A essa altura do campeonato, já era para eu estar acostumada com estes momentos.

Porém, não estava.

Eu os odiava. Com todas as minhas forças.

Odiava que ele tinha que partir, mesmo sabendo que era o trabalho que ele escolhera.

Odiava não saber para onde ele estava indo.

Odiava a incerteza que missões assim traziam.

Odiava ter que viver tendo pensamentos positivos.

Odiava saber que ele estava indo, mas não ter uma data certa para sua volta.

Odiava ter que bancar a forte e segurar as lágrimas que teimosamente se aglomeravam em meus olhos querendo cair como uma cachoeira em minhas bochechas.

Odiava ter que dizer até logo, sabendo que esse logo era na verdade um tempo muito longo para ser se quer mesurado.

Odiava o fato de que um silêncio absurdo caía sobre nós nos dias que antecediam a sua partida.

Odiava sentir saudade de alguém que ainda estava ao meu lado, mas partiria em breve.

Odiava o aperto em meu peito quando arrumava os uniformes dele dentro da duffel bag.

Odiava vê-lo se vestir com a farda de combate, afivelar o cinto, limpar, conferir e testar as armas que carregaria com ele.

Odiava o fato que eu o ajudava a fazer isso.

Odiava a viagem até a base aérea de Andrews e a forma como ele segurava a minha mão, mais forte a cada quilômetro percorrido.

Odiava avistar os portões sendo abertos para nos dar passagem.

Odiava o silêncio pesado entre nós quando o motor da caminhonete jurássica de Sean era desligado e nós dois ficávamos olhando para frente, quando o que queríamos era olhar para o outro e nos perder em um abraço apertado, onde ele tentaria me levar com ele e eu tentaria fazê-lo ficar.

Odiava o suspiro que ele dava quando o nosso tempo se esvaia.

Odiava caminhar lado a lado e de mãos dadas até perto da aeronave, isso porque eu podia estar ali, não por ser esposa do chefe do batalhão, mas por ser analista da CIA.

Odiava os últimos momentos da sua presença ao meu lado.

Odiava o olhar que ele me dava quando sabia que não tinha mais como protelar o inevitável, o olhar que dizia “espere por mim”, “reze por mim”, “não perca as esperanças de que eu voltarei inteiro”.

Odiava saber que meus olhos respondiam “sim” a cada frase não dia por ele.

Odiava nosso último abraço, que não me dava conforto, mas sim desespero.

Odiava nosso último beijo, que tinha gosto da separação, da tristeza, da dúvida, da saudade, do pedido mudo para voltar para casa inteiro, da súplica para estar esperando por ele quando ele voltasse.

Odiava vê-lo subir a rampa do cargueiro e parar no alto para se virar para mim e com um aceno de cabeça dizer adeus.

Odiava aquele “eu te amo” dito sem som por ele quando me olhava por uma última vez.

Odiava escutar os motores do avião sendo ligados.

Odiava o som das engrenagens que levantavam a rampa de acesso.

Odiava saber que ele ainda estava ali de pé, no meio do avião, tentando ter um último vislumbre de mim.

Odiava ficar na ponta dos pés, mesmo estando de saltos, para poder ver seus olhos azuis pela última vez em sei lá quanto tempo.

Odiava o som do metal contra metal quando a rampa se fechava.

Odiava as lágrimas que agora caiam sem dó de meus olhos.

Odiava a ardência que o vento de outono causava em meus olhos molhados.

Odiava murmurar “eu te amo, volte para mim, Sean!”, quando o avião levantava voo e sumia no céu nublado, tão mal-humorado quanto eu.

Odiava ter que voltar para a caminhonete que eu tanto detestava, mas que nessas horas, me trazia conforto, a consolação de todos os momentos em que passei ao lado dele ali dentro daquela cabine, que rescendia ao seu perfume.

Odiava voltar para uma casa vazia, dia após dia.

Odiava saber que mesmo trabalhando na CIA eu não sabia nada do que ele fazia.

Odiava contar os dias no calendário até o momento em que poderíamos conversar novamente.

E odiava nossos pequenos momentos de conversa, via e-mail. Momentos roubados durante nossos empregos. Às vezes, quando déssemos sorte, conversávamos em tempo real, uma mensagem enviada para receber a resposta logo em seguida; porém, muitas vezes, eram longas as esperas por um mísero, “estou bem, também te amo.”

E assim, fazendo um x no calendário para cada dia que se passava, eu ia vivendo. Ou melhor, existindo.

Claro que meu trabalho não parava porque meu marido embarcou para uma missão, muito pelo contrário, aumentava. A segurança nacional e até mesmo a mundial, nunca esteve tão à beira de um colapso nos últimos 90 anos como agora, assim, todos os dias o meu ritual era o mesmo, acordar, checar meu e-mail, torcendo por uma mensagem de Sean, me arrumar, ir trabalhar, talvez de carro, talvez de metrô, dependia do dia e do meu humor, passar horas analisando dados e mais dados coletados por nossos informantes e também de conversas, ligações e outros eventos pelo mundo afora, para depois, tarde da noite voltar para casa, comer alguma coisa, tomar um banho, deitar na minha cama, abraçar o travesseiro com o qual Sean dormia e apagar por algumas horas, para começar tudo de novo no dia seguinte.

Em meu trabalho eu era responsável por todo o Leste Europeu e alguns pedaços do Oriente Médio, algumas vezes, minhas designações mudavam, dependendo de para onde Sean ia, pois se ele estivesse na área que era de minha responsabilidade, eu era obrigada a abrir mão dela e passar para um colega de trabalho para não haver conflito de interesses.

Bem, esse era o nome bonito que a Diretora da CIA, vulgo Rainha de Gelo de Langley, também conhecida como Sra. Shepard-Gibbs, ou simplesmente minha mãe e chefe, me disse. Mas na verdade, eu e ela sabíamos que era uma releitura de uma das regras de meu pai, a regra 10.

Nunca se envolva pessoalmente em um caso.

Assim, eu nunca tinha acesso ao que acontecia em tempo real com meu marido. Apesar de saber que se algo muito ruim acontecesse, a notícia chegaria primeiro a mim, depois à diretora, para só então alcançar os Fuzileiros. Afinal, nada fica completamente em segredo dentro dessas paredes.

Era uma sexta-feira fria, chuvosa e com muita neblina, tanta que mal se via dois palmos à sua frente na hora de dirigir, e eu agradeci aos céus o fato de que cheguei inteira ao serviço, sem bater meu carro.

Comecei a manhã em uma reunião de divisão de nova tarefas e designações, para depois começar o meu trabalho de inteligência. Passei o restante da manhã e boa parte da tarde sentada em minha cadeira, analisando documentos de missões antigas, para saber como e onde começar a me certificar que a informação de um contato era verídica.

Temendo ter que parar na Alemanha para garantir a veracidade, resolvi por investigar a vida deste contato. Não o conhecia pessoalmente, mas já ouvirá falar sobre.

Acontece que minha intuição me dizia que tinha algo muito estranho nisso tudo.

Duvidando do que tinha em mãos e da informação passada, uma vez que nenhum contato que eu tinha na área havia me avisado de mudanças iminentes na situação da guerra, resolvi ligar para uma amiga que tinha na Inteligência Europeia.

Conferi as horas no meu relógio de pulso e vi que era tarde demais para uma ligação, então resolvi por um e-mail.

Abri o aplicativo de e-mail, e em um texto que, se lido por qualquer pessoa não acostumada com o linguajar das forças de inteligência pareceria duas amigas fofocando sobre uma terceira pessoa, perguntei a quantas ia a situação nos antigos países da Cortina de Ferro e se a Rússia estava para aprontar alguma coisa que nós ainda não tínhamos ouvido.

Enviei desejando tudo de bom para seus filhos, que na verdade eram seus quatro peixes palhaço, e esperava que até segunda à tarde, ela me respondesse com alguma informação que me fosse útil.

Com os olhos ardendo de tanto olhar para telas e mais telas, estava por encerrar o expediente, deslogando das contas oficiais do governo, quando na minha conta pessoal de e-mail, chegou uma notificação.

Achando que era mais um dos milhares de e-mails de propaganda que recebo por dia, estava por ignorar, mas, de curiosa, abri a barrinha para ver a seguinte mensagem:

Tentando a sorte, será que você está por aí?

Nem acreditei que era de Sean, na verdade, já tinha quase três semanas desde nosso último e-mail, e depois ele não pode mandar mais nada.

está de folga hoje?” – Mandei depressa, torcendo para que ele ainda estivesse logado na conta, afinal e-mails são a única maneira de comunicação.

Chegando na base, mas é tudo o que posso dizer.”

“Eu sei, mas, você está bem, todos do pelotão estão?”

“Já tive dias melhores, você sabe, mas nada que preocupe.”

“Tem certeza?”

“Liz, vamos focar em outras coisas, por favor.”

Eu sabia que ele não poderia falar muito sobre o que estava fazendo, mas eu precisava saber se ele estava bem, se estava inteiro.

“Última pergunta, você está realmente bem?”

“Com uma dor nas costas que não passa e sentindo falta da nossa cama, fora isso, estou bem, de verdade.”

“Sente falta da cama, mas não de mim, que marido que fui arrumar! Mas para seu governo, não posso dizer que a cama sente a sua falta, mas eu sinto.”

“Também sinto a sua falta, Lizzy. Mais do que você imagina, ainda mais em dias assim.” – Ele deixou escapar e eu fiquei intrigada, porém, pelo bem de nossa conversa deixei passar, ou era bem capaz que bloqueassem ele.

“Vai descansar no final de semana?”

“Talvez. Por quê?”

“Para ver se poderemos conversar mais. Já se passaram quase três semanas desde seu último e-mail.”

“Fique com a notificação do aplicativo ativada, nunca se sabe. Está em casa?”

“Na verdade, ainda no trabalho. Literalmente fazendo uso da máquina pública para conversar com você.”

“Se te pegarem, não tem quem te salve da ira da diretora. Ouvi dizer que ela não perdoa ninguém.” – Ele fez piada da fama da sogra que era tão ruim que até o Alto Comando dos Fuzileiros tinha medo dela, e olha que eles conheciam o marido muito bem. Porém, quando se tratava da Diretora Shepard, todo cuidado era pouco, afinal, ela não ressurgiu dos mortos à toa e muito menos foi diretora do NCIS e da CIA só por ser bonita, mas sim por ser extremamente competente e impor a sua presença seja aonde for.

“Também ouvi boatos sobre isso. Mas não creio que ela vá se preocupar com uma reles analista trocando e-mails com o marido depois do expediente...”

“Espero que não ou nossa conversa será interrompida. E então, fazendo o que?”

“Desde que você embarcou?”

“Sim. Aposto que coisas mais emocionantes do que eu.”

“Nada de novo, só trabalhando.”

“Só no trabalho, Liz?”

“Você conhece minha rotina.”

“E sei que você sai para tomar um café com a maluca da Elena uma vez por semana. Como vai a segunda gravidez dela?”

“O bebê vai bem, já o casamento dela...” – Deixei no ar, não era segredo para ninguém que desde que Elena assumiu um posto no FBI, depois de ser mãe de gêmeos, seu casamento começou a ruir. Toda a paixão que acompanha o casal desde o ensino médio começou a se esvair e nem a segunda gravidez de minha amiga estava sendo a tábua de salvação que ela achou que seria.

Assim, Elena está cada dia mais aflita, o que afeta o bebê, outra menina, e seu desempenho no trabalho. Ela bem tenta disfarçar, ainda mais na presença do Diretor do FBI, contudo, as coisas não vão bem e toda semana, quando nos encontramos, por uma hora ela desabafa e chora as pitangas da vida, desde o comportamento de Chris, até o fato de que ela não conversa mais com o próprio pai desde que ele a suspendeu de suas funções naquela fatídica operação que culminou com meu sequestro; eu não ligo, minha vida, neste exato momento não está das melhores, assim, prefiro ajudá-la a resolver os seus problemas do que voltar para casa e ficar sozinha, lendo um livro que não prestarei a atenção, já que meu pensamento está do outro lado do mundo.

“Eles vão superar. Não é a primeira crise. E todo mundo conhece os dois, Elena não é lá muito equilibrada das emoções estando grávida e Chris não sabe como balancear os humores da esposa. E não se esqueça que eles têm Thomas e Paget... vão se acertar.”

“Não sei, Sean, a coisa está mais séria do que você pensa, só conversando com Elena para entender. Porém, enfim, não foi para falar de outras pessoas que você me chamou.” – Tentei desviar o foco da conversa e voltar para ele, afinal, estava morrendo de saudades de meu marido.

“Não, queria mesmo era te ver, mas parece impossível. Os poucos computadores com câmeras estão sempre ocupados.”

“Saudades de quando nós podíamos nos ver pelo MTAC...” – Voltei no tempo.

“Quem diria que sentiríamos saudades de nossas conversas que eram monitoradas pelo seu pai!”

Soltei uma gargalhada ao pensar nisso. Quantas vezes meu pai não deu um jeitinho para que eu pudesse ver Sean quando ele estava embarcado? Tudo bem que eram pouquíssimos minutos e por todo o tempo meu pai ficava na sala, sentado no fundo, escondido pelas sombras, mas sempre com um pitaco para dar, além, é claro, de sempre encerrar a chamada de vídeo chamando Sean de “Marine Suicida”.

“É, eram bons tempos. Ainda mais o seu apelido...”

“Faz tempo que meu sogro não me chama de Marine Suicida. O que será que aconteceu?”

“Ele agora está concentrado em outras coisas, e que graça tem te intimidar agora que a vaca já foi pro brejo? Deveria ser divertido quando nós nem morávamos juntos, só para te assustar, hoje o máximo que ele pode fazer e pedir para seu superior para que você fique mais seis meses longe de mim... O que também não é viável, já que se eu tiver que chorar de saudade, vai ser no ouvido dele...”

“Deve ser por isso.”

“E ele não quer uma filha viúva antes dos 30 anos... imagina os pesadelos que ele tem só de imaginar viver todo o drama de conhecer o novo namorado da filha?” – Brinquei.

“Vamos voltar ao assunto anterior, por favor, não gostei desse papo de você me esquecendo tão rápido.”

“Ui.. ele é sensível.”

“Elizabeth!”

“Tudo bem, parei com a brincadeira”

“E então, o que você vai fazer no final de semana?”

Olhei para minha mesa e para os arquivos que ainda tinha que analisar, não seria o final de semana mais animado da minha vida...

“O de sempre, um pouco de trabalho, arrumar a casa, tentar reviver aquela coisa velha que você chama de carro, e, se der sorte, garantir uma refeição de graça na casa de meus pais.”

“Mais nada?”

“Talvez serei babá também, Elena está precisando de um tempo às sós, assim devo tomar conta dos gêmeos, e você sabe, Tali acaba por aparecer também, e com ela vem a Victoria... a casa vai estar cheia.” – Deixei de mencionar que mesmo cheia, estaria vazia, pois estava faltando ele.

“Por favor, só cuidado para os gêmeos não destruírem nosso apartamento, já basta terem aprontado na nossa festa de casamento.”

“Tirarei todas as flores e bolos da frente deles, pode ficar despreocupado!” – Brinquei.

“Depois você me conta como foi a aventura de ser babá dos gêmeos.”

“Você sabe como é, já me ajudou a tomar conta deles! Mas como cada dia é uma história diferente, eu te conto sim, se eu não aparecer por aqui na segunda com um relato detalhado da estadia deles lá em casa, procure nas páginas policiais, porque eles aprontaram tanto, que paramos lá!”

“Até parece que você deixaria isso acontecer!”

“A mãe deles colocou fogo em um restaurante no dia dos namorados, você ainda duvida do potencial destrutivo daquelas duas criaturinhas?”

“E você me nocauteou...”

“Você pediu por isso! Aliás, você não tem nem provas disso, pois não ficou cicatriz!”

“Tenho minha ida ao hospital!”

“Você falou que bateu a cabeça no armário... portanto, eu não sou culpada de nada. Sem corpo, sem crime!”

Fiquei esperando a reposta sarcástica de Sean, algo no estilo de que eu conhecia as pessoas certas para encobrir o que eu fazia de errado, porém, esta demorou, e só veio a seguinte mensagem:

“Liz tenho que ir, vamos tentar isso na semana que vem? Te amo.”

“Também de te amo!” – Mandei em seguida, mas ele já estava desconectado.

Eram nove da noite de uma sexta-feira, estava sozinha na sala, então resolvi por guardar as pastas e levar somente o necessário para casa.

Estava no corredor, meus saltos ecoando no lugar, quando escuto outro par de saltos fazendo tanto barulho quanto os meus.

- Está um pouco tarde para você ainda estar aqui, não acha? – A voz de minha mãe soou alta.

Parei onde estava e me virei na sua direção, esperando que ela me alcançasse.

- É, perdi a noção da hora. – Respondi.

- Não é porque Sean não está no país que você tem que ficar fazendo hora extra. – Ela me disse.

Dei de ombros.

- Estava adiantando algumas coisas, pois vou bancar a babá para Elena nesse final de semana, e depois consegui conversar um pouco com Sean.

- E como vai meu genro?

- Até onde ele falou, vivo. Qualquer outra informação a senhora vai ter que buscar com a Corporação.

Ela deu uma risada.

- Mas, mudando de assunto, está de carro?

- Sim. Por quê?

E a Diretora Shepard só chamou por seus seguranças e os dispensou, dizendo que tinha uma carona diferente para casa hoje.

- Isso é sério?

- Eu cansei de fazer isso quando você ainda estava no ensino médio, Lizzy. Por que não posso fazer quando você já é altamente treinada para me defender?

- Por que a senhora é minha mãe E minha chefe? – Destaquei a preposição.

- Não me faça te chamar pelo nome completo! – Olhou de forma meio enviesada para mim, aquele mesmo olhar que colocava medo em muito marmanjo por aí.

- Tudo bem, vamos de carro, mas saiba que não terá o conforto dos carros oficiais ou do seu próprio carro. Ainda recebo pouco e não pude comprar o carro que eu quero. – Avisei.

- Isso é um aviso disfarçado de pedido de aumento, Elizabeth Shepard-Gibbs?

- Soou como um? – Perguntei inocentemente enquanto observava os arredores do estacionamento.

- Não tente disfarçar como seu pai sempre faz!

- Talvez sim, talvez não... mas serve de alerta.

- Alerta de que a minha filha ainda não conseguiu comprar o carro dos sonhos dela...

- Isso também.

- E que carro seria?

- Eu ficaria contente com um SUV da Volvo.

- Só isso?

- Mãe! Eu tenho que pagar o empréstimo do apartamento também! – Falei injuriada parada diante do meu carro de segunda mão.

E aqui minha mãe me deu uma rasteira.

- Se você gastasse menos com sapatos de grife, talvez já teria comprado o carro. – Ela disse debochada, olhando para os meus pés que ostentavam um par de sapatos da mesma marca que os dela, porém de cor diferente, e depois entrou no carro.

Corri para a porta do motorista e logo que coloquei minhas pastas no banco de trás, respondi:

- Para alguém que foi criada indo a bailes onde a Realeza Britânica estava, que voou de primeira classe para a Europa, que dirigiu os carrões que a senhora tinha, eu estou sofrendo muito na vida adulta para conseguir manter o padrão... aliás, devo dizer, meu padrão abaixou há muito tempo!

- Dramática! – Foi tudo o que eu ouvi, mas era melhor do que um: “está sofrendo assim, sendo uma reles funcionária pública, porque se casou com a pessoa errada, pois pretendentes ricos não faltaram, já que é a filha da diretora da CIA”, que eu um belo dia ouvi da esposa de um diplomata de nossa país de quem fazia a segurança.

Fiquei calada por um tempo até que pegamos a estrada que nos levaria à Alexandria, foi minha mãe quem quebrou o silêncio:

- Planos para as suas férias?

- Nenhum. Não sei quando Sean volta, assim estou pensando em adiá-las e só tirar quando ele voltar para o país, assim, quem sabe, poderemos viajar para algum lugar.

- Não concordo. Você está a quase dois anos sem férias, não saiu nem de lua de mel, pois Sean foi chamado às pressas, deveria descansar um pouco agora e quando ele voltar, você pode compensar todas as horas extras que vêm fazendo.

Fiz uma careta.

- É um conselho de mãe, Lizzy. E de uma pessoa que fez muito isso e chegou a um ponto que teve que parar por estar esgotada.

Levantei uma sobrancelha para o que ela disse, um tanto incrédula.

- Isso foi antes de você sequer nascer, acredite em mim. – Ela disse, respondendo ao meu silêncio.

- Vou ver o que farei. – Disse, já que minha mãe me encarava, esperando por uma resposta minha.

- Isso é o melhor que você pode fazer, Lizzy.

- É a única resposta que tenho agora. – Murmurei.

Claro que minha mãe não gostou do que eu falei e ficou murmurando coisas como “isso ela puxou de Jethro” e “porque tinha que pegar as piores manias dele?”

Coitado do meu pai, nem por perto estava e ainda levava a culpa!

Acabei jantando na casa de meus pais, matando a saudade do bom e velho stake assado na lareira, só não teve a cerveja porque, primeiro, eu estava dirigindo, e segundo, eu não bebo.

Fui para casa tarde da noite, na verdade, já era madrugada de sábado quando entrei em meu apartamento, joguei a bolsa e as chaves em qualquer lugar e depois fui para o banho, desmontei em minha cama abraçando o travesseiro de Sean.

No sábado cedo ouvi a campainha tocando, revirei na cama e ignorei o som, mas seja lá quem estava do outro lado, insistiu até o ponto de quase queimar a bendita.

Levantei praguejando e assim atendi a porta.

- Bom dia, tia! – Paget pulou na minha frente, querendo colo.

- Bom dia! – Falei ainda com sono. – E você, Campeão, como vai? – Acariciei a cabeça de Thomas.

- Com sono. – Ele respondeu, se esgueirou pelo espaço que tinha sobrado entre a porta e eu e se jogou no sofá, caindo imediatamente no sono.

- Bem... pelo menos um não vai me dar trabalho. – Murmurei e me virei para a mãe da dupla.

- Bom dia, Mortícia! Como vão?

Elena me lançou um olhar mortal.

- Você se atrasou para buscá-los!

- Eu tinha que ter ido na sua casa para pegar os dois?

- Não é isso que babás fazem? – Ela respondeu de uma vez.

- Elena, não sou sua babá, estou tentando de ajudar. Não desconte em mim, e nem neles, os seus filhos não são culpados pela sua fase ruim no casamento. – Falei um tanto azeda.

Elena suspirou e depois só murmurou:

- Eu sei. É só que tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e eu estou um tanto perdida. Eu estou sentindo que a vida que eu sonhei em ter e comecei a construir com pressa, está ruindo aos poucos.

- Eu não tenho conselhos quanto a isso, Elena, mas só digo uma coisa: às vezes não vale muito a pena se apegar ao passado. Ainda mais quando você está sofrendo.

- Eu sou mãe!

- De que vale você pensar neles – olhei para dentro do meu apartamento, onde Paget, que tinha escorregado de meus braços e agora atacava o pote de biscoitos. – se eles crescerem em um lar sem amor e em uma família quebrada? O exemplo de família vem da infância, Elena, o que eles terão de base para vida vem de agora. Ver a sua infelicidade, ver as reações forçadas de Chris, marcarão esses dois e o que está por vir.

- E como você sabe de tudo isso se não é mãe?

- Órfã de pai e mãe, se lembra? Eu perdi tudo, Elena, e ainda bem que teve alguém que me acolheu e me deu uma segunda família. Sem meu pai, o que eu seria? Onde eu estaria hoje?

Elena fez uma careta e depois só meneou a cabeça.

- Vai dar conta de tomar conta dos dois? – Perguntou vasculhando o apartamento à procura dos filhos.

- Daqui a pouco Tali e Victoria chegam também, vão me ajudar.

- Eu passo aqui para pegá-lo amanhã ou você leva?

- Me avisa, caso queira mais uma noite de folga dos filhos.

- Tudo bem.

Ela entrou, se despediu dos filhos e antes que ela entrasse no elevador, eu gritei:

- Coloque-se em primeiro lugar, Elena!

Fechei a porta e encontrei Paget agarrada ao pote de biscoitos de chocolate, enquanto Thomas roncava alto no sofá.

- Deixe um pouco...

- Ele tá dormindo, tia! – A garotinha me cortou, apontando para o irmão.

— Eu ia dizer deixe um pouco para mim!! Também amo chocolate!

- Ah! Para você eu deixo! – Ela me respondeu com um sorriso cheio de dentes sujos de chocolate.

- Obrigada.

E enquanto Paget se deliciava com os biscoitos e Thomas dormia um sono solto no sofá, troquei minha roupa, arrumei minha cama e ainda consegui colocar roupa para lavar.

Não vou dizer que meu dia foi um morango, não foi, mas foi divertido ver o quanto os gêmeos são estabanados. É uma preocupação constante com os dois, porque a qualquer minuto algo de muito inusitado pode ocorrer, como Paget que tropeçou e caiu de cara no sorvete, ou simplesmente se esqueceu que estava de tênis e saiu procurando por eles pela casa.

Foi bom também porque os dois saíram daquela casa com um clima pesado, puderam brincar à vontade no parque, junto com John e Morgan, além de terem mais duas babás de olho, no caso Tali e Victoria.

Passei dois dias sem nem olhar para meu serviço, apesar de que ele me esperava no canto da sala, porém, o mais importante foi que eu me diverti, sério, mesmo como babá das duas crianças mais alopradas do planeta, foi bom poder arejar a cabeça com outras coisas a não ser trabalho e o paradeiro de meu marido.

E, quando no domingo à noite, na hora em que fui levá-los para casa, depois de uma dose cavalar de açúcar, os dois falavam sem parar, um atropelando as palavras do outro, me dando mil e um motivos para que fizéssemos isso todas as semanas.

- Todas as semanas não é possível, gente. – Respondi olhando para os dois pelo retrovisor do carro.

- Mas tia, tem que ser! – Paget clamou.

- E por quê?

- Porque só com você a gente pode brincar, correr, gritar. O papai não deixa.. e a mamãe está preocupada com o bebê.

- Quando não está chorando, né? – Thomas falou.

- Outro dia vi a mamãe chorando, quis perguntar o motivo, mas fiquei com medo... ela tá sempre chorando agora. Chora todo dia. – Paget me deu a informação completa.

E eu não gostei de saber que eles já tinham presenciado os problemas que rondavam a família.

- Eu queria ligar para a vovó e para o vovô... – Thomas começou. – Mas tem um tempão que eles não vão lá em casa. Acho que não gostam mais de nós.

- Não diga isso. Jamais diga isso. Seus avós, assim como seus pais, amam muito vocês. Às vezes a vida de adulto é um tanto complicada, e não temos tempo suficiente para fazermos tudo o que queremos e deveríamos fazer, mas não é porque não nos vemos com frequência, que deixamos de amar as pessoas.

- Como a senhora sabe disso?

- Experiência. O tio de vocês está longe há quase dois meses, e nem por isso eu deixei de amá-lo.

- Já que é para ser assim, eu jamais quero crescer. Quero ficar pequena para sempre.

- É, Paget, eu também queria, se você, um dia, encontrar a fórmula para a eterna juventude, me avise, porque eu vou querer tomar.

- Tá bom, tia. Eu te aviso. – A garotinha levou a sério o que eu falava.

Com pouco parei na frente da mansão da família Evans, e, não sei o motivo, mas não tive um bom pressentimento.

- Devagar os dois. – Alertei a duplinha que já tirava o cinto e tentava desde do assento elevado.

Desliguei o carro e dei a volta, libertando primeiro Thomas, depois Paget. De mãos dadas com os pequenos caminhei pela entrada até parar no pórtico suntuoso para tocar a campainha.

- Não precisa, tia. A chave reserva fica escondida aqui. – Thomas me mostrou o vaso de flor onde a chave deveria estar.

- É sempre educado bater antes, Thomas, mesmo que você more na casa. Nunca se esqueça disso.

Ele fez que sim coma cabeça e logo escutamos passos vindo em direção à porta. Foi Chris quem a abriu e só pela feição dele eu sabia que a conversa dele e de Elena não tinha ido bem, isso e o fato de que não havia aliança em sua mão esquerda.

- Boa noite, Elizabeth. – Ele me cumprimentou.

- Oi, Chris. Vim trazer os pequenos.

Ele lançou um olhar nada feliz para os filhos e deu um passo para o lado, indicando que era para os dois entrarem. Thomás, como sempre, passou correndo e logo escutei ele conversando com alguém. Já Paget ficou do meu lado, encarando pai.

- Anda, Paget, entra.

- Cadê a mamãe?

- Lá dentro. – Ele foi frio com a garotinha.

Vi que a menina iria fazer mais alguma pergunta, então pelo bem dela, tendo em vista o humor sombrio do pai, só disse:

- Vai lá ver como ela está, Paget. Sei que ela está com tanta saudade de você quanto você dela.

A menina assentiu e, antes de entrar, me deu um abraço apertado, pediu licença para o pai e foi cabisbaixa para dentro.

Fiz menção em perguntar sobre minha amiga, contudo, antes que eu pudesse tomar um ar, Chris me agradeceu e bateu a porta na minha cara.

Fiquei quase um minuto encarando a porta fechada, sem entender o motivo de tanta rispidez.

Voltei marchando para meu carro e de lá tentei ligar para Elena. Ela não me atendeu, então parti para uma mensagem

Não sei o que aconteceu, mas se você precisar de mais do que um ouvido para escutar as suas lamúrias, sabe onde eu moro. Não é uma mansão, mas cabe você e os meninos.

Esperei pela resposta, mas não recebi nenhuma. Preocupada ainda fiquei observando a casa, contudo, antes que algum vizinho achasse que eu era um perigo em potencial, liguei mau carro e sai dali, esperando lá no fundo que minha melhor amiga desse sinal de vida antes que eu precisasse recorrer à turma do FBI.

Minha semana passou rapidamente, Elena só foi me dar notícias na quinta, quando confirmou o divórcio, mas não entrou em detalhes, me agradeceu pela oferta de um lar temporário, mas disse que por enquanto ficaria onde estava. Depois disso não falou mais nada e pediu que eu não aparecesse, já que seus sogros estavam na cidade e tentavam, junto com Chris, achar um meio termo aceitável para que o iminente anúncio da separação não prejudicasse a carreira política dele.

- Até parece que a carreira dele é o que mais importa agora. – Murmurei sozinha pelo apartamento.

Se a vida de minha melhor amiga tinha virado de ponta cabeça em uma semana, a minha seguia no mesmo ritmo de sempre, passava a semana trabalhando e esperava pela noite de sexta para poder conversar com meu marido que estava do outro lado do mundo.

Bate papo hoje? – Mandei o e-mail.

Esperei alguns minutos, ainda resolvendo problemas do trabalho e nada.

- Será que foi cedo demais? – Questionei a mim mesma, tentando me lembrar do horário da nossa conversa da semana passada.

Tudo bem... pelo visto hoje não é seu dia de folga. Manda um oi quando puder falar, ou só para avisar que tudo está bem. Te amo. – Mandei quase uma hora depois, já que não obtive resposta da primeira mensagem.

Resignadamente desliguei meu computador e guardei minhas coisas, indo para casa com uma sensação estranha no peito.

Na semana seguinte o mesmo aconteceu, mandei mensagens e nada. O mais estranho era que nem mesmo uma simples mensagem me fora enviada.

Sean estava em algum lugar incomunicável.

- Agora mais essa. – Suspirei frustrada, encarando a tela do computador.

O fim de semana trouxe o anúncio público do fim do casamento de Elena e Chris, uma nota conjunta, claramente escrita por assessores de imprensa que tentavam o máximo salvar a imagem pública do congressista, mas não colocavam luz nenhuma na questão principal, os filhos do casal.

- É, tanto trabalho para nada. – Comentei com minha mãe, já que nós duas estávamos voltando da aula de yoga.

- Isso se chama política, filha. Primeiro a imagem pública, o restante pode muito bem ser esquecido. E você, tem falado com Elena?

- Bem que tentei, mas ela não responde a nenhuma das mensagens que mandei, pelo visto estão tentando mantê-la o mais distante possível de qualquer pessoa que possa ser fonte de informação.

Minha mãe achou isso estranho, murmurou algumas palavras que não entendi e depois trocou de assunto, passando a falar da festa de aniversário de Tali.

É assim a vida seguiu, Elena finalmente deu notícias, tinha ficado na casa onde morava enquanto casada, pelo menos até o bebê o nascer e também tinha tirado uma licença do FBI, como isso foi possível ela não entrou em detalhes, mas apenas disse que o pai tinha lhe ajudado e muito.

O aniversário de Tali chegou e me era inconcebível que ela já estava entrando na adolescência. Como assim? Parece que foi ontem que ela apareceu em nossas vidas!! Como já poderiam estar falando em faculdade? E em uma viagem dela sozinha? Não, peraí! Tempo pode parar! Estou mandando.

Só que o tempo não para e essa festa era a prova disso.

E por falar em tempo, tinha alguém que estava sumido há semanas.

Mesmo com a vida seguindo e as notícias chegando, eu continuava com a esperança de que Sean iria me responder nas noites de sexta-feira.

Mandava uma mensagem, pegava um salgadinho, um refrigerante, ou qualquer outra coisa que quisesse comer, e começava a esperar. Agora já fazia isso de casa, para que ninguém me enchesse a paciência, caso me vissem à toa depois do horário, com o computador ligado.

E mesmo assim, não tive nenhuma resposta.

Uma, duas, três semanas sem nenhuma resposta era até comum, até aceitável, mas dezesseis? Já tinham se passado quatro meses sem nenhuma atualização, nenhum e-mail vindo dele.

Como esposa de militar eu sabia que isso era comum, que nenhuma notícia era melhor do que aquela notícia.

Porém, como filha de agente do NCIS e da Diretora da CIA e como uma agente federal eu sabia que algo tinha acontecido, lá no fundo eu sabia.

Agora como conseguir essa informação era outra história. Eu não podia simplesmente chegar na base onde Sean servia e perguntar, muito menos tentar arrancar, e essa era a expressão correta, a informação dos agentes que cuidavam do Oriente Médio à força, se é que ele ainda estava nessa região do mundo, por mais que eu quisesse. Também não podia chegar no NCIS e pedir para alguém – Tony – mexer os pauzinhos para mim e conseguir o paradeiro do batalhão.

Eu tinha que ser sútil, delicada, desinteressada quanto a isso.

Mas eu conseguiria não chegar chutando uma porta e clamando por respostas?

É, eu não conseguiria.

Claro que não.

E, numa bela manhã, quando eu estava decidida a invadir um computador de um de meus colegas de profissão, fui surpreendida com uma batida em minha porta.

Desconfiada com o horário da visita, olhei pelo olho mágico e vi dois homens com uniformes completos dos Fuzileiros.

Meu corpo inteiro gelou, minhas mãos começaram a suar, com muito custo, consegui virar a chave e a maçaneta.

- Bom dia. – Minha voz saiu sem vida.

- Senhora. – Eles tiraram o quepe em sinal de respeito.

- O que aconteceu com meu marido? – Perguntei de uma vez, já que eles estavam aqui, a notícia não era boa.

- Foi considerado desparecido em serviço há dois meses e, depois de encerramos as investigações...

- Por favor, não diga as palavras que você ia dizer. Eu te imploro.

- Senhora, eu preciso.

- Eu sei o que você vai dizer. Acredite em mim, venho de família de militares. Não precisa. – Gaguejei o final, tentando manter as lágrimas sob controle. Eu não poderia chorar agora, não poderia perder o fio de esperança. Porque se as palavras malditas não forem ditas, não será real.

- Nosso Comandante espera a Senhora, em até uma semana, para recolher os pertences do Subtenente.

Aquiesci com um menear de cabeça, era o máximo que eu faria.

- E aqui está a carta. – Ele me estendeu um envelope branco. – A tradição...

- Manda que se deixe uma carta para um ente querido escrita para o caso de algo acontecer. – Completei.

- Exatamente, senhora. Aqui está.

Peguei o envelope no automático. Não acreditava que isso estava acontecendo. Era inconcebível.

Inaceitável.

Sean não poderia ter...

Recusei-me a completar a frase.

O soldado de primeira classe e o sargento mestre de artilharia ainda estavam falando algo, deveria ser importante, contudo, eu não conseguia compreender mais nada, só conseguia ficar olhando para o envelope em minha mão e tentando entender como foi que isso foi acontecer com Sean. Como foi acontecer comigo.

- A senhora entendeu o que tem que fazer?

Encarei os dois fuzileiros que permaneciam firmes na minha frente.

- Eu... eu acho que sim. – Murmurei.

Eles notaram que eu não havia entendido nada, mas foram gentis o bastante para não me pressionarem. Com uma continência perfeita e sincronizada, se despediram e rumaram para o elevador.

Eu fiquei observando as suas costas até que sumiram quando as portas se fecharam.

Eu não conseguia me mexer, não conseguia falar, meu mundo parecia que tinha parado de girar, de existir.

Não sei quanto tempo eu fiquei parada no corredor do prédio, olhando em direção ao elevador, esperando por alguém que não viria mais. Deve ter sido muito tempo, pois só fui sair do transe quando minha vizinha de porta me cutucou no ombro.

- Está tudo bem, Elizabeth?

Encarei a Sra. Murdock, tentando me fazer presente.

- Não. Não está. – Minha voz soava morta, como se tivesse horas que eu não tomava um mísero copo de água.

- Elizabeth, tem quase quatro horas que você está nessa posição. Tem algo que eu possa fazer por você?

À menção a quatro horas parada na mesma posição tinha que ter feito eu me mexer, ou pelo menos ter arrancado uma reação mais enérgica de mim, mas não foi isso que aconteceu.

- A menos que a senhora possa trazer Sean de volta para casa, eu creio que não. – Respondi rudemente.

- Ah! – Ela pareceu entender o que se passava. – Eu sinto tanto!

Eu não queria condolências, eu não queria a simpatia de estranhos que me diriam que sabiam pelo que eu estava passando. Eu queria meu marido de volta. Eu queria o Sean de volta. Depois de tanto tempo do lado dele, eu não sabia o que era viver sem ele.

- Eu também. – Murmurei. – Preciso... eu preciso entrar. – Expliquei sem motivo algum, tentando dar um sorriso que de tão forçado doeu em minhas bochechas. – Com licença. – Murmurei e me virei para meu apartamento, as lágrimas que não caíram na presença dos fuzileiros que me trouxeram uma das piores notícias e nem nas últimas quatro horas resolveram cair agora.

E não eram lágrimas normais, era uma torrente de dor e desespero. Eu não chorava, colocava minha alma para fora. A dor foi ficando tão insuportável que somente as lágrimas não foram suficientes para externá-la, assim comecei a soluçar e quando vi, murmurava o nome do meu marido sem parar, como se chamá-lo fosse fazer com que ele se materializasse na minha frente.

Eu chorei por horas, vi a luz do sol ficar mais forte, vi ela virar e o dia começar a se acabar.

No fundo de minha mente algo me informava que eu deveria ligar para alguém, avisar do acontecido.

Todavia, eu não queria sair de onde estava, eu não tinha vontade. Pela primeira vez na minha vida eu não queria reagir a mais nada. Eu queria que o mundo acabasse e me levasse embora.

Ouvi ao longe o som de algo se quebrando e pouco depois alguém me sacudia. Não me dei o trabalho de olhar, para ver que era.

- Deixe-me em paz! Eu só quero ficar aqui. – Respondi. Será que era muito difícil de me deixarem quieta, sozinha? Vivendo a minha dor até que tudo virasse um nada?

Vozes foram ficando mais e mais altas, o mundo pareceu entrar em foco quando a luz foi acessa. Piscando para tentar me adaptar à claridade, notei que não estava sozinha.

Minha família estava comigo.

- O que vocês estão fazendo aqui? – Perguntei um tanto desorientada, eu queria voltar para o nada, para o escuro, lá era reconfortante, o vazio era calmo, na realidade era dolorosa e barulhenta.

- Ah, Lizzy! – Minha mãe me abraçou. – Por que não me ligou?

Eu tinha que ligar para alguém? Por quê? Era a minha dor...

Mal distingui as demais vozes, mas sabia que tinha mais gente ali, eu quase gritei para que fossem embora. Mas tudo o que fiz foi me levantar e atravessar o corredor em direção ao meu quarto.

Tranquei a porta, me joguei na cama e fiquei ali, na escuridão, até que fosse capaz de não sentir mais nada.

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Bom, a vida segue, mesmo que você não queira, mesmo que o passado seja muito melhor do que o presente, mas ela segue.

E não podemos viver do luto para sempre.

Foi isso que eu percebi depois de uma semana trancada dentro do meu apartamento.

Por mais que eu quisesse me ater às memórias, eu precisava viver. Eu tinha uma vida, da qual eu não estava gostando muito, tinha uma família, um emprego.

E quinze dias depois daquela manhã fatídica, eu voltava para meu trabalho. É claro que a notícia tinha se espalhado, e de tempos em tempos eu recebia olhares compassivos, alguns sorrisos de conforto e até mesmo algumas palavras de que o luto passava, demorava mais passava.

Agradecia como podia e tentava focar no que tinha fazer.

Meu trabalho.

E que meu plano mirabolante desse certo.

Eu me recusava a acreditar que Sean tinha morrido, mesmo que as chances não estivessem muito ao meu favor. E, por isso, bolei um plano de tentar localizá-lo.

Eu tinha contatos, tinha satélites, tinha meios de achá-lo. Se precisasse, eu iria até o inferno para libertá-lo, porque foi isso que ele tentou fazer quando fui eu quem sumi.

E eu faria isso.

Discretamente, mas eu faria.

Só não poderia deixar que soubessem, porque eu precisava do maquinário que tinha à minha disposição para isso, e se eu fosse demitida, era uma vez todo o meu esforço mental das últimas duas semanas.

Era uma vez toda a minha esperança.

E assim eu comecei a minha busca pelo meu marido. Para todos eu tinha superado, ou pelo menos passado pela pior fase do luto. Conseguia fingir muito bem na presença de outros, conseguia até mesmo rir de piadas sem graça de colegas de trabalho e cheguei a aceitar a sair com a turma do serviço em uma sexta à noite para um happy hour.

Eu só não conseguia aplacar o sentimento de que Sean estava em algum lugar, precisando de ajuda, e eu era a única que ainda buscava por ele.

É claro que minha sogra ainda não tinha superado a perda do filho, meu sogro, sendo do almirantado, também não, mas ele conseguiu seguir em frente de maneira rápida, e, quando eu me encontrava com eles, algo que acontecia duas vezes por mês, a conversa era sempre a mesma, a falta que Sean fazia.

Até que um dia, quatro meses após a notícia, logo na semana em que eu tive uma pista de que ele estava vivo, minha sogra veio com uma conversa estranha.

- E você, Elizabeth, não pensa em seguir em frente? Sean não gostaria que você ficasse presa ao passado, ainda mais sendo tão nova.

Eu precisei de uns bons dez minutos para entender o que ela queria dizer.

- Ah... bem... não. – Foi minha resposta direta.

- Você tem esse direito, minha filha. – Foi meu sogro quem me disse.

- Não é tão fácil assim. E, desculpe a sinceridade, tem só quatro meses que ele foi dado como desaparecido em serviço – eu ainda me recusava a falar a palavra morto. – não é assim que se segue em frente. – Respondi de forma ácida, levantei-me da mesa e, depois de pegar minha bolsa que estava dependurada no hall de entrada, sai batendo a porta.

O único problema é que a casa de meus sogros é justamente em frente à casa de meus pais, e como de costume, eu sempre acabava passando por lá para fazer uma visita, bisbilhotar o que meu pai estava fazendo no porão, na verdade, eles sempre me esperavam, era como se fosse um ritual de domingo.

Não hoje.

Em um rompante, entrei em meu carro e saí cantando pneus, lágrimas de raiva escorriam em minha bochecha.

Como poderiam pensar isso de mim? Como poderiam pensar que eu abandonaria Sean? Será que eles não sentiam que ele ainda estava vivo?

Eu tinha tanta certeza!

Tentando aplacar a minha fúria e, também as lágrimas que teimosamente desciam, acabei por ligar o sistema de som do carro, e como pode uma música ser tão perfeita a ponto de contar a história de um casal?

Até parece que a cantora pensava na minha vida ao lado de Sean quando compôs essa canção.

Cada verso, cada estrofe descrevia o eu sentia no momento. Descrevia a minha maior esperança no momento. Chegava até mesmo a descrever a minha história com meu marido.

E no fim, demonstrava o que eu mais queria, que ele voltasse para casa.

E, parada em um semáforo, com a letra da canção se recusando a deixar meus pensamentos, eu decidi.

Seguiria a última pista de Sean.

Para isso, precisava de duas coisas: as últimas informações que tinha de seu paradeiro, e entrar com meu pedido de férias.

Eu sabia que tinha férias pendentes, creio que tinha quase três meses de férias para tirar, e usaria esse tempo longe do serviço para trazer meu marido de volta.

Na manhã seguinte, cheguei cedo à Langley, confirmei as coordenadas do local onde ele fora visto, imprimi o que me era necessário e, ainda na minha estação de trabalho, requisitei minhas férias.

Como algumas estavam vencidas, não haveria muita burocracia para a aprovação.

E eu contava que fosse imediata.

E, até lá continuei a trabalhar, pus todos os casos que tinha em minha mesa em dia, ajudei outras pessoas, fiz o que tinha que fazer e, na sexta-feira, fui recompensada.

Minhas férias foram aprovadas.

Ainda dentro do escritório, comprei duas passagens de avião, uma para o Brasil, que seria o meu destino oficial de férias e, partindo de São Paulo, outra para Marrakesh, que seria a minha primeira escala até meu destino final, uma aldeia na costa do Golfo Pérsico, entre o Kwait e a Arábia Saudita.

Foram longas horas de voo para despistar os curiosos da minha família, mas quase dois dias depois de partir de D.C., eu pisava em terras sauditas.

Vestida a caráter, primeiro por questão de respeito e segundo para não chamar a atenção de ninguém, consegui reservar um apartamento via airbnb, que seria a minha base até que meu informante me confirmasse a localização exata do local onde Sean estava.

Levou quase quinze dias, mas a confirmação chegou. No mesmo dia aluguei um carro e com a desculpa de ir conhecer o Catar e o Bahrein, parti de Riad.

Levei quase um dia para chegar ao litoral e pegar uma estrada que me levaria ao norte. Por muito tempo tudo o que vi foram camelos de um lado e um mar azul do outro.

Segundo as coordenadas do GPS, eu estava chegando perto, e para não ser pega na minha própria ideia, inventei uma história absurda de ser uma turista irlandesa que estava perdida na região. Por ser ruiva e saber falar irlandês, além de um inglês com sotaque, creio que passaria no teste.

Cheguei na aldeia no fim do dia, para minha sorte, dois eventos que eu não preveria, surgiram para me ajudar, o combustível do meu SUV acabou e uma tempestade de areia me fez ficar por ali.

Claro que alguns locais não gostaram da minha intromissão, principalmente os homens, mas a cultura de não se negar ajuda a uma pessoa necessitada foi mais forte e, assim, acabei sendo aceita como hóspede na casa de uma senhora que tinha idade para ser minha bisavó.

Ela não falava uma palavra de inglês e nunca vira uma pessoa ruiva na vida, portanto, meu plano não seria descoberto, o que me deixou mais tranquila, e, ficou bem curiosa comigo quando comecei a conversar com ela em árabe.

Conversa vai, conversa vem, a vovó era até bem falante quando os homens saíam de casa, ela soltou que ajudou grupo de pessoas tão brancas quanto eu há uns meses. Um estava gravemente ferido e não resistiu, mas os outros dois ainda estavam na vila.

Segundo ela, além de estarem muito ferido, pois chegaram se arrastando aqui, os homens da aldeia não confiavam neles, pois ninguém conseguia se entender.

Por alguns segundos me pus a pensar no batalhão de Sean, ele falava pashtu e afegani, mas seu árabe era medíocre, na verdade ele só sabia xingar nessa língua, quem falava árabe fluente era um sargento artilheiro que tinha acabado de se juntar à unidade, e eu não conseguia me lembrar do nome dele.

Ainda puxei a língua da vovó por mais algum tempo, mas para não parecer enxerida, troquei de assunto, passando a falar de como era a vida ali.

Antes que ela me respondesse, só soltou na sua sinceridade ímpar:

- Creio que você poderia levar aqueles dois com você quando voltar, assim poderemos ter paz, vivemos com medo que quem poderá aparecer por aqui e acabar com a paz de nossa vila.

Mal sabia ela que era exatamente isso que queria.

A manhã seguinte ainda foi de muita tempestade, não dava para enxergar um palmo na frente do nariz, assim, tentei ser uma hospede útil, e ajudei a vovó nas tarefas domésticas. À tarde, a tempestade acalmou, agora eram só rajadas ocasionais de vento, e, assim, alguns dos homens da aldeia foram nos visitar.

Sendo uma matriarca respeitável e a pessoa mais velha da aldeia, a minha anfitriã explicou aos homens o seu plano.

Alguns discordaram, todavia, quando ela avisou que eu falava árabe e que poderia esclarecer toda aquela situação, eles se acalmaram e se dirigira à mim pela primeira vez.

Confirmei que falava árabe, expliquei como aprendi a língua, para eles era sobre o meu trabalho envolvendo as guerras na região e os anos intermináveis de conflito, fazendo questão de demonstrar meu apoio a algumas causas justas.

Pouco depois fui conduzida ao local onde estavam os americanos, meu coração faltava pouco sair pela boca de tão nervosa que estava, minha mente não parava de se questionar quem estaria ali, se eu conhecia os soldados, quem teria morrido.

Atravessamos o vilarejo na direção norte, e depois de se certificarem novamente sobre minha história, que eu confirmei com as mesmas palavras de antes, abriram uma porta de algo que eu poderia considerar como um pequeno estábulo.

Lá dentro estava escuro, escutei alguns cavalos relinchando, meus olhos demoraram a se acostumar com a pouca claridade, mas assim que me adaptei, vi os mais belos cavalos que já vira na vida. Impressionada com os cavalos, perdi o movimento dos homens na minha lateral, logo um voltou, me dizendo que os cavalos não estavam à venda e me mandando segui-lo.

Pedi desculpas e o segui por uma precária escada de madeira que me levou a um segundo andar.

Quando acabei de subir a escada, escutei que o primeiro homem chamava por alguém, não era de maneira rude, mas sim com um pouco de receio, como se ele temesse qual seria a reação da pessoa ao vê-lo.

Comecei a prestar atenção na resposta, mesmo sabendo que a comunicação ali era falha, eu seria capaz de reconhecer a voz de Sean, caso fosse ele ali.

Contudo, não foi a voz dele que ouvi. E, assim que pareceu que tudo estava em paz, fui convocada a me apresentar. Aproximei-me devagar, testando as reações dos presentes e o clima no geral, meus instintos de agente federal aguçadíssimos, tentando prever cada passo e já pensando em um meio de fugir, caso tudo saísse do controle.

Educadamente, perguntei o que eles queriam saber dos visitantes, eles só desejavam saber se havia alguém atrás deles e quando eles iriam embora.

Quando olhei na direção dos dois homens, meu coração parou de vez, pois ali estavam Sean e seu imediato, Jason. Os dois me reconheceram na hora, contudo foram espertos o suficiente para não dizerem nada, apenas responderam ao que perguntei e eu logo traduzi suas palavras.

Com o canto de olho vi que eles não estavam maltratados, estava talvez fracos, pois a aldeia não era rica e mal tinha comida para as famílias que ali viviam, não teriam como dispor de alimentar dois estranhos. Mas estavam vivos, limpos e vestidos, que era muito mais do que poderiam esperar.

Quando perguntei como e porque estavam ali, Sean acabou por explicar que o helicóptero em que estavam foi abatido, não sabem por quem, que dos onze que estavam lá dentro, somente três sobreviveram à queda, e que depois de vagarem sem noção de onde estavam por muito tempo, encontraram essa vila, onde pediram asilo.

Expliquei onde estavam e que aquelas pessoas, apesar de terem ajudado, não os queriam ali. E que eu era a única carona que eles poderiam esperar.

Enquanto falava isso, me senti aliviada, estava esperando uma dificuldade imensa para conseguir achar e levar de volta meu marido, não algo tão fácil como isso.

Por isso, quando parti na manhã seguinte, fiz questão de agradecer a cada um ali por sua hospitalidade, eles entenderam que eu falava somente das duas noites que ali passei, assim como o combustível que me arranjaram, porém, eu falava também por Sean.

Do fundo do meu coração eu seria eternamente grata a cada um deles por terem acolhido Sean e Jason, por terem cuidado dos ferimentos dos dois, mesmo desconfiando de quem eles eram.

Quando a vila desapareceu do meu espelho retrovisor e eu sabia que ninguém lá poderia nos ver, parei o carro e pela primeira vez encarei meu marido.

Ele tinha emagrecido muito, seu rosto estava fundo, não havia mais as bochechas que me mostravam suas adoráveis covinhas quando ele sorria, seus olhos pareciam alertas demais, assustados demais, como de um animal pego sob os faróis de um carro à noite, mas era ele.

E, como um raio, a canção que ouvi naquela noite de domingo, depois que sai correndo da casa de seus pais voltou com tudo na minha mente.

“We're drowning in our eyes

Don't know what we'll find

I'm not sure, should we fly or fight this?

We're terrified

Pretending now that we don't care

But tension cuts, cuts the air

We're more than scared

I'm drowning in your eyes

I'm terrified

I don't know what's happening to me

Can you hear my pulse beat underneath?

Words are getting hard for me to speak

That's new for me

Letting my fears show 'til I can face 'em

Letting my tears go 'til I can taste them

Hell, what do I know where you and I go?

Damn it, I hope you come back home

(Ooh) come back home

It's hard to sleep at night when

It's do or die

While our world spins 'round and 'round and

We're paralyzed

Pretending now that we don't care

But tension cuts, cuts the air

We're more than scared

So lost inside our eyes

We're terrified

Letting my fears show 'til I can face 'em

Letting my tears go 'til I can taste them

Hell, what do I know where you and I go?

Damn it, I hope you come back home

(Ooh) come back home

(Ooh) come back home

I don't know what's happening to me

Can you hear my pulse beat underneath?

Words are getting hard for me to speak

That's new for me

Letting my fears show

Letting my tears go

Hell, what do I know where you and I go?

Damn it, I hope

Letting my fears show 'til I can face 'em

Letting my tears go 'til I can taste them

Hell, what do I know where you and I go?

Damn it, I hope you come back home

(Ooh) oh, come back home

(Ooh) oh, come back home”

Ele estava comigo, e ia voltar para casa.

Finalmente.

Depois de um tempo encarando Sean e ele me olhando de volta, decidi por colocar o carro em movimento, tínhamos uma longa viagem de volta até Riad, antes que eu me virasse para prestar atenção na rodovia vazia, ele me puxou ao seu encontro, me abraçou apertado, me deu um beijo na testa e murmurou:

- Muito obrigado por não desistir de mim, Liz.

Encarei seus olhos azuis:

- Eu jamais te abandonaria, Sean. Jamais.

A viagem até Riad foi tranquila, complicado foi explicar como eu tinha encontrado dois fuzileiros americanos nas minhas férias.

Férias que nem eram para ser aqui, mas sim em alguma praia no Brasil.

Foram horas de ligações direto da embaixada, com conversas com os generais dos Fuzileiros, com a Secretaria de Estado, com a Secretaria da Marinha, com a Diretora da CIA.

Enquanto os dois fuzileiros eram tratados como heróis por terem sobrevivido tanto tempo, eu estava um tanto encrencada. Afinal, usei de recursos do governo para fins pessoais, mesmo que esse fim tivesse sido benéfico para o país e, além de tudo, menti descaradamente para minha superiora ao dizer que estaria de férias em um continente e acabei voando para outro, com uma das minhas identidades falsas fornecidas pela Agência.

Eu teria muito o que explicar, mas poderia deixar tudo isso para quando chegasse em casa.

Sean e Jason passaram por exames na embaixada, foram vestidos e alimentados e, depois que um pedaço da história de como eles foram encontrados foi resolvida, fomos liberados para voltar para casa.

Voltamos em grande estilo, de primeira classe. Claro me sentei do lado de meu marido, parecia-me até surreal que eu havia conseguido.

Que eu o encontrara quando todos já haviam desistido.

Mais do que feliz me aninhei a ele, apoiando minha cabeça em seu ombro, ele me abraçou de lado, murmurando de tempos em tempos que tudo parecia um sonho.

Assim que desembarcamos, fomos recebidos por um comitê um tanto interessante. Sean e Jason foram abraçados por seus familiares e conhecidos e logo levados para novas avaliações de saúde, já eu fui recebida por dois agentes da CIA, daqueles bem graduados, que mais serviam como agentes de informação além de nossas fronteiras do que como agentes de captação de informações.

Reconheci um na hora. O agente de confiança de minha mãe.

- Agente Shepard-Gibbs, a senhora vem conosco.

Não argumentei, não havia motivos, o máximo que me aconteceria era ser mandada embora e, se eu fosse muito azarada, ser presa por no máximo dois anos por ter usado do Governo para fins pessoais.

Nada que me assustasse realmente.

Fui levada direto para o Pentágono, ou seja, a minha situação estava pior do que eu imaginava, e fui deixada em uma sala bem decorada e elegante, tentei descobrir a quem pertencia aquele lugar, porém sem sucesso.

Algumas horas depois, uma porta, que eu não tinha reparado que existia, se abriu e dela saíram: o Secretário da Defesa, a Secretária da Marinha, o Secretário da Justiça, o Diretor do NCIS e a Diretora da CIA. Suas expressões indefinidas. Suas posturas impassíveis.

Eu previ só um futuro: demitida.

E eu nem saberia formular uma tese de defesa que fosse, pois não tinha. Eu fiz o que fiz e faria de novo. E não me arrependia.

Levantei-me da poltrona em que estava e cumprimentei com um aceno de cabeça cada uma das figuras poderosas que ali estavam. Deixei minha mãe por último, ela me lançou um olhar ameaçador, como se me dissesse: em casa a gente conversa direito.

Ouvi pacientemente cada um falar cada falta grave que eu havia infligido, escutei as mais diferentes ideias de como me aproveite do meu cargo para me beneficiar, e, no fim, comecei a estranhar o tom de voz deles. Da evidente demissão, a história mudou, começaram a falar da minha excelente capacidade de sumir do radar, de me misturar, de adquirir informações onde ninguém pensaria e, de como eu resgatei dois fuzileiros desarmada e sozinha e os levei em segurança até a embaixada mais próxima sem que ninguém desconfiasse de onde eu era e o que eu fazia.

Essa mudança de comportamento me assustou, chegou a me alarmar, na verdade, e quando essa reunião terminou eu tinha uma escolha a fazer: ou aceitava uma demissão sem nenhum benefício, afinal o que eu fiz era uma falta gravíssima, ou aceitava um novo cargo.

- Qual cargo? – Peguei-me perguntando.

- Você seria uma espiã, Elizabeth. – Disse minha mãe. – Agiria sob as ordens da CIA, contudo, no exterior, coletaria toda e qualquer informação que fosse necessária e nos enviaria, além, é claro, de trabalhar no resgate de compatriotas pelo globo.

- Sozinha?

Foi aqui que a Secretaria da Marinha me deu um sorriso.

- Claro que não, depois de colhermos os relatos dos dois fuzileiros que você trouxe para casa, percebemos uma feliz coincidência.

- Coincidências não existem. – Acabei por murmurar.

- É já ouvi essa fala. – A Secretária continuou. – Pelo visto, você e o Subtenente Sean são excelentes em camuflar a identidade de vocês, de engarem as pessoas quanto as suas origens, assim, dado ao fato de que são casados e se entendem muito bem, ele seria o seu parceiro.

- Sean está sabendo disso? Porque eu duvido que ele irá abandonar os Fuzileiros para virar agente infiltrado/disfarçado da CIA.

- No exato momento, Senhora, somente nos importa a sua resposta: aceita o seu novo cargo ou não?

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QUATRO MESES DEPOIS

- Até que poderia ser pior. Sean falou ao analisar o sótão em que fomos colocados. – Tem uma bela vista.

- Só tem uma janela, Sean. – Murmurei ao apontar para a mísera janela redonda que nem abria direito e dava para o porto da cidade de Marselha.

- Não vamos ficar por muito tempo, Liz. No máximo duas semanas, Só até termos certeza de que aquele cargueiro com o contrabando de armas vai descarregar aqui.

- Duas semanas dentro disso? Você é realmente otimista demais. Isso se esse cargueiro chegar aqui em duas semanas, o que eu duvido e até lá, o que vamos ficar fazendo aqui? – Murmurei e tentei sair de perto dele, porém o sótão era tão pequeno que quando desviei de seu corpo, tropecei na cama que havia ali.

Sean me olhou com um brilho travesso nos olhos.

- Enquanto nada acontece lá embaixo, nos bem que poderíamos nos divertir aqui em cima...

E foi assim que todo o problema foi resolvido, virei espiã em tempo integral, Sean, ao receber a oferta, não pensou duas vezes, aceitou na mesma hora e, quando menos esperávamos, fomos treinados à exaustão, fomos informados do nosso alvo e de tudo o que ele poderia causar e, sem termos tido tempo de uma despedida, a nossa missão na Europa começou.

Eu bem que sei que lembrava a mesma missão que uniu meus pais pela primeira vez, parecia até uma espécie de reprise. Contudo, esse foi o único jeito que encontraram de não me prenderem por muito tempo.

E, quer saber, porque eu reclamaria de ser bancada viajando pelo mundo e fazendo o mesmo trabalho que eu fazia dentro de um subsolo em Langley?

Claro que não, ainda mais que eu tinha uma excelente companhia.

Que os jogos começassem, pois a nova versão de Elizabeth Shepard-Gibbs estava preparadíssima.


Notas finais
Bem é isso, Liz e Sean estão de volta e agora têm um novo emprego. Quem diria que virariam espiões... Mas enfim, obrigada a você que leu até aqui e que esperou por novas aventuras de Liz. Elena também vai voltar... eu tenho que ajeitar a vida dela e, principalmente o relacionamento dela com o pai. Mas isso fica para outra hora. Até qualquer outro dia ou oneshot por aí! xoxo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!