Apocalíptica - A Lenda Do Demônio
2 No Hospital
Notas iniciais
A garota sentiu o coração bater mais rápido.
O homem chegou mais perto da cama e então ela se encolheu.
De um jeito ou de outro, sua presença funesta pareceu preencher a sala com um pedaço do inferno.
Demy observou a estranha sombra ascender sob o brilho da lua que entrava pelas frestas da janela.
Aos poucos, mostrou-se um homem de aparência angelical, rodeado por uma aura brilhante que iluminou todo o quarto, gradativamente.
Sua pele era branca e parecia se mesclar a luz da lua, seus cabelos eram preto-azulados; tão longos que chegavam a tocar seus tornozelos.
Os olhos eram acinzentados, porém, pareciam guardar mais do que uma vida inteira para alguém daquela idade.
Embora o quarto todo estivesse preenchido de luz, as figuras ajoelhadas continuavam apagadas e borradas nas sombras da escuridão.
– Q-quem são vocês? – perguntou Demy assustada –
O homem fez uma cara de tristeza.
Sentou-se na cama e suavemente acariciou a bochecha da jovem.
Demy se arrepiou ao seu toque, não porque era bom, e sim porque sentia medo.
Uma única frase lhe veio a mente nesse momento:
‘’Eu quero a minha mãe’’
Seu medo aumentava a cada instante. De fato, nenhuma daquelas pessoas aparentava temer Mary.
– Q-qual é o seu nome? – gaguejou a garota –
Ele riu, talvez quisesse desconversar ou não dizer o seu nome, mas teve compaixão pelo anjo caído à sua frente.
– Orion.
Estranhamente, o nome parecia-lhe tão familiar.
Onde já havia ouvido aquilo?
Orion sorriu.
De repente alguns estalos e sons de vísceras se partindo foram ouvidos, então, das costas do ser de cabelos negros surgiram um grande par de asas claras, beirando o branco-azulado.
Demétria começou a tremer.
Embora o espetáculo a sua frente fosse divino, Orion não parecia alguém confiável, aliás, como já havia sentido antes, parecia trazer um pedaço do inferno para aquele pequeno quarto de hospital.
– Me deixe em paz...- sussurrou a garota com lágrimas nos olhos –
Orion acariciou seus cabelos.
– Você precisa se lembrar Demy.
– Não me chame de Demy! – gritou a garota –
Dando um tapa na mão de Oion, saiu correndo porta a fora.
Curiosamente, quando pôs os pés no chão frio do corredor do hospital, a paisagem toda parecia estar um pouco distorcida, porém ela continuou correndo e se sentiu aliviada ao perceber que fora só coisa de sua mente.
Talvez, com bastante sorte, Orion e aquelas sombras também não fizessem parte de um sonho.
Depois de correr até suas pernas se recusarem a se esforçar, a garota parou aliviada em uma encruzilhada de corredores azuis.
Ambos estavam desertos e um estranho cheiro pairava no ar.
Tentando acalmar seus pensamentos, correu os olhos pelo lugar onde estava.
Um ar frio e ardido subiu no ar, sua pele se arrepiou e seus cabelos se esvoaçaram sem vento algum.
Uma a uma, as luzes dos corredores foram falhando em sua direção. Quando se deu por si, estava imersa em completa escuridão, mas sabia que não estava sozinha.
Definitivamente, não estava.
Uma voz aveludada cortou a escuridão com um silvo de luz.
– Apocalíptica...
Demy se virou.
Ao final de um dos corredores três figuras humanóides cobertas por uma luz estonteante avançavam lentamente em sua direção.
Um deles vinha na frente.
Não pareciam ter rosto, cabelos, ou nada do tipo.
Tudo o que sabia é que parecia andar, nada mais.
– Apocalíptica...
A garota novamente se viu tomada pelo pânico.
Correr para a extremidade mais escura do corredor não parecia uma boa opção.
Ela levantou-se temerosa e se apoiou na parede fria.
Conforme os feixes de luz avançavam, figuras foram se formando por dentro da enorme clarão.
Três homens alados, trajando armaduras cor de bronze carregavam em suas mãos respectivas armas, uma espada, uma maça e um cajado.
O que estava mais a frente parou a alguns metros de Demétria, porém sua voz era forte como um trovão e era facilmente ouvida em todos os corredores.
Ele estendeu sua mão.
– Apocalíptica, então é mesmo verdade.
A garota continuou parada.
Certamente, o homem esperava alguma resposta. Ficou alguns segundos quieto e então disse um pouco irritado, com um pouco de deboche no tom da voz:
– Demétria, não é? Tsc...Mas que alcunha mais ridícula...Logo você, o anjo das asas negras, tinha o ego mais inflável que o de Lúcifer e agora está rastejando por aí dentro de um boneco de barro.– boneco de barro é o modo pelo qual alguns celestiais chamam os mortais –
Demétria continuou parada esperando algum momento em que entendesse o contexto da conversa.
O homem balançou a cabeça de madeixas loiras.
– Infelizmente, o destino dos sete céus agora se encontra com o seu – disse ele chegando mais perto – A batalha final clama pelo seu nome e agora é a sua hora, não precisa mais carregar o fardo de um anjo caído, junte-se a nós.
Aquela situação toda parecia muito estranha. Certamente havia algum engano, ou até mesmo algum engano em sua cabeça. Estaria ficando louca? Estaria mesmo vendo e ouvindo aquilo?
Ao final das esperanças, encontrou um fiozinho de voz na garganta para contrariar o ser.
– Não, e-eu não vou.
O anjo riu, certamente não esperava ouvir aquilo.
– Como pode recusar? Você foi criada para isso!
O grito do celestial eclodiu em um estrondo trincando o vidro de algumas janelas.
A garota sentiu um de seus tímpanos estourarem. Levou a mão ao ouvido esquerdo e percebeu o líquido vermelho escorrer pela bochecha.
– Venha conosco – disse o ser levantando a espada –
Demétria começou a andar para trás. A mão ainda tampando o ouvido.
– Não! Eu não fui criada para nada! Deixe-me em paz! – gritou Demy irritada –
– Você não entendeu Apocalíptica...- sibilou – Isso não é um pedido!
Ignorando a ira do anjo, ela balançou a cabeça negativamente retrocedendo a passos lentos, tentando imergir na escuridão do corredor apagado.
Certamente, seria uma tarefa difícil despistar o anjo na escuridão, já que sua aura era tão brilhante quanto uma metrópole a noite.
Ele apontou a espada flamejante para a garota.
– Eu não estou brincando Apocalíptica – disse sério –
Um lampejo demoníaco manou em seus olhos azuis e a velocidade de seus passos aumentou em direção da garota.
A esta altura a dor no ouvido de Demétria atordoava sua cabeça com um zumbido irritante e ela não conseguia distinguir as coisas muito bem.
Continuava apenas andando para trás, mas a luz a perseguia.
Com dificuldade conseguiu observar um dos anjos tentando parar o irritado.
– Asriel! Pare!
Ele não se convenceu e continuou a avançar em direção de Demy.
O anjo de cabelos vermelhos segurou o braço de Asriel.
– Você não pode fazer isso!
O portador da espada de fogo riu.
– Eu só quero assustá-la Baturiel.
– Não! Isso não é uma coisa boa, faça o que nos foi mandado.
Ele se soltou sem esforço algum da mão de Baturiel.
– Eu não temo os arcanjos.
Dizendo isso ele correu em uma velocidade incrível na direção de Demétria.
A espada se preparando para uma investida em seu braço.
Demy fechou os olhos com força, deixando algumas lágrimas descerem frias pelo rosto. Pode até sentir o braço caindo no chão, porém, tudo o que ouviu foi um som estridente de metais se chocando.
Quando abriu seus olhos, lá estava ele em sua frente.
Orion, o ser dos cabelos negros protegeu-a colocando um escudo de prata contra a espada flamejante de Asriel.
O brilho causado pelo impacto dos metais era tão forte que poderia derreter os olhos de qualquer pessoa normal.
Mas Demétria não era uma pessoa normal.
Ainda em combate, Asriel aproveitou para provocar Orion.
– Um dos sete duques? Escondeu sua aura muito bem Orion! Não senti você por aqui.
Orion interrompeu o contato das armas e deslizou para trás se pondo à frente de Demy e respondendo o comentário de maneira mais agressiva:
– Pena que não posso dizer o mesmo, senti o cheiro de traidor quando pisei os pés nesse terreno miserável, Asriel -disse cuspindo o nome do anjo com repulsa-
Ele riu.
– Espero que não esteja planejando levar ela com você. A garota vem com a gente, já está decidido.
Orion olhou para Demétria à suas costas que permanecia imóvel, apenas tentando absorver tudo aquilo.
– Ela não parece estar com vontade de acompanhar vocês.
A face de Asriel se abriu em um sorriso sarcástico.
– Acha que ela tem escolha? Você me surpreende Orion! Me surpreende! Como acha que isso pode ser mudado? Está no livro da vida! – o livro da vida é um livro místico que segundo a lenda é guardado por Miguel e descreve tudo que vai acontecer ou que já aconteceu na história do universo –
– Você já leu esse livro Asriel? Pelo menos já o viu?
O anjo preparou algo bem ofensivo para Orion, porém Baturiel, calado até então se intrometeu na discussão.
– Admiro sua consideração pela boneca de barro mas realmente precisamos da alma dela. Aliás, não sei porque está dificultando as coisas já que essa batalha pode te favorecer, demônio.
Demétria mordeu o lábio inferior. Demônio? Mas e as asas azuladas dele? Demônios tinham asas? Espera, confusão total! O que sabia sobre demônios? Aliás, o que sabia sobre aquelas coisas?
O demônio arqueou a sobrancelha.
– Trouxe um serafin com você Asriel? Vejo que não confia em suas habilidades mentais...Tsc, fez bem , você tem mente de ameba mesmo. – serafin é uma casta de anjos dominadora dos conhecimentos -
Era evidente para todos que o fogo interior ascendia dentro de Asriel como uma lareira em brasa, porém ele continuou parado.
– Terei que te matar para acabarmos com isso, Orion? Já te machuquei uma vez, posso muito bem fazer de novo – provocou Asriel com sua espada flamejante em riste –
– Vocês vão poder acabar com isso sim – começou Orion –
Por um momento, os anjos enfraqueceram o semblante, porém...
– Mas não agora. CAELI! – proferiu Orion em tom alto –
Demétria que estava com os sentidos prejudicados por causa do ouvido foi despertada pelo espetáculo de luzes que viu a seguir.
Pela extremidade do corredor em que se encontrava, observou surgir uma luz prateada que incrivelmente não prejudicou sua visão.
Ela pode distinguir uma figura feminina trajando uma espessa capa azul-escura abrir um tipo de buraco negro no espaço.
Um rasgo foi aberto na realidade fazendo a luz ao seu redor se distorcer assim como o som.
– Orion, vá! – gritou a mulher –
O demônio assentiu e com um sorriso nos lábios pegou Demétria no colo e abriu as asas novamente voando para dentro do buraco.
Ao longe, com a visão atordoada Demy ainda pode distinguir algumas cenas.
Os três anjos, furiosos, tentaram segui-los, mas foram impedidos por uma explosão de luz vermelha.
Quando tudo acabou, o buraco já havia se fechado e o som já não existia mais, tudo estava escuro e calmo.
Antes de desfalecer nos braços do demônio a garota deu uma última olhada em sua face.
Se era mesmo um demônio, não aparentava.
Os olhos tão brilhantes como os de uma criança e um sorriso vitorioso nos lábios avermelhados. As mexas negras caíam sob os seus olhos e logo começaram a se movimentar rápido.
Ela sentiu o vento frio bater contra os seus cabelos e percebeu que estavam voando.
Não teve forças para olhar para baixo, fechou os olhos e se aconchegou como pode nos braços de Orion, adormecendo em seguida.
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