Apenas Juntos
18 Stalker de Leve
Notas iniciais
Nathaniel e Júlia conseguiram terminar de limpar tudo antes das seis horas da tarde.
— Acabou — disse Júlia se jogando no sofá. — Agora não me diga das suas lições, sair por algumas horas não vai te atrapalhar.
— Não vai, mas... — Se sentou no braço do estofado.
Júlia olhou bem para ele, reparando suas feições. — Você está triste, não é?
— Por que acha isso? — Assustou-se.
— Você não é assim. Eu sei que está tentando esconder. Eu estou vendo seu esforço em parecer normal, mas você não está normal.
Ele não sabia o que dizer. Júlia pegou sua mão, o puxando para sentar-se ao seu lado, e quando desceu, o abraçou. Quase sentiu seu corpo desabar, mas se segurou, apenas a abraçando fortemente.
— É por causa da sua amiga que foi embora?
Também. Claro que não era apenas ela. — É...
— Você gostava dela? — O soltou. — Digo, mais do que como amiga.
— Ah, não. Não, ela era uma boa amiga apenas. Mas... era a convivência, vou sentir falta.
Júlia continuava a olhar para ele. Como se pudesse ver o que estava pensando. Por um momento ele até temeu isso. Mas claro que era algo impossível.
— Tudo bem, então. — Levantou e espreguiçou-se. — Já começa a pensar onde iremos hoje.
— Temos mesmo que sair?
— Claro! Olha esse seu baixo astral! Quer ficar em casa vendo filme de drama e comendo sorvete?
— Não me parece ruim, tirando o drama.
Ela estreitou os olhos.
...
— Não acredito que estou fazendo isso. — Júlia disse entrando no supermercado.
— Sorvete, Júlia, sorvete.
— Droga... Me aguarde, sorvete. Só você para me fazer trocar uma festa por sorvete e filme. Fala sério.
— Se está achando ruim só ir para a sua festa.
— Fica quieto.
Nathaniel riu e a seguiu pelos corredores. Compraram pipoca, chocolates e sorvetes de baunilha e chocolate. Levou as compras para casa, enquanto Júlia ia para a casa dela tomar banho e trocar de roupa. Voltou mais ou menos as sete e meia. Pediram uma pizza, e comeram vendo alguns programas de competição culinária.
Júlia conseguia deixar as coisas engraçadas, mesmo elas não tendo um pingo de graça. Seus comentários sobre as pessoas ou acontecimentos eram sempre inesperados. Ela falava tudo o que vinha em mente, sem se preocupar. Seu sarcasmo não era pesado. Isso era uma das principais coisas que Nathaniel gostava nela.
Passaram a noite comendo besteiras e vendo filmes, até pegar no sono. Dormiram encolhidos no sofá, um em cima do outro. No domingo, como estava um dia bonito, resolveram ir à praia. Ficaram a manhã e tarde, e quando voltaram, Júlia ficou olhando e ajudando o professor a corrigir as lições da escola.
...
A primeira semana de Nathaniel foi estranha. Tanto a casa, quanto a escola pareciam mais vazios, apesar das pessoas de lá estarem sempre presentes, e em casa, tenha sido sempre assim.
Em um sábado, chamou Júlia para ir ao mercado com ele, para fazer as compras do mês.
— O próximo da lista é... — Júlia olhou para o papel. — Macarrão. Vamos para o corredor de massas. Foram para o corredor, e discutiram sobre os preços.
— Licença... — Uma moça cutucou o ombro de Nathaniel. — Você não é amigo do Castiel? Que estava com ele em um bar uma vez?
Nathaniel olhou rapidamente para Júlia, e encarou a mulher. — Ah... sim, eu me lembro de você...
Ela sorriu. — Aproveitando que você está aqui, queria perguntar se você não tem um telefone que eu possa falar com o Castiel... Quando ligo em seu celular dá na caixa postal.
— ... Não, eu tenho apenas o celular dele. Você... é uma fã dele?
— Ah, acho que sim. — Riu. — Desde sexta feira virei fã dele. Depois daquele show maravilhoso que ele fez com alguns colegas, é impossível não ser fã com a bondade dele.
Bondade? Estamos falando do mesmo Castiel? — Como assim?
— Ele fez um show para arrecadar fundos para o canil da cidade. Eu mesma liguei para ele, acho que na terça, para perguntar se ele poderia nos ajudar de alguma forma. E ele sugeriu o show e até conseguiu o lugar. Além de sempre doar dinheiro para o canil, ajudou com a arrecadação de fundos. Não tem como não ser fã de alguém assim.
Nathaniel ficou pasmo, e forçou a mente para falar algo — ... sinto muito, ele não está mais na cidade.
— Ah, ele já foi embora? Tão rápido assim?
— Pois é...
Júlia viu que o assunto tinha morrido, e entrou na conversa. — E o show arrecadou bastante? Foram muitas pessoas?
— Sim. — A moça sorriu, com gosto. — Foram muitas pessoas, foi incrível! O lugar lotou muito rápido e conseguimos juntar muito dinheiro. Já começamos a reforma do canil, até. Tudo graças ao Castiel.
— Ah que legal. — Júlia sorriu. — Fico muito feliz em saber disso. Posso perguntar o motivo de querer falar com ele? Talvez possamos ajudar de alguma forma.
— Eu queria apenas falar as novidades lá do canil. Ele pediu para saber de tudo.
— Ah, já que ele não atende fica meio difícil, né. Mas se o virmos pode deixar que vamos avisar para dar um pulo lá.
— Tudo bem, então! Muito obrigada. — Ela se despediu e foi embora.
Os dois acenaram para ela.
— Nath, o que foi? Por que ficou espantado daquele jeito?
— Ele não tinha me falado desse show.
— Está assim só por causa disso? — Estranhou a reação dele.
— E-eu poderia ter ajudado. Eu também gosto de animais. — Pensou rápido.
Júlia o olhou como se ele fosse idiota. Quando chegaram, ela ligou o notebook do loiro.
— Vamos dar uma olhada no facebook do Castiel, talvez tenha algo desse show.
— Eu não tenho facebook.
— Bom, eu tenho — falou, entrando em sua conta.
Enquanto tirava as compras das sacolas, Nathaniel ficou pensando.
Terça feira... Era ela então. Depois do que fizemos, ele estava no celular, falando com ela. E eu achava que estava marcando de sair com uma garota. Como. Eu. Sou. Idiota. Mas por que ele não me falou? Por que não me contou que ia fazer esse show? Que vontade de enfiar minha cabeça na parede...
— Nath... Olha, tem algumas coisas sobre o show no perfil dele.
Ele se aproximou de Júlia, olhando na tela do notebook.
— Ele falou sobre o show, colocou o endereço e o preço do ingresso. — Leu Júlia. — “É para uma boa causa, pessoal. Dá um pulo lá. Eu vou tocar com alguns colegas” ... Uau, quinhentas pessoas curtiram... E ele tem mais de mil seguidores.
— Uau.
Júlia levantou e foi até a cozinha. Nathaniel sentou-se em seu lugar e começou a fuxicar.
Haviam poucas informações sobre ele, mas algo chamou sua atenção. Um vídeo. Dava para ver que era ele tocando sua guitarra, e Dragon deitado ao seu lado. Deu play no vídeo, e nem ele soube o porquê, mas ficou surpreso ao ver que Castiel estava sentado em seu sofá. Ele tinha gravado isso ali, em sua casa.
— Some things we don’t talk about, rather do without and just hold the smile. Falling in and out of love, Ashamed and proud of, together all the while. You can never say never, while we don’t know when. But time and time again, younger now than were before – cantava – Don’t let me go, don’ let me go, don’t let me go… […] I will be your guardian when all is crumbling. I’ll steady your hand.
Obviamente, Nathaniel entendeu a letra. E por poucos segundos imaginou que Castiel estaria cantando para ele.
Antes de acabar o vídeo, Castiel deu um sorriso. — E eu dedico essa música ao meu cachorro. Adeus. — E parou a gravação.
O vídeo tinha mais de seiscentas curtidas, e os comentários eram quase iguais. Quase todas as mulheres que comentaram escreveram “lindo” ou “gostoso” ou “além de ser lindo canta bem, mais perfeito impossível”.
— Poxa, nem elogiaram seu sofá, que mancada. — Júlia riu atrás dele.
— Pois é.
Haviam outros vídeos curtos dele cantando algumas músicas, mas Nathaniel não quis ver. Já deu de ilusão por aquele dia. A maioria das fotos que estavam abertas ao público eram dele com Dragon, ou só do Dragon. Viu uma foto antiga, com Castiel ainda de cabelo vermelho. Era meio nostálgico. Antes que quisesse procurar por mais fotos, levantou em um salto, e voltou à cozinha, para terminar de guardar as compras.
Júlia pegou seu lugar de volta, e continuou a mexer no notebook. Nathaniel queria ocupar sua mente com qualquer coisa que não fosse o rosto de Castiel na tela de seu computador.
Olhou de canto, e viu que Júlia não estava mais no perfil dele.
Isso significa que ela não dá mais bola pra ele? Bom, não que tenha dado muita desde que nos conhecemos. Na verdade, nunca vi ela correndo atrás dele, ou o chamando para sair, ou coisa parecida. Isso é bom, então.
Eu queria poder falar pra ela como me sinto, mas ainda tenho medo dela ficar chateada. Eu sei que ela não iria me xingar, muito provavelmente iria disfarçar sua reação, mas... Não sei.
O jeito é continuar guardando para mim.
Fale com o autor