L estava sentado na cadeira em frente aos telões onde observava os prisioneiros. Entretanto, sua atenção estava completamente voltada para o que havia acontecido horas atrás. A madrugada já estava se transformando em dia e os primeiros raios solares já podiam ser percebidos entrando pelas frestas das janelas. L não havia dormido um minuto sequer, na verdade, ele nem sentiu necessidade. Sua cabeça estava um turbilhão de pensamentos e emoções que ele precisava digerir. Pela primeira vez na sua vida, teve interesse amoroso por uma mulher e não estava sabendo como lidar com isso. Cada vez mais, sentia a necessidade de estar perto, de conversar e de cuidar daquela ruiva que o fazia se sentir um ser humano melhor e mais vivo. Além do mais, teve o beijo... L quase era capaz de sentir a mesma sensação toda vez que se lembrava do momento em que pôde sentir os lábios de Chiara nos dele. Parecia que o seu coração se aquecia, sentia um frio na barriga e seu corpo todo reagia. O detetive não conseguia pensar em mais nada desde que saíra do quarto da moça repentinamente. Ele ainda permanecia intrigado com os próprios sentimentos. Decidiu voltar sua atenção ao trabalho. Tinha que se concentrar no caso Kira, pois estava em um momento delicado da investigação. A prisão dos suspeitos não estava dando o resultado que L esperava e ele tinha que pensar em uma nova estratégia. Por outro lado, se Kira puder controlar as pessoas e transferir seu poder, nunca vai ser possível pegá-lo... L estava tentando organizar os pensamentos com toda essa confusão.

Algumas horas mais tarde, os outros membros da equipe começaram a chegar: Matsuda, que era sempre o primeiro, Aizawa e por fim, Mogi. Alguns minutos depois, Chiara entrou na sala. Ela estava usando uma blusa lisa de alças, no mesmo tom do cabelo, que estava solto. A franja estava presa para trás. Ela e L se olharam brevemente.

— Bom dia – disse como de costume. Ela evitou olhar ficar olhando diretamente para L e ele fez o mesmo.

— Bom, Ryuzaki, já que estamos todos aqui, eu insisto que não há mais motivos para manter Light e Misa presos. Já faz mais de um mês que as mortes voltaram a acontecer! – Aizawa estava tentando ser paciente com o detetive. Ele não via sentido em muitas ações de L, mas decidiu apoiá-lo por acreditar que pela fama que tinha, devia ser realmente bom. Entretanto, não haviam mais argumentos para não libertar os prisioneiros.

— Considerando a insistência com que eles negam ser Kira, mesmo nessas condições, eu vejo duas possibilidades. Ou eles realmente não são culpados, ou perderam a memória. O caderno ou “os cadernos” devem estar com outra pessoa... – comentou Chiara.

L não reagiu.

— Ryuzaki, Light e Misa Misa são inocentes, isso já está mais do que provado – apelava Matsuda.

— Ryuzaki! Eu estou começando a achar que você não quer libertá-los porque não quer admitir que errou na suspeita! – Aizawa foi enfático.

O detetive estava sendo pressionado por todos os lados. Ele já sabia que isso iria acontecer, mas mesmo com o fracasso em prová-lo, ele ainda estava certo de que os suspeitos eram culpados. Mas da forma como estavam as coisas, ele não poderia mais sustentar a prisão. Iria usar a cartada final. O plano que havia pensado para pôr fim à dúvida.

— Eu entendo... respondeu por fim. – Light e Misa serão libertados. Mas antes preciso que você me traga o Sr. Yagami para conversarmos em particular.

Aizawa pareceu aliviado, Matsuda comemorou. Mogi, discreto como sempre, não esboçou reação. Chiara estava tentando desvendar o que L tinha em mente. Ela também não dormira aquela noite. Depois do beijo, o detetive simplesmente saiu apressadamente e a deixou. Ela compreendeu que ele, embora cedesse à emoção do momento, não sabia como administrar o que sentia. Ela também não. Também se sentia confusa, pois perdera Sam há pouco tempo e sua vida estava virada de cabeça pra baixo. Mas diferente do detetive, ela não iria fugir do que sentia. Não queria abrir mão da presença dele na vida dela, pois achava que juntos eles eram bem melhor do que sozinhos.

L levantou-se da cadeira e caminhou lentamente até a sala onde se encontraria com o Sr. Yagami. Como não havia nada a ser feito naquele momento, Chiara resolveu jogar conversa fora com Watari.

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Chiara segurava uma caneca enquanto girava de um lado para o outro em uma cadeira giratória. Watari estava sentado diante do que parecia ser o circuito de vigilância do prédio.

— Obrigada pelo chocolate quente, Watari. Eu simplesmente não aguento ficar sem chocolate! – Ela falou alegremente.

— Vou pedir para prepararem chocolate quente pra você todos os dias. – Watari revezava entre olhar pra ela e manipular os computadores.

— Você é legal assim como todo mundo? – Ela deu uma gargalhada. – Vou pensar em alguma forma de retribuir...

— Poderia tocar algumas de suas músicas algum dia desses – sugeriu o velho com um sorriso.

— Melhor. Você gosta dos Beatles?

— Ouvi muito durante a minha juventude.

— Então vou tocar algumas músicas deles pra você. – Ela falava com empolgação. – Aliás, eu também sou fã dos Beatles. Sabe essa tatuagem aqui nas minhas costas? – Ela mostrou com orgulho o rabisco que tinha atrás do ombro. – É um autógrafo do Paul McCartney.

Watari virou pra ela e soltou uma risada educada. “Como é espirituosa essa menina”, pensou.

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Depois da conversa com o Sr Yagami, L retornou à sala de comando, assim como o restante da equipe. Todos estavam prontos para assistir ao desenrolar do plano de L através dos telões. Havia uma certa tensão no ar, pois todos sabiam que os fatos que se sucederiam seriam intensos. E realmente foram. O Sr. Yagami fugiu com Light e Misa e ameaçou matá-los, mesmo assim as suspeitas de L não se concretizaram. Soichiro ainda estava vivo e agora o detetive se viu obrigado a libertar os prisioneiros como havia prometido.

No fim do dia, quando todos já haviam saído, L permaneceu sentado em sua cadeira na sala vazia, amassando alguns cubos de açúcar. Ele não estava satisfeito. Na verdade, estava furioso, apesar de não deixar minimamente que isso transparecesse. Ele odiava perder e dessa vez, perdera feio. Se Light, ao solicitar ser preso, tinha planejado ser inocentado, ele havia vencido essa batalha contra L. O detetive não poderia mais permitir que distrações lhe tirassem o foco das investigações. O mundo inteiro, ou pelo menos aqueles que não apoiavam Kira, esperava dele que o prendesse. Além do mais, era sua obrigação fazer a justiça prevalecer. Não podia cometer erros. Ele estava arriscando a sua vida e a de outras pessoas para resolver esse caso, no mínimo, deveria dedicar-se integralmente a ele. Sem distrações. Apesar de doer-lhe o coração, e da sensação de vazio que sentia só em pensar no que iria fazer, o detetive não podia hesitar.

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Chiara estava sentada no sofá cantarolando e alisando sua gata de estimação, quando sua audição aguçada pôde captar os passos que vinham longe em direção à porta. Ela esperou o toque da campainha. Quando abriu, surpreendeu-se ao ver a figura do detetive, agora aparentando estar um pouco mais infeliz do que o normal.

— Eu não estava esperando... – disse ela sem entender.

— Chiara, eu só vim dizer que não vou mais poder te visitar nenhuma noite. Eu preciso me dedicar integralmente ao caso Kira. – Ele despejou tudo de uma vez só.

Chiara permaneceu parada olhando para o detetive. Demorou alguns segundos para absorver a informação. A decepção em seus olhos ficou perfeitamente visível para L, mas ela deu uma resposta que ele não esperava.

— Eu entendo – disse, demonstrando a decepção também no tom de voz. – Eu vou sentir sua falta, mas respeito a sua decisão.

L apenas se virou e saiu andando e Chiara fechou a porta. Ela pensou que aquilo poderia acontecer, mas não queria acreditar que realmente aconteceria. Estava triste e decepcionada. Tudo seria mais difícil agora sem a companhia do detetive.

Ela se apoiou na porta um tempo, enquanto pensava. Depois, foi até a geladeira e pegou uma garrafa pequena de cerveja, sentou-se numa poltrona e deu alguns goles. Seu olhar estava distante.

L assistia à cena secretamente pelas câmeras de segurança. Ele queria apenas se certificar de que ela ficaria bem.

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À noite, L escutava o áudio dos gritos de Chiara. Estava angustiado, odiava não poder ajudá-la enquanto ela se sentia assim, mas ele não poderia se permitir descuidar-se do caso Kira novamente.

O detetive pôde ouvir quando Chiara acordou. Alguns segundos depois, sentiu um frio na barriga com o que escutou.

— Queria que você estivesse aqui – sussurrou uma voz irregular, amedrontada.

L sabia que não era com Sam que ela estava falando.

Notas finais
O detetive acha que tem que escolher entre o trabalho e o amor, como se as duas coisas não pudessem coexistir. Cenas para os próximos capítulos