Apenas Colegas de Apê
56 Livros
Notas iniciais
Resolvi criar vergonha na cara e ir atrás de um emprego. Há um ano venho me sustentando à custa do Steve e do Peter. Roupa : cartão do Peter. Comida : dinheiro do Steve. Tenho 18 anos ,não sou mais uma adolescente e tenho que criar minhas responsabilidades. E logo, logo, vou começar a faculdade. Ano que vem, quero dizer. Quero ficar um tempinho de boa, sem precisar estudar e tal..
Steve também vai trabalhar, começa essa semana, e está me deixando no shopping. Meu objetivo é ir na livraria que sempre compro meus livros e ser vendedora. Além do mais, tenho mais de 50 livros, já li uns emprestados e posso recomendar para os compradores. Se eu conseguir, creio que vai ser bem legal.
– Minha roupa tá boa? — pergunto.
– Sim, você tá linda. — ele falou rindo.
– Tá rindo por quê? Não tá legal, né? — fico olhando para a minha saia rodadinha branca e meu cropped justinho azul claro.
– Tô rindo do seu nervosismo. Calma.. — ele me dá um selinho.
– Vou logo, não quero me atrasar. Tchau. — dou um beijo rápido nele.
– Vai com Deus.
– Amém. — sorri e desci do carro.
Eu estava bem nervosa. Até coloquei meu celular dentro da bolsinha dourada pra ele não cair por causa da minha tremedeira. É sério. Meu primeiro emprego.
Senti meu celular vibrando, e era mensagem da minha mãe.
"Filha, preciso falar com você. Me liga quando puder. Beijo"
Eu não gosto disso. Só consigo pensar no pior.. Quando entrei na livraria e a moça me pediu pra esperar, pois a gerente estava em uma reunião rápida que tinha acabado de começar, eu liguei rapidamente pra minha mãe.
– Mãe? Tá tudo bem?
– Sim, filha. Só queria te dizer que a moça do meu trabalho precisa de uma menina pra cuidar das filhas dela. Uma tem 3 aninhos e a outra tem 12. Sei que você está querendo trabalhar e pensei que seria uma boa ideia, já que eu a conheço e etc.
– Ah, mãe. Que legal. — me interessei.- Eu nem te contei, mas eu acabei de chegar na All My Book's pra fazer uma entrevista.. Se aqui não der certo, eu vou querer sim.
– Ah, tá. Então, depois você me liga e me fala, pode ser?
– Tá bom. Você nunca mais veio me ver.. tem certeza que tá tudo bem?
– Sim, filha, é falta de tempo. Mas ,essa semana vou tentar ir no apartamento pra ver você e o Steve.
– Mãe... É Apê.. — corrigi.
– Vocês e essa coisa de diminuir os nomes. — ela falou e eu ri.
– Mas esse é o nome dele. Entende?
– Esses jovens.. Agora dão nomes para apartamento. — Eu ri. — Então, tá. Vou tentar ir nesse "Apê".
– Tchau ,mãe. — me despedi, ainda rindo.
– Tchau.
Desliguei.
Eu achava esse negócio de Apê bem ridículo no começo, mas agora eu não consigo falar do meu Apê como apartamento. E é só nosso. Okay?
Uma mulher bem vestida, de calça jeans escura, flare, e uma camisa branca linda, apareceu e me chamou, com um sorriso bonito.
Entrei na sala e me dei a liberdade de sentar na cadeira bem à frente da mesa.
– Olá, Rachel.
– Oi, Srta. Gunter. — sorri. Vi o nome dela na plaquinha em cima da mesa.
– Vamos começar? — perguntou, e eu assenti. — Qual sua experiência com vendas? — já começamos bem. Só que não.
– Ahn.. na verdade, nenhuma. — falei. Ela me olhou com uma cara "Então, assim, por que se deu o trabalho de vim?". — Mas eu tenho muita experiência com os livros. Desde bem novinha eles me cercam, e mudaram profundamente minha vida. Compro aqui desde sempre. Acho que se contar essa minha história , de viver rodeada de livros, sem nenhuma outra companhia, quase, para os adolescentes, eles podem se convencer a, pelo menos ,tentar ler um livro até o final. Eu posso ajudar as pessoas a entrar nesse mundo da literatura. Se me der uma chance, eu não vou decepcionar. — encerrei .
– Acha que isso é suficiente para trabalhar aqui? — me pergunta, com um olhar meio irônico.
– Sinceramente, acho sim. Não preciso ter lábia de vendedor para as pessoas comprarem um livro. Tenho que as fazer acreditar que, se comprar, vai valer a pena. Não vai ser um dinheiro mal gasto. Olha, já li mais de 60 livros, uns que comprei, uns que peguei emprestado, uns que amei, outros que odiei, alguns chatos e outros que já li mais de 5 vezes. Já li livros para todos os gostos e se alguém me pedir um livro de qualquer gênero, eu vou saber recomendar. De romance à terror, de história real à ficção científica. Eu tenho certeza que farei um bom trabalho.
– O emprego é seu. — falou.
– Rápido assim? — me surpreendo.
– Você mostrou confiança, segurança. Fala bem, e conseguiu me convencer. Achava que ia te colocar numa cadeira elétrica e te dar choques se não respondesse de acordo com o que eu queria?
– Não, não. Estou muito satisfeita. Obrigada. Muito, muito obrigada! — agradeço.
– Pode começar no sábado. Assine aqui — me mostrou um papel — e pegue seu uniforme na sala ao lado, com a Gabriela. Ela te dará todas as informações que precisa.
– Mais uma vez, obrigada.
***
Cheguei no carro quase saltitando. Vai ser uma coisa incrível, e tenho certeza que vou me dar bem.
Eu fui o caminho inteiro falando, e falando sem parar. O Steve ficou muito feliz por mim. Contei à minha mãe e ela também ficou feliz. Tá tudo muito bom.
Ele me deixou no Apê e foi visitar a tia dele. Eu não quis ir, mas pedi que ele mandasse um beijo pra todo mundo.
Tudo o que eu queria era ser um pouquinho louca.
Depois do banho, coloquei pijama, conectei meu celular no rádio e Shake it off começou a tocar.
– I stay out to late, got nothing in my brain. That's what people say. Hm Hm. That's what people say. Hm Hm. — cantei, com o microfone (vulgo controle) . Eu estava meio gritando e dançando meio .. sei lá. — Cause the players gonna play, play, play, play, play, and the haters gonna hate, hate, hate, hate,hate, baby, I'm just gonna shake, shake, shake, shake, shake. I shake it off, shake it off. Uh Uh Uh. Heartbreakers gonna break, break, break, break, break, and the fakers gonna fake, fake, fake, fake, fake. Baby, I'm just gonna shake, shake, shake, shake, shake. I shake it off, shake it off.
No fim da música, eu estava até ofegante, mas naquele momento eu fui tão eu, e expressei tanto o que estava sentindo, que valeu a pena.
Aquele momento era tudo o que eu precisava.
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