Apenas Juntos
19 Confissão
Notas iniciais
Mesmo tendo mais uma semana se passado, nada daquele peso tinha ido embora. Muito pelo contrário. Parecia que só aumentava. Uma mistura de culpa, raiva e saudade. Culpa por ter pensado o pior de Castiel, e pior ainda, por ele o ter flagrado com Lisa. Se não fosse por aquilo, eles não tinham se despedido daquela maneira, e não teria essa espécie de muro entre eles. A raiva, por Castiel não ter dito o que realmente fez, e por ter achado que fosse transar com outra pessoa, sendo que não foi nada disso. Suas intenções foram as melhores, e Nathaniel pensava somente naquilo. E saudade. Claro, a saudade. Nunca achou que pensaria isso, mas sentia falta do mau humor daquele cara. Das coisas que ele falava, do jeito que tocava guitarra, daquela pegada em seu pescoço, e seus beijos apressados e intensos. E também culpa por não conseguir contar à Júlia. Era a única em quem confiava, e não tinha coragem de falar o que sentia.
Ele estava quase pagando para quem conseguisse tirar todo esse peso de dentro dele. Mas claro, a única que conseguia fazer isso por algum tempo era Júlia. Então todo tempo que podia passar com ela não era desperdiçado.
No domingo, ela queria sair para correr, e Nathaniel a acompanhou. Parecia uma ótima ideia correr, como se pudesse deixar para trás tudo o que estava sentindo. A cada lembrança, acelerava ainda mais o passo, sempre pegando Júlia de surpresa e a deixando para trás. Mas ela sempre o alcançava.
Dessa vez ela estava pedindo arrego, e ele queria continuar. Queria continuar até seus pés doerem, até seus pulmões murcharem, até não conseguir mais respirar. Até ficar leve.
— Nathaniel...! — Júlia gritou, sem fôlego. — Espera...!
Ela havia parado. Estava com as mãos nos joelhos, tentando recuperar a respiração.
— O quê...? — Ele também respirava rápido.
— Como assim o quê...?! Você está correndo demais esses dias, para quem nunca correu. Eu corro sei lá desde quando e estou morrendo.
— Tem que aumentar o ritmo, se ficar no mesmo sempre, vai ficar morrendo mesmo quando aumentar.
— Espera um pouco...
Enquanto ela se recuperava, Nathaniel ficava impaciente para continuar. Seu coração estava acelerado e apertando cada vez mais.
— Certo... Vamos! — Júlia disparou na frente.
Nathaniel riu, e voltou a correr. E logo, a vontade de correr mais rápido veio.
Mas não adiantava passar as memórias na cabeça e correr, imaginando deixando-as para trás. Não resolvia nada. Só fazia ele se sentir idiota por tentar.
Junto com seus passos acelerando, vinha uma angústia que ele não sabia como fazê-la sair. Isso o deixava puto. Não saber o que fazer o deixava irritado, principalmente com assuntos sentimentais.
Conforme corria, sentiu seus olhos se enchendo de água, e antes que conseguisse passar a mão, escorreram por sua bochecha rapidamente.
— Nath...? — Júlia colocou a mão em seu ombro. Ele passou as costas da mão, secando seu rosto. — Nath! — Parou, o puxando.
Eles pararam no meio da ciclovia.
— O que foi? Nath, me fala!
Quanto mais ele passava as mãos nos olhos, mais água queria sair.
Júlia olhou ao redor, vendo outras pessoas passando, e pegou a mão do loiro, o levando para uma praça ali perto. Tinham árvores e alguns bancos de madeira espalhados. Nathaniel se sentou, mas Júlia ficou de pé, e antes de mais nada, o abraçou.
Ele a abraçou de volta, colocando a cabeça em seu peito. Ele não ia chorar, não agora. Era besteira chorar agora. Respirou fundo, controlando os soluços que queriam vir.
Depois de um tempo, Júlia o soltou e sentou-se do seu lado. — Quer conversar?
— ... — Ele fungou, passando a mão nos olhos uma última vez. — Me desculpa, Júlia...
— Te desculpar pelo quê?
— Eu não fui sincero com você desde o começo. E-eu fiquei com tanto medo de te falar... Mas isso está me sufocando de uma forma que eu não sei mais o que fazer.
— Pelo amor de Deus, me conta logo. — Segurou sua mão.
— ... E-eu... Eu gosto do Castiel... — Ele fez uma careta para si, como se ele mesmo duvidasse disso. Era estranho admitir, ainda mais em voz alta.
Ele não a olhou de primeira. Alguns segundos depois, resolveu arriscar, e a olhou. Ela estava com cara de “você está de brincadeira comigo?”
— Por favor, não fica brava comigo.
— Nathaniel, me diga algo que eu não sei. — Revirou os olhos.
— O quê? Como assim?
— Se eu percebo quando não está bem, como não ia perceber que você gosta dele? Eu sempre tive essa suspeita, só nunca disse nada pra não te chatear de alguma forma.
— Por que acha que ia me chatear?
— Não sei. Por que você não me falou antes?
— Por quê... Eu achei que você pudesse gostar dele. Desde que nos conhecemos, você falou que já tinha ficado com ele, e que ele era seu tipo...
— Mas isso não quer dizer nada. Eu não gosto dele, nunca gostei, sentimentalmente falando.
— Sofri calado à toa, então.
— Parece que sim. — Bagunçou seu cabelo. — Por isso então, está todo deprimido desse jeito? Então não era por causa da sua amiga.
— Também é por ela, mas tenho que admitir que grande parte é por causa dele.
— Quando começou a gostar dele?
— Não sei exatamente.
— Ele fez alguma coisa? Te seduziu, sei lá.
Nathaniel riu com aquela palavra. — Seduziu? Não sei, talvez... Quer saber de tudo desde que ele chegou?
— Claro.
Ele ficou um pouco sem graça, mas contou tudo. Sabia que Júlia era a melhor pessoa para se falar aquele tipo de coisa. Principalmente as partes em que foi atacado pelo meliante.
— É estranho falar isso com você — disse, pausando o assunto.
— Por quê?
— Porque já esteve com ele, dessa forma.
— Ah, Nath. Não se sinta assim. Eu já fiquei com outros depois dele. Continue.
Contou o restante, e enfatizou como se sentiu idiota ao achar que Castiel iria sair com outra garota após o que tiveram, e até por isso ficou tão surpreso ao encontrar aquela moça do canil.
— Ah, mas se ele não falou do que se tratava, não tinha como você saber. Mas me fala, o lance com a Lisa não foi uma espécie de vingança?
— Vingança? — perguntou, pensativo. — Eu não sei... Talvez tenha sido algo inconsciente. E-eu acabei me apegando a ela de um jeito não intencional.
— Até porque não era sua intenção ficar com ela, não é?
— Inicialmente, não. Mas depois do que aconteceu, eu me senti traído. Eu sei, eu sei que nunca tivemos nada, mas...
— Eu entendo. Eu sei como você se sente, já me senti assim várias vezes, e sempre procurava outra pessoa para servir de consolo.
— Eu não queria fazer isso com a Lisa. — Começou a se sentir mal.
— Ei, foi ela que quis, não foi? Você não obrigou ela a fazer aquilo. Ela pediu, certo? — Segurou os ombros dele e deu uma chacoalhada. — Não se sinta mal por causa disso. Eu te proíbo.
— Tá bom, tá bom.
— Sabe o que você precisa? Férias. Viajar, relaxar. Conhecer gente nova!
— Gente nova? Não estou muito afim.
— Está sim. Quando serão suas férias?
— Daqui a três semanas.
— Ok. Já sei para onde vamos.
— Você vai estar de férias também, por acaso?
— Sim, vou, para sua alegria. — Sorriu.
Nathaniel fez uma careta, mas estava feliz. Feliz pois podia contar com ela sempre que precisasse. E também porque sentia-se mais leve.
...
Os professores que entregaram as notas antes da data prevista, conseguiram sair de férias antes. Ganharam mais uma semana. Júlia disse que seus tios tinham um sítio no interior do estado, e que podia ir lá quando quisesse, então claro que ela queria ir para lá.
Fez Nathaniel arrumar as malas no mesmo dia em que foi liberado da escola. Ele conversou com seu vizinho e pediu para cuidar dos animais, disse que pagaria uma quantia quando voltasse, e assim ficou acertado. Deixou as chaves com ele. Depois compraram as passagens de ônibus, e no outro dia, logo cedo, partiram.
Eles foram muito bem recebidos pelos tios de Júlia. E claro, acharam que o loiro era seu namorado, e fizeram questão em dizer que ela nunca tinha levado um namorado para lá.
— Querida — disse sua tia —, se você gostar de meninas pode nos dizer, sabe que não vamos nos importar.
— Tia! — Júlia ficou envergonhada. — Não diga besteira! Nath, diga pra ela que eu gosto de homens.
— Eu acho que ela gosta de homens.
Os tios dela riram.
— Você não está me ajudando! — Júlia deu um empurrão nele.
...
Castiel colocou sua melhor calça jeans escura, uma camiseta branca e um blazer preto — que nunca tinha usado antes. — Tentou deixar o cabelo de uma forma apresentável, passou perfume e caiu fora.
Ao chegar, foi levado até uma sala pela secretária. Era a sala do diretor.
Eles apertaram suas mãos e começaram a conversar. O diretor fez várias perguntas à ele, se fumava, se bebia ou era usuário de drogas. Não era de se esperar, já que Castiel já esteve em uma banda, e o diretor queria ter certeza que ele não estava entre o grupo de artistas que vivam na gandaia.
Castiel foi sincero, ele bebia sim, mas apenas socialmente. Tinha seus tempos de festa, mas sabia muito bem separar trabalho e diversão.
Mostrou todas suas qualidades e mostrou ser responsável. O diretor logo gostou dele — o que era difícil não gostar, já que Castiel era simpático e bom de conversa — e logo disse que estava contratado.
— Espero que tenha paciência e goste de crianças, pois acho que teremos de várias idades por aqui. — O diretor disse ao se levantarem.
Ele riu, e disse que era paciente, e que com certeza se daria bem com a maioria delas, e se não desse, tentaria outros jeitos de fazer com que elas se aproximem e quisessem aprender mais.
Por último, o diretor mostrou uma sala bem espaçosa, que estava cheia de instrumentos musicais. Disse para Castiel que podia a arrumar do jeito que bem entendesse e achasse melhor. Mostrou uma outra sala que servia de depósito, e falou que os instrumentos que não usasse poderia deixá-los ali.
Antes de acabar a conversa, o diretor disse para Castiel que ele começaria na volta às aulas.
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