A vida voltou ao normal em um frágil equilíbrio. Lia retornou à escola cada vez e mais dependente de Gabriel, um quase parasitismo doentio, praticamente nunca se afastando dele, que procurava ser compreensivo e tolerante com suas constantes exigências de atenção, mas por causa dos pedidos de Nina.

— Gabriel, eu não sei o que seria da minha vida sem você e Nina – Lia repetia, continuamente. – Vocês são a minha verdadeira família. Os únicos que, realmente, se importam comigo.

— Pare com isso, Lia – Gabriel retrucava. – Tem muita gente que se importa com você.

A vida ficou mais complicada, quando a viagem de férias acabou e os seus pais e João regressaram para casa. Então, uma falsa rotina foi retomada, a partir daí, Nina e Gabriel precisavam de muitos artifícios e subterfúgios para manter sua relação escondida. Encontros furtivos na calada da noite, na casa, às escuras, beijos roubados, carícias disfarçadas, quando a vontade de se tocar tornava-se urgente.

— Não podemos continuar assim – Gabriel reclamava, sem disfarçar sua irritação, quando aproveitavam a madrugada para se encontrarem às escondidas, e ele fugia para o quarto dela, para ficar juntos, trocando beijos e carícias e conversando em voz baixa para não serem ouvido. – Parecemos dois criminosos e não estamos fazendo nada de errado.

— Eu sei disso – Nina argumentava, acariciando o rosto dele, pois tinha o mesmo sentimento desejando mostrar a todos como se amavam bem a luz do dia, sem restrições. – Precisamos dar só mais um tempo, agora que Lia começou a melhorar, não dá para você terminar com ela assim, porque ela pode desabar de novo.

— Isso precisa de um limite, Nina. Sei que Lia é sua amiga e, também, eu gosto muito dela, mas, por quanto tempo, teremos que ficar assim, se escondendo?

— Por favor, Gabriel, só mais um pouco. Ela já está melhor – Nina suplicava.

— Não, não está, Nina! Ela fica no meu pé o tempo todo, eu não sei mais o que fazer.

— Tenha um pouco mais de paciência, Gabriel. A gente vai resolver isso – Ele revirava os olhos, inconformado, mas cedia ao pedido dela.

Sem a mínima ideia de quanto tempo levaria para Lia superar a perda da mãe, pois cada dia que passava ela ficava mais e mais dependente de Gabriel, se prendia a ele como um naufrago em uma boia salva-vidas. Estavam sempre juntos e quando isso não acontecia, ela telefonava, várias vezes ao dia, a procura dele.

— Nina, isso não vai melhorar, já beira a loucura, ela fica grudada o dia em inteiro em mim. Está difícil aturar isso – ele falava, meio exaltado, apesar de ser paciente, sabia que aquela situação se tornava insustentável para eles.

— Aguenta mais um pouco. Logo, nós começaremos na faculdade e ela terá outras coisas na cabeça para se ocupar, vai conhecer outras pessoas, deixar de pegar no seu pé – Nina pedia, mas não tinha muita certeza disso, só esperança.

— Eu só faço isso porque você está me pedindo, mas não sei por quanto tempo essa mentira vai aguentar.

Em casa, à noite, reviam todos os capítulos dos seus seriados favoritos, que já sabiam quase de cor, apenas como uma desculpa para ficarem juntos, sentados lado a lado na cama de Gabriel, na penumbra, iluminados apenas pela luz da TV, ombros grudados e mãos entrelaçadas escondidas entre os corpos, em alerta para uma possível súbita abertura de porta, permitindo-se, de vez em quando, um carinho mais íntimo ou uma brincadeira mais ousada.

Foi em uma tarde qualquer que Gabriel abriu a porta do quarto de Nina, ela ouvia música e fazia os trabalhos de casa, distraída e esparramada na cama, ergueu a cabeça, tirando os fones de ouvidos, surpreendida ao vê-lo parado ali bem na sua frente, com um sorriso travesso.

— O que você está fazendo aqui? Você não tinha curso hoje? – ela indagou, feliz com a surpresa.

— Eu não tive a última aula. Cadê todo mundo?

— Rosa já foi para casa, nossos pais estão no trabalho e João vai para casa de um amigo depois da escola.

— Então, estamos sozinhos? – ele questionou, sem poder esconder sua satisfação com as notícias.

—Sim – Nina assentiu, devolvendo-lhe um sorriso e sentando-se, enquanto ele mergulhava na direção dela e caiam juntos, abraçados sobre a cama, perdidos em beijos, abraços e carícias, pois, não podiam desperdiçar aquela chance valiosa de intimidade, sem precisarem se esconder no silêncio da madrugada, perdendo-se um no outro.

Dentro da mochila de Gabriel esquecida em algum lugar da casa, seu telefone tocava, insistentemente, e o nome de Lia aparecia na tela.

Quando não se quer, o tempo passa muito depressa, não perceberam a luz do dia se esvanecendo lá fora e o quarto se encher de uma suave penumbra do anoitecer, Gabriel e Nina estavam relaxados e felizes, um nos braços do outro, quase dormitando, foi quando um leve arfar de susto chamou a atenção deles, que olharam direto para a porta esquecida entreaberta, pelo anseio do raro momento a sós. João estava parado bem ali, sob o batente, com os olhos esbugalhados pelo flagrante, encarando os irmãos deitados, nus e abraçados na cama.

— João! – Nina exclamou, escondendo sua nudez, no instante, o garoto assustado fez o movimento de virar-se para correr, porém Gabriel foi mais rápido e conseguiu alcançá-lo, segurando no seu braço.

– Calma, João! – ele disse, trazendo-o para dentro do quarto e fechando a porta atrás deles, enquanto Nina se vestia. – Onde está sua mãe? – perguntou, ansioso, olhando direto nos olhos do garoto, tentando manter a calma.

— Ela esqueceu alguma coisa no carro e foi até a garage para pegar – João respondeu em voz baixa, ainda espantado pela cena que presenciou.

Gabriel e Nina suspiraram fundo, aliviados pela sorte que tiveram.

— João, nós precisamos que você entenda que eu e Nina não estávamos fazendo nada de errado. Eu sou seu irmão e Nina é sua irmã, mas nós dois não somos irmãos, não somos parentes, por isso não há nenhum problema ficarmos juntos – Gabriel falava com calma e firme, querendo convencer o menino.

— Eu sei disso. Eu tenho dez anos e não sou nenhum retardado, sei que vocês dois não são irmãos – João falou, irritando com o tratamento recebido. – Mas por que estão namorando escondido?

— Porque a maioria das pessoas não iria entenderia isso, quase todo mundo acha que nós dois somos irmãos. Além disso, tem a Lia, ela gosta muito do Gabriel e iria sofrer bastante se soubesse que nós estamos juntos – Nina explicou, com a voz branda.

— Vocês estão com medo que a Lia faça a mesma coisa que a mãe dela fez, se matar? – João indagou, Nina e Gabriel se entreolharam, ela assentiu com a cabeça.

– Podemos contar com você, João, para não falar nada para ninguém, nem mesmo para os nossos pais, sobre nós dois? – Nina perguntou, aflita, o garoto assentiu com a cabeça. No entanto, sabiam que era só uma questão de tempo até aquela história vir à tona.

— Obrigada – ela agradeceu a João com um carinho na cabeça. – Acho melhor, vocês saírem daqui, antes da minha mãe voltar.

Assim eles se dispersaram, cada um indo para um lado e Nina ficou sozinha no seu quarto, ouviu seu telefone dar mais um sinal de mensagem recebida, suspeitou que fosse de Lia e estava certa.

Lia: “Gabriel está em casa? ”

Nina: “Sim. ”

Lia: “A tarde toda? “

Nina: “ Sim. ”

Lia: “Por que ele não atende o telefone? ”

Nina olhou a pergunta, respirou fundo, resignada, desejando que Gabriel fosse um pouco mais paciente.

Nina: “Ele está dormindo”. Mentiu

No dia seguinte, pela manhã cedo, era sempre aquela correria habitual antes da escola, alguém sempre estava atrasado ou esquecia alguma coisa.

— Eu vou me atrasar para escola, mãe – Nina, ansiosa, apressava Marta, sua carona para o colégio, já na porta do apartamento, junto com Gabriel.

— Só mais um minutinho! – Marta pedia, procurando pelas chaves do carro.

— Mãe, esqueci meu telefone no meu quarto! Pode pegar para mim? – Nina pediu.

— Aonde está?

— No meu quarto, na mesinha no lado da cama.

Marta foi até lá e encontrou o telefone no lugar indicado, assim que entrou, pegando-o e já saindo apressada, no momento que o salto do seu sapato se prendeu algo, quase a fazendo cair

— Droga! – resmungou, irritada, abaixando-se para apanhar o objeto culpado no chão, admirou-o, intrigada ao descobrir uma camiseta de Gabriel esquecida debaixo da cama da filha.