Apartamento 206
1 Capítulo 1
Outubro/ 1976.
Nunca pensei que chegaria ao ponto de relatar sobre isso em algum lugar... Mas talvez as palavras façam mais sentido sendo gravadas do que ditas a alguém.
Não sei se acreditariam em mim... O fato é que desde então me abstive da coragem de revelar pessoalmente o que estou passando.
As palavras saem da minha boca em jorros cercados por períodos de silêncio. Se me atrevo a uma tentativa de pronunciá-las de forma rápida, elas saem de forma cortada e sem sentido algum.
Não.
Eu não posso mais me aprofundar em tentativas falhas de sussurros. Sinto que estou perdendo o pouco da sanidade que me resta a cada pedido de ajuda.
Por isso, nos próximos dias registrarei tudo o que está acontecendo ao meu redor nesse pequeno gravador preto.
A última saída que me resta para mostrar esse horror.
A falta de privacidade desse distante e desconhecido conjunto habitacional em que vivo, talvez pudesse ser o problema principal. Ao ficar de pé sobre o parapeito da janela, basta apenas um pequeno salto para adentrar a casa vizinha.
Não espero que você acredite em cada palavra minha, pois creio que até eu já tenha perdido o senso do real.
Não espero por ajuda ou compreensão... A única coisa que espero de você é que apenas preste atenção aos detalhes.
Pois nesse momento, são eles que estão prestando atenção em mim...
Terça-feira.
“ Três e quarenta e seis da manhã. Ouço novamente ruídos de algum móvel sendo empurrado. Estão arrastando algo pesado... Posso sentir o piso de madeira sendo arranhado entre breves pausas.
Ascendo à luz da sala e abro a janela para ver o que os tais vizinhos estão fazendo, mas sua janela há dias continua fechada por aquela cortina branca e grossa.
Não há reflexos por trás dela. Nenhuma luz está acesa do outro lado. Mas os móveis continuam sendo arrastados.
Apenas vinte minutos de silêncio se passaram. Levantei-me novamente da cama. Não estavam mais arrastando móveis, mas sim pregando algo sobre eles.
Estou mais uma vez debruçado na janela para me atentar ao que estão fazendo. Espremo os olhos na escuridão e me debruço cada vez mais...
Grito em direção às cortinas, e de repente tudo fica em silêncio.
Não houve mais ruídos, mas eu não dormi.
Quarta-feira
O dia amanheceu, e como sempre o céu em seu cinza predominante não deu qualquer sinal de que algo bom aconteceria.
Estou na cozinha, sentado na pequena bancada de madeira e observando ao vapor que sai da xícara de café...
“O que?”
Alguém bateu com violência a porta de entrada do apartamento da frente. Continuo sentado, porém atento aos próximos ruídos.
Espero por mais alguns instantes... Mas nada.
Silêncio.
Levanto-me para levar a xícara a pia, mas um grito agudo e repentino fez com que ela caísse de minhas mãos e se partisse ao meio...
(O líquido preto do café se espalha pelo piso branco...)
Corro para a sala, e com as mãos sobre o parapeito, fixo o olhar nas janelas à frente, e para minha surpresa... Não há mais cortinas.
Os vidros estão abertos e por trás deles um casal permanece de pé próximo ao corredor. A mulher está usando um vestido de noiva e o homem um smoking.
O grito surgira dali. Não há duvidas, foi como se ele tivesse sido dado diante de mim... Para mim.
Não parecem notar minha presença ou meus sussurros. Eles apenas estão parados... Um de frente para outro.
A mulher se curva levemente para frente... Seu rosto está a centímetros do homem e então... Grita novamente!
Ela o empurrou.
O homem cai sem reação alguma! A mulher está com alguma coisa na mão direita, mas não consigo ver o que é.
Me curvo apenas um pouco para frente da janela...
Droga! Uma faca!
Acabo de gritar para chamar a atenção dela, mas nada acontece!
Ameaço chamar a policia, mas ela continua imóvel com a faca em suas mãos.
Me curvo ainda mais... E então ela avança sobre ele...
“ NÃAAO!
Merda... Merda...”
Estou agachado, de costas para a parede... Ela continua acertando-o, posso ouvir seus gritos!
“Meu Deus...”
Me levanto devagar,tentando sustentar o peso de minhas pernas que parecem ter perdido os movimentos.
Onde ela está?!
“O chão está completamente tomado por sangue.
O corpo...
Céus... O homem está sob uma poça de um vermelho escuro e denso, assim como seu smoking.
Alguém está caminhando pelo corredor a caminho da sala, escuto os passos...
É ela.
Está olhando para baixo... Seu vestido está completamente rasgado e apenas alguns pontos de sua cor originalmente branca...
Ela passa por cima do corpo, sem receio algum.
Seu olhar está desprovido de qualquer emoção.
Está se agachando próximo a ele. Sua expressão... Ela está... Sorrindo.
Meus olhos devem estar completamente arregalados, não consigo mais acreditar no que estou vendo.
Droga!
Ela está olhando para mim agora...
Ainda está com a faca nas mãos, ela a ergue enquanto continua com o olhar fixo em mim.
Está aproximando a faca de seu rosto mais e mais, até chegar a sua boca e...
Desliza sobre os lábios... O fluído vermelho escuro está sobre eles e ela continua sorrindo! Parece provar o gosto sentindo algum tipo de prazer em tudo aquilo.
M-mas... O que?!
(Minhas mãos estão cravadas no parapeito.)
Não consigo me mexer...
Ela finalmente se levanta, ergue os pés do homem e o vira arrastando-o para dentro do corredor, deixando o rastro de sangue pelo caminho.
(Meu estômago se embrulha)
Céus...
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