Apenas Carnal.
31 Capítulo 31
Notas iniciais
Liberdade, ela estava caminhando para a sua liberdade.
Um sorriso no rosto ela se convenceu de que tudo seria melhor daqui para frente.
Um surto de nostalgia, lhe tomou quando ela dobrou a rua de sua antiga casa, o lugar onde ela cresceu, onde se tornou o que sempre foi, parecia que cada poste, cada casa naquela rua lhe trazia uma lembrança, cada uma melhor do que a outra.
Então ela parou na frente da casa: Era incrível que quando você é criança as coisas parecem ser tão grandes, e depois que cresce, parecem que elas diminuem de tamanho. A casa inteira era do tamanho de seu quarto na mansão. Era tão simples, as madeiras colocadas na horizontal, a pintura cinza um pouco casta pela chuva, a grama seca, e aquele aspecto de abandono. Mas ela era perfeita.
N.A: Escrevi essa parte ouvindo Nikelback, “For Away”, se vocês quiserem fazer o mesmo, muda completamente o clima.
Pegou a chave em sua bolsa, que há muito tempo guardava na sua caixinha de jóias. Aquele lugar não era mais habitado a mais de três anos, estava simplesmente abandonada, na época em que sua mãe Laura faleceu, ela não teve coragem de se desfazer e nem mesmo alugar, mas também não se importou em cuidar, e simplesmente deixou de mão. Pensava que jamais voltaria para essa casa.
Empurrou com força a porta para ela abrir, estava emperrado, e o cheiro de mofo e poeira era forte de mais, tampou o nariz com o antebraço, tentou acender todas as luzes, mas logo lembrou que estava cortada, então abriu todas as janelas, e o ambiente foi clareando.
Era poeira, teias de aranhas e neblina de sujeira para onde olhasse, mas percebeu logo que o problema maior era somente a sujeira, as paredes só precisavam de pintura nova, e o chão de madeira precisava de um verniz e um tratamento anti cupim.
A cozinha e a sala era um cômodo só, separado somente por um balcão de granito preto, e em um dos lados, as portas dos dois quartos era uma de frente para a outra, formando um minúsculo corredor, que terminava na porta do banheiro.
Era doloroso e feliz ao mesmo tempo, as lembranças, daquele lugar; o ultimo natal que passou com ela, seu ultimo aniversario, o dia de ações de graça que foi servido atrás da casa, até mesmo no dia que Patrick veio aqui pedir a sua mão para a sua mãe, da forma mais clichê e piegas que existe.
A primeira lagrima escorreu quando ela abriu à porta de seu antigo quarto, a pintura rosa desbotada, os pôsteres de seus ídolos ainda colados na parede, manchados com algumas infiltrações. Então entrou no quarto que era de sua mãe, que era o maior cômodo da casa, mas era do tamanho de seu closet. Abriu a janela, e o ambiente se iluminou assim como as lembranças em sua mente.
“Mamãe, eu tive um pesadelo, posso dormir com você?”
Era como se ela pudesse escutar e ver a garotinha de orbes verdes enormes entrando pela porta, agarrada ao seu ursinho Ted, e via as mãos protetoras estendidas para ela, prontas para recebê-la e protegê-la de todos os sonhos ruins.
–Mamãe... – ela sussurrou, sua voz ecoando pelo cômodo vazio. – Você estava certa o tempo todo... Como eu queria você aqui...
Eu te amo, Eu sempre te amei
E eu sinto sua falta, Estive tão longe por muito tempo
Eu continuo sonhando que você estará comigo
E você nunca irá embora, Paro de respirar se
Eu não te ver mais.
Era como se ela pudesse ainda sentir o cheiro dela, ouvir a sua voz, e até senti-la tocando seu ombro.
Quantas vezes ela já disse que sua mãe era chata, por não deixá-la voltar tarde da rua? Quantas vezes ela achou que estivesse pagando mico quando sua mãe a beijava na testa na porta da escola? E quantas e quantas vezes ela se esqueceu de agradecer pela comida que ela fazia? Por arrumar sua cama todos os dias? Por lavar suas roupas, por ser sua melhor amiga quando ela chegava com o coração partido por algum idiota da escola?
–Me perdoe mamãe... Você estava certa... Sempre esteve. – ela agachou no chão, colocando a mão em seu peito, como ela queria sentir aquele abraço, aquela voz lhe dizendo que esta tudo bem, aquele sermão lhe dizendo “eu te avisei”. Como ela queria ouvir aquela voz, apenas mais uma vez.
De joelhos, eu pedirei uma
Última chance para uma última dança, Porque com você, eu resistiria
A todo o esse inferno, para segurar sua mão, Eu daria tudo
Eu daria tudo por nós, eu daria qualquer coisa, mas não desistirei
Porque você sabe, você sabe, você sabe
Eu te amo
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Quando ela foi embora, parecia que tinha tirado um piano de suas costas, sentia-se tão leve que podia voar, era estuporante, apenas a lembrança, apenas a voz em sua mente, podia acalmá-la, e confortá-la. Sorriu nostálgica, se sentia estranhamente bem. Em paz.
Fez os cálculos, e de todos os cômodos, ela gastaria mais no banheiro, era o que estava mais deplorável, teria que praticamente derrubar tudo e construir de novo. Mas era apenas isso, a casa era pequena, e ela conseguiria arrumar tudo em questão de semanas.
Chegou em casa pela tarde, e foi direto para o quarto de Luka. Estava mais de um dia e meio sem ver seu filho, não sabia se era saudade exagerada de mãe, mas ele parecia maior, brincava com seus bonecos da coleção Toy Stores, na companhia da babá.
–Filhote, que saudade do meu filhote!
Era algo automático, bastava ouvir a voz de Kristin que o bebê virava a cabeça rapidamente procurando pela dona da voz, e sorria de fazer barulho quando encontrava. Ele se levantou do chão, caminhando até ela e caindo na metade do caminho. Rendendo sorrisos dela e da babá.
Kristin o pegou no colo, e voltou para onde estava, agachou-se e se sentou com ele em sua perna, e pegava os brinquedinhos colocando-os em sua mãozinha.
–Mamãe... Woody, Woody. – ele pedia incisivamente o boneco de silicone do Xerife Woody, era o seu favorito de todos os seus brinquedos.
Mas um aperto doloroso na barriga e um barulho desconfortável a lembrou que não tinha comido nada ainda desde o café.
Desceu com o filho ate a cozinha, e vasculhou a geladeira atrás de algo para comer, encontrou um burrito congelado, o tirou da embalagem, colocou em um prato e pôs no forno microondas.
Estava terminando de comer, ou tentando pelo menos, já que Luka e suas mãozinhas curiosas cutucavam o tempo todo, a comida dela, quando ele surgiu na cozinha, o que era raro.
–Maire me disse que estaria aqui.
–O que quer comigo? – ela perguntou sem tirar os olhos da comida.
–Os papeis... Do divórcio ficaram prontos, meu advogado está vindo para cá.
Com essa afirmação, ela olhou para ele, e pela primeira vez desde que tomou a decisão de se separar, ela sentiu hesitação, um pouco de medo da decisão que tomou. Sentiu um resquício, uma pequena pontada de dor, ao perceber que iria deixá-lo para sempre. Que não veria mais aqueles olhos tão azuis a fitando de forma tão amorosa, aquele sorriso torto debochado que a fazia cair de quatro, aquele corpo tão bem desenhado e suado, quando ele voltava da sala de academia pela manhã. Aquela voz que sussurrava eu te amo todos os dias quando saia para o trabalho e achava que ela dormia...
...Espere Kristin! Esse homem já morreu há dois anos! O que você está apegada é apenas uma lembrança.
–Tudo bem... Qualquer coisa, vou estar no jardim pela tarde. – ela respondeu, monótona.
Ele assentiu e saiu da cozinha. Com aquela expressão de que tinha mais a dizer.
E foi o que ela fez durante toda a tarde, depois que Luka dormiu exausto de tanto brincar, ela o deixou no berço e foi para as roseiras que ficam no jardim ao lado da casa, todo aquele terreno daquela mansão era enorme e ocupava um quarteirão inteiro, e cada pedacinho era bem aproveitado, tudo muito bem divido, tinha a área da piscina, o enorme jardim de grama onde eram feitos os eventos, onde inclusive foi montado o aniversario de Luka, a área dos apartamentos dos empregados, e a áreas das flores, onde era o lugar favorito de Kristin, antes aquelas flores eram seu maior passa tempo, foi ela mesmo que o projetou e fazia questão de cuidar pessoalmente, era seu melhor calmante e o único lugar onde conseguia pensar. O único lugar daquela mansão que ela considerava só dela. Com o tempo e com a crise em seu casamento, ela foi esquecendo esse jardim, que ficou aos cuidados dos empregados.
Impressionante, quantas coisas ela tinha deixado para traz, lamentava o tempo todo do quanto a vida lhe trazia coisas ruins, mas acontece que ela também tinha abandonado as coisas boas, coisas tão simples como uma flor, ou como uma visita a casa da mãe, pequenos detalhes que se ela tivesse se tocado antes, teriam feito sua vida muito melhor.
O cheiro daquele lugar era viciante, era a mistura perfeita das flores que ela possuía. O que não eram poucas; tinham as rosas escarlates, tulipas, jasmins, os lilás. E também tinha um verdadeiro tesouro com as flores mais raras do mundo, que conseguiu graças ao dinheiro de Patrick. Eram lindas e coloridas como; Beladona, que mesmo venenosa tinha sua beleza única. Os lindos cachos recheados de Aguapé. O Brilho chamativo laranja do Bico de Papagaio, o colorido verde azulado avivado das Garras de Jade, e o azul celeste das Orquídeas azuis. Entre outras.
Ela coletou algumas sementes das suas favoritas, e guardou em recipiente próprio para essas coisas, depois, ficou passeando de um lado para o outro do jardim, até se cansar de deitar sobre a grama, tentando colocar seus milhares de pensamentos no lugar.
Eram quase seis da tarde quando ela viu Maire se aproximando, ela já sabia que era a mando de Patrick e tratou de levantar, respirando fundo, e recebendo aquele olhar maternal que Maire possuía, as mãos enrugadas da governanta seguraram as suas como se fosse um consolo, e desta forma, ela caminharam por um longo tempo até chegar a mansão, o terreno era realmente grande, tanto que Patrick quando ia passear por ele, usava um carrinho de golfe.
Ela caminhou direto para a biblioteca, sem bater abriu a porta, e ele estava em sua cadeira executiva como sempre, e o advogado em uma das poltronas do outro lado da mesa.
– Dr. Andreott. – ela cumprimentou o advogado, sentando-se na poltrona ao lado da sua.
– Sra. Sullivan.
–O documento está pronto Kristin, mas antes, o Dr. Andreott gostaria de conversar conosco em relação algumas causas do contrato de casamento.
–Sim, podemos começar. – ela assentiu.
–Bom, em primeiro lugar, Sr. E Sra. Sullivan, o casamento foi contatado em separação total de bens, mas, como um acordo, já que a separação é amigável, vocês dois gostariam de compartilhar em partes iguais algum bem material?
–Não Dr. – ela respondeu de imediato.
–Kristin. – Patrick se colocou na conversa. – tem certeza disso, como tudo o que temos esta no meu nome você sairá somente com sua mala na mão.
–Eu sei, lembre-se que fui eu quem quis casar em separação de bens, não quero nada que não seja meu.
–Fique pelo menos com o carro.
–Já disse que não quero nada que não seja meu Patrick.
Ele respirou fundo, impaciente, voltou-se para o advogado, e negou com a cabeça.
–Não iremos compartilhar nada Dr. Andreott.
–Correto, e em relação à guarda do filho, a guarda será permanente para Sra. Sullivan ou será compartilhada entre vocês dois?
– Será permanente minha Dr.
–Na verdade Kristin estava pensando... Em termos uma guarda compartilhada.
–Por que Patrick? De repente quer se aproximar do nosso filho?
–Sim, eu tenho esse direito não tenho?
–Você nunca se aproximou do Luka enquanto morávamos aqui, e nem da minha gravidez, por que quer isso agora?
–Kristin por favor... – ele respirou fundo mais uma vez, parecia se controlar para não desabar em cima dela. – Estou tentando concertar as coisas.
–Acho que é um pouco tarde para isso não é? – se ele se controlava, Kristin já estava perdendo o controle. – Não vou compartilhar a guarda dele com você Patrick, por que não quero meu filho no meio das vadias que você trouxer para casa. Já estou quase desistindo de deixá-lo aqui sozinho por dois dias.
–Kristin! – ele a repreendeu, batendo na mesa, como se faz com uma criança, e ela respirou fundo, recuperando sua consciência. – Vamos deixar essa questão para o tribunal então Dr. Andreott.
–Tribunal! Você quer tirar o meu filho de mim! – Pronto, Patrick tinha tocado na ferida Kristin, no ponto fraco dela, e a morena perdeu completamente o controle. – Por que você quer fazer isso Patrick, você nunca o considerou como seu filho, e nem Luka o considerou como pai!
–Ãh, Dr Andreott, nos daria licença alguns minutos por gentileza?
–É claro. – ele respondeu prontamente, recolhendo sua pasta executiva e se retirando do local.
E foi somente ele sair da biblioteca, que Kristin se levantou exasperada da cadeira, andando de lado para o outro.
–Você não tem esse direito Patrick! Você nem queria essa criança! Você a desprezou desde que soube sobre minha gravidez! Agora quer tomar ele de mim!
–Kristin não exagere! Não vou tomar o Luka de você, só quero participar da vida do meu filho, e você está me sucumbindo disso!
–Da vida do meu filho? Quem ver assim, acha que você é um pai exemplar. – ela disse em tom sarcástico. Mas nada humorado.
–Kristin. – ele disse, naquele tom que ela mais conhecia, o “Patrick do mal”, tinha voltado. – Ou você aceita uma guarda compartilhada, ou eu vou entrar com o pedido da guarda total do Luka. – ela se calou, sentindo-se encurralada, as lagrimam desesperadas escorrendo por seu rosto. – Sabe, por que tenho a sensação de que você quer a guarda total pela gorda pensão que vou ter que pagar?
–Tenho nojo de você Patrick! Nojo! – ela gritou a ultima palavra. – Não vou deixar meu filho nas suas mãos sujas! Não quero nenhum dinheiro que venha de você, se for preciso eu assino qualquer documento abrindo mão de tudo o que Luka tem direito, mas não vou ser humilhada de novo por você Patrick! Não importa que você tenha poder, tenha dinheiro e influencia, ele nunca vai ser seu filho Patrick, ele nunca vai te chamar de pai!
–Ele é nosso filho Kristin!
–Nosso filho! – ela gargalhou debochada. – Você sabe pelo menos qual foi a primeira palavra que ele aprendeu?
–O que quer dizer com isso?
–Sabe ou não sabe?
Ela o desarmou, seus lábios de franziram em raiva comprimida, ele parou de encará-la, perdendo sua postura arrogante.
–E você ainda se considera pai dele Patrick? – ela continuou a jogar na cara as palavras que ele sabia que estavam certas, mas odiava estar errado.
–Isso não vem ao caso Kristin.
Ela sorriu, chocada com o quanto ele era impertinente, o quanto ele era cego com seus próprios erros. E o quanto seu egocentrismo falava mais alto que qualquer sentimento.
–A primeira palavra dele foi papai. – ela disse por fim fazendo-o olhar para ela surpreso, um requísco de um sorriso se formava em sua boca, então ela continuou. – Mas não foi para você que ele disse isso.
Ela podia ver seu rosto ganhando um tom avermelhado, e seu olhar mudar para odioso em questão de segundos, ele entendeu perfeitamente o que ela queria dizer, ela saiu em direção à porta da biblioteca. Já não agüentava mais olhar para aquele sujeito, que desconhecido com a qual foi casada há anos.
–Patrick, não vou proibir você de ver meu filho, mas eu não quero que ele participe do seu mundo fútil, por que não quero que ele se torne alguém como você.
Então ela o deixou, mais uma vez... Ele se sentou a beira da mesa, refletindo sobre seu futuro, tremulo e mais uma vez enfrentando seus piores medos. Que sempre vinham à tona cada vez que ela se afastava dele, cada vez que sentia o pingo de amor que ela ainda sentia se esgotando, e sentia seu pior pesadelo cada vez mais próximo, então seria realmente assim que terminaria? Em um futuro não muito distante, tudo o que lhe restaria, seria uma completa, dolorosa e gélida... Solidão?
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