Notas iniciais
Capítulo curtíssimo, mas só de bônus de final de semana e para dar uma espera cheia de expectativa do próximo capítulo, que tal? Beijos e não deixem de comentar!

Rhaegar analisava a postura da esposa enquanto tomavam o tradicional leite com mel antes de dormirem. Os lábios tentadores estavam curvados, revelando um sorriso contido de quem fazia planos em silêncio. Os olhos sempre desafiadores se concentravam em passar geléia da torrada para Elliot, que monopolizava a atenção dos irmãos fazendo tranças naqueles cabelos que mal viam uma lâmina.

– Qual é a estratégia da vez, minha Rainha? – perguntou sorrindo, fazendo-a concentrar na expressão divertida do Rei – Não negue, lhe conheço tão bem quanto a palma da minha mão.

Lyanna deu de ombros como quem não quer nada, repassando mais uma torrada com geléia para o prato da linda Princesinha. Pararam em uma estalagem, fazendo um alvoroço desnecessário mais cedo, há poucos dias de Winterfell e Rhaegar percebia que o amor de sua vida ficava ansiosa a cada segundo.

– Não tenho estratégia alguma, seu espertinho – respondeu exibindo um sorriso maroto, tão típico de uma criança. Ela permanece jovem... – Mas já que insiste em saber, tenho apenas um pressentimento bom quanto esta viagem, oras. Qual o problema disso?

– Pressentimento de confusão, talvez? – Aegon entrou no meio da conversa ao sentar para o pequeno lanche, roubando as torradas que eram para Elliot – Obrigado, mãe.

Não havia como ficar com raiva do herdeiro do Trono de Ferro. Elliot fizera do longo cabelo pratedo do rapaz, que parecia não se importar, um grande penteado digno do Sul. Cheios de tranças e sem mais para onde amarrar, daria um bom trabalho para desfazer aquela bagunça. O Rei e a Rainha sorriram um para o outro antes de caírem na gargalhada.

Jon estava se tornando a segunda vítima da Princesa, que sempre foi muito criativa. Vários enfeites da esposa já ostentavam o início do penteado que Elliot montava no irmão.

Lyanna retirou uma tiara de pérolas negras do alto da cabeça do ‘Dragão de Dorne’.

– É melhor não deixar sua irmã brincar com isso, foi um presente do seu pai quando Jon nasceu – falou a Rainha ajudando o filho adotivo a desmanchar as tranças ao redor da jóia – Vá lá na sua irmã e retire todas as jóias de suas pequenas mãos cheias de criatividade, está bem?

O Dragão de Dorne assentiu obedientemente.

Eram momentos como estes que Rhaegar amava a esposa cada vez mais que o tempo passava. De início duvidara da relação entre Lyanna e Aegon, há dezessete anos que passaram incrivelmente rápido. Eram tantas apostas que seria um fracasso que o próprio Doran Martell lhe escreveu pedindo a guarda do rapaz.

Aegon é meu filho.

Tudo se resultou em uma família muito bem construída e extremamente estável. A esposa abraçou a causa de Aegon, que procurava não se lembrar que foi por causa da mãe adotiva que sua mãe biológica morreu. Um assunto que já haviam esclarecido há muito tempo, o rapaz felizmente não conseguia guardar mágoas daquela Rainha tão doce, divertida e coruja. Vê-la paparicando os filhos era um dos deleites do Rei

– Os Stark e seus vassalos cairão para trás quando você chegar lá, querida – começou abrindo um sorriso ao imaginar a cena – Ainda não de acostumaram com sua posição.

Lyanna ergueu uma sobrancelha.

– Estou no poder há tanto tempo, como podem estranhar tal coisa até hoje? – perguntou dócil, mas deixando bem claro que o poder era dela – Sei que muita gente não gosta do meu casamento com você por causa do seu adorável pai. Não me olha com essa cara, conheço todas as desculpas que você sem me dá quando acordo este assunto.

Não é desculpa.

– Está bem, não se fala mais nisso.

Mas a esposa sorriu mesmo assim.

– Estou curiosa quanto às minhas sobrinhas, é só – revelou após um momento de silêncio, uma das técnicas que o Rei aprendeu após conviver com a nortenha durante muitos anos: paciência. Não adiantava forçá-la, mas sim fazê-la pensar que falava por livre e espontânea vontade – O sonho que eu tenho...

Mas ela parou de falar assim que percebeu que todos os filhos pararam de brincar com Elliot para ficar escutando a conversa alheia.

– Ouvir conversa dos outros é muito feio, mesmo sendo da mãe – continuou a Rainha aprontando o sermão, levando o dedo indicador para todos eles – Está na hora de dormir.

– Mãe, eu tenho vinte e um anos – falou Aegon incrédulo, mas Lyanna o ignorou.

Rhaegar tentava conter um riso, disfarçando com um leve pigarro.

– Crianças! – exclamou de cara feia – São todos crianças aos meus olhos, e do seu pai também. Não é, Rhaegar?

O Rei ergue uma sobrancelha.

– Oi?

Jon se levantou do chão imediatamente, pegando Elliot pelas pequenas mãos e aconchegando-a em seu colo. Era sempre o mais gentil e prestativo, de fato. Vestido em negro, como sempre, desfazia as tranças que a irmã começa a fazer em seu cabelo e começou a ajudar o irmão mais velho guardando as joias da mãe.

– A senhora se preocupa demais com esse assunto, mamãe – falou Jon entregando a ‘caixinha’ de joias feita em marfim e ouro para Aegon – Somos todos muito maduros para lidar com meninas, ainda mais nossas primas.

Lyanna cruzou as pernas.

– Eu não me preocuparia caso não tivessem sangue Targaryen – falou sorrindo para o marido – Quando um dragão gosta, quer sempre para si. Muito egoísta, é claro.

Rhaegar balançava a cabeça com um sorriso incrédulo.

Como se ela fosse inocente.

– Obedeçam sua mãe – ordenou já com sua posição autoritária de pai e Rei – Temos que acordar mais cedo, na hora do lobo de preferência. Não queremos chegar tarde em Winterfell, não é?

Após todos desejarem boa-noite, e beijarem a bochecha da mãe como toda noite faziam, ambos foram deixados à sós para terminar a leve refeição. Algo feito só para eles, afinal, não era toda hora que podiam agir intimamente naqueles jantares e banquetes extravagante que a Fortaleza Vermelha oferecia constantemente aos visitantes.

– Voltando ao assunto – ela começou após terminar o conteúdo de sua xícara de porcelanato pentoshi – O sonho que tenho sempre destacou muito a mais nova lobinha e as descrições que meus irmãos fazem das meninas são idênticas ao que me recordo. Tenho medo de sonhos premonitórios, geralmente dizem coisas que não queremos saber em hipótese alguma.

O Rei assentiu em concordância. Não era tão estranho para o casal a presença desses tais sonhos premonitórios da Rainha, ele já era especialista nisto ao vê-la acordar. Sempre quando aparecia agitada, irritada ou tendo ataques de pânico, era porque sua esposa havia sonhado possíveis acontecimentos... acertando a maioria.

– Mas você errou aquela que teríamos mais filhas do que filhos – apontou sabiamente Rhaegar – Ah, também me lembro de quando você sonhou que seu irmão fora decapitado sob as ordens de Cersei Lannister e do filho dela, o bastardo.

– Acertei que os Lannister estão vivos e que eles tem, de fato, três bastardos, oras – posicionou defensivamente – Não estrague meus poderes de médium, sabichão.

– Então o que esses poderes falam da nossa visita à Winterfell? – perguntou curioso. O Rei sabia que os filhos estavam, naquele exato momento, disputando quem ficaria mais perto da porta para ouvi-los ‘secretamente’ – Algum dos nossos Príncipes irá bancar o pai?

– Penso que não – Lyanna respondeu confiante – Criamos todos eles bem demais para largarem tudo para o alto e... bem, não estou falando que sua criação foi ruim.

– Mas ela foi ruim, não precisa ser gentil – interviu rapidamente, a esposa sempre ficava um tanto quanto melancólica quando Rhaegar contava da sua infância, principalmente a respeito do pai louco que tinha – Ter um pai como o meu é uma praga que jogo apenas para nossos inimigos, principalmente para os Lannister. Soube recentemente que Jaime Lannister, que merecia um prêmio por ter matado meu pai, é um péssimo e ausente pai. Mas diga-me: se fosse para escolher um dos nossos dragõeszinhos, qual poderia raptar a nossa querida e indefesa Arya Stark?

Tão indefesa que cerrou a mão do Regicida.

A esposa deu de ombros, mas ele sabia qual era a sua opinião.

– Se depender do pai... – começou sorrindo, fingindo que o marido não sabia a verdade — ...todos.

Foi aí que o Rei decidiu deixar o assunto morrer por si só, já bastava a conversa delicada e ainda sabendo que os filhos estavam escutando atrás da porta. Era um péssimo hábito que adquiriram com a mãe, sempre curiosa a respeito de tudo que acontecia ao seu redor. Pensando nas coisas que acontecem na família, Rhaegar cogitou seriamente qual dos filhos teriam a mesma coragem de desafiar Westeros inteira para roubar uma menina de catorze anos.

.. e Jon.

Os deuses sabiam o quanto eles eram diferentes, mas ao mesmo tempo iguais.

Me vejo muito naqueles dois, e isso é o suficiente para um pai.

(...)

Acordou na hora do lobo, já era um costume que ela adotara desde quando aprendera a caçar, há mais anos que poderia saber. O silêncio já estava para ser rompido, geralmente era aquela hora em que os cavalariços, criados e ferreiros acordavam. Mal faziam barulho, mas a jovem loba tinha os sentidos bastante apurados. As janelas jaziam fechadas embora conseguisse perceber que o frio de Inverno diminuía a cada dia que se passava.

No escuro, sua cabeça latehava de dor. Não estava assim quando foi dormir mais cedo, havia sentido apenas um cansaço comum quando se deitou. Com a mão na testa, Arya se levantou com dificuldade, sentando-se na cama logo em seguida.

Será que eu tive um ataque de sonambulice?

Bran era assim, ela não. Mesmo assim nunca teria batido a cabeça de forma tão violenta e ainda continuar dormindo. Respirou fundo, que raios fizera para acordar daquele jeito?

Pensou em tudo que fez no dia anterior. Nada fora do comum em sua agitada rotina.

Acordei, cavalguei e matei alguns javalis com Gendry e Robb.

Era só isso. Até mesmo não contatou Nymeria, esta tão ocupada em proteger silenciosamente a família real. Arya sentia falta da sua loba-gigante, nunca ficaram tanto tempo longe uma da outra. A dor de cabeça voltou a incomodá-la. Não estava grávida em hipótese alguma, seu sangue da lua ainda escorria por entre as pernas, então a conclusão era mais que óbvia. Seria trágico caso esta fosse uma real hipótese, terminaria de explodir a mente da sua mãe.

Arrepiou só de pensar a respeito desta perspectiva. Por mais que Gendry a tentasse sexualmente, bonito do jeito que era, seu coração de lobinha só conseguia pensar no rapaz como um amigo... com benefícios.

Infelizmente não corresponde aos sentimentos dele.

Mas porque estava pensando naquilo?

Foi aí que Arya se lembrou da discussão que tiveram quando Robb preferiu caçar mais à frente, deixando-a com o herdeiro dos Baratheon. Os deuses antigos sabiam o quanto se esforçava para gostar amorosamente do amigo, mas foi tudo uma grande perda de tempo.

Ele falou que os Príncipes são ameaças disfarçadas.

Gostaria de saber quem colocou na mente do rapaz que ela fazia o tipo indefesa, uma Sansa genérica. Ainda tem mais, a tia criou os filhos muito bem, como seu próprio pai elogiou. Era ignorância colocar a culpa no sangue de dragão.

Uma tontura a perturbou ainda mais, sua visão passou a ficar embaçada a partir do momento em que andou pelo quarto. Caiu de quatro no chão gelado, batendo o joelho dolorosamente enquanto tateava algum objeto para ajudá-la a ficar em pé. Logo sua visão escureceu completamente, impedindo-a de ver quem entrou de repente no aposento. Sua última lembrança foi a visão de botas de couro retorcida que lhe eram extremamente familiares.