é um dos esconderijos dos vermelhos. — Eu saí de lá, a procura de vocês!

— Ia se entregar, tio?

— Onde está o gato? — fala ele desviando do assunto e olhando ao redor.

— Minha nossa, começou... — murmura Daniele.

— Se refere ao tigre que estava na picape que capotou? — responde Henrique.

— Capotei?

— Foi eu quem fiz capotar, desgraçado! — Daniele rosna.

— Não se preocupe, o tigre está bem. Só levou algumas batidas. — tranquiliza Henrique.

Marcos assente com a cabeça.

— Certo, agora, onde a gente estava?

— Já chega, não quero ouvir a voz dele. — fala Dimitri se aproximando com a mão em chama.

— NÃO, ESPERA! Eu trouxe algo pra vocês!

Daniele segura o braço de Dimitri.

— Do que está falando?

— Eu vim para cá, pois sabia que estavam por algum lugar nessa região. Eu só não sabia exatamente onde. Os vampiros exploradores da Lucy já tinham avisado, mas a gente esperava ela acordar e comandar o grupo. Porém, as coisas mudaram muito.

— Mudaram como? — questiona Aradia.

— Eu ainda não sei tudo... ao que parece aquela vadia da Lucy estava pulando a cerca com o Baal. Mefisto descobriu e resolveu limpar a honra. Mas as coisas não acabaram bem. O boi está morto, ela agora comanda os orobas, está mais maluca do que o normal e eles atacaram Mefisto.

Uma risada ecoa pelo galpão.

— Não acredito que minha cunhada resolveu fazer... bom... pensando bem, considerando como ela é, eu não duvidaria. — Lúcifer se aproxima. — Realmente essa mulher é o melhor diabo que Mefisto poderia ter encontrado. É por isso que ele queria tanto matá-la.

O demônio olha para o rosto parcialmente rasgado de Marcos, passa o dedo na proteção de acrílico transparente que molda sua “caveira”.

— É, bem que me avisaram que você era feio.

— O que você é?

— Eu sou da família.

Daniele está impaciente.

— Marcos, você tem dois minutos para me convencer de por que eu não devo deixar Dimitri queimar você até só sobrar suas próteses metálicas. — avisa ela.

— Eu posso derretê-las também. — completa o noman de cabelos de chumbo.

— Eu peguei a cimitarra de luz! Eu trouxe para vocês, para matarem o Mefisto e acabarem com essa merda toda.

— Por que você faria isso? — questiona Aradia, desconfiada.

— Por que Baal está morto. — conclui Lúcifer. — Eu lembro do quanto Lucy desprezava esse primata aleijado. Você foi assunto várias vezes em meu calabouço, o oroba protegia Lucy e também Marcos. Ordens do Mefisto, pedindo que eles não se matassem. Mas agora, nada impediria que ela aumentasse sua frota de vampiros, em cima dos traficantes que tanto tinha repulsa.

Marcos balança a cabeça em negação, mas acaba confirmando ao final.

— Seria uma questão de tempo, sim... provavelmente eu seria o primeiro da lista dela. É por isso que, além da cimitarra, eu estou oferecendo um tratado. Eu pedi aos caveiras que se escondessem, se eles conseguiram, vocês terão mais cento e oitenta homens treinados e armados para lutar contra os Cains.

— VOCÊS SÃO CAINS! — brada Daniele.

— Cains são os malditos! Esses demônios e vampiros, nós nos aliamos apenas por sobrevivência... eu chamo de... prestação de serviços.

Daniele esbofeteia Marcos. Henrique a afasta enquanto Lúcifer pede calma.

— Ahhh! Mas ainda falta um detalhe, não está esquecendo nada, primata aleijado? — indaga o príncipe infernal.

— O que?

— A Sedenta. Acha que não sei que está com você? Arma feita para matar Lucys, ele não queria que ela o matasse, por isso que o próprio Mefisto deu a você a única coisa que pode matar aquela praga.

— Lucys? Do que você está falando, Lúcifer? — Aradia questiona.

— Não mude o foco, bruxa. Vamos, Marcos... a adaga.

— Como você sabe que ele entregou a mim? — questiona confuso o Caveira.

— Eu não tinha certeza, até você entrar aqui. Objetos amaldiçoados assim causam certas sensações em demônios de família real como eu. — responde Lúcifer em um sorriso.

O caveira balança a cabeça.

— Sim... eu tenho a adaga. Só me garantam que vão realmente matar essa mulher.

— Posso te garantir, Marcos, muitos aqui querem a morte dela. Eu até arranjei um soldado feito exatamente para isso.

Lúcifer sorri exibindo as presas para sombra negra que paira no ar, o Soldado Fantasma tem os olhos vermelhos brilhando em ira e desejo de vingança.