Apenas um Cachorro
1 Apenas um Cachorro
Notas iniciais
Depois de uma longa viagem, cruzando o país em busca de sua humana, descobrindo como era ser um cachorro, Bolt finalmente estava vivendo como todo cachorro deve viver: confortavelmente em uma casa, com humanos que o amavam e seus melhores amigos que conheceu em sua jornada, Mittens e Rhino.
Assim nos primeiros dias de sua nova vida de cachorro normal, Bolr acordava pela manhã junto com Penny, acompanhava ela pela casa, até a cozinha, onde comia em sua tigela. Geralmente Mittens e Rhino acordavam um tempo depois e encontravam Bolt já terminando de comer. Para eles, era uma rotina, bem melhor do que as aventuras que já passaram. Depois de se arrumar para escola, Penny brincava com Bolt antes de se despedir. Afinal, ela tem uma vida normal também.
Bolt a acompanhava até o ônibus escolar que parava em frente a sua casa. Ela se despedia dele antes de entrar no ônibus e ele sabia que ela estaria bem. Quando estava voltando para cara, pela grama, viu Mittens nas escadas que fica logo após a entrada da frente, aproveitando o sol da manhã. Vendo que ele estava na grama, pensou em ensinar mais uma coisa de cachorro para ele. Assim que ele se aproximou, Mittens falou sobre rolar na grama.
— Bolt, rola na grama. – Ela sorriu.
— Rolar na grama? – Ele respondeu confuso.
— Vai lá, rola na grama. – Ela insistiu.
Bolt então, começou a rolar na grama como ela tinha falado. Estava sentindo algo que nunca tinha sentido antes. Até que ele parou de rolar e ficou com as patas para cima e o dorso encostado com a grama, olhando o céu azul. Era uma mistura de sensações novas: o orvalho da grama em seus pelos, cheiro de grama molhada pela manhã, ar fresco e o som de pássaros. Bolt nunca tinha se sentido tão vivo e em contato com tantas coisas assim.
— Ta tudo bem? – Mittens perguntou, porque ele ficou um tempo parado.
— Ta sim. – Bolt respondeu, ainda distraído com o que estava sentindo. – É que nunca me senti assim antes.
— É bom não é? – Ela se levantou das escadas, para ver melhora como ele estava. Era uma cena adorável.
— Demais, não sei explicar. – Ele se levantou, deu uma chacoalhada para se secar e foi até as escadas.
— Não precisa. – Ela sorriu e foi para dentro de casa.
Bolt a seguiu para dentro de casa, e os dois foram para o sofá onde Rhino já estava, procurando algum canal interessante na televisão. Conforme Rhino trocava os canais, ninguém percebeu, mas em um canal de notícias estava sendo dito que o estúdio de gravação do antigo seriado de Bolt estava sendo investigado por maus tratos animais já que alguém de dentro vazou para a imprensa que Bolt foi mantido lá dentro por 5 anos, sem poder ser um cachorro de verdade. Apesar disso, o seriado ainda passava na televisão.
Rhino parou de mudar os canais quando encontrou o seriado de Bolt. Ainda era o seriado favorito dele, mesmo sabendo que Bolt ao seu lado era um cachorro comum, ainda era uma inspiração. Enquanto passava as imagens do seriado, Mittens começou a entender os supostos poderes que ele alegava ter. Bolt começou a lembrar como era morar lá no estúdio, e percebeu algo que não tinha notado, principalmente porque agora estava deitado tranquilamente no sofá com seus amigos. Mittens percebeu que ele mudou muito e para melhor desde que se conheceram em Nova York, até sabia mais ou menos o motivo mas queira entender mais e assim perguntou algumas coisas.
— Bolt, você sente falta de estar lá? – Ela olha para Bolt e depois para a televisão.
— Acreditaria se eu dissesse que não? – Ele olha para ela sorrindo.
— Acho que acreditaria. – Ela sorri de volta.
— Como não, Bolt? – Rhino estranhou.
— Eu consigo ver agora. – Ele se espreguiça no sofá. – Que era muito estressante.
— Imagino. – Mittens olha para a televisão, passando as imagens de ação do seriado. – Não devia ser fácil.
— Sério? – Rhino pergunta, já que a revelação de Bolt quebrou um pouco as expectativas de que era um máximo estar lá.
— Eu tinha medo constante de perder a Penny para o cara de olho verde. – Ele olha para os dois. – Eu nem dormia direito por causa disso. – Ele dá um suspiro de tristeza.
— Não imaginava que era tão ruim assim. – Rhino diz com um tom de tristeza.
— Agora sei que aqui é bem melhor. É algo que nunca tive antes. – Ele sorriu para os dois, que retribuem. Bolt só teve um sono tranquilo depois que foi para casa de campo. Mittens adorava seu sorriso. Os três sentiram nesse momento um cheiro incrível da cozinha, a mãe de Penny estava cozinhando.
— Bom, se me permitem, vou procurar algo para comer. – Rhino pula do sofá e vai para cozinha, deixando os dois sozinhos. Ele desligou a televisão já que ninguém assistiria de qualquer forma.
— Você mudou muito muito desde que sair daquele estúdio. – Mittens sorriu. Ela gostava do Bolt normal.
— Você me ensinou. – Ele bocejou. – Lembra?
— Lembro sim. – Ela sorriu. – Não tem como esquecer.
Bolt se aconchegou no safá mesmo para dar um cochilo, algo que ele nunca teve tempo de fazer no estúdio. Ele é um cachorro bem menos estressado e mais tranquilo, agora consegue dormir longas horas sem preocupação. Dessa vez no sofá, sentiu pelos de outro animal encostando em sua barriga. Quando abriu os olhos, viu que era Mittens. Estranhou por um momento, mas não se importou. Curiosamente, estava confortável com sua inimiga natural número um repousando em sua barriga. Não era a primeira vez ela fazia isso, mas Bolt não se acostumava com a ideia de que uma gata pudesse ficar tão confortável perto de um cachorro.
Durante a viagem pelos Estados Unidos, Bolt estava tão preocupado em salvar ou voltar para Penny, que acabou não dando importância para o que sentia pela gata, mas sabia que era por causa dela que se sentia bem sendo um cachorro normal. Mittensm por outro lado, valorizava o que tinha com Bolt. Ele foi o primeiro a se preocupar com ela desde que foi abandonada, ela percebeu isso quando Bolt voltou para aquele abrigo de animais apenas para resgatá-la, uma gata de rua, que até aquele momento aparentemente não tinha valor nenhum.
Depois de algumas horas no sofá, os dois sentiram que alguém sentou no sofá também. A mãe da Penny se sentou para almoçar enquanto assistia televisão. Ela reparou que os dois estavam cochilando juntos e pensou: "São tão fofos juntos. Penny vai adorar ver os dois assim.". Eles sabiam que toda vez que ela se sentava para almoçar, era um sinal de que tinha comida nas suas tigelas. Mittens ouviu a barriga de Bolt roncar de fome e logo saiu de cima dele. Bolt foi comer primeiro e Mittens se deitou ao lado da mãe da Penny para receber um pouco de carinho.
Bolt chegou na cozinha e viu Rhino dormindo dentro da bola e pensou: "Provavelmente comeu demais." Enquanto comia em sua tigela, Bolt começou a pensar no que sentia: "Eu gosto dela. Eu me sinto bem perto dela, ou quando ela deita na minha barriga, é tão aconchegante. Mas porque parece tão errado tudo isso? É tão errado um cachorro se apaixonar por uma gata? Porque é tão estranho?" Seus pensamentos foram interrompidos quando ela entrou na cozinha também para comer. Os dois comeram silenciosamente e depois cada um foi para um canto da casa. Bolt precisava colocar os pensamentos no lugar.
Bolt ficou andando pelos campos em volta da casa, enquanto pensava no que sentia, ele ficava muito incomodado com isso. Enquanto seu coração queria uma coisa, sua cabeça queria outra. Era muita angústia para um cachorro. Pelo menos, ele conseguia se distrair pela casa ou brincando com o Senhor Cenoura. Quando Penny voltava para casa, Bolt conseguia esquecer esses problemas por um momento, mas toda vez que olhava pra Mittens aquelas dúvidas sempre voltavam, principalmente a noite, porque ela gostava dormir aconchegada nele por ele ser quentinho.
Alguns dias se passaram, desde que Bolt começou a ter esse incômodo, as vezes ele passava o dia inteiro fora de casa apenas para não ver a Mittens. Isso causava estranhamento nele, pois ela amava Bolt de qualquer jeito. Nesse dia em que já fazia certo tempo qie Bolt estava fora de casa, Rhino foi conversar com ela, porque queria ajudar o amigo. Mittens estava na varanda, olhando Bolt de longe quando Rhino chegou. Ele percebeu que ela estava olhando-o e esperou alguns minutos antes de começar a falar.
— Você deveria falar com ele. – Rhino disse.
— Rhino! – Ela pulou de susto.
— Desculpa, não foi intenção. – Ele deu uma risada.
— Muito engraçado. – Ele já se recuperando do susto. – Mas o que você disse? Falar com quem?
— Com Bolt. – Rhino olhou para ele de longe.
— Ele anda estranho ultimamente. – Ela também olhou.
— Por isso que você deveria falar com ele. – Rhino não queria revelar que Bolt já tinha se aberto com ele.
Mittens pensou por um pouco, até hesitou, mas foi até Bolt que estava no gramado, andando em círculos, repetindo a mesma frase para si mesmo, bem baixinho: "Eu não posso amar ela.". Apesar de falar baixinho, Mittens ouviu e não acreditava. Então ela se aproximou mais e o chamou.
— Bolt. – Ela tentou não assustá-lo.
— Mittens! – Ele se assuntou um pouco. – Não tinha visto você.
— Tá tudo bem? – Ela perguntou , com uma voz calma.
— Acho que sim. – Ele tinha coragem de dizer outra coisa.
— Queria te perguntar uma coisa. – Ela sabia que ele estava mentindo, mas não queria ser tão direta.
— Pode perguntar. – Ele sentou no gramado.
— É uma dúvida que fiquei sobre o que a gente passou junto. – Ela foi se aproximando, devagar. – Porque me resgatou daquele lugar de animais, mesmo eu sendo uma gata de rua? – Ela tentou ser sutil e ao mesmo tempo tirar uma dúvida que ela realmente tinha. Bolt respirou fundo antes de responder.
— Eu não podia deixar você lá. – Ele a olhou. – Depois de tudo que fiz você passar.
— Ninguém tinha se preocupado comigo assim antes. – Ela sentou na frente dele. Ele ficou sem reação ao vê-la de frente, mas continuou.
— Não foi nada demais. – Ele tentou desconversar, acanhado.
— Foi importante para mim. – Ela o olhou nos olhos.
— Eu não sabia. – Ele olhou para o lado. – Desculpa.
— Ta tudo bem. – Ela disse com uma calma e sorriu para ele. Ela colocou suas patas em volta do pescoço de Bolt e o abraçou gentilmente. Toda aquela angústia, por um momento, parecia não existir. Ela sentiu que Bolt estava mais relaxado. – Vamos voltar para dentro. – Assim, ela soltou Bolt de seu abraço e estava voltando para casa quando foi interrompida.
— Mittens. – Bolt respirado fundo. – Queria te perguntar uma coisa.
— Claro. – Ela se volta para ele.
— É errado um cachorro se sentir tão bem perto de uma gata? – É como se ele tivesse tirado um grande peso dos ombros ao perguntar isso.
— Não, Bolt, nenhum pouco. – Ela o olha nos olhos.
— Eu... eu vou esperar aqui fora, daqui a pouco a Penny chega. – Ele não esperava por essa resposta, por isso ficou bem surpreso e já mudou de assunto.
Mittens continuou para dentro de casa enquanto Bolt se deitou na varanda ainda pouco confuso sobre estava sentindo. Ele percebeu que Mittens não se incomodava se era errado ou não, mas adorava ficar perto dele de qualquer jeito. Aos poucos aquela angústia foi melhorando, ele começou a entender que estava preocupado com algo que não deveria estar.
Em alguns minutos, Penny chegou em casa foi recebida com pulos de alegria e lambidas de Bolt. Ele sempre a recebia assim, afinal cruzou um país inteiro por causa dela. Então, Penny deu carinho para seus outros animais, cumprimentou sua mãe, deixou suas coisas no seu quarto e foi brincar com Bolt lá fora. Ela sabia que Bolt sentia muito sua falta, por isso fazia questão de ter bons momentos com ele.
Algumas horas depois, de noite, Bolt estava cansado de tanto brincar com a Penny, terminou de comer em sua tigela e foi se deitar em sua caminha que ficaba ao lado da cama de Penny. Uns minutos depois, ele sentiu a Mittens se aconchegando com ele novamente. Não parecia uma ideia tão estranha para Bolt, mesmo assim perguntou.
— Mittens, não é estranho eu e você assim.... – Ele perguntou baixinho.
— Talvez, mas eu não me importo. – Ele se espreguiçou e se virou para ele. – É quentinho e confortável aqui. Eu me sinto bem com você. Eu me sinto segura. Não trocaria isso por nada. – Ela boceja e fecha os olhos para dormir. Nesse momento Bolt entendeu o que realmente importava.
— Também não trocaria por nada. – Ele sussurrou, e depois fechou os olhos para dormir.
Penny entrou no quarto alguns minutos depois, viu os dois e pensou que os dois estavam muito fofos juntos. Ela colocou um lençol em cima deles e os acariciou na cabeça.
Bolt entendeu que estava se preocupando demais se era errado ou estranho, e esquecendo que ele também adorava ficar perto dela e que ela foi seu porto seguro quando estava perdido e não sabia o que era ser um cachorro. Sabia também que se sentia bem perto dela.
Bolt dormiu tranquilo, aproveitando o momento, que não era a primeira e nem seria o último. Ele sabia que era apenas um cachorro, mas que era o suficiente para todos.
Tudo estava bem.
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