Apenas uma visita.
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Já havia se passado mais de um mês desde que aquela notícia chegara e arrasara tudo e todos a sua volta. Eu não conseguia acreditar que era verdade, fiquei em estado de negação por muito tempo até que a ficha caisse completamente, desde então eu me encontro trancada em meu quarto todos os dias apesar de minha avó tentar frequentemente me tirar daqui.
Depois do acidente, fui morar com meu avós maternos, a casa deles ficava à apenas algumas quadras da casa onde morávamos, que foi colocada a venda há algumas semanas já que minha irmã foi morar com minha tia em New York para fazer faculdade, enquanto eu fico aqui na cidade de Oakland na Califónia, onde nasci e cresci, para terminar o último ano do ensino médio, não faria sentido manter aquela casa por puro capricho.
A única coisa que eu sei fazer ultimamente é chorar e me lamentar por minhas perdas, pode parecer exagero da minha parte, porém é difícil superar algo assim quando você é uma pessoa que sempre teve uma vida consideravelmente normal e também levando em conta que eu nunca tive um psicológico considerado forte, sempre fiquei abalada facilmente.
As vezes levanto de madrugada quando todos estão dormindo para comer algo leve, pois não sinto muita fome ou vontade de fazer nada. Meu quarto é grande e por sorte é uma suite, assim me permitindo ficar trancada sem ter que sair pra nada.
Inclusive não vou mais a escola há uns dois meses pois peguei um atestado com uma piscicóloga amiga da família, ela achou que fosse bom para mim dar um tempo de todo o stress pré-vestibular e colocar a cabeça no lugar e quando estivesse melhor poderia reconstruir minha rotina aos poucos.
Meus avós tentaram me animar trazendo amigos e parentes para me visitar, porém não tive disposição para falar com nem um deles, por algum motivo não me sinto confortável o suficiente para interagir com outras pessoas ainda.
Em uma quarta-feira como qualquer outra, por volta das 18:30 fui tomar um banho quente para relaxar um pouco, depois de um mês sem frequentar a escola comecei a ter aulas á distância pois não poderia perder praticamente um ano letivo já que seria ano de prestar vestibulares, não demorei muito debaixo do chuveiro, saí para o meu quarto e fui até o closet, peguei uma calça jeans escura, uma blusa de linha com mangas compridas e um par de meias pretas com pelinhos.
Logo em seguida penteei meus cabelos negros ondulados, que batem no meio das costas, a ideia de sair do quarto passou pela minha cabeça, no entando desisti rapidamente e fui me deitar como fiz quase o dia todo.
Por volta das 20:00 ouço minha avó bater na porta, que por preguiça ou ironía do destino esqueci de trancar.
— Querida o jantar está pronto, não quer descer hoje? — Ela pergunta e eu murmuro um "não estou com fome" alto o suficiente para que ela possa ouvir. — Tudo bem então.....e antes que eu me esqueça, tem uma pessoa querendo ver você!
— Por favor vó, diga as meninas para voltarem outro dia, não estou afim de falar com ninguém hoje — Respondo me inclinando para frente apoiada nos cotovelos — Diz pra elas que depois eu mando uma mensagem.
Ela não respondeu por um tempo então pensei que ela tivesse desistido, me deito novamente virada para o lado oposto da porta e ficando de frente com a sacada, que se encontra com as grandes portas de vidro fechadas. Quando fecho os olhos ouço a porta abrir.
— Gente, sério não estou a fim de papo hoje! — Digo ainda na mesma posição, porém ninguém responde.
Sinto meu colchão mexer atrás de mim, entretanto não da tempo de eu me virar para ver quem é pois logo em seguida vem uma frase do mesmo.
— Por favor, preciso fala com você — Quando percebo seu timbre, reconheço no mesmo momento quem é e estremeço da cabeça aos pés e me viro de uma vez só assustada.
E lá estava, bem a minha frente, o garoto de cabelos loiros bagunçados e olhos azuis que eu mais queria odiar na face da terra, porém passava bem longe disso, o garoto que esteve ao meu lado por muito tempo, o garoto que a mais ou menos um ano atrás era meu melhor amigo, porém quando meu pai foi embora acabei me distanciando depois de brigarmos por eu não querer aceitar a ajuda de ninguém.
Foi uma perda grande para nós mas foi melhor assim, os desentendimentos entre meus pais só aumentavam e isso acabava comigo por ver minha família sofrer, e com a morte da minha mãe em um acidente de carro voltando do trabalho acabei perdendo total contado com a maioria dos meus amigos nos ultimos mêses.
Não tivemos mais notícias do meu pai depois que ele saiu de casa e logo quando minha mãe havia superado isso um caminhão atingiu o carro dela quando voltava para casa.
Queria odiar aquele garoto pelas coisas duras que me disse um dia, contudo, não podia porque sabía que eram pro meu próprio bem. Coisas que não me recordo perfeitamente de como foram ditas mas que apesar da dor momentânea que causaram me fizeram bem depois de esfriar a cabeça. No final eu o considerava muito por estar lá sempre que precisei.
Fui tirada dos meus devaneios com um certo loiro cujo nome era Nickolas, me chamando novamente para a terra.
— Hale? — Chamou novamente — Desculpe aparecer do nada, mais eu precisava saber como você estava com tudo que aconteceu e.....- Eu o cortei me levantando da cama repentinamente e indo até a porta a abrindo bruscamente.
— VÓ — Gritei e ela subiu as escadas em menos de cinco segundos — Como você deixou esse embuste entrar aqui sem ao menos me consultar — Disse com uma mistura de emoções ao mesmo tempo na voz e ri mentalmente do adjetivo que escolhi de ultima hora.
Minha avó me olhou com cara de surpresa e correu para dentro do quarto.
— Como você tirou ela do quarto tão rápido? — Ela disse pelo fato de eu não passar daquele batente a um bom tempo por motivo algum até agora, nem em minhas sorrateiras visitas á cozinha no meio da noite.
Eu a olhei com a pior cara de indignação possível e aquele loiro oxigenado apenas sorriu vitorioso. Depois de um tempo minha avó decidiu parar de rir da minha cara de tacho e voltar lá para baixo fechando a porta atrás de sí.
— Respondendo sua primeira pergunta, sim, estou ótima, perfeitamente bem e feliz. — Digo caminhando até o lado da cama onde eu estava antes e me deitando de costas para Nick novamente. Sim eu chamava ele assim, pois quando nos conhecemos nos primeiros dias não lembrava seu nome então ele me disse para chama-lo assim, e isso procede até hoje.
— Que ótimo então — Ele disse com sarcasmo na voz. — Mas não é o que parece. — Exclama em um tom sério. — E todos estão preocupados com você.
— Que legal da sua parte se preocupar — Digo ainda de costas e com ironía. — Porém já está tarde e acho melhor você ir dormir. — Uso o tom de educação com ironía mais forçado possível.
Ele não responde, apenas sinto a cama se mexer novamente e penso que ele realmente está indo embora, uma parte de mim agradece, a outra implora para que ele fique e me proteja de tudo como era antigamente, como faziamos nos dias em que um dormia na casa do outro e acabavamos vendo filme de terror, ou quando algo me assustava, ele sempre estava lá para me dizer que tudo ia fica bem. Simplesmente adorava quando isso acontecia.
Quando me dou conta sinto o colchão pender para o lado contrário ao meu e me assusto mais ainda quando sinto um braço em volta da minha cintura, tento me virar rapidamente mas acabo batendo o ombro em seu torax assim me dando conta do que está acontecendo. Ele está deitado na MINHA cama me abraçando, mas que aldácia é essa?! Está certo que a gente sempre se tratou com essa intimidade mas agora não era um momento pra isso.
— Mais que droga você pensa que esta fazendo?! — Falo já me exaltando.
— Você que mandou eu ir dormir, esta lembrada? — Ele fala um um to baixo próximo ao meu ouvido me fazendo ficar vermelha na hora.
— N-não aqui idiota. — POR QUE CARGAS D'ÁGUA EU GAGUEJEI??!!
Ele da uma risada nasal e me vira de frente para ele.
— Brincadeiras a parte, Hale eu realmente preciso saber como você está? — Ele me pergunta com uma grande carga de preocupação na voz e eu me dou por vencida.
— Estou bem na medida do possível -suspiro — O acidente foi a gota d'água pras coisas irem de mal a pior — Explico já com os olhos cheios de lágrimas prontas para descerem. — Fica cada dia pior, pois não quero preocupar meus avós com meus problemas, assim ficando sem ninguém pra poder desabafar tudo que está preso na garganta. — Solto tudo de uma vez já sentindo as lágrimas silenciosas rolarem soltas pelo meu rosto.
— Eu estou aqui pra quando você precisar de um ombro pra chorar. — Ele diz dando uma piscadinha me fazendo sorrir e corar ao mesmo tempo, por saber que ele lembra que eu gosto dessas frases clichês. — Vai ficar tudo bem. — ele sussurra alisando meu cabelo, me fazendo encostar o rosto em seu peito e eu retribuo o abraço.
— Não está com raiva de mim por termos discutido naquela vez? — Perguntei meio receosa com a resposta.
— Por mais chata que você seja, não consigo ficar bravo com você por muito tempo, sabe disso — Sorriu — E já faz tempo que aconteceu, as coisas eram recentes e eu devia ter respeitado isso.
— Que bom que estamos bem denovo — Nunca admitiria que estava com saudades mas era bom tê-lo de volta.
Sempre fomos assim, desde pequenos fomos criados juntos por nossas famílias serem amigas, então nunca nos desgrudavamos e acabamos gerando uma intimidade muito grande.
Alguns minutos depois ouço a porta abrir e finjo que estou dormindo enquanto Nick faz carinho no meu cabelo e deposita um beijo sobre ele.
— Ela dormiu? — Escuto minha avó perguntar a ele.
— Dormiu sim, depois de ter me dado uns bons tapas e socos por ter deitado aqui com ela. — Ele mente dando uma risada boa.
Minha vó se senta na beira da cama e suspira
— Sabe de uma coisa? — sinto ele chaqualando a cabeça para que ela prosseguisse. — Apesar de ela não demostrar muito ela gosta de você meu rapaz, antes ela vivia falando de você e de como se davam bem juntos — Nessa hora corei violentamente, pois apesar de não adimitir tinha um fundinho de verdade nisso, me escondi no peito do loiro, mas o mesmo percebeu e deu uma risadinha disfarçada para que apenas eu ouvisse. — Ela gosta de você muito mais do que possa imaginar, e eu espero que você possa reconhecer isso. — Ela se levantou de onde estava e veio até mim, depositando um beijo em minha bochecha. — Eu também te amo minha pequena Hale Miller.- Senti mais algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto e Nick me apertar mais como se quisesse mostrar que estava ali comigo me passando segurança e eu sorri agradecida com esse ato.
Minha avó estava saindo quando parou na porta do quarto e olhou para o relógio acima da cabeceira da cama e como eu havia o consultado algum tempo antes presumi que marcava por volta das 23:17.
— Por que não fica aqui essa noite meu jovem? Já está tarde e eu ligo para os seus pais avisando, pode ser? — Ela pergunta na maior cara de pau e abro bem pouco os olhos a ponto de ver Nickolas sorrir.
— Pode sim, obrigado sra. Miller
— Por nada meu rapaz ela precisa mesmo de uma companhia. — Logo em seguida ela saiu, apagou a luz e fechou a porta.
O garoto ao meu lado depositou um beijo em minha testa o que me fez abrir por completo os olhos e encarar aquelas orbes azuis incrivelmente lindas e profundas que encaravam meus olhos castanhos escuros. Em poucos segundos ele aproximou seu rosto do meu e sussurou bem perto dos meus lábios.
— Eu também gosto muito de você, mais do que você imagina.
Sorri boba com essa frase e em um piscar de olhos ele juntou nossos lábios em um beijo calmo e apaixonado, e senti-o sorrir durante o beijo,o que me fez fazer o mesmo. Minutos depois nos separamos e ele abraçou com força minha cintura porém sem me machucar, eu encostei a cabeça em seu peito e retribui o abraço.
Não era preciso palavras nesse momento, não era preciso mais nada pois sabiamos o que sentiamos um pelo outro, apesar das desavenças do passado estavamos nos reconciliando e assim adormecemos ambos com sorrisos estampados no rosto.
A luz no fim do túnel nem sempre é o que esperamos, as vezes são pessoas que convivem diariamente conosco, as vezes pessoas que são um pouco distantes, mas que também podem ser nosso meio de escape, ou as vezes até mesmo pessoas que apenas passam por nossas vidas, mas que mesmo assim de uma forma ou de outra nos ajudam a dar a volta por cima.
No meu caso era alguém que eu conhecia perfeitamente bem, ele tem número, endereço e um sorriso lindo, que sempre alegra meu dia por pior que esteja.
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