Apenas mais uma história
2 Cap 2: Maldito retorno
Notas iniciais
Com meus vinte e quatro anos conheci, em uma das minhas cadeiras da faculdade, Cristofer, diria eu que de uma forma bastante inusitada... lembro que o professor passou um trabalho em dupla e um guri alto com cara de criança levantou a mão e perguntou se podia dupla de três, o professor, que até era gente fina, disse que não e o mandou achar uma dupla. Após olhar pela volta ele veio em minha direção e largou essa pérola.
— Então... antes de me juntar contigo, há uma pergunta importante a ser feita, tu come a batata frita ou o hambúrguer primeiro?
Respondi -obviamente- que a batata frita, ele então, com uma expressão triste, sentou ao meu lado e respondeu.
— Infelizmente, acho que não poderemos ser amigos, não posso confiar em alguém que começa pela batata.
Naquele instante soltei uma gargalhada alta e em troca recebi um olhar de repreensão do professor. Após me recompor, engatamos em um feroz debate sobre o assunto, ninguém ganhou, é claro, mas a partir daquele dia nos tornamos grandes amigos.
Dentro de alguns meses começamos a morar juntos, por motivo de forças maiores, lê-se falta de dinheiro -da minha parte é claro-. Cristofer vem de uma família rica e o pai dele lhe deu um apartamento quando ele passou na faculdade –eu ganhei uma ida na pizzaria, mas enfim... chega de recalque-, então para me ajudar ele me fez a oferta de dividirmos o AP, sem pagar aluguel, apenas dividir as contas.
Tudo caminhava nos conformes, éramos ótimos amigos, já sabíamos tudo um do outro, desde a cor predileta e o primeiro beijo, a os medos mais profundos e as manias mais estranhas. Estudávamos a semana inteira, nas noites de sábado saíamos -normalmente para a CB- e aos domingos íamos visitar nossas respectivas famílias. Bem... eu diria que o prelúdio do desastre foi quando Cris resolveu fazer uma festa em seu aniversário -que foi quando eu conheci a dona dos meus pensamentos... frase brega, mas é-.
Cris passou três semanas empenhado em preparar a festa e me infernizar, me levava em lojas e mais lojas de decoração, me obrigava a experimentar todos os tipos de salgadinhos -essa foi a parte boa-, e carregar sacolas de compras. No dia da festa tive que ajudar a arrumar o salão de festas, carregar fardos de cerveja... enfim, depois daquela tortura passei a ter muito respeito por promoters. Tudo bem... admito que valeu a pena todo o esforço, o salão de festas estava lindo -o desgraçado leva jeito pra coisa-, era um lance meio psicodélico e abstrato -na real sou péssima com arte, não sei dizer o que era ao certo-, o tipo de lugar que tu entra e pensa (Caralho! Isso é muito afudê). Tinha luzes coloridas pelo salão, todos os objetos da decoração -bancos, mesas, paredes falsas, vasos- tinham formas estranhas e retorcidas, alguns pareciam impossíveis de estarem de pé, enquanto outros pareciam criações de Escher.
Faltava algumas horas para a festa começar quando Cris me contou que a irmã mais nova dele -que tinha acabado de voltar pro Brasil- viria à festa.
—Adália, minha flor, antes que eu me esqueça de novo, tenho uma ótima noticia pra te dar. Falou Cris enquanto arrumava o topete.
—Chora, honey.
—Minha caçula vai vir na festa, e antes que tu pergunte, sim.. é aquela do Canadá que voltou faz pouco tempo pro Brasil.
—Tri! Finalmente vou conhecer alguém da tua família, já tava achando que tu tem vergonha de mim. Eu respondi -fazendo aquele draminha básico de cada dia-.
—Nem vem biscate, tu também nunca me apresentou pra tua família, e olha que somos quase casados. Respondeu fazendo cara de ofendido
Continuamos mais algum tempo discutindo -é o que a gente mais faz- e fazendo varios nadas até chegar a hora da festa. Não vou dizer que roupa usava ou coisas do tipo porque já é exigir demais de mim, mas eu provavelmente estava o mais casual e menos trabalhoso possível -ou seja, cara lavada, tênis surrado, camiseta menos desbotada do guarda roupa e a boa e velha jeans- . Enquanto o Cris deveria estar todo trabalhado na Lacoste, Beagle e Timberland -Burguês do caralho-.
A festa estava cheia -até demais para o meu gosto-, a maioria do pessoal dançava e/ou se pegava no salão, enquanto eu e alguns outros amigos -que assim como eu não sabem dançar- estávamos na parte de fora conversando e rindo como hienas alcoolizadas.
A few moments later -sempre quis dizer isso-
Já passava das 5 da manhã, a festa estava praticamente acabada, na rua só restava os amigos mais chegados, estávamos sentados em rodinha -Edigar, David, Gabriel, Paola, Mariana, Tais, Marcos, Carla, Liane e eu- esperando o nascer do sol. Não via o Cris desde o começo da festa -provavelmente porque passei quase toda ela na rua-, só recebia recados dele, vez ou outra, para por mais cerveja para gelar e levar papel higiênico para o banheiro feminino -sim... o desgraçado me tirou para ajudante-, então eis que do nada ele brotou na roda, com uma cara de acabado, mas faceiro. Atrás dele havia uma guria com a maquiagem toda borrada, cabelo desgrenhado, e meu santo kami-sama, o sorriso mais lindo que eu já vi na minha vida... não por ter dentes brancos e alinhados -até porque ela tinha um canino tortinho que era um charme-, e sim por ser um sorriso “completo”, os olhos azuis escuros sorriam tanto quando os lábios, e isso destacava ainda mais a perfeita composição do rosto -pelo menos pra mim, o que na real não conta muito, pois tenho um gosto estranho, admito-, resumindo, ela era linda.
— Povo... essa coisa linda que vos apresento é a minha irmã caçula que acabou de voltar pro Brasil. Falou Cris, empurrando a guria para nos cumprimentar, pelo menos os que ainda estavam acordados.
— O moreno sarado, bonito e sensual é o Ed, a loira oxigenada é a Paola, a morena alta e coxuda é a Tais, os apagados no chão são David, Gabi, Mari, Marcolino, Carla e Lia, e essa nanica fofa que divido o AP é a Adália, também conhecida como Ada. Cris falou apontando um por um.
—Primeiramente, muito prazer Manu, seja bem vinda ao bando- Respondeu a Paola sorrindo para a guria, e depois virando com cara feia pro Cris -, e loira oxigenada é tu, viado!
—Calada! Sou homozigótico recessivo. Rebateu Cris
—Que tu é homo a gente já sabe, mas zigótico? Conta outra. Eu respondi, dando uma inticada básica
—Viada! Vai defender a oxigenada? Tu é a MINHA melhor amiga, tem que me defender, não ela.
—Bom... não to defender ela, só to te incomodando mesmo. Respondi com cara de quem não se importa, só pra irritar ele -é óbvio-.
E como sempre a gente começou a discutir -é sério... a gente tá sempre “brigando”, até porque a nossa relação se baseia nos 3 Is, implicar, incomodar e irritar-, os outros que ainda estavam acordados entraram na discussão, e assim ficamos por um bom tempo, até que eu notei que a irmã do Cris olhava a cena enquanto sorria com uma expressão divertida. Meu, uau, só...uau! Tudo bem... aquela foi a primeira vez que eu vi aquela expressão e eu não pensei UAU -Vocês se lembram? Eu ainda não era uma boba apaixonada-, só achei bonita, parecia até a cena de uma fotografia. Pra falar a verdade eu me lembro a primeira vez que eu pensei esse UAU pra essa expressão -e eu me culpo bastante por não ter me ligado no que tava acontecendo, talvez se eu tivesse feito algo as coisas fossem diferentes...-, mas essa é uma história pra outra hora.
Bom... voltando a cena da festa, depois de discutirmos algum tempo, voltamos a atenção a Enma e começamos a conversar com ela. A conversa foi bem banal, e eu estaria mentindo se dissesse que me lembro, até porque eu não prestei muita atenção, eu tava com tanto sono e tanto álcool no sangue que nem sei como me mantive acordada.
Isso prova o que eu tenho dito, que não foi amor a primeira vista, eu realmente não dei muita importância pra Enma em um primeiro momento, ela era uma guria -relativamente- “normal”, o mais diferente nela -tirando o sorriso que me arrebata a cada dia- era o cabelo liso e escuro com uma franja tipo a da Enma Ai -por isso eu chamo ela de Enma-, que deixava ela com cara de boneca de porcelana -foi de tanto eu implicar com ela que ela mudou a franja, punição por me fazer sofrer... mentira, eu só não consigo não irritar os outros-. Agora vocês devem estar se perguntado, mas o que tem a ver o cu com as calças? O que tem a ver tu não prestar atenção na conversa com não ter sido amor a primeira vista? Bom... Se vocês me conhecessem, quero dizer, vissem o quão patética eu sou sendo apaixonada por essa guria, e como eu sou capaz de ser idiota por ela, vocês entenderiam... acreditem. Enquanto ela fala eu presto tanta atenção que acho que nem se eu meditasse teria tanto foco. É tipo uma hipnose, eu não consigo não prestar atenção nela, apenas tentem visualizar... é como estar em uma multidão no meio do escuro e ela estar sob os holofotes, a única que eu olho, a única que brilha pra mim, mais ninguém importa, quando estou com ela é como se o resto fosse o nada e ela o tudo. Eu... eu to muito fudida, queria não sentir essa merda toda, queria poder voltar no tempo e ser só a boa e velha Ada, que nunca se apaixonou, que nunca sentiu o estômago embrulhar por ninguém... que nunca sofreu, que nunca chorou, eu não queria isso, eu não quero isso.
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