A festa já se aproximava do fim, quando Ethan e Nina se juntaram a um grupo de amigos dele que pareciam um tanto entediados, sentados em volta de uma mesa, largados e sonolentos.

— Isso aqui está muito chato! Já deu o que tinha que dar. Vamos nos mandar! — um dos garotos declarou

— A turma está se organizando para continuar a festa em outro lugar – outro garoto explicou, Ethan olhou para Nina em busca de aprovação, que concordou assentindo a cabeça e com um sorriso.

— Só não posso chegar muito tarde – ela advertiu.

No meio da noite, uma pequena caravana de carros partiu do estacionamento do colégio para o lugar escolhido para continuarem a festa, uma área remota, sem nenhuma construção ao seu redor e deserta àquela hora da noite, assim não haveria ninguém por perto para reclamar do barulho e da algazarra que estariam fazendo. Mesmo com roupas formais de festas, eles sentaram em círculo no chão, sem nenhum cuidado, iluminados pelos faróis acessos dos carros. Surgiram alguns velhos cobertores enquanto outros garotos colocaram os paletós sobre os ombros desnudos das garotas, com seus vestidos decotados, pois, mesmo estando no fim da primavera, ainda fazia um friozinho à noite.

Sentada no chão, Nina se abraçou e esfregou os braços nus, na tentativa de se esquentar e Ethan, gentilmente, colocou seu paletó sobre os ombros dela, para protegê-la. Alguém trouxe uma aparelhagem de som portátil e a música alta começou a soar, quebrando o silêncio da noite. No centro da roda, foram apresentados o resultado do butim do saque dos bares paternos, sem critério, havia garrafas de vodca, uísque, vinho e algumas cervejas. No entanto, os copos foram esquecidos, daí aleatoriamente, as garrafas passavam de mão e mão, entre risadas, piadas e desafios, depois viradas em um grande gole diretamente no gargalo, eram descartadas quando já vazias. Assim, o número de garrafas no centro da roda diminuía inversamente em que a intensidade das risadas, o tom das vozes e a inconveniência das brincadeiras aumentavam.

Mesmo com as palavras de incentivos, Nina não bebeu muito, a não ser por um ou outro gole de cerveja, a maioria das garrafas passaram intactas por ela. Ao seu lado, percebia os limites serem quebrados e as barreiras começarem a cair, os beijos ficaram mais selvagens e as carícias mais intensas e provocativas entre os antigos casais e outros recém-formados. Ela se sentia um tanto constrangida, por não estar no mesmo clima dos presentes, sabia que era hora de ir embora.

— Eu quero ir embora – pediu a Ethan, baixinho, mesmo sabendo que bancava a chata.

Ele a encarou descrente, felizmente, também, não havia bebido muito.

— E isso que você quer? – questionou, em dúvida, ela assentiu com a cabeça, com certeza.

Eles andaram para o carro em silêncio, Nina se abraçou ao paletó de Ethan para se proteger da brisa noturna. Dentro do carro, com o aquecedor ligado, lentamente a temperatura tornou-se agradável. Ficaram distante por um breve momento, em um impulso, ele a abraçou e beijou sua boca, com cada vez mais intensidade, ela retribuiu envolvendo o seu pescoço e enfiando os dedos nos cabelos macios deles. Sentiu a mão dele deslizar sutilmente, levantar o seu vestido e subir, quente e exploradora por sua coxa. Excitada pelos beijos, meio anestesiada pela bebida, ela permitiu, sabendo onde poderiam chegar. Naquele instante, algo despertou nela, percebeu que não era para ser assim, não dentro de um carro em um estacionamento qualquer. Era o lugar errado, o tempo errado e, sobretudo, o garoto errado.

— Não! – Nina falou em voz alta e afastou a sua mão, impedindo-o de continuar. Ele a interrogou com o olhar, com um misto de surpresa e desilusão. — Não – repetiu em um tom mais brando. – Quero ir para casa agora – afirmou, com segurança.

Gabriel sentiu o mundo desconexo girar ao seu redor, mergulhado na bruma espessa da bebida, os sons sem sentido entravam no seu ouvido, não sabia onde estava, havia perdido qualquer consciência do seu corpo, completamente embriagado, na tentativa inútil de esquecer.

— Gabriel! – Escutou a voz feminina sem rosto, muito longe, por um segundo, pensou que seus sonhos se tornaram reais, ela estava bem ali ao seu lado.

— Nina! – Gemeu com a voz débil, os olhos baços.

— Não sou eu, Lia. Cara, você está muito mal! Vou ajudar você ir para casa – Lia falou, achando graça do estado deplorável do sempre tão sério Gabriel. – Vamos! Fique em pé! – Ordenou, ajudando ele a se levantar.

Com muito esforço, Gabriel ficou de pé, completamente bambo, mal se aguentando nas próprias pernas, Lia passou o braço dele pelo seu ombro e apoiando-o pela cintura, andaram com muita dificuldade para saída até conseguirem alcançar a rua, onde ele vomitou no canteiro bem na frente ao prédio, enquanto ela segurava sua cabeça.

— Vou arranjar um táxi. Acho melhor você dormir lá em casa, para seus pais não verem você assim. Eu vou ligar para eles e invento uma desculpa – Lia explicava, mas tinha certeza que Gabriel não entendia nada do que estava falando.

Ethan não falou nada, travou a mandíbula, Nina podia ver os ressentimento e conflito nos seus olhos, então ele arrancou com o carro, seguiram em silêncio, durante todo o trajeto até a casa dela.

— Então... boa noite, Ethan. O baile foi muito legal – Nina tentou quebrar o gelo, que preenchia o carro e vinham direto daqueles olhos azuis.

— Boa noite, Nina – ele respondeu em tom formal, sem olhar para ela, que saiu do carro, hesitante, sem beijos de despedida.

Enquanto, caminhava para casa, ouviu o carro de Ethan acelerar, cantando pneus, possivelmente, voltando para onde estavam seus amigos e para os braços de alguma garota que queria muito ficar com o rei do baile e o quarterback do time.

Nina entrou pela casa escura e silenciosa, indo direto para o seu quarto, agora, um pouco diferente, havia dado a ele um jeito mais parecido com dela. Sobre a cômoda, as fotos daqueles que estavam distantes, ajudava a diminuir a saudade, alguns objetos de decoração garimpados durantes seus passeios, davam um toque mais pessoal ao lugar. Abriu o vestido, deixando escorregar até o chão, onde ficou esquecido, lavou o rosto para tirar a maquiagem e escovou os dentes no automático, depois deitou na cama e não conseguiu dormir, revirando-se com a cabeça a mil, sabia que não podia continuar assim, não adiantava fugir, pois trouxe todos aqueles fortes sentimentos contraditórios dentro de si, precisava voltar e enfrentar, lutar pelo seu amor, teriam que entender que não era culpa deles terem se apaixonado. Contudo, foi tomada pelo medo de que Gabriel não sentisse mais o mesmo por ela, teria que olhar dentro dos cálidos olhos escuros dele e perguntar. Assim, um pouco mais tranquila pela resolução tomada, conseguiu adormecer ao amanhecer.

Gabriel acordou, mas demorou abrir os olhos, sua cabeça latejava muito, sua boca estava amarga e o estômago revirado, não se lembrava de nada que aconteceu no fim da noite passada. E quando, finalmente, abriu os olhos pesados, com dificuldade, a luz do dia os feriu, demorando um pouco mais para focá-los e observar a sua volta. Aquele não era o seu quarto, dormiu em um sofá qualquer, não reconheceu o lugar onde estava, uma sala um tanto desarrumada assim como seus pensamentos estavam naquele momento. Aos poucos, suas ideias se puseram em ordem, então soube onde estava, na casa de Lia. Por um breve instante, mundo girou a sua volta, quando se sentou, ficou de pé com dificuldade, foi até a cozinha e tomou um copo d’água em um único gole para acalmar sua garganta seca, mas seu estômago ficou mais embrulhado. Ainda desorientado, pensando no que faria agora, viu Lia surgir na porta, ainda com o conjunto de dormir, descabelada e com cara de sono, não era uma visão incomum para Gabriel, pois com todos esses anos de convivência e amizade com Nina, ela já havia dormido, várias vezes, na casa deles.

— E, aí, como você está? – ela perguntou, se encostando no batente da porta, com um olhar travesso.

— Não sei, acho que bem. Não me lembro de nada de ontem à noite – respondeu com a voz rouca. — Como eu cheguei aqui? – quis saber, ainda confuso, com sua cabeça vazia e latejando, apoiou-se na bancada da pia.

— Você estava muito mal ontem à noite, totalmente bêbado, caído em um canto daquela festa. E eu o salvei – ela explicou, orgulhosa da façanha. –Tive que arrastar você para aqui, mas, liguei para o seus pais dei uma desculpa, disse que seu telefone estava sem bateria e que eu estava sozinha em casa e você se ofereceu para me fazer companhia. Acho que eles pensam que estamos namorando, seu pai falou para nós nos cuidarmos. – Sorriu, achando graça daquilo, Gabriel a encarou, dando-lhe um sorriso sonolento.

Nina acordou com o cheiro de café que se espalhava pela casa, vestiu-se e desceu as escadas, escutando os corriqueiros sons matinais vindo da cozinha. Quando entrou lá, presenciou a usual cena familiar dominical: Seu pai e Barbie, sentados frente a frente à mesa, cada um com uma caneca de café fumegante nas mãos, conversando sobre as atividades e notícias do dia, enquanto, Alicia, sentada no cadeirão, se lambuzava com o seu cereal.

— Bom dia, Nina! Já de pé tão cedo? – Barbie a cumprimentou, com um sorriso simpático, no momento que ela se juntava a eles à mesa.

— Bom dia, minha filha. Como foi o baile ontem à noite? – Artur perguntou, sem muito interesse.

— Legal – Nina respondeu, dando de ombros, seguiu-se uma pequena pausa – Pai, eu quero voltar para casa – comunicou, sem rodeios.