Apenas uma canção
2 Primeiro passo
Notas iniciais
Fui à sua direção e o peguei pelo pulso o levando para dentro do banheiro:
–POR FAVOR, ME SOLTA!- ele gritou? Isso esta ficando estranho.
–ei cadê o respeito?- perguntei irônico.
–por favor, hoje não. — ele vira o rosto e diminui o tom- é um dia ruim.
–uau, como é triste. A princesa não tá legal hoje. Hoooo!
– VOCÊ É MESMO UM MONSTRO, NÃO É?
Ele me chamou de monstro de novo. E de novo eu me surpreendi, tanto com o fato de ele ter gritado quanto com o fato de ele estar chorando.
–por favor, chega.
O olhei cauteloso. Não acredito que vou fazer isso! Segurei seu rosto e o fiz olhar para mim. Quando ele me olhou o abracei... EU SOU UM IDIOTA! Não acredito que estou fazendo isso. Abraçando esse esquisito! Mas pensando bem ele até que é bem fofinho, pequeno, com cabelo cumprido, parece uma menininha indefesa que precisa de ajuda. Que bonitinho... PERA, PERA, PERA, O QUE ESTOU PENSANDO?
Eu já estava pronto para empurra-lo quando senti ele me abraçar de volta. Foi meio estranho. Uma parte de mim queria estar assim, próximo de alguém, mas outra parte me dizia que aquilo não podia acontecer. Porém quem falou mais alto foi ainda outra parte, uma que me induzia a protegê-lo, que me trazia certo arrependimento, afinal parte daquela dor que ele estava sentido provavelmente é responsabilidade minha.
Ficamos abraçados até que ouvimos a porta do banheiro ser aberta. Soltei-me rápido dele antes que um grupo de meninos que entrava nos visse.
O resto da aula passei assim, pensando em como ele deveria estar, no que estava sentindo e, estranhamente, tive vontade de conforta-lo.
Só fui acordar do transe quando o sinal tocou avisando que era hora de ir embora. Porém não fui. O que eu fiz foi andar até a carteira dele e o chamar:
–oi.
–oi... O que você quer?- ele perguntou desconfiado e, se meus olhos não falharam, um pouco corado.
–eu queria conversar com você.
–sobre?
Fiquei sem fala, sem brincadeira, eu realmente não sabia o que dizer. Eu nem sabia ao certo por que tinha ido ali.
–b-bom... Ah... Eu... Eu não sei- confessei- qualquer coisa.
–e isso não tem nada haver com aquele abraço tem?
Fiquei sem cor e ele continuou:
–olha se você esta, sei lá, se sentindo culpado saiba que não tem nada haver com você. Bom, pelo menos dessa vez não tem.
Fiquei o olhando sem dizer nada. Ele também não se pronunciou. Eu o esperei terminar de arrumar suas coisas e saímos juntos:
–quer ir à minha casa?
–que?- o olhei confuso. Ele suspirou:
–olha, eu não quero você me seguindo por ai, tá? Se quiser conversar então pode ir, entretanto terá que ir embora antes das sete.
–por quê?
–tenho um compromisso.
–Esta bem, vamos agora?
–sim.
–sua mãe não vai ficar brava? Ela nem sabe.
–meus pais trabalham o dia todo, eu almoço sozinho o que tiver lá. Aliás, como sou responsável pela minha comida vou ter que fazer alguma coisa para você também. Gosta do que?
–qualquer coisa.
–tudo bem um sanduiche? Não fui ao mercado essa semana, não tem muita coisa.
–claro.
Andamos ate sua casa que, acreditem, ficava muito longe! Estava muito cansado quando chegamos. Felizmente ele me deu um copo d´agua. Depois disso subimos para seu quarto que era bem espaçoso. Fiquei andando por ele olhando as coisas e esbarrei em alguns objetos que me chamaram a atenção. Eram produtos lançados e vendidos na internet pelo cantor misterioso! Mas o que mais me chamou a atenção era que ele tinha TODOS! Todos mesmo, canecas, camisetas, canetas, pôsteres, games, maquiagem pros olhos e até as pelúcias do dragãozinho de estimação dele.
Fiquei impressionado com tamanha coleção. Tinham objetos que nem eu já tinha visto. E o mais incrível é que parecia ser uma coleção completa, e é quase impossível conseguir os objetos que ele vende no site, esgota muito rápido!
–você tem muitos objetos colecionáveis não é?
–sim.
–Como fez para conseguir tantos? Eu quase fico louco quando ele lança um novo porque é muito difícil competir com aquelas pessoas para conseguir um produto.
Ele deu de ombros sem se importar e respondeu:
–apenas consegui. Como não importa... Você é fã dele?
–desde a primeira musica!
Michael pareceu se animar um pouco. Alias, se meus olhos não me enganam, ele pareceu sorrir. Ficamos muito tempo conversando antes de eu ir embora. Falamos sobre vários assuntos, musicas, filmes, livros e eu percebi que eu e ele temos mais em comum do que eu poderia imaginar.
Fui chegar em casa muito tempo depois, entretanto bem a tempo de ver o programa do cantor misterioso. Sim, o cantor misterioso tem tipo um programa no site dele que passa toda sesta feira.
Gosto muito de assistir enquanto como, é tipo um lazer. O Michael deve estar assistindo agora, ele parece ser muito fã também. Gostaria que ele estivesse aqui.
Passei o resto da noite sem fazer absolutamente nada, assim como o final de semana. A única coisa que me dignei a fazer foi estudar, aff.
A segunda feira chegou rápida como uma flecha. Fui um dos primeiros a chegar à escola, não porque não consegui dormir, mas porque queria conversar com ele. Sinto-me estranho fazendo isso.
O vi andando pelo corredor e fui atrás dele:
–ei Michael.
–desde quando você me chama pelo nome? E os amáveis e carinhosos apelidinhos que me dá?- perguntou irônico.
Abaixei a cabeça. Ele tinha razão em ser sarcástico, eu o incomodei por muito tempo.
–eu só... — fiquei sem fala de novo.
–tudo bem. Quer conversar outra vez?
–claro! Cheguei cedo para isso.
–você... Acordou cedo só pra vir falar comigo? O que foi que houve?
–nada, é só que... Gostei de conversar com você.
Ele abaixou a cabeça, mas eu vi que foi porque ficou envergonhado. Gostei de vê-lo vermelho. Ficou fofo assim.
–O que você faz na escola tão cedo? Você esta sempre aqui né?
– sim, eu estudo ou como alguma coisa na cantina. Quer ir à biblioteca comigo?
Balancei a cabeça positivamente. Começamos a andar pelos corredores em silêncio, ninguém se atrevia a quebra-lo. Eu porque não tinha assunto e ele, provavelmente, porque estava ocupado demais brincando com uma mechinha do seu cabelo.
Quando chegamos à bibliotecária já foi o cumprimentando sem rodeios, acho que eles devem ser muito amigos já que ele vem aqui todos os dias. Ele me apresentou logo em seguida e eu fiquei meio sem fala. Sério, esse negocia de não ter o que falar está me enlouquecendo! Acho que vou escrever um roteiro para a vida com todas as minhas falas pra nunca mais acontecer isso.
Andamos até uma mesa e ele começou a tirar os livros da sua bolsa. Fiz o mesmo e começamos a estudar. Depois de cinco minutos eu já não aguentava mais:
–não aguento mais, eu não entendo nada!
Ele riu um pouco e virou pra mim:
–oque?
–essas coisas todas! Eu nem sei por onde começar.
–eu sei que é meio chatinho, mas dá pra entender. Vem, eu te explico.
Passamos o resto dos vinte minutos estudando até a aula começar, o que foi ótimo porque, pra quem não estava entendendo nada, eu até que já estou tendo uma noção.
–a gente pode estudar depois da aula se quiser. Vem na minha casa.
–vai ser ótimo, obrigado.
Quem diria que foi assim que começamos nossa amizade? Passamos a nos encontrar todos os dias e eu percebi que temos mais em comum do que imaginei. Tá certo que tínhamos algumas diferenças gritantes, mas com certeza isso era o de menos. Minhas notas aumentaram inacreditavelmente depois que ele começou a me dar aulas e meu pai já mostra ter mais orgulho de mim. E, foi através do Michael, que eu consegui começar a ter uma boa relação com minha família, em especial meu irmão, que está mais animado do que nunca. Eu o conheci de uma forma que nunca pensei que conheceria alguém e me encantei com sua forma de pensar, seus sonhos e seus desejos para o futuro.
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