Apenas 30 Dias

1 Capítulo 1 - A Doença


Notas iniciais
Também postada no Spirit.

Dia Um

~⏳~

Já passavam das seis horas quando a Lua resolveu ocupar seu lugar no céu. A mansão enchia-se de convidados aos poucos; todos ansiosos para ver o mais novo dos Uchiha presentear a namorada com um anel de noivado. Dentre estes, estava Sabaku No Gaara, amigo e sócio do anfitrião.

Porém, diferente dos demais, não estava nem um pouco ansioso pelo evento. Na verdade, o que mais queria no momento era sua cama e seu cobertor. Um filme de comédia para acompanhar, talvez. O fato era que havia passado o dia inteiro enfiado em reuniões e assinando papeladas. Estava cansado, tudo o que menos queria era um compromisso no fim da noite para completar sua exaustão.

Agradeceu a taça ao garçom depois de pegá-la e observou sua secretária aproximar-se, contente. Ino estava bela com o vestido azul marinho que ia até os pés. A cor se destacava com sua pele além de evidenciar ainda mais as lindas curvas que desejou tocar um dia — e que óbviamente não pode fazê-lo, já que a loira tinha um namorado.

Brindou assim que a mesma levou a própria taça de encontro a sua, gerando um leve barulho dos cristais se chocando.

— Está bonita. Querendo impressionar alguém? — indagou, dando um gole no líquido gelado.

— Ninguém além de mim mesma — sorriu — Meu único objetivo é me conquistar a cada dia, Sr. Sabaku.

O ruivo rodou os olhos.

— Sr. Sabaku? Francamente, Ino. Trabalha comigo há cinco anos e ainda não aprendeu a me chamar pelo nome?

— Desculpe, é força do hábito.

Ambos se silenciaram por alguns minutos para observarem o casal protagonista. Sasuke Uchiha tinha uma jovem de cabelos rosados pendurada em seu braço, que por justa causa era a mulher mais bela do salão. Era evidente em seu rosto como estava feliz ao lado do futuro noivo, o que Ino fez questão de comentar.

— É tão bom vê-la desse jeito... — disse, ainda com o sorriso na face — Sakura sofreu tanto...

— Já estava na hora de dar a volta por cima — o ruivo concordou — Ninguém aguentava mais aquela choradeira.

A Yamanaka o reprovou com o olhar.

— Não devia fazer pouco caso da dor alheia. Queria ver se fosse com você...

— Sem sermões ou desconto um mês de salário. — brincou, fazendo a mulher rir. E como era bom escutar aquela risada.

A noite passou tranquilamente. O clima era agradável, as conversas eram gostosas e os petiscos que serviam, melhores ainda. Gaara pegava sempre que passavam para lhe oferecer, levando Ino a dar-lhe esporros a todo momento. A relação entre os dois era boa; A Yamanaka era a pessoa mais próxima que o ruivo tinha. E, apesar de ter uma terrível queda pela loira, sempre respeitava seu espaço e o relacionamento que a mesma matinha com o branquelo.

Sim, branquelo. Era assim que o chamava quando a secretária não estava por perto. Não conseguia de maneira alguma simpatizar com o moreno, mesmo que ele tentasse de todas as formas ser ao menos educado.

Levou uma das mãos ao estômago quando sentiu um mal estar repentino. Talvez Ino estivesse certa ao dizer que os salgadinhos o fariam mal. Maldita praga que essa mulher me rogou, pensou, observando os convidados se aproximarem do centro do salão. Era a hora do pedido.

— Primeiro gostaria de agradecer a presença de todos. Eu e Sakura estamos super felizes em compartilhar esse momento com nossos amigos. — Sasuke iniciava seu discurso, discontraído. O que não era muito comum de se ver — Todos aqui vivenciaram cada etapa que nós dois passamos, e é um prazer tê-los aqui para presenciar mais uma.

Gaara segurou o pulso da secretária assim que a mesma fez menção em ir junto com as pessoas. Estava recostado na parede, sentia o suor começar a escorrer de sua face. O olhar da Yamanaka, que até então era de alegria, mudou para um de preocupação.

— Gaara... — tocou-lhe a face. Estava gelado. — O que houve?

— Não estou me sentindo bem...

— Ai, Caramba! Eu... Eu vou pedir ajuda, espere um instante...

— Não! — exclamou — Me leve até o carro. Preciso de um Hospital...

— Mas, Gaara...

O Sabaku não respondeu. Seu corpo amoleceu e logo tudo ao seu redor perdeu a cor. Não avistou mais nada além de uma Ino desesperada e perdida, sem noção nenhuma do que faria diante da situação.

Gaara abriu os orbes verdes, um tanto atordoado. O teto branco que observava não era o de seu quarto; tampouco o de seu escritório. O som de uma máquina de monitoramento enchia seus ouvidos de forma irritante, enquanto uma ardência incomum incomodava seu braço. E só fora notar que havia uma agulha enfiada no mesmo quando ergueu o tronco para observar melhor o ambiente.

Era um quarto de Hospital.

Juntou as sobrancelhas, confuso. Como diabos havia parado ali? E o que eram todos aqueles fios grudados em seu corpo? Não se recordava de ter tido algum acidente ou coisa parecida.

Bufou, frustrado. Detestava aquele ambiente. O desespero e o sofrimento das pessoas que se encontravam ali o deixavam angustiado. Sentia a energia pesada, o ar de morte... Talvez fosse por isso o motivo de ter desistido da faculdade de medicina. A ideia de conhecer a outra vida não lhe agradava em nada. E ser responsável pela morte de alguém também não era algo que gostaria.

Deixou que o corpo caísse novamente sobre a cama e esperou por longos quinze minutos alguém aparecer para lhe explicar o que estava acontecendo. Seu olhar caiu sobre a figura feminina que entrava no cômodo com um uniforme típico de enfermeira. Possuía cabelos castanhos e orbes de mesma cor, em um tom mais claro. Tinha a estatura alta e um rosto angelical. Era colírio puro para os olhos do Sabaku.

— Vejo que acordou, Sr. Sabaku — a voz melodiosa adentrou seus ouvidos, docemente — Como se sente?

— Perdido... O que houve? — indagou, recebendo um sorriso leve que o prendeu por alguns instantes.

— De acordo com a moça que o trouxe, o senhor estava em uma festa quando passou mal e desmaiou. Ela disse que era sua secretária.

— Oh... — levou uma das mãos a cabeça, recordando-se vagamente do ocorrido. — Lembro-me pouco do que aconteceu. Estou desacordado há muito tempo?

— Faz duas horas, senhor.

Gaara analisou bem a mulher a sua frente, tentando entender como ela poderia estar tão tranquila em um local infernal como aquele. Parecia perfeitamente bem, nenhum indício de cansaço ou mau humor. Ela sorria e era gentil; mas por quê? Ele, em seu lugar, provavelmente já estaria desejando que tudo se explodisse.

— E o que eu tenho? — perguntou, voltando a realidade.

A morena pareceu hesitar por um momento, mas logo o sorriso estampava-se em seu rosto novamente.

— O Dr. Inuzuka irá vê-lo em breve. Vocês poderão conversar e ele lhe esclarecerá tudo.

A jovem saiu da sala após a fala, deixando Gaara intrigado com a mudança repentina. Aquela saída inusitada lhe dava a impressão de que a mulher estava fugindo. E quando isso acontecia, significava que boa coisa não estava por vir.

Logo sua mente vagava em todo o tipo de possibilidades que poderiam ocorrer consigo, tentando dar motivos para si mesmo do porquê a enfermeira lhe negar uma resposta. Era uma pergunta simples que poderia ser fácilmente respondida por qualquer funcionário que estivesse responsável em cuidar de seu caso. Então por que fugir?

Suspirou, já esperando o pior. Uma doença era tudo o que menos queria no momento. Porra, era um homem de vinte e sete anos, era jovem, praticava exercícios. Por que essas coisas só tinham que acontecer com ele?

Ficou pensando naquilo por um bom tempo até um rapaz moreno adentrar o quarto, não tão sorridente quanto a enfermeira. O homem tinha manchas estranhas pintadas na face, por alguma razão. Gaara teve que conter sua curiosidade e esperar o outro começar a dar a má notícia.

— Gaara No Sabaku? — perguntou, fazendo o ruivo assentir com a cabeça — Sou o Dr.Kiba. O responsável por analisar sua situação.

— Dr. Kiba... E então? Sabe o que eu tenho?

— Sei — respirou fundo — Senhor Sabaku, é necessário que saiba que as pessoas estão sujeitas a tudo na vida. Algumas vivem mais que outras; Têm as pessoas que passam a vida inteira saudáveis, outras que desenvolvem doenças bem jovens... — o Inuzuka parecia ter cuidado nas palavras que usava, e o ruivo tentava entender o motivo daquele discurso todo. — Algumas doenças são fácilmente curáveis, enquanto existem as que são carregadas com você pelo resto da vida.

— Doutor, você pode ir direto ao ponto, por favor? — pediu, contendo a vontade de demonstrar toda a sua impaciência. O outro apenas se sentou aos pés da cama, encarando o paciente diretamente nos olhos.

— Descobrimos um tumor em seu estômago. — disse, sentindo um peso sobre o peito. Aquela com certeza era a parte mais difícil de seu trabalho.

Observava o homem paralisar com o que havia dito. Parecia não processar direito a informação, o que era totalmente compreensível.

— Pode repetir?

O médico hesitou antes de responder.

— Você... Está com câncer.

A dor que sentiu ao ouvir a frase era inexplicável. Gaara sabia que tinha algo, só não esperava que fosse um câncer. Fechou os olhos por alguns segundos, tentando ao menos ver o lado positivo da situação. Afinal, por mais cruel que fosse a doença, ela tinha tratamento.

Inspirou profundamente para não perder a calma e encarou Kiba.

— Terei direito ao tratamento?

O Inuzuka engoliu em seco. Se mentir não fosse antiético, o faria com toda a certeza. Aquilo estava sendo torturante.

— Não, Gaara. O estágio da doença é avançado...— sua voz falhou — Já está te consumindo. Ela surgiu de forma silenciosa, esse tipo de tumor só é descoberto através de exames preventivos, coisa que você não está acostumado a fazer, pelo que notei. — viu a culpa se apossar dos orbes verdes —Você não tem muito tempo...

O Sabaku riu, nervoso, entendendo tudo.

— Está dizendo que vou morrer — afirmou mais para si mesmo do que para o médico — Quanto tempo tenho?

— Um mês no máximo... — murmurou — Sinto muito.

O ruivo não disse nada, apenas observou o homem se levantar e sair do quarto; assim como fez a enfermeira minutos atrás. Passou as mãos nos fios, frustrado. Aquilo não podia estar acontecendo. Só podiam estar lhe pregando uma peça de mau gosto.

Respirou fundo, fechando os orbes novamente; mas dessa vez era para tentar segurar o choro que estava preso em sua garganta, implorando para sair. O desespero tomava conta de si a cada segundo que imaginava a morte tão perto...

Isso não pode estar acontecendo...Sua mente repetia, incrédula diante das últimas informações.

Meia hora se passou desde que recebera a notícia de que morreria em breve. Estava visivelmente abatido, com os pensamentos refletindo a todo momento sobre sua vida e tudo o que fizera. Havia assumido os negócios da família assim que seu pai faleceu. Era muito novo na época, teve que abrir mão de muitas coisas para seguir os passos do Sabaku mais velho. Lembrava-se das festas que perdia, do tempo que passava enfiado no escritório, assinando e lendo papéis sem nem notar a hora passar.

Recordava-se dos poucos momentos que tirava para relaxar. As raras noites em que saía com seus sócios para beber algo, ou quando se aventurava com alguma mulher que conhecera em alguma festa social. Coisas que não passavam de uma mera noite. Nunca havia tido um relacionamento sério. Não sabia o que era ter alguém ao seu lado, cuidando, se preocupando... Aquilo só existia na vida dos outros.

De repente, pegou-se imaginando uma vida totalmente diferente, onde seguia o que seu coração mandava. Curtiria mais, namoraria, casaria, teria filhos... Se preocuparia com cada detalhe, cada situação. Faria viagens incríveis, leria mais livros, iria mais ao cinema...Levou as mãos ao rosto, gemendo em angustia. Não adiantaria mais chorar pelo leite derramado. O que passou já era.

Mas ainda tinha tempo de fazer o que desse na telha.

O som da porta se abrindo o fez parar de pensar. Uma figura bem conhecida adentrava o cômodo, como o olhar entristecido. Tudo o que Gaara não queria que sentissem por ele. Pena.

Oi — disse, dando-lhe um beijo sobre a testa — Como você está?

— Morrendo — respondeu, fazendo a loira revirar os olhos.

— Não precisa ser frio desse jeito — segurou-lhe a mão. A jovem ainda usava o vestido da festa, o que o fez deduzir que tinha passado o tempo todo no Hospital — O médico me falou tudo. Sinto muito.

O ruivo engoliu em seco, tentando não olhar nos orbes azuis.

— Não sinta. Coisas ruins acontecem com qualquer pessoa. — forçou uma risada — O incrível é sempre acontecer comigo...

A Yamanaka sentiu os olhos arderem e as primeiras lágrimas caírem.

— Gaara... — a voz saiu chorosa — Você não precisa se fazer de forte...

Sentiu uma pontada no peito ao vê-la naquele estado. Odiava quando choravam perto de si.

— Ino...

— Olha, eu faço qualquer coisa... — fungou — Tudo o que precisar. Estou a disposição.

Gaara suspirou, secando as lágrimas da loira em seguida. Tinha sim uma coisa que gostaria que ela fizesse, só não sabia se a mesma toparia.

— Eu tinha um sonho. — disse, prendendo sua atenção — Quando era adolescente, sempre quis conhecer países de outros continentes, viajar o mundo...

— Sério? — sorriu, ainda triste.

— Sim. E eu quero realizá-lo agora que não tenho outra escolha além de esperar minha morte.

Ino arregalou os olhos, surpresa.

— Você quer viajar o mundo? Esse é seu último desejo?

— Não, é o meu sonho. — deitou — E meus últimos desejos serão realizados quando eu estiver vivendo esse sonho.

— Mas você não pode viajar sozinho...

O Sabaku sorriu mínimamente.

— É por isso que quero que você, Ino Yamanaka, me acompanhe durante todo o trajeto — analisava cada expressão que a loira fazia — Gostaria de se aventurar comigo durante trinta dias?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.