Apenas o começo
3 Ato 3
Era um pub trouxa, o tipo de desafio que Regulus se via enfrentando eventualmente, já que estava bem-disposto a se adaptar ao novo mundo. Mas o “eventualmente” havia se tornado um “atualmente” muito rápido e mesmo tendo caminhado apenas algumas quadras da sua casa, o sonserino sentia como se tivesse adentrado em uma outra dimensão.
—Relaxa, eu sei que você é maior de idade, mas não temos documentação trouxa, então você vai ter que tirar essa expressão de bebê inocente do rosto. —James sussurrou enquanto encaminhava Regulus para um par de bancos no final do balcão de aparência gordurosa.
—Nós temos literalmente um ano de diferença de idade, Potter, então não me trate como se eu fosse uma criança! —Talvez Regulus estivesse realmente um pouco chocado com o ambiente, mas o comentário do auror o trouxe de volta ao seu velho eu mais confiante. —E por que me trouxe aqui, se você disse que queria um ambiente mais silencioso?
O mais jovem murmurou irritadamente, se aproximando para ser ouvido pelo grifinório, que balançava a cabeça ao som da música vindo de uma máquina esquisita no canto do salão, tomado por conversas descontraídas e fumaça de cigarro barato.
James o olhou com um sorriso debochado, depois apontou para que Regulus se sentasse no banco na ponta do balcão. Fez um aceno para o barman, indicando que queria dois chopps. Regulus observou tudo com um interesse calculado. Precisava aprender essas coisas, se queria se passar por um entusiasta do mundo trouxa em sua nova vida.
—Você poderia ao menos mudar essa expressão de quem cheirou o que a mantícora enterrou na areia. —James disse divertido, se ajeitando no banco, finalmente se virando para conversar com o garoto ao seu lado. —E então, Regulus... Posso te chamar de Regulus?
—Não, não pode.
—E então, Regulus, algum avanço na busca pelas horcurxes? —James iniciou a conversa despretensiosamente, dando um gole no, recém colocado, copo a sua frente. Regulus lhe lançou um olhar atravessado, antes de experimentar do seu próprio chopp. Era amargo, mas refrescante, nem de longe tão ruim quanto esperava.
—Não sei se este é o ambiente mais apropriado para discutirmos esse tipo de assunto. —Respondeu distraído, procurando algo para limpar o bigode de espuma que havia ficado sobre sua boca. James apanhou o braço do sonserino, sem paciência, e esfregou a manga do casaco caro, como se estivesse ensinando etiqueta para uma criança particularmente estúpida.
—Pelo contrário, meu caro! Eu tenho certeza de que ninguém aqui dá a mínima para este assunto. E as chances de um ex-comparsa seu aparecer por aqui é praticamente nula! —James sussurrou a parte final com um dançar de sobrancelhas que deveria selar o entendimento entre os dois, mas só fez Regulus o encarar com um desdém não disfarçado.
—Isso é melhor do que a minha casa?
—Sua casa tem literalmente dezenas de quadros com moral duvidosa, fora o seu elfo doméstico, a quem eu não confiaria um ovo de acromântula para ser chocado, sem ofensa. —James disse displicente, fazendo Regulus tomar outro gole de sua bebida, porque ele havia sim ficado ofendido, mas isso não o levaria a lugar nenhum nessa conversa. —E então? Quais são os avanços?
O sonserino suspirou vencido, mas ainda visivelmente mal-humorado. James sorriu, porque sabia exatamente quando sua insistência finalmente estava começando a gerar frutos.
—Consegui agendar um encontro com o professor Slughorn...
—Horace Slughorn, o nosso professor de Poções? —James perguntou surpreso, porque o senhorzinho não era exatamente a primeira pessoa em quem pensaria para perguntar sobre algo tão sombrio. —Por que ele e não o professor de DCAT? Bem, eu não faço ideia de quem está no cargo agora, mas tenho certeza de que seria mais útil do que o professor de Poções...
—Acontece que este professor de Poções, em particular, não só é o mesmo professor da nossa época, com quem eu tenho uma certa aproximação, como também tem sido o diretor da Sonserina por anos, um colecionador de alunos com potencial e... —Fez uma pausa dramática, sabendo muito bem que Potter já estava devidamente convencido, se sua expressão pateta era algum indicativo, mas ainda não tinha dado o argumento final. —Já era exatamente tudo isso quando Lorde Voldemort era apenas um mero estudante!
Regulus sorriu triunfante para sua conclusão, bebendo um gole de seu chopp, enquanto assistia o cérebro do grifinório assimilar as informações que havia lhe passado. Era um cérebro que funcionava lentamente, na sua humilde opinião, mas pelo menos os olhos castanhos se ascenderam com uma sombra de inteligência por trás dos óculos redondos.
—Não consigo imaginar Voldemort como estudante de Hogwarts. —O maroto sacodiu a cabeça em desgosto, quase como se pensar no velho asqueroso no uniforme de sua amada escola fosse nojento.
Regulus se controlou para não revirar os olhos, porque o lampejo de inteligência nos olhos de Potter tinha sido apenas impressão sua.
—Você está ciente de que até mesmo o Lorde das Trevas teve que tirar seu conhecimento de algum lugar, não é? —Regulus questionou condescendente, mas não esperou por uma resposta. —O Lorde foi um aluno excepcional, ia bem em tudo que se propunha a fazer, então não me surpreenderia que a ideia de fazer uma horcrux tenha surgido ainda nos seus tempos de colégio!
—Cuidado, Regulus! Seu tom soa muito perto da admiração para ser aceitável em ambientes civilizados. —James avisou em um tom sério, o que pegou o outro rapaz desprevenido. —Enfim... Você vai precisar de companhia para encontrar com Slughorn?
—Não a sua, com certeza! —O sonserino falou de imediato, depois tentou suavizar o golpe, porque dessa vez não havia tentado soar rude. —Professor Slughorn é bastante... Escorregadio, quando se trata de assuntos que não são apropriados para os nossos ouvidos inocentes, por assim dizer. Ele até sana nossas dúvidas, porque ele realmente gosta de mentes curiosas, mas você precisa trabalhar lentamente o caminho até o seu coração, precisa convencê-lo de que está tudo bem, antes de dar o bote.
—Bem, você está falando com um especialista em sedução, meu caro! Não tem uma companhia melhor do que a minha para essa missão! —James falou animado, mas deixou o seu sorriso morrer, ao ver a expressão enojada do sonserino. —O quê?
—Eu não estou falando de seduzi-lo sexualmente, Potter!
—Eu também não! De onde você tirou isso? —James perguntou indignado e Regulus preferiu apenas finalizar seu copo, tentando limpar a imagem mental dos dois tentando seduzir Slughorn juntos. —Estava me referindo ao meu charme que, sim, é muito efetivo para conquistar garotas, mas também já me tirou de vários apuros nos meus tempos de Hogwarts!
—Não é charme, se o principal sentimento evocado é irritação, Potter! —Regulus murmurou sem paciência, imitando o sinal para o barman, que o trouxa ao lado de James havia feito para garantir o refil de sua bebida. —Eu vi suas tentativas desesperadas para conquistar sua esposa e honestamente, elas foram patéticas.
—Bem, eu admito que talvez eu tenha me humilhado em alguns momentos, mas ninguém pode dizer que não funcionou! —James respondeu com uma expressão desafiadora, que divertiu o sonserino ao seu lado.
—Vocês acabaram de se divorciar...
—Isso foge completamente do ponto! —James respondeu indignado, finalizando sua bebida em um só gole, antes de continuar. Regulus riu discretamente. —E o ponto aqui é: se eu quiser ser charmoso o suficiente para fazer Slughorn revelar todos os esqueletos do seu armário de poções, você pode apostar esse seu nariz empinado de que eu consigo sim!
—Mas você é um auror.
Regulus falou em um tom gentil, com olhos inocentes, como se não tivesse acabado de jogar na mesa o equivalente a um balde de água das profundezas do Ártico. Os ombros de James abaixaram instantaneamente, porque sabia que não tinha como argumentar contra isso. Slughorn não conversaria espontaneamente sobre esse assunto com um auror logo após o fim da guerra.
—Se eu não fosse um auror, pode apostar que eu teria conseguido... —O grifinório murmurou indignado, sendo sumariamente ignorado por sua dupla.
—Estava pensando em chamar Severus Snape para ir comigo. —Regulus informou displicentemente. O sonserino quase caiu do banco, ao se assustar com a velocidade em que a cabeça de James se virou em sua direção. —O quê??
—Por que, de todas as pessoas entre o céu e a terra, você escolheria logo o Ranhoso para te fazer companhia nessa empreitada? —James perguntou com uma raiva evidente, o que fez com que Regulus tivesse que pensar bem antes de responder. Finalmente o rapaz se lembrou de uma informação importante.
—Ah sim, vocês dois não se dão bem... Mas e daí? Não foi ele quem ajudou Dumbledore com a informação crucial para a batalha final? Pelo menos foi o que Kreacher me contou... —Regulus murmurou para si mesmo, incerto. Porque obviamente havia visto Snape entre os comensais da morte, mas, ao que parece, o prodígio em poções na verdade estava ajudando o velho diretor de Hogwarts todo esse tempo. Ou traiu o Lorde no último minuto, como ele.
Regulus não tinha certeza de nada, honestamente.
—Sim, ele nos ajudou com uma informação importante, o que lhe rendeu seu perdão, o que é mais do que suficiente. Mas isso não quer dizer que ele simplesmente se transformou em um dos mocinhos, da noite para o dia! —James concluiu exasperado.
—Você sabe que se o Lorde tivesse ganhado a guerra, você seria um dos vilões, não sabe? —Regulus perguntou com sarcasmo, mas não permitiu que James lhe brindasse com sua indignação. —Independentemente dos seus sentimentos por Severus, ele é uma excelente opção! Pelo que sei, ele continuou seus estudos em Poções, uma área afim com o professor Slughorn e, assim como eu, deve estar se reconectando com o novo mundo bruxo!
—Você deve se odiar muito, para estar se colocando na mesma categoria de Snape...
—Não somos mais crianças, Potter. Severus é uma desculpa brilhante para a visita! Íamos juntos para as festinhas de Slughorn e o professor pode até resistir a um aluno querido, mas dois? Eu duvido!
Regulus havia concluído a ideia com animação, porque não via falhas no plano. Não pretendia apressar as perguntas ao professor, então podia marcar visitas esporádicas com o outro sonserino, para ganhar a confiança do mestre e garantir o sucesso do plano.
Retomar uma possível amizade com Severus, alguém que fez parte da sua vida passada e ao mesmo tempo precisaria se reinventar como ex-comensal, assim como ele, era apenas um bônus. Suspirou feliz com a perspectiva.
—Por acaso você vai corar e balançar os pezinhos com a chance de um encontro com o Ranhoso? —James questionou, entre o indignado e o enojado. Regulus o olhou surpreso.
—É você quem tem um problema com ele, não eu. — O sonserino respondeu de pronto, então deu um sorriso muito estúpido, na opinião de James. —Na verdade, eu meio que tive uma queda por Severus durante a adolescência. Sabe como é, né? Hormônios...
—Você fala como se sua adolescência não tivesse sido literalmente ontem! —O nojo deu lugar a indignação, porque aquela conversa toda parecia ter saído de um dos seus pesadelos induzidos por muito Whiskey de Fogo misturado com Hidromel. —Regulus, estamos falando do mesmo Severus Snape, narigudo, cabelo oleoso e corcunda de que me lembro?
—Ele não é corcunda! Já tive o prazer de vê-lo sem roupa e ele não é corcunda, só tem má postura, mas isso é fácil de resolver. —Finalizou a resposta com um piscar de olhos atrevido. Normalmente não falaria assim de Severus, mas era muito divertido ver a expressão embasbacada de Potter. Regulus pediu mais um chopp para comemorar sua descoberta do ponto fraco do grifinório.
Irritá-lo poderia se tornar uma espécie de hobby.
—Merlin, que cena horripilante eu acabei de imaginar... —James estava bem certo de que o trauma de imaginar Severus Snape sem roupa iria assombrá-lo pelo resto da vida. E ele havia sobrevivido à GUERRA!
—Estou brincando, nunca o vi sem roupa. E se tivesse visto, não estaria compartilhando com você, de todas as pessoas. —Regulus tomou mais um gole de seu chopp, depois olhou o grifinório de cima a baixo, avaliando. —Você não entenderia...
—O que isso quer dizer? —James respondeu mais confuso do que irritado, mesmo estando claro que ele não estava entendendo nada mesmo. — Que eu não sou capaz de entender sua atração absurda por Snape?
—Você é capaz?
—Não! Mas não gostei do seu tom, parece que você está implicando que é uma falha minha, quando, na verdade, ninguém entenderia, porque ninguém nunca sentiu atração por aquela criatura asquerosa! —James terminou o seu pequeno discurso inflamado, finalmente parando para respirar. Regulus o encarou com uma expressão de quem estava se divertindo mais do que devia, na opinião do maroto.
—Qual é mesmo o motivo desse seu ódio todo por Severus? —O sonserino perguntou, como se apenas precisasse refrescar a memória, mas James não estava disposto a morder a isca. Ele já tinha percebido como o rapaz adorava manipular a conversa com uma inocência fingida.
—Não é um único motivo, são vários! Nós nunca nos gostamos, acho que desde o primeiro dia de aula e sim, sempre foi divertido aprontar com ele, porque ele era esquisito, mas estava na cara que ele não era boa gente e, no fim das contas, eu estava certo!
Regulus neste momento estava grato por todos os seus anos reprimindo seus sentimentos e, mais importante para ocasião, suas palavras. Porque poderia ter falado muitas verdades à James Potter, algumas que provavelmente custaria qualquer parceria com o grifinório, mas preferiu se conter.
Porque a conversa deixou de ser engraçada para ele.
Poderia ter informado à Potter, que a maioria das coisas que ele achava tão nojentas em Severus Snape estavam diretamente relacionadas a sua pobreza e a bagunça que era sua família trouxa, coisas que tão pouco passavam despercebidas aos olhos dos sonserinos.
Podia apontar como sempre tinha considerado uma covardia nada nobre ou corajosa o fato de que eram quatro bruxos contra um, em qualquer embate entre Potter e Severus, o que acertaria precisamente o ego gigantesco do grifinório.
Podia simplesmente tocar no assunto da hipocrisia dele, Potter, estar aqui, mais do que disposto a dar uma segunda chance ao irmão de seu melhor amigo, que havia cometido os mesmos erros, talvez até piores, do que os de Severus, mas sem a desculpa de não ter tido um bom exemplo em quem se inspirar.
Regulus sabia bem que podia ter escolhido o outro lado da guerra e ter sido acolhido pelo seu irmão mais velho ou por sua prima rebelde, casada com um trouxa, ou por sua tia solteirona, que morava sabe-se lá Merlin onde... Até onde o bruxo tinha conhecimento, Severus Snape sempre esteve sozinho no mundo e, por algum motivo misterioso, Potter era incapaz de lhe conceder o mínimo de simpatia.
Porém, porque Regulus era um Black, que desde cedo havia aprendido a se controlar, principalmente em momentos de raiva, apenas sorriu, sem humor, após deixar o silêncio se prolongar por tempo demais entre os dois.
—Eu acho que você também tem uma queda por ele. Não o culpo, nós sonserinos somos mesmo irresistíveis. —Regulus sorriu triunfante, porque, com certeza, não era essa a linha de acusação que Potter esperava. Especialmente porque ele parecia ter percebido o quanto seu discurso havia sido pouco apreciado.
—Você é realmente... —James soltou um riso seco, um pouco chocado, porque não tinha nem palavras para começar a responder a esse insulto a sua dignidade! A única coisa que sonserinos conseguiam atrair dele era azarações e maldições! — Olha, você tem sorte de ser irmão de Sirius, porque se não fosse...
—Se não o quê? Você está sozinho hoje, Potter, não acho que daria conta de mim, assim como não daria conta de Severus... —Regulus insinuou com um sorrisinho sarcástico, mas com um toque malicioso, que não se parecia em nada com qualquer expressão que Sirius já tinha usado em sua presença.
James encarou o bruxo a sua frente, porque não tinha certeza se ele estava insinuando que ele era incapaz de lidar com ele em um duelo ou no sex... De qualquer forma era insultante, então apenas terminou seu chopp, levantou-se, indignado, enquanto tirava algumas notas de dinheiro trouxa do bolso e jogava sobre o balcão.
—Bem, Black, acho que já chega de bebida por hoje. Sirius não me perdoaria se eu fizesse você pagar por sua língua solta, da maneira que eu gostaria e que você merece! —James começou tentando forçar uma voz bem-humorada, porque realmente não queria brigar com o irmãozinho bêbado de seu melhor amigo.
—Pode ir, se já deu sua hora de dormir e se não aguenta mais bebida. Eu vou ficar. —Regulus avisou tranquilo, enquanto fazia sinal para o barman mandar outro chopp em sua direção. James não o respondeu, ao invés disso respirou fundo, interceptando a bebida no balcão, antes que chegasse na mão do mais jovem. —Hey!
—Nós estamos indo. —James informou com uma atitude fria, fazendo Regulus desistir da ideia de pegar a bebida passando por ele. O auror se virou para o barman para empurrar o copo de volta e falar diretamente com o homem. —Ele não tem dinheiro para pagar.
Regulus fingiu que James não estava mais ali, se inclinou por cima do balcão, para flertar diretamente com o barman, que parecia estar bastante interessado no desfecho daquela conversa.
—Acho que essa bebida pode ser por conta da casa, não é mesmo? — O sonserino perguntou, sorrindo inocentemente, fazendo o barman trouxa retribuir o sorriso.
James teria achado engraçado ver o sonserino mimado se mostrando bastante atrevido em troca de um copo de cerveja barata, mas aquele era o sonserino mimado que estava sob sua responsabilidade, então não tinha graça nenhuma.
Sirius nunca o perdoaria se ele deixasse um trouxa qualquer molestar seu irmãozinho ressurgido das cinzas!
— Ele não tem documentação. —James falou triunfante, fazendo o trouxa parar o movimento desafiador de entregar o chopp na mão do jovem a sua frente. — E o irmão dele é policial.
Nenhum dos dois precisou dizer mais nada, pois até mesmo os clientes que estavam ouvindo a conversa, achando graça, começaram a reclamar e pedir aos dois para caírem fora do bar.
Sim, já estavam em pleno anos 80 e ninguém ficava mais cuidado da vida de ninguém, mas a lei era a lei e policiais não costumavam pegar leve com quem mexia com seus familiares. Regulus saiu do bar praticamente escoltado pelos demais fregueses, enquanto James acenava amistosamente para o barman, que o encarava irritado.
Havia perdido um pub perfeitamente aceitável, com chopp barato, porém havia valido a pena. James sorriu satisfeito para si mesmo. Regulus apertou mais seu casaco ao redor de si, se abraçando por completo, porque uma noite de final de outono era fria o suficiente para incomodar.
E porque precisava manter as mãos ocupadas, para não acertar uma azaração na testa de Potter.
—Esse foi um golpe bem sujo. —O sonserino declarou, sem olhar para trás, enquanto avançava em direção a sua casa.
—Eu fiz o que foi preciso e você vai me agradecer amanhã, quando estiver sóbrio. —James se esforçou um pouco, mas não demorou para alcançar o passo vigoroso que o outro bruxo imprimia.
—Pelo amor de Morgana, Potter, quem fica bêbado com três copos de cerveja? —Regulus perguntou verdadeiramente ultrajado, porque o auror realmente achava que ele era uma criança!
—Muita gente fica. Seu irmão, por exemplo! —James informou divertido, mas depois ficou sério, ao ver que o outro rapaz ainda estava irritado. —Se você não está bêbado, é ainda mais triste que tenha se oferecido para um cara por tão pouco...
—Eu ia usar um obliviate nele e dar à noite por encerrada, gênio! —Regulus o informou com um tom impaciente, o que fez o grifinório ajeitar os óculos, desconcertado. —Você só usa essa cabeça para criar cabelo bagunçado, Potter?
—Sinto muito por ter realmente me preocupado que você estava bêbado e seria molestado por um trouxa qualquer, burrice a minha, não vai acontecer novamente! —James declarou irritado, em um fôlego só, fazendo um gesto dramático com as mãos.
—Já te disse um milhão de vezes que não sou criança... —Regulus resmungou uma última vez, antes de deixar o silêncio da noite de Islington preencher o vazio entre os dois. Caminharam por mais alguns metros lado a lado, antes do sonserino falar novamente. —E não precisa me acompanhar até em casa, eu sou um bruxo tão capaz quanto você.
—Eu já entendi, Black, mas eu sou um auror treinado e me sinto na obrigação de acompanhá-lo, você pode aceitar a gentileza sem fazer drama, por favor? —Disse com um falso bom humor, que apenas fez Regulus revirar os olhos.
—Ou eu posso apenas fazer isso. —Antes que James se desse conta, o outro bruxo já tinha aparatado.
O auror olhou ao redor, contendo o pânico, porque teria que apagar memórias ou preencher uma papelada absurda, caso algum trouxa tivesse visto algo. Era um bairro residencial tranquilo, mas ainda assim era arriscado aparatar dessa forma.
—Maldito, filho d-
—Ah, eu esqueci uma coisa. —Regulus desaparatou bem na frente de James, o assustando, mas dessa vez estava um passo à frente de onde tinha desaparecido antes. —Isso aqui é para você conhecer tudo que perdeu todos esses anos.
Regulus segurou firme o rosto do grifinório, lhe dando um beijo que já havia iniciado profundo. Antes que James pudesse reagir, sentiu a boca macia, com um gosto amargo de chopp e algo mais, desaparecer completamente, o fazendo dar um passo incerto na calçada vazia.
Cobriu os lábios com a mão, meio chocado, então esfregou o rosto, sentindo sua barba do final do dia arranhar, como se o primeiro gesto não tivesse sido o suficiente para lhe fazer acreditar no que tinha acabado de acontecer.
—Sirius, eu vou matar o seu irmão caçula!
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