Apenas mas uma de amor

35 2° fase- Renesmee- Dilemas


Já se passaram dez anos desde que deixei Seattle e a vida que tinha com Jacob. Eu não era mais aquela jovem de 17 anos, com um futuro cheio de incertezas. Hoje, sou médica pediatra, formada e realizada na minha carreira. Trabalho no hospital do meu avô Carlisle, aqui em Amsterdã, e não poderia estar mais grata por tudo o que vivi até agora. A cidade, com seus canais e ruas movimentadas, sempre me trouxe paz, embora houvesse dias em que a saudade de Seattle, de Jacob, fosse mais forte.

Estava caminhando pelos corredores do hospital, cumprimentando os colegas, quando ouvi o chamado pelo rádio. O som da voz do locutor interrompeu meus pensamentos.

— "Doutora Cullen, por favor, na emergência. Doutora Cullen, por favor."

Fui rapidamente em direção à emergência, meu coração ainda batendo mais rápido ao ver a agitação constante daquele lugar. Quando entrei na sala, encontrei o doutor Van Der Merwe, um dos médicos que mais respeitava, com um olhar preocupado, olhando para uma criança que parecia estar em agonia.

— "Ah, doutora Cullen, ainda bem que chegou. Esse menino caiu de uma árvore, está com o braço direito machucado e se queixando de dor no ombro também." — Disse o doutor Van Der Merwe, se afastando para me deixar fazer meu trabalho.

O garoto estava visivelmente nervoso, os olhos arregalados com medo da dor e do que estava por vir. Eu me aproximei com calma, tentando passar tranquilidade.

— "Oi, campeão, tudo bem?" — Perguntei com um sorriso suave, me abaixando até sua altura. — "Eu sou a doutora Cullen, e você vai ficar bem. Você pode me dizer como aconteceu?"

O garoto, ainda com os olhos cheios de medo, me contou que estava subindo na árvore do jardim de sua casa quando perdeu o equilíbrio e caiu.

— "Está doendo muito, doutora." — Ele disse, apertando os olhos, com uma careta.

Eu assenti, colocando a mão em seu ombro com cuidado.

— "Eu sei que está doendo, querido. Vamos cuidar disso, ok? Eu vou ajudar você a ficar confortável, e logo vai parar de doer tanto."

Fui rápida no exame do braço e ombro do menino, constatando que não havia fraturas graves, mas uma luxação no ombro que precisaria de cuidados imediatos. A dor era intensa, mas controlável. Quando terminei de atendê-lo, o garoto estava mais calmo, aliviado pela explicação e pelo atendimento que recebi de forma tranquila.

Fui até a mãe dele, que estava visivelmente nervosa, aguardando ansiosamente na porta da sala.

— "Oi, senhora. Seu filho está bem. Ele teve uma luxação no ombro, mas nada grave. Vamos precisar imobilizar o braço e prescrever algumas medicações para a dor, mas em algumas semanas ele já estará se sentindo melhor."

A mãe respirou aliviada, mas ainda parecia apreensiva.

— "Ele é muito agitado. Sempre se mete em confusão, não sei mais o que fazer." — Ela comentou, olhando para o filho, que agora estava mais tranquilo com o braço enfaixado.

Eu sorri, me lembrando de Aurora, que, embora fosse calma na maioria das vezes, também era cheia de energia e adorava correr, se meter em encrenca.

— "Eu entendo bem como é ter uma criança agitada." — Respondi, com um sorriso genuíno. — "Minha filha, Aurora, também era assim quando mais nova. Eles têm muita energia, e às vezes é difícil lidar com isso, mas tudo se resolve com o tempo. Só precisamos ser pacientes e dar muito amor e cuidado."

A mãe sorriu, parecendo mais aliviada com as minhas palavras.

— "Obrigada, doutora. Eu me sinto mais tranquila agora."

Eu dei um último olhar para o menino, que estava segurando seu braço machucado, e me despedi deles. Antes de sair da sala, olhei para o doutor Van Der Merwe, que me deu um aceno de aprovação.


Era bom estar ali, no meu lugar, fazendo o que amava, ajudando os outros. Isso me dava uma sensação de propósito, de que tudo o que passei ao longo dos anos me levou até esse ponto, e que eu estava cumprindo minha missão de alguma forma. Mas, no fundo, um pedacinho do meu coração ainda estava com Aurora, e sempre estaria.

Chegar em casa sempre foi o meu momento favorito do dia. Após um longo turno no hospital, não havia nada melhor do que entrar na minha casa e ser recebida pelo sorriso e pelas risadas de Aurora. Eu adorava quando ela estava em casa, em paz, aproveitando os momentos que tinha para se divertir.


Ao abrir a porta, fui imediatamente recebida por um barulho animado vindo da sala. Ao dar o primeiro passo, vi Aurora gargalhando alto diante da grande tela, claramente se divertindo com Emmett. Eles discutiam sobre o jogo de futebol que estava passando. Aurora estava usando um boné para trás e uma camisa do New York Yankees, o que me fez sorrir, lembrando de como ela sempre adorava vestir roupas de times esportivos, mesmo que fosse para assistir a um simples jogo com Emmett.

— "Cheguei!" — Eu disse, entrando na sala com uma expressão divertida, mas ainda um pouco cansada.

Aurora ouviu minha voz e, em um piscar de olhos, correu em minha direção. Com um sorriso enorme no rosto, ela pulou nos meus braços, e eu a segurei firmemente, sentindo o calor dela contra mim.

— "Uau, você comeu chumbo hoje? Está pesada para uma bebê!" — Eu disse, brincando, enquanto a ergui com dificuldade.

Ela riu com gosto, já tão grande e cheia de energia.

— "Não sou bebê, mãe! Tenho 9 anos!" — Aurora respondeu, rindo e batendo nas minhas costas como se quisesse me fazer cair de tanto peso. Ela adorava corrigir minha forma de chamá-la, e sempre se orgulhava de sua "grande idade", como ela costumava dizer.

— "Ah, claro, você tem 9 anos, agora é quase uma adulta, né?" — Eu disse, sorrindo e a apertando contra o meu peito. A sensação de tê-la em meus braços, apesar de já não ser tão leve quanto antes, me fazia sentir uma paz inexplicável.

Emmett, que estava sentado no sofá assistindo ao jogo, olhou para nós e sorriu.

— "Ela já não é mais um bebê, você ouviu? Está oficialmente em outra fase!" — Ele brincou, dando uma piscadela para Aurora.

Ela fez uma careta e revirou os olhos.

— "Você não entende, Emmett, mãe me chama de bebê o tempo todo. Mas já sou grande!" — Ela disse, puxando a camisa de Emmett com um ar de desdém divertido, como se ele fosse o mais velho ali.

Eu ri da conversa, apertando Aurora um pouco mais contra mim antes de colocá-la de volta no chão.

— "Desculpe, mocinha, mas você sempre será minha bebê." — Falei com um sorriso, embora soubesse que ela estava crescendo rapidamente. Aurora estava cada vez mais independente, mas eu adorava esses momentos, onde ainda podíamos ser mãe e filha, com ela se entregando aos meus braços.

Aurora me deu um olhar desafiador, mas logo um sorriso tímido surgiu em seu rosto.

— "Só porque você diz!" — Ela brincou e, com um rápido movimento, correu para se sentar ao lado de Emmett, como se já estivesse retornando ao seu próprio mundo de criança.

Eu a observei com carinho, vendo o vínculo de ambos com Emmett crescer a cada dia. Mesmo que ela estivesse crescendo e se tornando uma menina cheia de personalidade, sempre teria um lugar especial no meu coração, um lugar reservado apenas para ela.

Eu estava ainda envolta em vapor quente do banho, ouvindo os risos e gritos de Aurora e Emmett vindos da sala. Eles estavam no meio de outra de suas discussões animadas sobre o último jogo de futebol, e eu não podia deixar de sorrir ao ouvir a alegria em suas vozes. Aurora, com sua energia e seu espírito indomável, sempre tinha o poder de trazer vida ao ambiente, fosse com uma piada ou com sua risada estrondosa.

Eu saí do banheiro, ainda com o roupão macio e o cabelo molhado escorrendo pelas minhas costas, e foi então que vi a luz do meu celular piscando. Um novo aviso de mensagem.

Com curiosidade, peguei o telefone e vi o nome na tela: Daniel Marshall. O nome me causou uma leve pressão no peito. Ele era de Nova Jersey e havia me conhecido durante uma conferência médica há alguns anos. Conversamos algumas vezes depois disso, e ele acabou decidindo ficar em Amsterdã para se dedicar à pesquisa. Ele sempre foi gentil, atencioso, mas eu nunca consegui enxergar mais do que uma amizade.

A mensagem dizia:

"Oi, Nessie, como você está? Gostaria de sair para jantar esta noite? Gostaria de te ver e conversar, como em nossos velhos tempos."

Eu respirei fundo e olhei para a tela, sabendo que Daniel nutria sentimentos por mim. Ele sempre se mostrou interessado, e eu sentia uma certa conexão, mas nunca pensei na possibilidade de um romance. Meu coração, embora tentasse se libertar, sempre tinha pertencido a alguém, a Jacob, e talvez ele já tivesse seguido em frente, vivendo sua vida em Seattle com sua própria família. Eu nunca procurei saber, sempre evitando qualquer notícia sobre ele, pois sabia que isso só traria mais dor ao meu coração.

Eu suspirei profundamente, como se tentando aliviar o peso que carregava. Não fazia sentido buscar qualquer notícia sobre ele, já que meu amor por Jacob sempre seria uma parte de mim, e ver sua vida seguir sem mim era um fardo que eu não estava pronta para carregar.

Com o celular ainda em minhas mãos, dei uma olhada rápida na foto de Aurora na tela bloqueada, a imagem de minha filha sorrindo, com seus olhos brilhantes e cheios de vida. Ela era minha prioridade, sempre. Eu havia feito de tudo para ser a melhor mãe possível para ela, e o amor que sentia por Aurora superava qualquer outro sentimento. Para ela, eu ainda tinha um coração inteiro. Para Jacob... bem, talvez eu tivesse me permitido deixar meu coração perdido em Seattle, onde tudo começou.

Eu ainda estava pensando em como responder a mensagem de Daniel, quando de repente, ouvi Aurora chamar da sala.

— "Mãe! Olha o que eu encontrei!" — Ela gritou, sua voz cheia de entusiasmo. Eu sabia que ela provavelmente estava empolgada com alguma descoberta, talvez algo sobre o jogo que Emmett estava assistindo ou algo mais que havia despertado sua curiosidade.

Com um suspiro, eu guardei o celular, esquecendo momentaneamente a mensagem. A verdadeira razão de eu ter ficado em Amsterdã, de ter encontrado um novo caminho para minha vida, estava na risada e nos momentos com Aurora. Eu tinha o suficiente com ela.

E quanto a Daniel, bem... isso poderia esperar.


Após o jantar, com Aurora já tomando um banho rápido, eu a coloquei na cama, como sempre fazia todas as noites. Ela estava cansada, mas ainda com um brilho de curiosidade nos olhos, como se um questionamento rondasse sua mente. Fazia algum tempo que essa conversa se repetia, e eu sabia que ela não descansaria até que tivesse uma resposta, mesmo que eu tentasse adiar.

Ela se acomodou sob as cobertas, olhando para mim com aqueles olhos grandes e esperançosos. Aurora estava prestes a fazer a pergunta que vinha se acumulando nela há algum tempo.

— Mãe... quando eu vou conhecer meu pai? — Sua voz era suave, mas havia uma urgência ali, uma necessidade de resposta.

Eu hesitei por um momento, tentando encontrar as palavras certas. Sabia que o momento de enfrentar o passado estava se aproximando, mas eu ainda não estava pronta.

— Aurora... — Comecei, me sentando na beirada da cama e acariciando seus cabelos. — Você vai conhecê-lo... quando for o momento certo.

Aurora franziu a testa, ainda não convencida.

— Eu ouvi o vovô dizer que ele está em Seattle... você não quer que eu conheça ele? Ele nao gosta de mim?— Ela olhou para mim, seus olhos inocentes refletindo uma dúvida que eu sabia que carregava há algum tempo. A pergunta me atingiu como uma flecha, e eu senti uma pressão no peito.

Eu respirei fundo, tentando controlar a voz que tremia de culpa. Como explicar a ela que, por tanto tempo, eu havia evitado essa verdade?

— Não, Aurora, ele gosta de você, sim... muito. Quando você o conhecer, vai ver o quanto ele vai te amar. — Eu disse, tentando dar alguma segurança a ela, mas não pude deixar de sentir uma pontada de tristeza. Eu queria poder dar-lhe todas as respostas, mas o tempo não estava ao meu lado.

Ela ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos no teto. A minha filha sempre foi muito perceptiva, sabia exatamente o que queria, e quando não obtinha a resposta que esperava, a frustração era evidente.

— Então... quando eu vou conhecê-lo? — Ela perguntou novamente, a voz agora mais suave, mas com um tom de desespero disfarçado.

Eu fechei os olhos por um momento, sentindo a culpa se espalhar por todo o meu corpo. Eu sabia que estava empurrando essa conversa para frente, que deveria ter enfrentado esse momento muito antes, mas não podia deixar de temer o que viria.

— Nas férias, Aurora... quando chegarem as férias, nós vamos para Seattle. Eu prometo que você vai conhecê-lo, ok? — Minha voz soou mais firme do que eu me sentia, mas eu precisava dar alguma esperança à minha filha.

Aurora ficou quieta por um momento, mas pude ver a expressão em seu rosto mudar. Ela virou-se de costas para mim, sua pequena figura agora em uma posição defensiva.

— Você sempre tem uma desculpa, mãe. — Sua voz estava baixa, mas a tristeza que transmitia era impossível de ignorar. Ela se virou para o outro lado, claramente aborrecida.

Eu fiquei em silêncio por um momento, acariciando seus cabelos como se isso pudesse aliviar a tensão entre nós. Ela estava começando a crescer, e eu sabia que não poderia mais proteger a dor dela com desculpas. O tempo de confrontar o passado estava chegando, e eu teria que encarar Jacob, enfrentar o que tínhamos deixado para trás.

A culpa apertou mais forte, mas eu não sabia como lidar com isso ainda. Só sabia que, para Aurora, eu teria que encontrar a coragem. Eu a amava mais do que qualquer coisa neste mundo, e, por ela, eu enfrentaria qualquer coisa — até mesmo meu próprio medo.

— Eu sei, filha... Eu sei... — Sussurrei, enquanto ela se aconchegava um pouco mais sob as cobertas, buscando o consolo do sono.

Fiquei ali por um momento, acariciando seu cabelo, observando-a adormecer. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que dar a ela o que ela tanto queria — um pai, e talvez a chance de reescrever uma história que ainda não tinha sido concluída.