Apenas mas uma de amor

69 Renesmee- Cativeiro



As luzes da cidade cintilavam enquanto eu dirigia pelas ruas úmidas de Seattle. O céu estava nublado, e o som da chuva fina batendo no para-brisa parecia sincronizado com a batida acelerada do meu coração. O caminho para o Pike Place Market parecia interminável, mesmo com o trânsito fluindo.

Olhei para Renata ao meu lado, sentada com as mãos cruzadas sobre o colo, o olhar fixo na estrada à frente. O silêncio entre nós era pesado, mas eu precisava quebrá-lo.

– Como você sabia que eu estava saindo? – perguntei, sem desviar os olhos da estrada.

Ela suspirou antes de responder. – Eu te conheço, Nessie. Depois que você saiu do banheiro, parecia diferente. Quieta demais, nervosa. Quando vi você pegando as chaves, soube que algo estava errado.

– Você devia ter ficado em casa – retruquei, tentando esconder o nervosismo.

– Se você está indo salvar as crianças, eu também tenho que ir. Ryan está lá, Renesmee. Ele é meu filho – disse ela, a voz embargada.

Engoli em seco, sem saber como responder. A verdade era que eu entendia o que ela sentia. Eu teria feito qualquer coisa pelas minhas meninas, e ela estava fazendo o mesmo por Ryan.

Renata olhou para mim, hesitando antes de continuar. – Eu... preciso dizer uma coisa. Sobre mim e Jacob... nada aconteceu entre nós. Ele sempre foi fiel a você, Nessie. Foi um erro meu me aproximar, mas eu juro que não passou disso.

Minha garganta apertou, mas eu sabia que agora não era o momento para mágoas ou ressentimentos. Suspirei profundamente. – O mais importante agora é salvar as crianças.

Ela assentiu, os olhos marejados. – Obrigada.

O som do celular interrompeu o silêncio que se instalara novamente. Olhei para o visor e vi o nome de Jacob. Meu coração acelerou, mas ignorei a ligação, colocando o celular de volta no console. Eu não podia lidar com ele agora.

– Você vai ter que me prometer que vai seguir o plano, Renata – falei, tentando manter a voz firme.

– Eu só quero que as crianças saiam ilesas disso, Nessie – respondeu ela.

Assenti, focando novamente na estrada enquanto me aproximava do Pike Place Market. Estava escuro, e as luzes dos postes refletiam nos paralelepípedos molhados. Eu sabia que estava prestes a encarar o pior tipo de pesadelo, mas precisava acreditar que, de alguma forma, conseguiríamos superar isso.


Desliguei os faróis ao estacionar em uma das ruas escuras próximas ao Pike Place Market. O silêncio da noite era quebrado apenas pelo som ocasional de pneus deslizando na estrada molhada. Olhei para Renata, cuja expressão estava tensa.

– Renata, preciso que você se esconda no banco de trás. Tom não pode saber que você está aqui. Se ele perceber algo, pode colocar as crianças em risco.

Ela hesitou por um momento, mas assentiu. – Certo. Eu confio em você.

Renata se moveu rapidamente para o banco de trás, abaixando-se e cobrindo-se com uma jaqueta que estava ali.

Respirei fundo antes de sair do carro. O ar frio da noite fez meus músculos ficarem ainda mais tensos. Caminhei pela escuridão até o ponto de encontro, sentindo o pânico crescer dentro de mim a cada passo. Não demorou muito para que eu visse Tom emergindo das sombras, com seu sorriso frio e olhar calculista.

Meu corpo congelou ao vê-lo. Era como se todos os horrores do passado tivessem voltado de uma só vez. Meu coração batia tão rápido que parecia que ia sair do peito.

– Você está diferente desde o tempo da escola – ele disse, olhando para mim com aquele sorriso de quem sabe que está no controle. – Mas continua... interessante.

A náusea subiu pela minha garganta, mas eu a engoli. – Onde estão as crianças, Tom?

Ele deu de ombros, como se estivesse negociando algo trivial. – Tudo a seu tempo, ruivinha. Primeiro, vou precisar do seu celular.

Relutante, entreguei o aparelho. Ele o pegou, inspecionando-o antes de guardá-lo no bolso.

– Agora, me siga – ele disse, virando-se e começando a caminhar.

O medo tomava conta de mim, mas eu não tinha escolha. Entrei no galpão velho e escuro, sentindo o cheiro de ferrugem e óleo. Tom gesticulou para que eu esperasse perto de uma pilha de caixas.

Minutos que pareceram horas se passaram antes de uma pequena figura aparecer na porta do galpão. Aurora entrou, segurando a mão de Ryan, que, por sua vez, segurava a mãozinha de Hope. Ao me ver, Hope soltou a mão dos irmãos e correu na minha direção, chorando.

– Mamãe! – ela gritou, a voz embargada de medo e alívio.

Eu me ajoelhei e a abracei forte, sentindo seu corpo pequeno tremer contra o meu. Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu segurava minha filha.

– Está tudo bem, meu amor. A mamãe está aqui – sussurrei, tentando convencê-la, mesmo que meu coração estivesse em pedaços.

Olhei para Aurora e Ryan, que permaneciam imóveis, com os olhos cheios de medo e cansaço. Precisava tirá-los dali, mas sabia que Tom tinha outros planos.

Ryan e Aurora vieram em minha direção lentamente, os olhos cheios de medo e lágrimas. Quando finalmente chegaram perto, os abracei com força, sentindo o peso do alívio e do desespero se misturarem.

– Está tudo bem agora – sussurrei. – Eu estou aqui. Vocês estão seguros.

Aurora segurou minha mão com força, enquanto Ryan tremia no meu abraço. Hope soluçava em meu colo, e eu lutava para manter a calma.

– Tom, por favor – implorei, levantando o olhar para ele. – Eles são só crianças. Deixe-os ir.

Ele deu um sorriso enviesado, balançando a cabeça como se eu tivesse feito uma piada.

– Você sabe que não funciona assim, ruivinha. Nós fazemos uma troca. Eu os deixo em um lugar seguro e, depois, você e eu vamos embora juntos. Vamos recomeçar, como deveria ter sido desde o início.

Aurora começou a chorar de novo, agarrando minha roupa. – Eu não vou sem você, mamãe!

Apertei seus ombros, tentando acalmá-la. – Está tudo bem, meu amor. Você vai ficar bem. Eu prometo.

Olhei ao redor, tentando analisar o ambiente. O lugar estava abarrotado de caixas com rótulos indicando produtos inflamáveis. O cheiro químico no ar era forte e enjoativo. Meu coração começou a bater ainda mais rápido. Precisava de um plano, mas tudo parecia um labirinto sem saída.

Tom gesticulou impacientemente. – Vamos lá, crianças. Venham comigo. Não quero machucá-los, mas não me testem.

Aurora se agarrou a mim com mais força. – Não, eu não vou! Eu quero ficar com a mamãe!

– Aurora – murmurei, acariciando seus cabelos. – Vai ficar tudo bem, eu prometo.

Tom deu um passo em direção às crianças, sua expressão endurecendo. Mas, antes que ele pudesse fazer mais qualquer coisa, uma voz firme cortou o silêncio.

– Chega, Tom.

Olhei para trás e vi Renata emergindo das sombras, uma arma apontada diretamente para ele. Sua expressão era de pura determinação.

Tom congelou, levantando as mãos lentamente, como se estivesse lidando com um animal selvagem prestes a atacar.

– Renata – ele disse com um tom de zombaria. – O que você acha que vai fazer com isso?

– Eu acho que vou proteger meu filho e os filhos dela – Renata respondeu, a voz firme, mas baixa o suficiente para não assustar as crianças. – Solte-as agora ou eu juro que não hesitarei.

O ambiente ficou tenso, cada segundo parecendo uma eternidade. As crianças ficaram em silêncio absoluto, enquanto eu olhava de Renata para Tom, meu coração na garganta.

Tom deu um sorriso frio, mas algo em seu olhar mudou. Ele sabia que havia perdido o controle da situação.

Tom ergueu as mãos lentamente, um sorriso frio e calculista surgindo em seus lábios.

– Está bem, Renata. Não precisamos levar isso mais longe. Abaixe a arma.

Renata manteve a postura firme, o dedo no gatilho sem vacilar.

– Nem pense nisso, Tom. Você perdeu. Nessie, traga as crianças para cá.

Segurei Hope mais forte no colo enquanto ela enterrava o rosto no meu pescoço, soluçando baixinho. Aurora segurou minha mão com força, e Ryan, trêmulo, deu pequenos passos ao meu lado.

– Está tudo bem, meu amor – murmurei, tentando acalmá-lo.

Ryan olhou para mim com os olhos marejados, a confusão e o medo estampados em seu rosto. Cada passo parecia um esforço monumental, mas, lentamente, nos aproximamos de Renata.

Quando chegamos, ela abaixou um pouco a arma com a mão livre, abraçando Ryan rapidamente para acalmá-lo.

– Shh, está tudo bem, meu filho. A mamãe está aqui – ela disse, a voz firme, mas cheia de ternura.

Tom nos observava com olhos ferozes, sua calma falsa começando a se dissolver. Ele deu um passo para trás, olhando para a entrada do galpão como se estivesse calculando suas opções.

– Isso não vai acabar bem para você – ele rosnou. – Não importa o que pense, Renata.

– A polícia está a caminho, Tom – ela respondeu, firme. – É melhor você desistir agora.

Essas palavras o atingiram como um golpe. Seu rosto se transformou, o desespero evidente em seus olhos.

– Eu não vou voltar para aquela maldita prisão! – ele gritou, e, em um movimento rápido, puxou uma arma de sua cintura e a apontou diretamente para Ryan.

Tudo ao meu redor pareceu congelar.

– Não! – gritei, a voz carregada de pânico. – Por favor, Tom, não machuque ele!

Renata ergueu a arma novamente, seus olhos fixos nele.

– Abaixe isso, Tom! Agora!

Tom começou a respirar pesadamente, os olhos oscilando entre mim, as crianças e Renata. A tensão no galpão era insuportável, e eu sabia que qualquer movimento errado poderia ser catastrófico.

– Você não entende! Eu não tenho escolha! – ele gritou, apertando ainda mais a arma na direção de Ryan.

Eu olhei para Ryan, tentando esconder meu próprio terror.

– Tom, por favor. Ele é só uma criança. Se você ainda tem um pouco de humanidade, deixe-o ir. Por favor.

Renata ajustou sua posição, os olhos ainda fixos em Tom.

– Eu não vou pedir de novo, Tom. Abaixe essa arma ou eu juro que você não vai sair daqui de pé.

O tempo parecia parar enquanto esperávamos sua próxima reação, cada segundo mais tenso que o anterior.