Apenas Amigos
3 Como a gente nunca conversou
Logan
—Como a gente estuda no mesmo colégio desde sempre e nunca conversou? -foi o que Cíntia perguntou. Tento me lembrar dela no colégio, sei que já fizemos algumas aulas juntos ano passado, mas não consigo me lembrar de nada além da imagem dela e de Raddar sentados juntos no intervalo.
—Provavelmente é minha culpa. -digo, afinal, não sou exatamente uma pessoa que gosta de interagir com todo mundo.
—Não, não é! Eu não gosto muito das pessoas do colégio, então eu basicamente me esforço para não ter que conversar com ninguém. -ela responde, agora nós estamos apenas andando sem rumo pelo parque.
—Mas eu me lembro de você e Daniele, vocês não eram melhores amigas? -pergunto, assim que a imagem das duas andando juntas passa pela minha memória. Hoje em dia, Daniele é líder do grupo de debate, uma das garotas mais populares da escola, na minha opinião apenas a rainha da chatura, mas há três anos atrás era bem diferente.
—Ela era minha amiga, aí se tornou alguém que eu só conversava por causa da obrigação de sustentar a amizade, entende? -ela responde, e eu a entendo completamente.
—Obrigação. Tenho medo de ser o que sinto com todos os meus amigos. -digo após pensar por um instante em suas palavras, ela apenas ri.
—Raddar e eu conseguimos conversar por horas sobre produtos de limpeza ontem, e nós nunca sequer limpamos a casa, então começamos a rir e nos levantamos para fazer faxina pela primeira vez. Amizade não devia ser apenas divertido assim? -gosto como Cíntia conta a história, ela parece inteligente, e tudo que ela diz faz sentido pra mim.
—Ele parece legal. -digo, porque não consigo me imaginar falando horas sobre produtos de limpeza com ninguém, nem com Alice.
—Ter conhecido ele deve ter sido a melhor coisa da minha vida. Depois de ter recebido um e-mail do Zac Efron uma vez, é claro. -ela conta.
—Recebeu um e-mail do cara do High School Musical? -pergunto, já estou rindo antes de saber o motivo.
—Na verdade, acho que foi a produção dele. Disseram que eu estava lotando a caixa de mensagem e devia parar de enviar músicas do Ed Sheeran me declarando. -Cíntia narra a história, ainda estou rindo.
—Você deveria conhecer minha irmã. -tenho certeza que Natasha já deve ter feito isso em algum momento de sua vida também.
O celular de Cíntia vibra, paramos de andar enquanto ela tira do bolso e lê a mensagem em voz alta.
—Mensagem da minha mãe. “Sei que você não sai de casa faz um tempo, mas não precisa exagerar. Não quero que você acorde amanhã com um autógrafo falso do Michael Jackson tatuado na bunda, sabe que não foi fácil tirar o meu.” -ela lê em voz alto e ri.
—Sua mãe parece legal. -digo, enquanto espero ela responder.
—Ela é doida! Ela ficou bem triste por um tempo quando meu pai foi embora, mas quando conheceu o pai do Raddar em um grupo de ajuda toda a animação voltou.
—Minha mãe não é do tipo que conversa muito comigo. Ela espera pra ver o que meu pai vai dizer e depois concorda com ele. -relato, mesmo sem fazer ideia do porquê estou contando sobre minha vida pessoal tão facilmente, porque isso definitivamente não é do meu feitio.
—Mas, e seu pai? Ele é legal?
—Ultimamente ele está muito preocupado com o meu futuro, ele quer que eu seja advogado ou administrador de empresas como ele e seus irmãos. Pode não parecer, mas eu tenho notas para isso. -revelo a ela, que realmente parece surpresa.
—Mas o que você quer ser? -ela volta a fazer perguntas, parece realmente querer saber, então sou sincero:
—Piloto de avião. -a assisto sorrir levemente.
—Sério? Não me diga que é pra conhecer o mundo. -ela diz fazendo uma cara de tédio.
—Só gosto da ideia de estar no céu. E o que você pretende no futuro? -pergunto, porque agora estou muito interessado em saber no que ela quer se formar. A imagino sendo enfermeira em um hospital, algo do tipo.
—Meu ex-namorado me dizia que eu deveria ser bombeira, sempre gostei disso, desde criança. Mas eu não sei, devo terminar trabalhando com vendas, é o negócio da família sabe? Só não quero terminar presa em algo que não me interesso de verdade. -ela responde num tom explicativo. Bombeira? Ninguém diria...
—Você é uma pessoa bem... -demoro um tempo para encontrar a palavra certa. -Singular, Cíntia. Não conheço mais nenhuma garota que quer mesmo ser bombeira. -enfim, finalizo.
—Você não deve conhecer muitas pessoas. -ela fala, me fazendo rir de novo, porque eu conheço muitas pessoas, mas não me lembro de ninguém como ela.
—Lá está a barca dos piratas! Vamos pra lá! -Cíntia me puxa pelo braço como os filhos fazem com os pais quando estão ansiosos para ir a um brinquedo, até ingressarmos na fila não tão grande da barca dos piratas.
—E quanto ao seu ex-namorado? -pergunto, de repente curioso, me lembrando de quando ela citou o ex-namorado na conversa. Ela me olha fazendo uma careta, como quem odeia o assunto.
—O que tem ele? -ela pergunta, se fazendo de desentendida.
—Eu te disse o que aconteceu com a Alice, é sua vez!
—Não vai querer saber, Logan. É chato! -ela afirma.
—Tão entediante quanto eu e Alice apenas termos parado de nos gostar?
—Não tanto assim. -ela ri, pensando por alguns segundos se deveria contar, mas em seguida dá de ombros e começa:-Certo! O Ed era do tipo aventureiro, ele me dizia que queria viajar o mundo o tempo todo, uma vez eu fiz tom de deboche e ele se irritou. Todo mundo quer viajar o mundo, a gente não abandona quem gosta por conta disso e deixa uma carta dizendo “fica bem”.
—Uau! Você ainda ama ele! -eu afirmo apenas porque ainda consigo sentir todo o tom de angústia e raiva pós-término em sua voz.
—Não, nem sei se um dia eu amei, mas ainda não o esqueci. Ele cantava Nando Reis pra mim, é difícil esquecer alguém que faz isso. Como algumas garotas conseguem esquecer os ex-namorados tão rápido?
—Não sei, quer ir perguntar a Alice? -pergunto, Cíntia parece procurar algum sinal de tristeza em meu rosto, só quando não encontra ela ri da minha resposta.
—Eu era boba, achava que a gente tinha chance de ser um desses casais que fica mesmo junto pra sempre. Já sentiu isso com a Alice?
—Sinceramente? -ela assente com a cabeça. -Não gosto de pensar muito no futuro, pra sempre é muito tempo. -completo, e finalmente chega nossa vez na fila.
O homem que vigia esse brinquedo usa o mesmo uniforme e boné que o do carrossel, porém, ele parece definitivamente mais sério.
—Apertem os cintos! -ele grita quando já estamos sentados e com cintos.
O brinquedo começa devagar, vai aumentando aos poucos, cada vez mais rápido. É legal, mas o carrossel foi dez vezes mais divertido.
—Fazia tempo que eu não sentia isso com ninguém. -Cíntia diz depois de um tempo em silêncio, achei que ela estivesse se referindo ao seu ex-namorado, mas então ela completa a frase: — Ah, sabe quando a gente conhece alguém e sente que pode falar de tudo? Até sobre aqueles pensamentos frios e malvados que todo mundo tem de vez em quando?
A encaro, definitivamente nunca conheci alguém como ela, que diz o que sente com tanta facilidade, exatamente quando está sentindo.
—Também tô sentindo isso. -digo, porque é verdade. Como é possível ter conhecido alguém há menos de uma hora e já sentir tudo isso?
—Tive uma ideia! -Cíntia diz, de repente. Olho pra ela novamente, agora ela está com uma expressão sapeca: -Grite algo ruim que você deseja profundamente!
—O quê? -estou confuso, começando a achar que essa garota talvez seja maluca e tudo que estou sentindo é efeito de alguma droga que ela colocou em mim sem que eu percebesse. Daí ela começa a gritar:
—EU DESEJO PROFUNDAMENTE QUE MEU PAI BIOLÓGICO NUNCA SEJA FELIZ!
É definitivamente pesado, mas me sinto importante por ela estar dividindo comigo. Todo mundo têm dessas, vai! A raça-humana ainda não é evoluída o bastante para amar verdadeiramente todos os outros.
—ESPERO QUE O NOVO NAMORADO DA ALICE NÃO TENHA PÊNIS! -grito o mais alto que posso, minha intenção inicial foi apenas quebrar o gelo, mas Cíntia caí no riso. Sua risada é do tipo que faz todo mundo querer rir também, mas ela ri tão alto e por tanto tempo que todos que estão no brinquedo dão uma olhada para conferir se está tudo bem.
—Você é mal! -ela diz após a crise de riso. Agora o brinquedo em que estamos chegou a velocidade máxima.
—Sua vez! -digo para ela.
—ESPERO QUE O PROFESSOR DE BIOLOGIA SEJA UM ZERO A ESQUERDA PRA SEMPRE, PORQUE ESSA FOI A NOTA QUE ELE ME DEU NA ÚLTIMA PROVA. -todos no brinquedo voltam a nos encarar.
—Cíntia, o professor Fred é meu pai. -confesso, Cíntia me olha boquiaberta, claramente arrependida e culpada.
—Sério? Me desculpa, era uma brinca…
—É mentira, sua boba! -exclamo, agora sou eu quem caio no riso, enquanto ela me dá um soco fraco e o brinquedo começa a perder a velocidade.
Após o riso, avisto Alice lá embaixo. Ela também está me encarando, ainda acompanhada de Charles, Eva e seu novo ficante.
—Alice está olhando pra cá. -Cíntia me avisa, também a encontrando com o olhar.
—É, estou vendo.
—Talvez eu me arrependa disso mais tarde… -Cíntia diz ao meu lado, me viro para ela e abro a boca para perguntar do quê ela se arrependeria, mas então ela me beija.
Assim que entendo o que ela deseja fazer retribuo o beijo. E caramba, ela beija bem! Ou talvez foram apenas os três anos sem beijar ninguém além de Alice, mas eu tinha me esquecido de como isso pode ser bom.
Quando o beijo começa a ficar intenso demais e assim que o brinquedo para, ela se afasta. Parece envergonhada, enquanto eu estou com uma expressão confusa, mas só porque ainda não caiu a fixa de que beijei alguém além de Alice.
—Isso foi bom! -digo para descontrair, não consigo evitar não sorrir porque Cíntia está claramente muito envergonhada e todos já estão saindo do brinquedo, enquanto nós permanecemos ali.
—Alice estava olhando! -ela diz, como uma desculpa.
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