Apenas Um Pesadelo
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Boa Leitura!
Cheguei em casa com um dor de cabeça tenebrosa, meu corpo todo doía ainda pela ressaca e o tempo no hospital definitivamente não tinha me feito bem.
– Que bom que chegou filha! Preciso muito falar com você... – mamãe começou a dizer enquanto eu fechava a porta. – Meu Deus o que aconteceu com você? – perguntou assim que virei para encará-la.
– Ressaca... Mais tarde conversamos. – pronunciei baixinho, ela assentiu muda e eu andei vagarosamente para o quarto.
Nem notei Rafaela na cama com Bruno ao seu lado, eu queria apenas desligar os pensamentos e entrar num sono profundo... Às vezes chegava a ter inveja de Matthew, ele não tinha que conviver com todo esse caos e sentimentos que me rondavam, apenas continuava inerte sobre uma cama, sem se preocupações.
– Nossa Mandie! – ouvi a morena exclamar enquanto eu ainda travava uma batalha para não perder os sentidos. – Você quer algum remédio? – rolei na cama duas vezes antes de encara-la, minha vista ardia cansada e eu fechei os olhos. – Está tudo bem, não tem problema se quiser dormir um pouco... Depois conversamos. – sua voz macia soava como uma cantiga de ninar e logo eu cai no sono profundo.
...
Acordei zonza, tentei sentar na cama, mas minha força era pouca... Permaneci de olhos fechados expirando e inspirando profundamente por vários minutos, até que me senti bem o suficiente para levantar.
– Como vai Bela Adormecida? – sorri ouvindo a voz de Fe enquanto eu me apoiava nos cotovelos mantendo os olhos entreabertos.
Ele estava recostado na cama de Rafaela lendo mais um dos livros da garota, com apenas o abajur ligado... eu quase começava a desconfiar que Fernando viesse em casa pelos livros de minha amiga, do que por mim.
– Nossa que horas são? – perguntei assim que percebi a penumbra que envolvia o quarto.
– Acho que já passo das oito... – murmurou colocando o livro que lia sobre o criado-mudo e sentando ao meu lado.
– Sabia que não devia ter tomado aquela porcaria que a enfermeira deu! – resmunguei brava sentindo seu braço passar por minhas costas.
– Senti sua falta esses dias. – sussurrou enquanto eu o envolvia num abraço.
– Eu também Fe. – inalei sua colônia que me lembrava a grandes jardins e senti todos meus membros relaxarem.
– Precisa me contar o que andou fazendo na casa do Brian... – comentou insinuando um sorriso malicioso nos lábios e eu ri corando.
– Não fiz nada seu idiota! – bati em seu peito com a mão livre e me levantei para acender a luz.
– Uhum, sei... – seus olhos estavam semicerrados feito os de um detetive e eu bufei dando de ombros. – Ah, sua mãe quer conversar com você.
– É eu me lembro dela ter dito sobre isso antes de eu vir pro quarto e apagar... – soltei um muxoxo antes de abrir a porta. – Você não vai vir comigo? – perguntei o encarando e ele sacudiu o livro no ar confirmando minhas expectativas anteriores.
– Até que enfim resolveu acordar! – exclamou a loira se apoiando no balcão da cozinha com um pano de prato pendurado no ombro.
Rafaela deixou o local rapidamente evitando olhar em minha direção e em pouco tempo ouvi a porta do quarto bater... Todos agiam como se eu fosse um grande problema e fugiam de modo que eu parecesse uma bomba relógio.
– Você quer que eu prepare algo em especial para você hoje? – balbuciou enquanto terminava de guardar algumas xícaras e estendia o pano de prato sobre o tampo do fogão.
– Vamos direto ao assunto mãe? – ela se reteve por um momento, me analisando e tentando encontrar uma forma de falar. – Por favor...
– Então filha, eu e seu pai conversamos e chegamos à conclusão que é melhor que viaje com ele para o interior. — apoiei-me na parede de trás respirando fundo para absorver a informação era dada.
– Vocês enlouqueceram? Quando vocês acharam que eu iria viajar para o interior com meu namorado no hospital? – as palavras saíam ferozes.
– Não há o que contestar Amanda, você vai com seu pai nem que seja amarrada no carro. Chega de passar os dias no maldito hospital! O Natal e o Ano Novo estão ai e eu sei que se depender de você, passará as datas dentro daquele lugar! – ela exclamava forte sofrendo para controlar a voz que saia alta.
– Por que vocês estão fazendo isso comigo? – perguntei com a voz embolada, um nó se formava em minha garganta eu não me conformava em ter que deixar Matt.
– Porque nós somos seus pais e nos preocupamos com você... – escorreguei com as costas na parede fria até chegar ao chão. – Escute, serão só alguns dias, você estará de volta para o seu aniversário e comemoraremos juntos está bem? – mal notei e mamãe já estava ao meu lado segurando minha mão na sua.
– Eu não posso deixa-lo... – sussurrei fraca deixando escapar uma lágrima, seus braços me envolveram num aperto forte.
– Não tem problema ser feliz ao menos uma vez garota, você tem que seguir sua vida... Matthew vai voltar e você tem que estar bem para recebê-lo, ok? – assenti com a cabeça soltando sua camiseta que ainda estava entre minhas mãos. – Você pode levar um amigo para não se sentir tão sozinha naquele fim de mundo... – ri fraco enquanto ela se levantava e me puxava pela mão.
– Vou levar o Fe... Acho que ele vai gostar pelo menos. — recebi um sorriso seu e segui para o quarto enxugando as lágrimas que haviam caído brevemente por meu rosto.
Abri a porta encontrando meus amigos cada um em uma cama, Fe ria de algo que a garota tinha falado e percebi que o livro ainda estava aberto em suas mãos, Luna ressonava no berço e lancei meu melhor olhar sugestivo aos dois que se tornaram sérios com minha presença.
– Eu juro que não sabia de nada! – começou o garoto levantando as mãos no alto em rendição enquanto eu terminava de fechar a porta.
– Rafaela? – indaguei cruzando os braços e ela engoliu em seco.
– Bom, sua mãe tinha comentado comigo eu falei pra ela qual seria sua provável reação, mas ela insistiu em continuar com o plano... – suspirei me sentando ao lado do nerd magrelo.
– Você vem comigo Fernando, não vou ficar no tédio sozinha. – ele riu do bico que eu fazia e me abraçou de lado.
– Vai ser bom Amandinha, nós vamos respirar ar puro e... – não deixei que continuasse apenas o aniquilando com o olhar.
– Fiquei sabendo que foi numa festa ontem, que tal contar para os amigos? – sugeriu Rafa se acomodando melhor em sua cama.
– Não aconteceu nada demais, só algumas bebidas. – dei de ombros não querendo revelar a parte em que eu tinha exagerado mais do que todas as outras vezes em minha vida.
– Certo e por isso Brian me ligou no meio da madrugada perguntando o que devia fazer com você... – congelei quando ela disse aquilo, afundando o rosto entre as mãos. – Só vou te perdoar por ter me acordado e acordado a Luna se contar tudo o que aconteceu nessa festa.
– Eu cheguei lá sem pretensão alguma sabe, na verdade eu nem estava disposta a diversão acho que fui mais por obrigação... Johnny não me largou durante a festa toda e digamos que por ser sua parceira eu acabei extrapolando um pouco na bebida e...
– Continue. – insistiu a morena passando os dedos entre os cabelos.
– E foi isso, eu fiquei com uma ressaca enorme depois! – sorri amarelo batendo as palmas das mãos contra as coxas e ela rolou os olhos, irritada.
– Então devo ignorar Brian dizendo algo como “Ela ta fedendo bebida e maconha acho que não seria bom chegar em casa desse jeito...” – maldito Brian, pensei comigo mesma, aquele idiota tinha estragado minha vida.
– Não é tão ruim quanto parece ok? E de qualquer forma eu precisava de algo que me fizesse esquecer os problemas uma vez... – recebi um cutucão de Fernando que me lançava um olhar repreendedor.
– E pra isso você precisava se drogar e praticamente entrar em coma alcoólico? – meneei com a cabeça continuando em silêncio. – Eu sei que tem sido difícil Amanda, mas você tem que me prometer que não vai fazer nada que deixe sua vida em risco...
Eu sabia que os dois ali no quarto tinham históricos de convivência com pessoas drogadas, e com certeza não era um objetivo que isso acontecesse comigo, de forma que entendia o curto sermão de Rafaela... Não era como se ela tivesse tentando ser a mãe chata, era mais como uma irmã mais velha alertando sobre os perigos da vida.
– Não pensei em nada disso na hora ok? Quando vi já estava sentada na roda e... Maconha não vicia gente. – os dois negaram com a cabeça, resignados.
– Bom, eu só estou te avisando Amanda, e você sabe também que essas merdas não vão acabar com o problema. – assenti encostando a cabeça no ombro de Fernando.
– Eu não quero te perder, assim como perdi... bom, você sabe. Então por favor, tenta ficar sóbria e encarar os problemas de frente, eu vou estar do seu lado só... – não deixei o garoto terminar de falar, envolvi sua face em uma das mãos sorrindo com a importância que ele me dava.
– Você não vai me perder Fe... Eu prometo. – passei os braços por sua nuca e nos abraçamos, de repente ele desatou em choro e eu olhei para Rafa pedindo que ela saísse.
Continuamos na posição tempo demais para meu corpo protestar em dor, ele não se acalmava, chorava compulsivamente e tudo que eu podia fazer era abraça-lo mais forte me perguntando o que tinha acontecido para deixa-lo nesse estado.
– Fernando, fala comigo, o que aconteceu? – perguntei pela décima vez, talvez, e ele nos afastou ainda sem muita força.
– Minha mãe... Ela está cada vez pior, eu não aguento mais. – suspirei passando a mão em seus cabelos desgrenhados. – Todo dia ela vem com aquele cara em casa e os dois ficam se drogando e bebendo, e quebrando o que tem em casa ou vendendo pra comprar mais droga.
– Quantas vezes eu vou ter que implorar pra você vir passar um tempo aqui em casa Fernando? –perguntei enquanto deslizava a mão por seu peito e as apoiava sobre suas pernas.
– Eu não quero incomodar Amanda, sua mãe já tem sido boa demais comigo e... – ele sempre vinha com esse maldito discurso.
– Não, dessa vez já tomei minha decisão, nós vamos viajar juntos e até lá você fica aqui em casa, quando voltarmos também fica aqui. – um sorriso desanimado brotou em seus lábios e eu enxuguei as lágrimas de seu rosto com os polegares. – Nós não temos muito espaço, mas tem um colchão sobrando no quarto de minha mãe e você pode dormir nele.
– Acho que eu não tenho muita escolha dessa vez né? – neguei com a cabeça. – Desculpe te incomodar com meus problemas... – murmurou com a culpa em visível ênfase no tom de sua voz.
– Me desculpe não perceber isso assim que nos vimos, eu ando tão preocupada com Matthew que acabo me esquecendo que o mundo não gira em torno dele... Mas agora vai ser diferente e eu vou cuidar de você Fe. – comentei acariciando os cabelos de sua nuca.
– Acho que deveria ser o contrário né? – rimos e nos juntamos para outro abraço.
– Eu amo você Fernando, não vou deixar que nada de mal aconteça com você, ou melhor, nos aconteça... Formamos uma bela equipe não acha? – ele concordou com a cabeça e eu me levantei o puxando pela mão.
– Obrigada por tudo Amanda. – sorri levando-o para fora do quarto.
– Vamos comer, eu preciso engordar... – corremos para cozinha.
E passamos o resto da noite comendo, conversando, assistindo tv e tentando fazer Luna rir... Fazia tempo que eu não me divertia desse modo, tempo que não conversava com minha mãe sobre assuntos alheios. E por algumas horas eu fui capaz de esquecer Matt, já era um bom sinal.
Fomos dormir já era tarde, Fe tinha colocado seu colchão ao lado de minha cama e mamãe tinha aprovado que ele ficasse quanto tempo quisesse... Tudo estava dando certo, era como se aos poucos as peças se encaixassem, eu rezava para que isso não fosse apenas uma impressão.
...
Acordei assustada com o toque do nokia ao lado de minha cama, em minha cabeça passavam todas as hipóteses de quem seria o louco de me ligar as 4h da manhã... Suspirei esticando-me para pegar o aparelho.
– Alô? – atendi com a voz embargada continuando de olhos fechados.
– Amanda... – reconheci a voz de imediato.
– Ei Brian, algum problema? – perguntei de súbito.
– Não, nenhum... Acordei você? – esse era o momento em que eu podia lançar uma resposta atravessada, seria épico.
– Não, de qualquer modo estou tendo problemas pra dormir. – menti num murmúrio baixo.
– Eu só queria saber se estava bem, é que quando te deixei em casa... – ele devia se referir ao meu estado completamente “grogue”.
– Aquela enfermeira queria me dopar tenho certeza. – resmunguei rindo baixo.
– Sim, mas já que está bem volte a dormir ok? Amanhã passo ai no horário de sempre.
– Tudo bem, estarei esperando. Obrigada Brian. – a última frase saiu com custo, mas eu sentia que precisava dizê-la.
– Estou fazendo meu trabalho apenas. – rebateu rindo fraco. – Boa noite garota, tenha bons sonhos...
– Boa noite.
Encerramos a ligação e eu enfiei o celular debaixo do travesseiro, talvez assim evitasse uma nova possível ligação... O sono me entorpecia aos poucos novamente, e uma voz baixinha dizia em meu ouvido que Brian não era boa coisa. Acontece que eu nunca gostei de seguir essa maldita voz.
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