Apenas Colegas de Apê
64 É meu aniversário
Notas iniciais
– Anda, sua vez. — joguei a garrafa pra Lizz.
Ela girou e parou em mim, de novo. As meninas disseram pra rodar de novo, já que eu tinha sido a última. Aí ela girou, e parou em mim!
– Quer saber? Tira essa garrafa daqui. Vamos fazer assim : cada uma escolhe uma pessoa pra fazer a pergunta, e o resto continua igual. Ok? — Anna falou.
Todas concordamos, e Lizz escolheu a Gabi.
– Você acha que já encontrou o amor da sua vida? — perguntou.
– Ahn.. — corou. Sim, Gabriela Swan corou. — Eu acho que sim. Posso estar enganada, mas uma pessoa que conheci é totalmente diferente dos outros caras.
– Aaaawn. — Dylan e eu fizemos juntas, por saber de quem se tratava.
– Parem. — ela riu.
– Tô me sentindo completamente desinformada. — Anna apoiou o queixo na mão e ficou nos olhando.
– Gabiam. — Dyl fez um coração com as mãos. Ri, e Lizz e Anna fizeram cara de surpresa.
– Qual é, vocês são cegas? — perguntei.
– Tá na cara, meninas. Vamos para o oftalmologista mais próximo. — Dylan brincou. Gabi estava com cara de tímida.
– Gabizinha tá apaixonada. — cantarolei, por saber que ela ficaria brava. Ela pegou um travesseiro na cama e jogou em mim. Peguei outro e bati nela, em poucos segundos, todas nós já estávamos em uma guerra de travesseiros. Eu realmente me senti na comemoração do meu aniversário de 10 anos.
Depois de uns cinco minutos, deitei na cama.
– Eu tô morta.
– Vamos pra praia? — Gabi sugeriu.
– Enlouqueceu? — levantei a cabeça para olhar.
– Não. Vamos? Não pro mar, ficar na areia, mesmo.
– Tá bom. — Dylan concordou.
– Tá, vai. Não vou correr o risco de deixar as duas sozinhas, não. — falei.
– Vocês? — Gabi pergunta pra Anna e Lizz.
Elas alegaram estar muito cansadas e decidiram ficar. A gente aceitou, já que queríamos mesmo ficar as três sozinhas.
Chegamos na praia, completamente vazia. Quatro horas da manhã, só nós mesmo.
Sentamos na areia e começamos a conversar.
– O amor é uma coisa complicada, né?- Dyl falou em tom de pergunta.
– Nem fale!
– Muito. — Gabi disse.
– Parece que é coisa pra ferrar com a gente. Tipo, o amor de homem pra mulher. A gente começa de boa, aquela coisinha pequena. Mas, vai crescendo, e crescendo, e crescendo e quando a gente vê.. — falei.
– Já estamos completamente apaixonadas. — Dyl completou. Assenti.
– E o pior é que começa cedo. Com 10 anos eu já gostei de um menino da escola. Mas, acho que era interesse, porque ele me dava chocolate todo dia. — Gabi contou. Eu e Dylan rimos.
– E depois entrou o cara que você disse? — perguntei.
– É. Ele era todo fofo comigo. Me abraçava o tempo inteiro, ia atrás de mim todo intervalo na escola, e com o tempo fui me apaixonando. Ele era tão irritante! — riu, triste. — Puxava meu cabelo, me chamava de chata toda hora. Mas.. é a vida. E ele namorava! Eu nem sei como foi que gostei dele, mas deu certo. Ficamos quatro anos juntos.
– Loucura se envolver seriamente assim, tão nova. — falei. — A gente nem tem muita noção das coisas quando tem 13 anos. Tipo, a gente espera conhecer o amor da nossa vida nessa idade e ficar com ele pra sempre.
– É, verdade. Eu tinha essa sensação com.. — Dylan começou, mas não terminou.
– O Peter. Continuo achando esse término uma bobeira. — completei.
– Não sei onde estava com a cabeça. — confessa. — E agora, ele nem deve mais lembrar de mim. Já deve ter arrumado uma vagabunda no Canadá..
– Com direito, né? Olha, odeio ter que dizer isso pra você, mas a partir do momento em que você deu um pé na bunda dele, ele ficou livre, sem nada que o prendesse. Você sabe perfeitamente o quanto o Peter sofreu, e se estiver com outra, é porque superou. Mas, esquecer? Aposto que não. Superar? Piorou. Tenho certeza de que o sentimento continua vivo no peito dele, assim como está no seu. Só deu uma descansada e resolveu ficar guardado por um tempo. Mas, eu tenho a sensação de que, quando se encontrarem de novo, vai ser como se o tempo nem tivesse passado. — falei.
– Já pensou em ser psicóloga? — Gabi falou. Eu sorri.
– Amiga, sei não. Que eu continuo amando ele, eu sei, mas ele.. tipo, ah, você sabe. Ele é gato, mulherengo e tal.. difícil acreditar que ele ainda lembre de mim. — ela já estava me irritando.
– Quer ver? — peguei meu celular e disquei o número dele. — Alô?
– Rachel. Isso é hora de me ligar? — pergunta com voz de sono. Dylan estava quase me matando.
– Preciso te perguntar uma coisa. E, é meu aniversário hoje, você quem deveria me ligar. — coloquei no viva- voz. — Você tá namorando aí no Canadá?
– Oi? Claro que não, se eu estivesse te falaria. E você sabe muito bem..
– Sei? O que? — me fiz de idiota. Dylan prestou atenção.
– Você sabe que meu coração está completamente ocupado há quase dois anos.
– Você ainda a ama, né? — perguntei, mais baixo.
– Demais. Tudo que eu queria era ela de volta.
– E acha que isso é impossível?
– Quantas perguntas, loira! Os 19 anos estão te deixando curiosa? — pergunta e eu dou risada.
– Pode ser.
– Parabéns! Tudo de melhor sempre, saiba que eu tô aqui pra tudo. Eu te amo pra caramba.
– Também te amo pra caramba. Pode voltar a dormir.
– Muito obrigado mesmo.
– Trouxa. Boa noite.
– Boa madrugada pra você.
Desliguei e fiquei olhando pra cara da Dylan como quem diz "eu falei". Ela estava com uma expressão de felicidade, culpa, saudade e muita coisa misturada.
– Você tem que fazer alguma coisa, não acha? — Gabi pergunta pra ela.
– Não tenho certeza.
– Eu tenho. É bobeira ficarem se remoendo de saudade quando poderiam estar juntos e felizes. — falei.
– Mas, o fato é que, agora, ele está bem longe. Não tem o que fazer. Quem sabe, quando a gente se reencontrar, não tomo coragem e falo com ele.
– Quem sabe..- repito.
Eu deito na areia e elas me imitam. Fiquei olhando o céu e, de repente, caí na real. Hoje é meu aniversário.
– Como você tá, Ray? — a Gabi se vira e me olha.
Eu hesito antes de respoder.
– Feliz.
Não sei se depois disso aconteceu mais alguma coisa, e se aconteceu, eu não lembro.
***
Acordei com a sensação de não ter dormido praticamente nada, e ao mesmo tempo, descansada.
Olhei no celular, cinco e vinte e um. É, eu realmente não dormi.
Dylan e Gabi estavam completamente apagadas, deitadas na areia. Automaticamente, comecei a limpar o meu cabelo.
Estava amanhecendo, mas ainda estava escuro. Pelo jeito, o dia não seria quente.
A praia continuava deserta, mas pude ver um garoto, de aparentemente uns 13 anos, sentado, olhando pra gente.
Entrei no jogo dele e fiquei encarando. Coitado, numa partida de contato visual, eu sou a última a desviar o olhar.
Ele, então, levantou e começou a caminhar até mim. Quando chegou, perguntou:
– O que vocês três fazem aqui uma hora dessas?
– O que um pirralho curioso faz na praia, de madrugada, sozinho? — retruquei, e ele deu uma risadinha abafada.
– A minha pergunta é mais interessante. Na pior das possibilidades, vocês estão perdidas, sozinhas por aqui. Mas, pelo jeito como estão vestidas, acho que podem ser malucas.. afinal, por que três garotas bonitas estariam dormindo de madrugada na areia da praia, de pijama?
– Se pretende ter uma conversa, acho melhor sairmos daqui. Não quero acordar minhas amigas. — levantei. Vamos ver o mundo pelo ponto de vista adolescente (já que já me acostumei a não ser mais uma). — A gente não tá perdida, só viemos pra praia conversar um pouco e acabamos dormindo.
– Entendi. E.. eu não estou sozinho. É que meus pais estão dormindo e eu resolvi sair um pouco.
– Ei, isso não é certo. Eles podem acordar e se não o encontrarem, vão ficar preocupados.
– Meu nome é Tom. — disse, ignorando completamente o que eu falei. — E o seu?
– Rachel.
– Tenho 13 anos. — falou e eu me surpreendi com o meu chute certeiro.
– Tenho 18. Quero dizer, 19. — me confundi. Minha nova idade chegou há poucas horas, ainda não me acostumei.
– Que tipo de pessoa confunde a própria idade? — me olha.
– O tipo de pessoa que está fazendo aniversário hoje e ainda não decorou isso.
– Mulheres são complicadas.. — ele riu.- Ah, e parabéns.
– Qual sua experiência com as mulheres? — perguntei, rindo. — Quer dizer, você tem só 13 anos, não deve ser assim tão experiente..
– Na verdade, bastante. Tenho várias amigas, elas são todas taradas e complicadas. Gostam só de moleques que as fazem sofrer, e os que fazem de tudo por elas, acham melosos e desprezam. E, por experiência própria, vocês gostam de correr atrás, e não que corram atrás de vocês.
– Nem todas são assim.
– Claro, existem as exceções.. você é uma delas?
– Meu currículo com o mundo masculino não é dos melhores. Minha primeira experiência amorosa foi aos 14 anos, me ferrei. Me fechei e só me envolvi de novo aos 17, me ferrei também. E agora, estou mais ficando mesmo.. não sempre, só de vez em quando. E tenho um ficante fixo.
– Tipo amizade colorida? — ele pergunta e eu dou risada.
– Tipo amizade parada gay. — respondo, me lembrando da noite passada. Ele riu.
Parecia que o assunto tinha acabado. Eu já ia falar alguma coisa pra me despedir, mas ele voltou a falar.
– Eu nem sei por que vou te perguntar isso, já que mal te conheço e tal.. mas, o que eu posso fazer pra conquistar uma menina? Tipo assim, eu tô acostumado com as meninas dando em cima de mim, querendo ficar comigo, etc. Mas é realmente raro eu aceitar alguma, e se aceito é porque são bonitas, ou porque elas são legais. E essa, não fica no meu pé, não dá em cima de mim, ela não faz nada. Ela me ignora completamente. E, sei lá, acho que o impossível me atrai.
– Ah, Tom, que complicado. Por que não tenta descobrir algum interesse em comum entre vocês e procura a tal garota pra bater um papo? Mostra pra ela que você é um menino legal, e tal.. talvez ela seja resistente no começo, mas se você persistir, ela vá desabrochando e se mostre por inteiro pra você. — falei, e percebi uma cara maliciosa nele — Ei, e não leve para o duplo sentido. — rimos juntos.
– Tá, vou tentar fazer isso. Agora, eu realmente acho que preciso ir.
– Ah, pois eu tenho certeza disso.
– Tchau, valeu. E até qualquer dia, quem sabe.
– Tchau. — dei um tapinha na cabeça dele. Incrível como crio intimidade rápido..
Resolvi ir pro hotel, tomar um banho, trocar de roupa, porque eu realmente estava me sentindo completamente suja.
Devo ter ficado uma hora no banho, pois quando saí, Anna e Lizz já tinham acordado e Gabi e Dylan já tinham chegado. Todas elas me olharam quando saí do banheiro.
– A gente já ia conferir se você tava viva.. — Anna falou.
– Demorei tanto assim? — perguntei, pegando meu celular e secando meu cabelo com a toalha. Quando vi a hora, era sete e doze. Fiquei espantanda.
– Bastante. — Lizz respondeu — A água do mundo acabando e você se fazendo de morta no banho.
– Foi mal, gente. Eu estava me sentindo como se tivesse dormido na areia. Apesar de isso ter reamelnte acontecido
– Tá, agora eu vou, porque estou com a mesma sensação que você. — Dyl falou, entrando no banheiro e eu dei uma risadinha.
Eu já estava trocada, com um look bem praiano mesmo. Vestidinho branco, super fininho, de alcinha com a cintura marcada. Como estava meio friozinho (pra mim é assim : ventou, tá frio), eu coloquei um cardigã preto por cima. Coloquei um colarzinho dourado de pingente de pérola e uma rasteirinha verde água (minha cara de quem vai sem cor nenhuma).
Sequei o cabelo, passei rímel e fiquei esperando todas se arrumarem.
Demorou, demorou mesmo. Só saímos do quarto para o café da manhã ás 8:30.
Não tinha muita gente, nem pegamos fila. Eu peguei panqueca, um potinho pequeninho de Nutella e suco de laranja. Sentamos na mesa e logo um assunto estranho (apesar de eu concordar plemamente com ele) se iniciou.
– Toda a emoção do mundo está na vida da Rachel. — Gabi protesta.
– É verdade. Tudo acontece na vida dela. — foi a vez de Anna.
– Tipo, eu que estou com ela há mais tempo — Dylan começou — sei mais do que vocês e está comprovado: a Rachel tem a vida mais movimentada dos Estados Unidos.
– E vocês acham isso bom? — perguntei, colocando uma garfada na boca.
– Claro! — falaram juntas, como se fosse a coisa mais óbvia.
– Eu não acho tão maravilhoso assim, não. Acreditem, de vez em quando é até bom acontecer alguma coisa na vida da gente, mas a minha sempre acontece alguma coisa. — acentuei o "sempre". — E não é sempre que isso é bom.
– Você deveria escrever uma biografia com o nome "No Time to Breathe". — Lizz disse. Eu ri.
– Boa ideia, quem sabe um dia. — respondo, ainda rindo.
– Agora, vai, explica por que não acha que tanta emoção seja bom. — Gabi pede.
– Ah, simples: muita emoção pra pouco psicológico. Tipo, acontece uma coisa atrás da outra, nem dá tempo de respirar.
– Eu queria que minha vida fosse assim, com muita movimentação e várias coisas pra contar pros meus filhos. — Lizz explica.
– Mas gente, vocês sabem perfeitamente que nem tudo que acontece na minha vida é bom. Aliás, sabem que na maioria das vezes é o contrário. E não é fácil, eu já passei por poucas e boas, não foi nada fácil superar. Hoje, eu estou feliz por essa loucura toda ter dado uma acalmada.. -falei, e todas elas prestavam atenção.
–A gente sabe. — Gabi falou. — Mas bem que você podia dividir o pão ..- todas nós rimos.
– Podem levar tudo, eu não ligo.
– Metade é meu. — Dylan fala, e todas elas começam então a pedir um pouquinho, como se isso fosse mesmo uma coisa repartível.
Quando terminamos de comer e vimos que o tempo estava feio, provavelmente choveria, nós resolvemos só dar uma volta, já queo lugar onde nosso hotel ficava era realmente muito gostoso e tranquilo.
Batemos muita perna, andamos pra caramba e, uma da tarde, resolvemos ir pra sorveteria (a mesma do episódio da última noite).
– Vocês vão na fila, e a gente guarda o lugar. — Lizz falou, pra mim e pra Gabi. Assentimos e fomos pedir.
Uns segundos depois de entrarmos na fila, a Gabi fez cara de susto, começou a puxar o ar pra dentro e apertar o meu braço. Eu sabia que ela não estava passando mal, mas não sabia o motivo do "piti" que ela tava dando.
– O que foi Gabriela? — pergunto, assustada.
– E-ele. Tá aqui. — ela responde.
– Ele quem?
– O Leo!
– E quem é Leo? — pergunto de novo, meio impaciente.
– O carinha da minha primeira vez, que se mudou pra Brighton pra fazer faculdade e tal.. — fala, já mais "normal".
– Viu só? Pediu um pouco de emoção, tá aí.
– Amiga! Eu não sei o que fazer! — me olha com cara de súplica.
– Nada, ué? O que acha que tem que fazer? Ir até ele e implorar pra continuarem vivendo uma linda história de amor?
– Nossa, como você é seca e sem sentimentos. — solta o meu braço.
– Vai me dizer que era isso que queria fazer?
– Não assim, mas eu pretendia falar com ele, e esperava que você me dissesse o quê. — cruza os braços.
– Oh, bravinha. Eu te ajudo. — falo, sorrindo.
– Então, vai! Fala!
– Por que não finge que esbarra nele e quando for pedir desculpas, faz cara de surpresa e fala "Leo? É você?". — digo. Cara, eu ainda vou me formar em "Caradepaulogia".
– E se não for ele e eu estiver meio doida?
– Aí você diz "Ah, desculpa, você é muito parecido com um conhecido meu." E depois se afasta.
– Meu Deus, Rachel. Você é incrível.
Eu JURO que tentei ignorar o looping que o meu estômago deu e, principalmente, as recordações e flashbacks que rondaram a minha mente, mas foi impossível. E foi como se por um momento, o mundo inteiro tivesse parado pra ouvir a voz dele me dizendo extamente isso, os olhos dele me provando que era o contrário,e ele era o incrível, e todas as lembranças que iam e vinham diariamente na minha cabeça, todas de uma vez.
Eu pensei que começaria a chorar ali mesmo ao constatar que eu ainda o amava muito e que a falta dele tinha voltado com força total naquele exato momento, mas eu consegui me conter e apenas dei um sorrisinho de agradecimento pra Gabi.
Chegou a nossa vez. Pedi minha paleta de chocolate com morango, o sorvete de chocolate da Lizz, o de morango da Dyl, o de açaí da Anna e a Gabi pediu o seu picolé de uva. Pagamos, pegamos e fomos nos sentar.
– Vocês voltaram estranhas. — Dylan comentou. — E nem adianta dizer o contrário, vocês sabem que eu as conheço como a palma da mão.
– Depois a gente conversa.. — Gabi falou. Apenas assenti.
Eu realmente não queria falar sobre isso.
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