Antes das festas de fim de ano, a cidade ficava, lindamente, enfeitada para o Natal, a decoração luminosa junto com a neve e os pinheiros, mesmo o frio, fazia aquela data parecer mais real ali do que na terra de Nina. As lojas e as pessoas fervilhavam com a animação e a ansiedades das compras de Natal. Todo mundo tinha pressa, para resolver suas listas de presentes.

Mas, por algum motivo, com a distância e o passar do tempo, Nina mal conseguia se comunicar com Lia com frequência que desejava, pois, a amiga estava muito ocupada em aproveitar as férias, divertindo-se. O sol, o calor e o verão empurravam todos para fora de casa. E mesmo que Nina se dando bem com os novos colegas, não era a mesma coisa, não havia aquela intimidade criada por anos de convivência e amizade, estava fora das piadas locais, das histórias e lembranças que os uniam.

Sua madrasta Barbie se esforçava o máximo para fazê-la sentir em casa, enquanto, o seu pai trabalhava muito. Assim, as duas fizeram compras juntas, escolhendo roupas mais apropriadas para enfrentar o frio e o vento cortante que vinha do lago Ontário, cuidaram da lista de presentes de natal, visitaram os principais pontos turísticos da cidade e até patinaram juntas. Nina a auxiliava a cuidar da casa e da pequena Alicia, que se revelou uma criança adorável, uma bonequinha, o que ajudava a superar um pouco a saudade do seu outro irmão, João.

Juntas, decoraram a casa para o Natal, cuja peça principal era um grande pinheiro natural, cuidadosamente enfeitado com bolas, estrelas e luzinhas pisca-piscas, e prepararam a ceia para receber a família de Barbie. Esse seria o primeiro natal que Nina passaria com o pai depois de muito tempo, que nem se lembrava mais.

O dia especial de Natal a deixou nostálgica, um vazio no peito, foi estranho ficar entre tantos rostos desconhecidos, mesmo que tentassem ser amigáveis e cordiais com ela, porém sentia falta da família que deixou para trás, para compensar comprou um presente para cada um, inclusive para Lia, que entregaria quando voltasse. O mais difícil foi escolher um para Gabriel, não sabia como presenteá-lo, demorou muito, cheia de dúvidas, pois queria algo especial e, finalmente, escolheu uma camiseta de uma banda que ele gostava muito, quase impossível de achar, escreveu em um cartão: Para Gabriel. Senti muito a sua falta. Contudo, provavelmente, nunca teria coragem de entregar a ele.

A festa de fim de ano foi mais reservada. Por causa da pequena Alicia, ficaram em casa só os quatro juntos, tiveram um pequeno e gostoso jantar, depois planejaram assistir um filme clássico, em seguida, acompanhariam pela televisão, as festas ao redor do mundo. Porém, antes, Nina falou com a mãe, Rui e João.

— Onde está Gabriel? Queria desejar feliz ano novo para ele – Nina perguntou a mãe, pelo computador, tentando esconder a ansiedade, pois esse seria uma boa desculpa para conseguir ver e falar com ele, depois de tanto tempo, pois desejava muito ouvir a sua voz, assim poderia perceber se estava tudo bem entre eles, outra vez. Pois, para matar a saudade, só tinha as fotografias que levara consigo e, muitas vezes, ficava um longo tempo olhando para elas.

— Ele não está em casa, foi a uma festa – avisou a mãe.

— Gabriel em uma festa? – duvidou, decepcionada.

— Sim, dá para acreditar? Ele anda bem diferente nesses últimos tempos – Marta falou achando graça, Nina queria saber como ele estaria diferente, mas não teve coragem de perguntar.

Para Gabriel, depois que Nina foi embora, veio aquela tristeza que sufocava, aquele vazio dentro do peito, que parecia não ter fim. A casa sem ela era deprimente e solitária, era quase como se faltasse o ar, o tempo parecia que havia parado e se arrastavam lentamente, as noites insones que jamais terminavam. Por isso, parou de voltar, ficava a maior parte do dia na rua, em infinitas caminhadas sem destino, que lhe faziam bem, sendo assim descobriu mais uma forma de fuga, passar horas fazendo exercícios físicos, sentindo o corpo exausto e desgastado e a mente leve, pelo menos, assim conseguia dormir melhor.

Ele mal se lembrava de algum natal sem Nina, aumentando a nostalgia que sentia nessa época, antes pela mãe, e, agora, pelas duas. Mesmo sem saber se um dia o entregaria, comprou um presente para Nina, um livro, um romance do jeito que ela gostava, escreveu na primeira página em branco: Para Nina. Senti muito a sua falta.

Também, na sua nova vida fugaz, procurando aliviar a dor que trazia no peito, começou a aceitar os convites para festas, antes eram sempre recusados, para ficar mais tempo fora de casa. Nessas noites barulhentas e inconsequentes, conseguia se esquecer por alguns breves instantes. E foi em uma dessas festas que encontrou com Lia. No meio do barulho das vozes e músicas altas, no tumultuado ambiente cheirando cigarro e cerveja, os dois se olharam com estranheza.

— Gabriel! Nunca esperaria encontrar você por aqui! – Lia exclamou, surpresa ao vê-lo naquele lugar.

— Estava a fim de me divertir um pouco – ele deu de ombros, indiferente.

— Mas, você nunca gostou desse tipo de festa, era o que Nina sempre dizia – Ao ouvir o nome dela, uma nuvem sombria passou pelo o olhar dele, Lia percebeu – Eu sei, também sinto falta dela.

— Pois, agora, eu gosto de festas. Nina não sabe tudo sobre mim – Gabriel deu-lhe um sorriso indolente e tomou um gole do copo de cerveja quente que trazia na mão.

Ele nunca foi íntimo da melhor amiga de Nina, sempre a achou meio esquisita e oportunista, alguém que se aproveitava dos seus bons sentimentos, até mesmo meio egoísta, um tanto metida, ciente da sua beleza, talvez, fosse apenas por ciúmes daquela amizade entre as duas. No entanto, naquele momento, era de quem Gabriel precisava, já que seria a única pessoa com quem poderia falar da falta que sentia de Nina e o entenderia, sem desconfiar a sua real razão.