Apenas existindo
1 Tudo é sempre igual
Notas iniciais
Mais uma madrugada em claro, nem lembrava mais de quando havia ficado assim, apenas que estava… não sentia alegria, nem tristeza. Não sentia nada. Eu simplesmente estava ali, parado não fazendo nada além de tentar manter minha mente ocupada para tentar afastar aquela sensação de vazio. Mas infelizmente nem mesmo vídeos no YouTube ou ports no Instagram conseguiam afastar aquilo. No fim foi apenas mais uma noite perdida, aquilo estava sendo complicado de lidar. Principalmente porque estava afetando minha rotina.
Sempre há um momento em nossas vidas em que nos perguntamos o que fizemos e como fizemos… mas a verdade é que quando se chega aos vinte e cinco anos sem nenhuma expectativa de vida, suas cobranças deixam de ser internas e passam a ser externas. Principalmente quando todos vêem que você está totalmente confortável com a vida que leva, parece que ter uma boa vida é se matar de trabalhar enquanto vive um casamento infeliz. Eu não quero isso para mim, prefiro viver sozinho do que estar ao lado de uma pessoa que não me dá nada além de raiva e dor de cabeça
Costumam dizer que a família é a base de tudo, o que de certa forma é verdade já que uma família estruturada onde todos se apoiam a tendência é evoluir. Mas o que fazer quando se vive em uma situação totalmente oposta? Quando o único papel que sua família exerce em sua vida era o de que puxar para baixo e lhe atacar na primeira oportunidade que aparece, sem contar nas discussões onde independente do que é dito ou como ele se inicia. Você sempre será o errado, independente de qualquer coisa.
Minha mãe tem o péssimo hábito de sempre tirar conclusões antes de saber o que exatamente o que tinha acontecido, isso junto ao fato dela sempre querer estar certa a tornavam uma pessoa extremamente difícil de lidar quando o assunto era relacionado a questões pessoais. Por isso preferia passar mais tempo com meus amigos ou fazendo qualquer outra coisa do que nas reuniões familiares. Era mais fácil lidar com um ou outro completamente bêbado passando vergonha na rua do que com os comentários desnecessários de minhas irmãs.
Não me entendam errado, eu amo minha mãe e meus irmãos. Mas eles não eram as pessoas mais confiáveis do mundo quando se tratavam de tais assuntos, o que chegava a ser irônico levando em conta que qualquer um de meus irmãos daria a vida por mim. E podem ter certeza que daria o mesmo por eles, mas isso não muda o fato deles acabarem se intrometendo onde não são chamados e sempre dão opiniões que ninguém pediu. De fato eu tenho uma relação estranha com minha família.
Tudo isso junto a um relacionamento extremamente complicado que minha mãe vive com meu pai me fez entender que se eu quisesse algo teria que conseguir por conta própria, não importa qual fosse o problema. Eles estavam ocupados demais sendo tóxicos um com o outro, é impressionante como estão juntos há tanto tempo se não fazem outra coisa a não ser discutir. Talvez fosse apenas pela conveniência, não conseguia pensar em outra explicação. Mas aquilo não era problema meu, eles eram adultos e sabiam bem o que faziam com suas vidas.
— Inácio vem tomar café. — gritou minha mãe do andar de baixo.
Nem me dei conta que o céu já estava claro, para minha sorte eu só iria trabalhar mais tarde e isso não estava nem garantido. Afinal, não me disseram nada quando cumpri minha jornada de trabalho no dia anterior. Mas sempre era bom verificar, não queria me dar ao luxo de faltar ou de acabar indo trabalhar parecendo um zumbi por não ter dormido a noite. Acho que teria que começar a repensar minha opinião sobre o uso de remédios, não havia outro jeito.
Eu ajudo o marido de minha irmã em sua loja, não ganhava bem mas dava pra ajudar minha mãe e manter meus gastos que se resumiam em recarga para celular, transporte, motel e preservativos. Não quando saia para comer ou beber raramente gastava muito, pois meus amigos e seu sempre nos juntamos e fazíamos tudo na casa de alguém. Era prático, barato e seguro. Não tinha como algo grave acontecer se não estivesse em um lugar que me colocaria em situações de perigo. Mas isso não vinha ao caso.
Mas as coisas chegaram em um nível em que nem mesmo o sexo me animava… não lê vem a mal eu adoro sexo, tanto que tive um belo final feliz no encontro que tive na noite anterior com uma coroa que conheci em um desses aplicativos de namoro. Estratégia perigosa eu sei… mas não sinto mais a mesma vontade de antes para interagir com outras pessoas, nestes aplicativos as pessoas já entram sabendo o que querem, o que facilita tudo. Sem muita burocracia e com todos querendo a mesma coisa, não havia lugar melhor para buscar isso.
Apenas peguei meu celular e verifiquei as mensagens, como sempre meus amigos estavam fazendo planos de uma reunião que como nas outras vezes eu arrumaria uma desculpa para não ir. Adorava estar com eles, mas sempre fazíamos as mesmas coisas. Isso de certa forma me deixava pior, era como se eu estivesse me prendendo casa vez mais a uma rotina. Precisava evitar esses pensamentos mas não era fácil, principalmente quando minha vida segue um rumo incerto enquanto faço as mesmas coisas para tentar me distrair. Mesmo que os momentos ao lado deles fossem divertidos, não deixavam de ser monótonos, e eu estava tentando fugir de momentos assim pelo meu próprio bem. Era uma graça tentativa de não cair no abismo que já me encontrava.
Os conhecia desde a quinta série, passamos por tudo o que se pode imaginar, desde fugir da escola para jogar bola no quintal de uma igreja a quase ser baleado por um vigilante por estarmos em local proibido. E também de situações completamente absurdas como uma competição de punheta no fundo da sala, acho que isso deixa meio óbvio o nível de idiotice que temos. O que torna minha situação atual ainda mais triste, nem esses momentos de estupidez estavam me animando. Muitas vezes só saia com eles por educação mesmo, pois eles iam me buscar em casa e aí não tinha como dizer não. Mas minha vontade era de evitar sair com eles, pois já não valia mais a pena.
Apenas coloquei meu celular no bolso e desci para cozinha, costumo tomar café primeiro e só depois escovar os dentes. Podem me julgar se quiser, mas é impossível apreciar um delicioso café quentinho quando o gosto da pasta de dente ainda está em sua boca. Sem contar que minha mãe sempre comprava as pastas de dente com flúor, o que deixava tudo ainda pior. Eu sempre queria comprar tudo, mas ela sempre achou melhor eu entregar o dinheiro para ela, assim tudo era comprado de uma única vez e eu podia focar em outras coisas. Bem, eu não gostava de fazer compras mesmo, então não via muito problema nisso.
— Você dormiu? Sua irmã vai precisar de você. — reclamou minha mãe como sempre.
— Ela não mandou mensagem, então acho que não vou trabalhar hoje.
— E o que garante que ela não vai precisar de você?
Eu apenas peguei um pão e comecei a passar manteiga enquanto minha mãe não parava de falar sobre responsabilidade e que eu deveria mudar minhas atitudes, como sempre ela nem sequer perguntava como estavam as coisas no trabalho ou como eu estava. Não importa o que minha mãe falasse, eu não tinha mais vontade de responder ou discutir. Ela iria falar de qualquer jeito, então não faria diferença se eu ficasse calado ou não. Foi por essa e por muitas outras atitudes dela e de minha família que procurei um psicólogo sem ninguém saber, não que eu quisesse saber o que estava acontecendo, mas era necessário.
Acreditava que eu estava passando de forma tardia pela fase sadboy que tanto falam na internet e que logo logo eu estaria de volta cometendo várias loucuras com meus amigos e chupando bem gostoso a primeira mulher que me desse bola. Mas aí veio a única possibilidade que eu descartei era a correta, eu estava com depressão… a doença mais famosa da internet que sempre tem um babaca romantizando. Lógico que o doutor que eu procurei me disse todo aquele blá blá blá de que eu ficaria bem e que com o tratamento adequado eu viveria minha vida normalmente.
O foda é que eu não tinha grana nem para os medicamentos, muito menos pata as sessões de terapia… apenas deixei pra lá e segui minha vida acreditando que se eu levasse minha vida de boa isso passava. A maior merda que eu fiz na minha vida, quatro anos e isso só foi piorando… antes coisas básicas como ir para casa de meu melhor amigo beber e jogar videogame ou maratonar algum anime interessante me animava. Tudo se tornou um grande ciclo se repetindo, e isso era muito estranho.
Mas depois de um tempo nem o sexo me animava maís, fazia apenas para matar a vontade e depois sempre contava para a mesma rotina de sempre de cheguem casa, pedir benção de minha mãe e me deitar em minha rede ouvindo música. Uma vida ótima na visão daqueles que precisavam se matar pra sobreviver e ganhar seu pão de cada dia, mas meu problema é que essa doença não liga para classe social… atacava desde as grandes estrelas de Hollywood e bilionários a até perrapados como eu. Lidar com ela era difícil, pois aos poucos nem aquilo que mais nos dá prazer ajuda a manter nossa mente no lugar. Eu não estou gostando do caminho que essa doença está me levando.
Apenas terminei de tomar café e fui tomar banho e escovar os dentes, já que minha irmã não mandou mensagem até agora eu iria apenas deitar em minha rede e dormir. Não havia muito o que fazer em um fim de semana, mesmo com crianças em casa não havia muita bagunça e não queria ter que sair no sol quente caso fosse necessário. Manaus conseguia insuportavelmente quente quando queria, e o incêndio na biblioteca do centro deu uma piorada na situação aqui na zona oeste. Mas não havia o que fazer, o melhor é ficar em casa.
Depois do banho apenas peguei meu celular e fui ver as mensagens, para minha surpresa havia uma mensagem de voz de Leandro, meu melhor amigo. Talvez o dia fosse ficar um pouco mais interessante dali pra frente, qualquer coisa era melhor do que ficar deitado quase entrando em estado vegetativo. Talvez não fosse o suficiente para acabar com aquela sensação de vazio, mas ao menos iria manter minha mente focada em outra coisa que não seja isso.
"Fala cuzão foi trabalhar hoje"
— Fala jovem, mano hoje eu tô de folga… vou ficar só em casa mesmo.
"Então cola aqui caray, bora bater uma bola. O Júnior e o Gabriel vão vir de noite"
— Beleza mano, de noite eu tô aí.
"Mas vem mesmo pow, tu é só papo"
— Relaxa pow, dessa vez eu sim.
"Beleza então, falou…"
Eu não tinha nada pra fazer mesmo, porque não gastar o tempo me movimentando um pouco, mas a verdade é que isso não faria diferença. No fim do dia eu chegaria em casa, pediria benção de minha mãe, tomaria banho, iria deitar em minha rede para ouvir música até a fome chegar ou caísse no sono. Essa era minha rotina e não conseguia sair dela, o melhor a se fazer era aproveitar o momento da forma mais confortável e divertida possível. Não era uma solução para aquela sensação de vazio, mas ao menos assim os dias não passavam de forma tão monótona.
No fim das contas, tudo era sempre igual.
Fale com o autor