Apenas O Tempo Falará...
19 Eddard
Notas iniciais
O Lorde Stark de Winterfell estava desnorteado.
Parecia que sua mente havia travado, como era possível Cat tomar uma atitude desta sem ao menos perguntá-lo o que achava daquilo tudo?
Ela sabia, claro que sabia, que eu seria contra esta atitude impulsiva.
A presença de Sor Arthur Dayne e Sor Barristan fazia com que Ned, observado por ambos, ficasse confuso sobre o que poderia fazer naquele momento. As palavras passavam por sua mente mas ele não conseguia fixá-las em um só lugar e desenvolvê-las devidamente. Tudo parecia ser um borrão confuso e, em seu íntimo, Ned queria acreditar que Cat não havia feito aquilo e que tudo não passava de um engano.
Infelizmente, ele sabia que não era assim.
Cat apelou ao Rei... Cat, o que você fez?
- Para uma melhor explicação... – começou Sor Barristan com tranquilidade, demonstrando uma segurança anormal para aquela situação. Ned os respeita como se fossem algum Rei ou Príncipe, a postura deles era essa... - ...sugiro que leia a carta do Rei Dragão, Lorde Stark. Não pense que viemos raptar a sua filha, não queremos confusão e muito menos desejamos afetar o senhor. A Lady Stark nos pediu ajuda e o Rei aceitou a proposta, espero que compreenda a nossa presença pois não somos nenhuma ameaça ao senhor.
Ned piscou algumas vezes.
Não era um menino tão verde assim, o problema era que perto deles tinha que manter sua guarda demasiadamente alta mesmo eles, com a honra que sempre tiveram, avisarem que não ali como ofensa ou qualquer tipo de ameaça física. Claro que Ned acreditara neles, eram homens sérios, corretos e leais ao Rei. São cavaleiros que Ned admirava, portanto, a hospitalidade seria o dever de um Lorde, principalmente pelo Protetor do Norte.
- Sim... – mesmo assim, Ned continuava atônico e evitava olhar para a sua senhora. Decepcionado, era um assunto que poderia encarar depois — ...vejo que o Rei os enviou com a melhor das intenções e não serão destratados em Winterfell, ambos tem a minha hospitalidade, cavaleiros. Agora, me deem um momento... a Lady Stark ficará com os senhores enquanto eu estiver ausente.
Ned sabia que Cat estava imóvel em seu lugar, congelada como se estivesse na Muralha. Não queria vê-la naquele momento, era melhor ler a carta sozinho e em paz para ele mesmo tirar suas próprias conclusões... e sem gritos femininos ou acusações que torne aquele dia insuportável.
Ou um fase insuportável. Deuses, espero que não.
Só que era impossível ver um lado bom naquilo.
Os cavaleiros fizeram uma breve reverência quando ele caminhou a passos largos, adentrando Winterfell e se retirando daquele salão rapidamente. Não olhou para trás, a decepção com a atitude de Cat era profunda mas não poderia simplesmente gritar com ela sem saber o conteúdo da carta. Ele queria entender, compreender, o ponto de vista de sua senhora sem interferir o seu emocional... o que se revelou impossível. Ned sempre foi um homem correto e racional, desta vez se sentia sem saída.
Procurando uma calma que não conseguia ter, direcionou-se até o Bosque Sagrado em busca de respostas e uma leitura tranquila com a esperança de ter alguma saída naquela situação.
O Rei não pede, o dever do Rei é ordenar senão não seria um Rei.
Ele não sabia o que era pior:
Desobedecer o Rei ou provocar uma fúria maior em Cat.
Ele a amava e não queria vê-la daquele jeito, era duro enfrentar o fato de que ela poderia estar desgostando dele com toda aquela situação que se armou em volta de palavras mal ditas.
Palavras malditas.
Procurou a Árvore Coração e sentou-se em suas raízes, olhando para o represeiro enquanto pensava o quão poderia estar ruim aquela situação, tanto pra ele quanto para... bem, o resto do Norte. Afinal, sob a proteção do Rei, o que Robert poderia fazer? Ele não era o Lorde Baratheon e não pode tomar decisões contra a coroa...
Cat pensou em tudo.
Respirou fundo, tomou coragem e rompeu o lacre do dragão de três cabeças.
“Lorde Stark, não tenho intenção de que minha casa prejudique a sua família novamente e respeito-lhe imensamente por sua seriedade e competência, além de ser o irmão da minha Rainha Loba. Considero-te um homem sério e sensato mas sempre estranhei este acordo com Robert Baratheon, acredito que não seja do seu feitio iniciar algo tão arriscado sem ter motivos consideráveis. A Lady Stark me procurou, pedindo a minha interferência antes mesmo da menina, Arya Stark, nascer. Como deve saber, o instinto materno é fundamental e determinadas atitudes consequentes disto e de mais outros fatores são para o bem da menina. Tenho minha opinião formada sobre isto e concordo com a sua senhora que não é saudável para uma criança crescer e amadurecer sob esta sombra do passado, sempre sendo comparada à minha Lyanna. Creio eu, assim como a sua senhora também deve pensar, que o seu melhor amigo pode não esperar uma determinada idade para se relacionar com uma menina que nada tem a ver com o nosso passado. Compreendendo e analisando a situação, a Lady Stark pediu-me para que a menina seja minha protegida e que cresça longe dos olhos de Robert Baratheon. Outro fator determinante é, se ela for como dizem ser, que ela poderia rejeitar veementemente os acordos que foram feitos antes de nascer. Minha Lyanna fez isto facilmente, como podemos constatar. O que faria se ela se rebelasse? As consequências são, em sua maioria e talvez ao todo, negativas. O único modo, assim como Lady Stark me pediu, é que ela cresça alheia às comparações diárias e isso poderia beneficiar a aceitação dela. Conhecendo Robert Baratheon, duvido que isto dará certo mas nisto eu não irei me intrometer, o que posso fazer é aceitar a proposta da sua senhora e criá-la na Fortaleza Vermelha como minha sobrinha. Ao aceitar, Arthur Dayne e Barristan foram enviados para trazer a menina para Porto Real e eles não sairão sem ela. Agindo desta forma, será outra punição aos Baratheon pela guerra e rebelião que levantaram contra a minha dinastia. Ajudarei Lady Stark e ao mesmo tempo aviso ao Norte que o passado ainda está bem fresco em minha memória. Estarei esperando a minha sobrinha e não aceitarei qualquer alegação. Arya voltará quando fizer catorze anos. Rei Rhaegar Targaryen.”
Era irreal.
Ned leu a carta mais de dez vezes e as palavras não conseguiram a absorção necessária para a compreensão da leitura e onde ele poderia ver possíveis falhas nos argumentos do Rei. Após algum tempo, relendo-a novamente, ele entendeu que além de aquilo ser mais uma ordem de busca do que uma proposta aceita, serviria como punição para Robert Baratheon por estar fazendo exatamente o que fez no passado. Ned poderia alegar que o Rei não tinha motivos suficientes para tomar esta atitude drástica...
...seria uma alegação falsa.
De motivos familiares até os vingativos, Rhaegar Targaryen conseguiu explorar aquela proposta melhor do que Ned pensava. A vingança sempre foi característica dos Targaryen, tudo baseado em fogo e sangue, e mostram suas garras em qualquer oportunidade de denegrir mais o seu inimigo.
Por isso que Rhaegar deixou Robert vivo.
A vingança do Rei era mais profunda, mais embaixo.
Ele achou o momento certo.
Aquilo mataria Robert, teria que perder a menina para o mesmo homem e ainda teria que engolir o fato de que ela moraria em Porto Real, longe do Norte. Longe dos Baratheon. Apenas os Stark tinham permissão de ir abaixo do Norte, ao Sul, então poderiam visitá-la já que Rhaegar não colocou nenhuma restrição quanto a isso.
O problema é que era difícil para Ned aceitar tal condição. Ele se via rodeado de facas no escuro, foge de uma e se fere com outra, na maioria das vezes sem saída. Quando eram problemas do Norte, Ned conseguia dominá-los com facilidade e não tinha tantos problemas em resolvê-los... só que nisso tudo, a autoridade do Rei que está inserida no Protetor do Norte, sendo o representante dele naquele território.
Então o que eu faço quando este único homem exige algo que Cat propôs?
Isso era o que matava-o.
Aquilo não era tomar a força, Cat que iniciou tudo aquilo e o Rei não estaria na questão se não fosse ela. Uma tristeza tomava conta dele, não conseguia ficar com raiva da sua senhora porque além de ser uma mãe desesperada pelo bem estar da filha, o próprio Ned sabia que as palavras mal ditas se tornaram palavras malditas. Ele pensou que Robert poderia desistir com o tempo e esquecer o que o passado deixou em suas cicatrizes, Ned realmente acreditou que o seu melhor amigo poderia aprender alguma coisa com a guerra frustrada e as punições pesadas do Rei Rhaegar Targaryen, que desempenhou um papel determinante em tudo isto.
Robert armaria para matar o Rei em um momento de dor.
Lyanna tinha acabado de falecer, deixando o seu melhor amigo em fúria por causa do filho, o Príncipe Jon. Na opinião dele, o menino matou-a propositalmente.
Stannis não admitia o acordo de paz.
Então o que Robert poderia ver como obstáculo ao matar os últimos da dinastia Targaryen em meio a uma guerra instável?
A honra de Ned foi maior do que tudo. O luto o matava por dentro mas logo sabia que tinha que deixar o herdeiro do Trono de Ferro saudável, pelo menos foi o que sempre a prometeu desde que a reencontrara em meio a guerra. Ele via a felicidade que ela tinha quando estava com o Rei ou ao falar do Lobo-Dragão, como agora é conhecido. Ned sabia que ela estava observando todos ali e não havia como desagradá-la, sendo o único filho da sua irmã mais nova, Ned jurou que não faria nada contra ele.
Foi uma promessa de sangue. Uma promessa de morte.
Nesta promessa não poderia recuar. Seria absurdo ofender a memória de sua irmã daquela forma.
Também não poderia recuar com a promessa que fez ao seu melhor amigo... mas poderia adiá-la até quando for possível. Aquilo não quebraria a promessa e o próprio Rei deixou claro que o casamento ainda estará de pé.
Ainda sentado nas raízes da Árvore Coração, Lorde Eddard Stark de Winterfell se viu sem saída.
Desobedecer o Rei em assuntos de vingança e guerra é insensato, Ned. Abandonar a filha com ele também o é.
O problema era que Cat se viu disponível a sacrificar todo esse tempo apenas para não correr o risco de que Robert fosse... apressadinho. Ned não consegue mentir para si, havia esta possibilidade segundo à insistência dele por Lyanna e, no momento, Arya.
E ele nunca sai de Winterfell por muito tempo.
E ela também será tratada como sobrinha do Rei.
Ele procurou algumas falhas naquela carta, o máximo que conseguiu foi que os Stark poderiam visitá-la em Porto Real ou ela poderia ir até Winterfell como uma viagem, não como morada definitiva. Isto gerava um alívio maior em Ned, ele sabia que não tinha como correr daquilo.
O Rei não pede, ele ordena.
Não adiantava se esconder, correr ou enrolar... o fim seria o mesmo. A juventude de Cat, sua ingenuidade e desespero, permitiu uma jogada de mestre, típica de um homem vitorioso no jogo dos tronos. Havia outra condição: se o Norte se levantasse contra o Rei, como Ned poderia argumentar com os seus vassalos?
Com a minha filha, o Rei poderá fazer o seu jogo com maestria mesmo tendo-a como sobrinha.
Não é à toa que o homem que Lyanna amou tanto era o Rei de Westeros.
Rhaegar Targaryen ganhou o jogo dos tronos, quem era Ned para contrariar suas decisões bem articuladas e afiadas?
Afiadas como as garras de um dragão.
Lobos também possuem garras.
(...)
Após algumas horas perdido em seus pensamentos, Ned voltou para o salão de Winterfell, encontrando Cat, Sor Arthur Dayne e Sor Barristan sentados junto a mesa enquanto comiam maçãs picadas ao mel e figos cristalizados com leite quente. Ela ainda estava tensa e ao olhá-lo, congelou e pressionou o maxilar. Ele ficou triste ao vê-la tão mal, claro que ela se sentia culpada pois era abrir mão de algo que uma mãe não abriria tão facilmente.
Os dois cavaleiros mantinham a pose característica de de uma guarda do rei, mesmo fazendo um lanche. Eram tão seguros de si que de vez em quando geravam inveja nos jovens verdes que queriam ser daquele jeito mas o emocional não deixava. Eram homens demasiadamente racionais, disto todos sabiam.
Além de tudo, estão em uma missão do Rei.
Respirou fundo, caminhando a passos largos, e sentou-se ao lado de Cat, que estava mais tensa ainda. Ele nunca a viu daquele jeito devido ao punho de ferro que ela levava sua vida...
...esse punho de ferro fez com que mandasse uma carta de ajuda ao Rei.
Olhando para as maçãs ao mel, Cat não levantou o olhar.
O coração de Ned estava batendo cada vez mais forte e poderia tremer se conseguisse, fora treinado para não tremer em hipótese alguma... e não seria aquela hora que tremeria a sua estrutura.
- Devo dizer que o Rei foi bem claro em seus argumentos, senhores – comentou tentando levar a conversa de uma forma tranquila e... Ned se lembrou de Robert. Ele chegaria à noite, como sempre. Aquilo o alarmou internamente, como não poderia ter confusão em Winterfell quando se tem Sor Arthur Dayne como hóspede? – Tão claro que mal posso argumentar contra, para a felicidade da minha senhora.
Cat enrubesceu com o comentário afiado que Ned resolveu fazer.
Não é justo com ela, esqueça o que o desespero de uma mãe faz, Ned.
Entregou-a a carta para que ela compreendesse melhor a situação que eles estavam inseridos. Colocou-a em cima da mesa, ao lado aquelas maçãs que pareciam estar saborosas. O estômago de Ned se revirou logo após, estavam gostosas. Estavam.
- Obrigada – agradeceu baixinho, pegando-a rapidamente e lendo-a igualmente.
Enquanto ela lia, Ned resolveu iniciar a conversa.
- O Rei está propondo que criará a minha filha como sobrinha.
Sor Arthur Dayne assentiu levemente, demonstrando ter um conhecimento a fundo naquele assunto.
Claro que os dois sabem o conteúdo da carta. Rhaegar tinha os seus melhores amigos em sua guarda particular.
- Ela será criada com o Príncipe Jon e a Princesa Daenerys, nada faltará à ela e será educada assim como o Príncipe e a Princesa são – explicou Sor Arthur Dayne seriamente, como se estivesse fazendo um contrato. Na verdade, é um contrato. Mesmo assim, Ned estranhou a abertura que o Rei estava dando para Arya, colocando-a na intimidade familiar a ponto de ser criada com o Jon e Daenerys. Esquisito, Rhaegar Targaryen era famoso por ser intolerante quando alguém interrompia os momentos familiares dele – O quarto dela já foi preparado e se localiza perto dos aposentos reais. Como deve saber, o Rei prioriza a família e a ida do Príncipe Viserys para Dorne fez com que a chegada de Arya Stark seja esperada com muito gosto de Vossa Graça. Será criada como uma irmã para o Príncipe e a Princesa, o próprio Rei deixou claro para nós, cavaleiros da guarda do Rei, que não haverá distinção.
Está bom demais para ser verdade.
- Sor Arthur Dayne, me responda com sinceridade – pediu Ned, querendo ter certeza do que estava acontecendo. Muitas informações e possíveis armadilhas poderiam estar sendo armadas, nunca se sabe, não é? Rhaegar Targaryen ganhou o jogo dos tronos – Fiquei feliz de saber as condições que o Rei dará para minha filha, mas preciso saber o porquê do Rei criá-la junto ao Príncipe e Princesa? Seria como se fosse criar uma filha, não?
Sor Barristan observava as caretas que Cat revelava enquanto lia e relia a carta. Ele parecia estar se divertindo com o choque dela, mas aquilo ali não era importante. Ned sabia que nada fugia daquele homem, poderia estar prestando atenção em Cat mas ouvindo a conversa atentamente mesmo sem mostrar um interesse visível.
Papai falava tanto nele...
- Sim, Lorde Stark, ele a criará como filha – respondeu Sor Arthur Dayne com sua típica segurança no que fala e faz.
É pior do que eu pensava.
- Sei que tem algum motivo, Sor.
Os olhos dele penetraram os de Ned.
O motivo era mais que claro embora Ned queria que ele confirmasse os seus pensamentos.
Esperou um pouco mais. Cat havia terminado de ler a carta e estava quieta, provavelmente perdida em seus pensamentos ao ver que o seu pedido de ajuda fora atendido em imediato da melhor forma possível e com um sucesso inquestionável.
- Se a Rainha Loba estivesse viva, Lorde Stark, — começou Sor Arthur Dayne, este é outro que sabe como joga o jogo dos tronos com maestria – poderia ter mais filhos parecidos com ela. O Príncipe Jon lembra bastante o jeito e a aparência da Rainha, colocando em questão uma menina, que além de precisar de ajuda, está sendo usada como uma nova Lyanna. O Rei se simpatizou automaticamente com a situação dela, Lorde Stark, pois além de tudo isto, ainda apresentaria o Norte, um convívio com uma Stark legítima, deixando claro que ele não quer que o Príncipe Jon se afaste da sua família materna.
Ned assentiu lentamente, processando as informações com calma.
Ainda está retendo informações...
- Estarei certo ao pensar que o Rei, ao relacionar todas estas informações, a criará como filha por pensar que Vossa Graça e minha irmã poderiam ter uma com as mesmas características? – Ned esperou astutamente, perguntando o que estava passando em sua mente.
Ele quer tirar o meu papel de pai?!
Sor Arthur Dayne respirou fundo.
- Sim.
Ned assentiu, já esperando aquela resposta. Cat havia ficado surpresa, entretanto, Ned poderia lidar com ela mais tarde. O foco é ter certeza de que o papel de pai ainda seria dele.
- Então aceitarei a proposta de ser Mão do Rei.
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