Apenas Colegas de Apê
76 Tudo certo
Notas iniciais
– Gabriela, um segundo pra você sair, ou te deixo aqui e você vai à pé. — grito, esperando na sala.
– Impaciente. — fala, descendo a escada.
– Enrolada! Tem cinco horas que tô te esperando.
– Você é muito adepta da hipérbole, né? — pergunta, pegando a bolsa.
– E você é chata pra caramba. Vamos logo, odeio chegar atrasada.
Saímos da casa dos dois e fomos.
– Com o Liam trabalhando, fica tão vazia a casa.. — comenta, entrando no carro, no banco do passageiro.
– Ele tem 20 anos, se não estivesse trabalhando.. se eu fosse a namorada, já tinha dado um pé na bunda dele. — ergui uma sobrancelha e dei partida no carro.
– Ah, mas eu sinto saudade..
– Eu entendo. Quando eu morava no Apê, era horrível quando o Steve ia trabalhar.
– Ah, me explica direito porquê você não voltou pra lá ainda. Ontem você disse que tava com preguiça. — revira os olhos.
– Ah, Gabi, a gente decidiu isso ainda em Santa Mônica. Achamos melhor ficarmos como um casal normal, pra não cansar, enjoar, sobrecarregar.. tipo, é uma delícia morar com o namorado, sei bem. Só que, ao mesmo tempo, é ruim, porque a gente acaba perdendo a parte gostosa do namoro, de ligar, se ver e matar a saudade.. nesses quatro meses que voltamos, nossa relação tá perfeita. A gente mal discute, não nos vemos todo dia, e quando nos vemos é ótimo, ficamos só nos curtindo. Acho que o namoro ficou mais leve, mais gostoso..
– Eu e o Liam pensamos muito nisso antes de resolvermos "nos juntar". Acho, tenho certeza na verdade, que ficou muito mais sério. Não acho que esfriou, nem que tá meloso demais. Mas a responsabilidade aumenta. É como se estivéssemos casados..
– Entendo perfeitamente a sensação. O bom de cada um estar na sua casa, é que nós também valorizamos muito mais o nosso tempo juntos.
– Acho que agora tá tudo certo, né? — sorri.
– Com certeza. Tudo o que a gente passou tinha que valer a pena.
Sorrimos uma pra outra e estaciono o carro.
Enquanto nos dirigimos até a sala, deixo os pensamentos me levarem para longe..
Desde que voltamos de Santa Mônica, está tudo correndo perfeitamente bem. Nós seis não nos desgrudamos, mas sempre damos o espaço necessário, tanto para cada um, como para cada casal.
Acho que há muito tempo eu não entendia o que realmente era felicidade. O que tô sentindo é tão, mas tão bom.. a sensação de que tenho gente que me ama de verdade, e que posso contar pra sempre. Sinto que isso não vai acabar, que eu e as meninas vamos fazer crochê juntas, com cinco netos correndo pela casa e os meninos jogando xadrez.
Eu e o Steve estamos tão bem.. nem sei descrever como está.
A doença dele está estranha. Na maior parte do tempo, está bem, mas quando fica mal, fica mal de verdade. É horrível ver a situação que ele fica.. fica fraco, vomitando, pálido.. sério. Tento ao máximo me fazer de forte, mostrar pra ele que tá tudo bem. Mas não é fácil.. ver o estado dele me mata por dentro.
O Sam e eu voltamos a nos falar. Ele, Liss e Anna estão super próximos. Senti ciúmes no começo, mas agora me acostumei, porque passo mais tempo com os outros do que jamais passei com ele..
Aliás, tem mais uma companhia.. o Diego. Ele e a Anna estão juntos. Fiquei super feliz! Mais um casal unido graças a mim.. acho que vou virar cupido.
Estou na faculdade há três meses. Tô simplesmente amando o curso. É super legal, combina comigo..
E eu tô trabalhando. É um trabalho muito tranquilo, só de sábado. E ninguém adivinha onde! Na empresa do meu pai.
Nossa relação está indo muito bem. Eu tô ajudando o pessoal do site, e adoro.
Bom, acho que num bom resumo, isso é só.
A aula estava na metade, e eu nem tinha prestado atenção..
Mandei uma mensagem pro Steve avisando que sairia à uma e ele falou que eu podia deixar o carro com a Gabi porque ele viria me buscar.
Avisei isso pra ela que apenas deu um sorrisinho e assentiu.
Resolvi prestar atenção na aula, mas assim que virei a cabeça pra frente, voltada ao professor, ele avisou que tinha acabado o horário.
Gabi e eu fomos para o intervalo.
– Você prestou atenção em alguma coisa dessa aula? — pergunta, enquanto nos sentamos, com nossas bebidas em mãos.
– Sinceramente, não. Minha cabeça voou..
– Pra onde?
– Pra esses quatro meses. Que também voaram..
– Pois é. Tão bom a gente ver que tá tudo dando certo..
Compartilhamos um longo suspiro e bebi meu suco.
A aula de Comunicação Digital passou bem rápido, talvez por ser uma das minhas preferidas desse primeiro período. Já estamos fazendo há meio semestre (três meses) e mal posso esperar pra começar a fazer estágio.
Quando saímos da faculdade, o Steve estava parado em frente à entrada. Gabi e eu nos despedimos, ela o cumprimentou e eu entrei no carro.
– Oi, meu amor. — entrei e o abracei.
– Consegui dar um jeito de vir aqui, princesa. Hoje já é sexta e a gente não tinha de visto.
– Ainda bem que veio. — falei, dando um beijo demorado nele em seguida.
– Vamos almoçar?
– Vamos, tô morrendo de fome.
– Você com fome? Mas isso acontece raramente! — me zoa.
– Ah, cala a boca. — dou um tapinha no rosto dele, rindo, e ele ri também.
Vamos o caminho todo até o shopping falando sobre o que tinha acontecido até agora no nosso dia. Foi um hábito que criamos: contamos absolutamente tudo um ao outro. Até coisas desnecessárias.
Quando chegamos, fomos direto para o Mc Donald's. A fila estava um pouco grande, por causa do horário.
Ele me dava vários beijos e ficava me abraçando. Umas meninas em volta ficavam olhando de cara feia. E outras só secando o Steve.
– Tô me segurando pra não quebrar a cara dessas meninas. — falei, cruzando os braços.
– Para de coisa. — falou, sorrindo.
– Tudo louca pra estar no meu lugar.. falo nada.
– É inveja.
– Eu sei. Você é TÃO convencido.
Ele ri.
– Por que?
– Você sabe que estão com inveja de mim por causa de você. — respondo, rindo. — Nessas horas que vejo que você continua o mesmo de quando a gente se conheceu.
– Aquele mesmo Waters. — fala, se lembrando do apelido que eu dei pra ele, no que parecia ser outra vida.
– Às vezes fico lembrando de como a gente era antes de namorar, tão engraçado. Porque tipo, parece que a gente sempre esteve junto, que a gente nasceu namorando.
– Eu também sinto isso.
Ficamos em silêncio por um tempo, a fila andando lentamente.
– Queria que tivesse sido assim? — pergunta, de repente.
– Assim..?
– Que a gente tivesse se conhecido antes.
– Uhn.. acho que não. — respondi com sinceridade, segundos depois.
– Nossa, valeu. — fala, rindo.
– Não, calma, tenho meus motivos. — me defendo, rindo também.
– Quais são?
– Não mudaria nada na minha vida. Hoje sei que tudo o que aconteceu fez parte da minha história, e talvez se algo mudasse, não seria como é hoje. E sinceramente, minha vida tá muito boa pra mudar alguma coisa.
– Ah, tá perdoada. — fala, sorrindo e me beija.
– Ai, desculpa. — alguém esbarra na gente.
– Tudo be... — falo, me virando. — Liss? Sam? — olho pra eles e pra mão entrelaçada...
– O-Oi, Rach. — gagueja.
Sam vem me cumprimentar e cumprimenta o Steve também, numa boa.
– O que tá rolando? — pergunto, tentando deixar o tom brincalhão.
– É.. a gente.. tá.. — ela tenta falar. Eu já sabia o que viria pela frente..
– Estamos namorando. — Sam adianta.
– Ah! Que boa notícia. — tento parecer realmente feliz. Mas não tinha motivo pra não estar..
– Ah, Liss, já tava na hora de desencalhar. — Steve brinca com ela. Os dois acabaram virando amigos.
– Bom, se não se importam, estamos indo. — Sam anuncia. — Tchau, Ray. Até mais. Tchau, Steve. — ele se despede e os dois saem.
Era nossa vez na fila pedimos o nosso lanche, pegamos minutos depois, e saímos.
– A Liss é doidinha, né? Ficou toda atrapalhada pra falar.. — ele fala, rindo.
– Pois é. Acho que ela pensou que eu ia me importar. Tipo, não me importo, de verdade. Mas é estranho.
– Imagino que deve ser mesmo.
– E a Claire, notícias dela? — pergunto, mordendo o lanche.
– Nada. Mas acho que ela tá bem, vejo fotos no Instagram.
– Hm, que bom. — desnecessário seguir no Instagram...
– Ciumenta.
– Não tô com ciúmes.
– Tá sim.
– Não, eu não tô. — falei, erguendo uma sobrancelha.
– Marrentinha. — ele adora me chamar assim.. desde que voltamos tá com essa mania.
Reviro os olhos e ele ri. Ele sabe que é brincadeira. Não que eu não tenha ficado com ciúmes, mas enfim...
Fiquei pensando no namoro da Liss e do Sam.. não, não me importei. Não, não fiquei com ciúmes. Não tenho motivo pra essas coisas. Mas sim, achei bem estranho. Desconfortável. E estranho.
Tipo, não vou conseguir olhar eles dois e não lembrar de nós dois. Não sinto falta, sério, mas vai ser bem estranho.
E, caramba, eu já fiquei com os namorados de todas as minhas amigas (menos o Peter, claro)! Liam, Diego, Sam.. meu Deus.
Acho sinceramente que agora tudo está como deve.
Bom, pelo menos na minha vida.
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