Apenas Um Dia
1 Apenas um Dia
Notas iniciais
Ele esconde alguns segredos não mostrados aqui,e que talvez eu revele em outra ocasião...mas espero que apreciem a leitura =3
Quando paro pra pensar, foi algo curioso... e que não poderia ter ocorrido de jeito diferente.
Existem momentos que surgem de situações inesperadas, pequenas situações que podem alterar ou marcar profundamente a vida de alguém. Momentos que nos deixam pensando muito tempo depois de terem acontecido.
Era um dia como qualquer outro... levantei bem cedo e coloquei comida para aqueles pokémon que vinham até meu centro de criação. Cada um deles me alegrava de forma diferente... aqueles que foram abandonados por seus treinadores, os que foram feridos na luta pela sobrevivência, ou por algum acidente. E, na verdade, até aqueles que não haviam se machucado, mas só vinham para comer... que pensavam que enganavam alguém. Mas eu nem ligava, todos que vinham ali mereciam um pouco de carinho e dedicação...
Até aquele dia.
Era raro virem outras pessoas para esses cantos... normalmente,viajantes que haviam se perdido no caminho entre Cerulean e Vermillion, e paravam apenas para pedir informações. Ocasionalmente, treinadores pokémon, que se interessavam por meu trabalho, mas partiam logo. Porém, em certas ocasiões, embora muito raras, algum deles se interessava por um dos pokémon daqui, e o levava junto... o que deixava meu coração cheio de alegria.
Porém, acontecera pouquíssimas vezes... eu me acostumara a ficar vários dias sem ouvir a voz de outro ser humano.
De modo que me assustei um pouco quando ouvi, enquanto estava ocupado trabalhando na minha pequena horta:
- Boa tarde.
Eu me virei, e vi um rapaz que parecia ter cerca de onze anos. E me pareceu um bocado estranho e curioso ao olhar: se vestia de modo bastante antiquado, diferente das roupas usuais das pessoas que passavam por ali. Um quimono verde-escuro, simples e confortável, e uma calça branca. Levava uma bolsa rústica, e fiquei surpresa ao notar que levava, preso às costas, um arco e uma aljava com flechas. Porém, mais do que suas roupas, o mais surpreendente era seu olhar: tremendamente calmo e em paz, como alguém que sabe seu caminho e reconhece o que virá pela frente. Se fosse em outros tempos, provavelmente poderia ser confundido com um samurai.
- Boa tarde, garoto. Está perdido? – respondi, sorrindo gentilmente
- Não. Apenas me desviei do caminho que estava seguindo. Mas não me perdi, apenas estou seguindo um novo caminho por um tempo.
Sua voz era bastante formal e moderada: era difícil acreditar que era apenas uma criança. Ele observava com grande interesse os pokémon por ali.
- Gosta de pokémon? – perguntei, notando seu interesse
- Sim. São belas criaturas. São todos seus?
- Oh, não... isto é como se fosse um centro de criação, ou lar temporário, aonde cuido de pokémon selvagens que se feriram, ou pokémon que foram abandonados por seus treinadores.
- É um trabalho muito nobre... perdoe-me, não me apresentei. Meu nome é Kenji Masamune.
- Prazer em conhecê-lo, Kenji... meu nome é Melanie. Você é um treinador pokémon?
- Não.
- Ah... é uma pena. Você parece bastante interessado pelos pokémon daqui... se algum deles gostasse de você e quisesse segui-lo, eu me sentiria bastante feliz.
Ele parece considerar minhas palavras por um momento, e eu torcia para que ele levasse algum dos pokémon dali... por alguma razão, gostei do rapaz à primeira vista. Embora formal, se via que tinha um bom coração e uma dedicação notável, e seria um ótimo treinador para um de meus pokémon.
- O que me diz sobre aquela Nidoran? — ele perguntou enquanto apontava
Ele apontava para uma Nidoran fêmea, que caminhava à frente de um grupo de várias outras Nidoran. Eu olhei e balancei a cabeça.
- Aquela não. De todas que você poderia escolher, aquela seria a pior escolha. — eu disse
- Por quê?
- Ela tem sido um problema por aqui... tem uma personalidade difícil. Territorial e nervosa, e tem essa tendência a agrupar as outras Nidoran ao redor.
- Mas estou vendo que é a menor do grupo.
- Sim, é verdade... e por isso, você pode ter uma ideia da personalidade dela. Pode ver que nenhum dos outros pokémon se mistura com elas... já surgiu um Nidoran macho aqui, uma vez, e tentou se aproximar dela... levou uma surra tremenda. E, uma duas vezes, treinadores quiseram se aproximar dela... mas mal chegaram ao alcance, ela os mordeu e os afastou. É um pokémon selvagem e indomável...
Enquanto me ouvia, ele a observava andando orgulhosamente à frente de seu bando, um leve sorriso em seu ser.
- Kenji? — eu chamei, pensando que talvez ele não estivesse me escutando
- É, realmente, uma criatura extraordinária. — ele disse
- Você ouviu tudo que eu disse?
- É claro que sim, seria uma grande falta de educação não prestar atenção a suas palavras.
- Então sabe que é melhor que não se aproxime dela.
- Pelo contrário, Melanie. Você mesma disse, ela possui uma personalidade difícil... mas isso só a torna mais única.
- Então vai se aproximar dela?
- Apenas com sua licença.
- Bom... se quiser, fique à vontade, mas eu te avisei.
Uma vez que eu disse isso, ele caminhou até a Nidoran. À distância, ela notou a aproximação do garoto e eriçou seus pelos fininhos e curtos de cor roxa bem clarinha. Porém, Kenji não se abalou e, andando devagarinho, foi chegando mais próximo, estendendo a mão hesitante...
Então, rápida como um relâmpago, a Nidoran pulou, deu uma mordida forte e rápida em sua mão e se afastou, rosnando. Ele a recolheu depressa, olhando a marquinha dos dentes dela em sua mão, enquanto ela se afastava com seu bando. Eu me aproximei logo após.
- Eu avisei. — eu disse, logo que cheguei perto
- Sim.
- Bom, agora você sabe que eu não estava brincando quando disse sobre ela. É um pokémon selvagem, e incorrigível.
Então, ele olhou para o céu e suspirou.
- Bom... o que vai fazer agora? — eu perguntei, após um momento
- Devo me retirar agora... foi um prazer conhecê-la, Melanie.
- Você é muito educado,Kenji... e o prazer foi todo meu. Volte quantas vezes quiser.
- Eu a agradeço.
Então, ele foi embora... na verdade, eu esperava que ele não voltasse. Era sempre assim,os viajantes nunca voltavam... mas cada um tinha suas peculiaridades que me fascinavam, e as memórias, ainda que breves, eram bonitas.
O resto do dia foi comum... cuidar dos pokémon, de minha pequena horta, comer... eu levava uma vida moderada, então era raro eu ir até Vermillion comprar suprimentos necessários. Um dia após o outro, sem grandes preocupações... eu não me importaria em passar minha vida inteira assim.
Acordei no dia seguinte sem pensar muito no ocorrido... certamente aquele rapaz estava longe, embora não tivesse me dito exatamente para onde iria. De modo que recomecei a fazer meus afazeres, quando ouvi:
- Bom dia, Melanie.
Me surpreendi. Ele havia voltado, com o mesmo aspecto de antes, me cumprimentando gentilmente. Era bastante raro ver alguém novamente, de modo que sorri e disse:
- Bom dia, Kenji. Achei que você já tinha voltado a seguir seu caminho.
- Ainda estou seguindo. — foi sua resposta
- Bom... veio ver se algum outro pokémon quer seguir viagem com você, já que aquela Nidoran te rejeitou?
- Absolutamente não. Ao contrário, vim vê-la novamente.
Isso me surpreendeu. Ela estava ali por perto, preguiçosamente deitada na grama com seu bando, mas as orelhas levantadas, como que prestando atenção a tudo ao seu redor, mesmo dormindo.
- Mas... ela te mordeu!
- Eu sei.
- E vai tentar se aproximar dela de novo?
- Sim.
O olhei perplexa. Certamente, era alguém insistente.
- Bom, ela está dormindo logo ali, com o bando dela... — eu apontei
Ele acenou com a cabeça em agradecimento e, novamente, caminhou até ela. A certa distância, parou e se sentou. A Nidoran notou e soltou um leve rosnado. Porém, apesar disso, ele foi aproximando cada vez mais a mão, procurando acariciar sua cabeça...
E novamente, ela o mordeu e se afastou rapidamente, adicionando uma nova marca de dentes à do dia anterior.
- Eu avisei. — eu disse, me aproximando enquanto a Nidoran e seu bando se afastavam
- Sim. — ele apenas disse, enquanto se levantava
- Aprendeu a lição agora? Deixe ela em paz.
- Tenho que me retirar agora... foi um prazer vê-la novamente, Melanie.
E então, ele se afastou novamente. Eu estava intrigada... do jeito que ele disse, parecia que ele não iria desistir tão fácil. Mas eu não entendia: a Nidoran tinha um gênio terrível, e não dava o menor sinal de mudar. Por que ele continuava?
E, de fato, por uma semana, ele veio todas as manhãs. Me cumprimentava, perguntava da Nidoran, depois tentava se aproximar, recebia uma mordida, e então ia embora, para voltar no dia seguinte e recomeçar o ciclo. Era admirável a paciência dele... mas a mão dele estava cheia de marcas, e ele não parecia querer parar.
Até aquele dia.
Começou como um outro qualquer... eu já sabia que ele ia vir, então nem me surpreendi quando ele me desejou um bom dia, e perguntou da Nidoran. Retribuí seu cumprimento e indiquei, para então voltar a meus afazeres. Ele se afastou, e eu já esperava ver ele voltar, a mão com uma nova marca, se despedir de mim.
Porém, ouvi um pequeno grito, que me assustou.
Quando cheguei lá, ele segurava a mão com força, uma expressão de dor no rosto.
- Kenji! O que houve? – perguntei, alarmada
- Ah... ela me deu uma mordida venenosa. — ele disse
- Ah, meu Deus...
Eu me alarmei, pois não possuía nenhum antídoto comigo... o normal era que os pokémon, mesmo quando brigavam entre si, raramente chegassem a usar veneno. E, quando o faziam, os efeitos passavam com o tempo, então nem valia a pena ter antídoto comigo. Mas eu nunca ouvira falar dos efeitos de veneno pokémon em um humano... a mordida parecia bem feia, e a marca dos dentes estava cercada por uma tênue cor azulada. Torci para que não fosse algo muito ruim.
- Venha aqui pra dentro, você tem que descansar. – eu disse enquanto o conduzia e o sentava no sofá que havia em minha casa – Vou ter que ir até Vermillion comprar um antídoto.
- Não se preo... — ele começou
- Quieto. Você é o paciente aqui. Eu já venho.
Então eu saí. A caminhada era razoavelmente longa, então demorei um bocado... mas, ao fim de duas horas, eu estava de volta com o antídoto. O homem da loja me disse que veneno pokémon em humanos não diferia muito do que os pokémon sofriam... passaria com o tempo. Mas, para que ele não ficasse agonizando, o melhor seria usar o antídoto.
Quando voltei, notei algo bem estranho... eu havia esquecido a porta aberta, mas, quando chegava à distância, para minha surpresa, a Nidoran estava sentada, olhando para o interior da casa, como se estivesse preocupada. Assim que eu cheguei, ela me olhou, e me surpreendi ao ver uma expressão curiosamente preocupada nos olhinhos dela. Devia ser a primeira vez que a via sem estar acompanhada de seu bando de Nidoran. Então, quando entrei, ela entrou atrás de mim... e descobri Kenji dormindo no sofá aonde eu o havia sentado, a mão ferida voltada para cima.
A Nidoran caminhou até ele, e se esticando o máximo que podia, conseguiu alcançar sua mão com a ponta do focinho. Então, para minha grande surpresa, deu uma lambida na mão ferida, em seguida sentando no chão e me olhando com uma expressão preocupada. Parecia uma criança pequena que acabou de ver as consequências desastrosas de uma travessura mal-executada.
- Fique calma... ele vai ficar bem. — eu disse para a Nidoran, que apenas olhava de mim para Kenji, temerosa
Então, Kenji abriu os olhos. Sorriu.
- Melanie... desculpe lhe dar todo esse trabalho. — ele disse
- Não se preocupe com isso. — então, tirei o antídoto da bolsa e o borrifei por cima da mordida que a Nidoran lhe dera
Ele piscou, a expressão de dor se intensificando por um momento. Porém, logo o tom azulado ao redor da ferida sumiu, restando apenas uma marca de mordida semelhante às outras.
- Muito obrigado, Melanie. — ele disse
- Não se preocupe. — eu repeti – Que bom que você está bem.
Então, ele baixou os olhos para a Nidoran,que o encarava com uma expressão novamente infantil, parecendo dizer “Me desculpe por ter te envenenado, eu não queria te fazer mal”.Então, ele levantou a mão ainda machucada e, antes que eu pudesse impedi-lo, estendeu-a para a Nidoran.
Para minha surpresa, porém, dessa vez ela não protestou. Pareceu se encolher um pouco com a aproximação da mão dele, mas não fugiu e nem o mordeu, enquanto ele acariciava sua cabeça com ternura.
- Tudo bem, minha amiga. — ele disse – Eu sei que você não fez por mal.
Então, ela levantou os olhos para ele.
- Independente... feroz... territorial... afasta a todos que tentam se aproximar, com exceção apenas daquelas iguais a você... você não tem um nome, não é? — ele disse, a olhando enquanto sorria – De agora em diante, seu nome será Ártemis.
Ela pareceu, de certo modo, entender tudo que ele quis dizer, mas então apenas fechou os olhos e se deixou acariciar.
Me emocionei com aquela cena... eu nunca imaginei que veria um pokémon tão arredio como aquela Nidoran se deixar tocar daquela forma. E ali estava ela, como se fosse um filhote recém-nascido, enquanto Kenji a acariciava.
Eu nunca esperaria por isso. Mas aconteceu... e me deixou feliz.
- Bom, Melanie... adeus. Já lhe dei trabalho em demasiado... e, de qualquer jeito, já é hora de eu retornar para meu caminho anterior. — ele disse, quando veio se despedir de mim
- Você sabe o caminho para Vermillion? — eu perguntei
- Sei, mas ainda não tenho certeza se vou para lá...
- Como assim, não sabe pra onde vai?
- Não exatamente... vou apenas seguir em frente. A jornada é tão ou mais importante que o destino... e pretendo empreendê-la para enriquecer meu espírito.
- Não sei bem do que se trata... mas só posso lhe desejar boa sorte. E se estiver em apuros, por favor venha me ver.
- Está tudo bem. Ártemis está comigo. — ele disse,rindo
A Nidoran, recém-batizada de Ártemis, estava de pé, próxima a Kenji. Desde aquele momento, ela não o deixou nem por um segundo sequer... e era notável que ela queria segui-lo. Seu bando de Nidoran vinha se despedir... e se notava nela a mesma dignidade que eu encontrava em Kenji. Talvez por isso ele não havia desistido dela?
- Bom... boa sorte, Kenji. Tomara que encontre o que está procurando. — eu disse
- Lhe desejo tanta felicidade quanto o número de estrelas que há no céu, Melanie. Espero encontrá-la novamente algum dia. — ele me respondeu
- Ora, não seja tão formal assim... você terá tempo para isso quando for mais velho.
Então, sua expressão mudou por um segundo, tão rápido que quase não percebi. Pareceu ficar um bocado melancólica, como se eu o tivesse lembrado de algo que havia acontecido... porém, logo após isso, sua expressão voltou a ser serena e tranquila como sempre.
- A veremos novamente. Muito obrigado por tudo. — ele fez uma pequena reverência
- Boa viagem, Kenji. E boa sorte!
Enquanto Kenji e Ártemis caminhavam para longe, eu os acompanhava com os olhos e podia pressentir algo vindo deles... eram ambos extraordinárias criaturas, e que, juntos, fariam grandes coisas. Mesmo que não ficassem conhecidos, como Red, Green, ou os membros da Elite Quatro, podia ver que, juntos, empreenderiam a maior jornada do mundo: a jornada com destino à sua própria sabedoria.
Notas finais
Espero que tenham gostado...ficou de um jeito que gostei bastante de escrever.Aproveitei um momento em que estava inspirado,pois pra mim é um grande problema eu escrever fanfics aos poucos,porque me desanimo ou perco o fio da meada.Os outros mistérios que cercam Kenji ainda vão ser explicados em outra ocasião...espero que tenham gostado ^^
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