Apanhador De Medo
24 Sangue do meu sangue
Notas iniciais
O corpo sem vida e totalmente sem sangue de Natasha era arrastado pelo terreno de terra úmida por Chester, o batom vermelho intenso continuava intacto em seus lábios, seu corpo começava a ficar frio. Ele parou de arrastá-lo quando chegou próximo o bastante da margem do rio, respirou fundo e com um só empurrão jogou-a no rio, tentando não olhar para o seu rosto. Ele deu as costas e voltou em direção ao carro sem olhar para trás, encobrir o assassinato não seria difícil. Tinha amigos em muitos lugares e muitos favores a cobrar.
Ao chegar à pista não adentrou o carro novamente, apenas tirou da bolsa em cima do banco do carona todo o dinheiro da carteira de Natasha. Não podia ir até a delegacia, não podia voltar pra casa... Não tinha pra onde ir naquele momento. Mas enfiou as mãos nos bolsos do blazer e começou a caminhar pelas ruas desertas.
(...)
O vampiro de olhos e cabelos castanhos fitava o teto do quarto de hotel esperando que ficar parado por um tempo lhe trouxesse um pouco de paz a mente, mas pregar os olhos aquela noite estava fora de questão. Agora que estava solto tinha muito que pensar e fazer. As duas mãos pousavam em cima da barriga desnuda, as mãos agora não tinham mais vestígios de terra, as roupas sujas estavam secando no banheiro. Na bolsa de Natasha havia achado dinheiro suficiente para uma noite naquele muquifo, mas era só por aquela noite, ele pensava. Não haveria uma segunda noite quando começasse a agir assim quando o sol nascesse, e seu primeiro ato não poderia ser mais previsível... Ir até a casa de Azazel. Ele o acolheria, querendo ou não.
•••
Francis repousava de bruços o corpo magro em cima da cama, o rosto esmagado contra o travesseiro, a mão direita estava agarrada a madeira que ele apertava forte, mais um pouco e a quebraria. Ele se mexeu, parando na ponta do colchão, faltando centímetros para atingir o chão de piso frio.
– Anne... Não... – balbuciou. O som da sua voz saindo abafado. O espirito brilhante da bruxa pairava ao lado da cama, ela hesitou em tocá-lo, mas acabou por passar os dedos pelos cachos loiros de Francis, fazendo-o acordar alarmado. – Anne! – diz em um tom mais alto no mesmo momento em que cai no chão. Ele levanta um pouco o rosto e olha ao redor, depois volta a deitar no chão, sentindo o contato do piso com a sua pele. Fecha os olhos por alguns instantes.
– Francis? – Rebecca empurrou a porta entreaberta quando viu o corpo do amigo no chão e ficou aliviada quando ele levantou o rosto para olhá-la. Sorriu encostando-se ao batente da porta. – O que está fazendo no chão? – olhou-o como se fosse louco.
– Eu tive um pesadelo. – ele se ergueu do chão e se aproximou da mulher. O celular ensina da escrivaninha marcava seis horas. – O que faz acordada tão cedo?
– Formigas na cama. – explicou em tom sério, mas ao ver a expressão de Francis ela riu. – Não consegui pregar o olho essa noite.
– E isso tem a ver com certo vampiro sociopata de assustadores olhos azuis? – sorriu de lado.
– Eles são mesmo assustadores não é? – ela olhou para cima e voltou a olhar para Francis. – Mas não tem a ver com ele.
– Você está estranha desde que voltou de Stevenage. – a analisou, olhando-a nos olhos.
– Estranha?
– Sim. E vou descobrir o porquê. – diz passando por ela na porta. Ela o seguiu até as escadas em silencio e as desceu sem dizer uma palavra. Os dois estavam indo em direção à cozinha quando a campainha foi tocada. Rebecca e Francis pararão automaticamente e se olharam, mas foi Rebecca que deu meia volta para atender. Ela abriu-a lentamente, olhou o homem de cima em baixo que estava prestes a tocar a campainha novamente. Os olhos tinham olheiras e o olhar era sem vida. O seu estado assustou Rebecca, não parecia Chester Powell, mas de certo era. Ele lançou um meio sorriso para a mulher paralisada na porta, não estava em condições de lhe lançar um inteiro.
– Não vai me convidar para entrar? – ele olhou para dentro da casa, encontrando o olhar de compaixão de Francis sobre os ombros de Rebecca.
– O que aconteceu com você? – pegou o rosto dele entre as mãos e o abraçou em seguida. – Eu sabia que havia acontecido algo. Eu devia ter ido atrás de você, droga!
– Eu estou bem agora. – diz quando ela se afasta dele.
– Me desculpe. – pede com sinceridade. – Vamos, entre. – abriu um espaço para que ele adentrasse a casa e fechou a porta.
– Eles me trancarão em uma prisão no subsolo de um prédio. – contou quando já estavam acomodados na sala de estar. – Eu estava dissecando quando essa funcionária dos meus pais apareceu... Natasha Miller.
– Ela que te ajudou a fugir. – Rebecca afirmou.
– Sim. Mas eu não podia confiar nela, então... – ela olhou para Rebecca, que estava sentando do seu lado. E ela entendeu o que ele quis dizer. – Quanto menos pessoas envolvidas nisso, melhor. Rebecca fitou o chão assim que ele terminou de contar o que aconteceu.
– Eu esperava tudo de Carmen e Joel... Mas nunca pensei que iam te machucar.
– Eu também não Becca. Joshua estava certo, aquela casa é um covil de monstros. – ele rolou os olhos para a porta da sala de estar, onde Joshua tinha acabado de chegar e observava o irmão. Ches se levantou e foi em direção a Joshua aos olhos atentos de Rebecca e Francis. Eles estavam frente a frente depois de anos. Ficaram assim por um tempo, se enfrentando por olhares, quando uma mão aberta se sustentou no ar. Era a de Chester. – Trégua?
Joshua analisou a mão direita de Chester, esperando que ele a apertasse. Mas ele continuou lá... Imóvel. A mão do vampiro abaixou lentamente e ela estava quase voltando ao lado de seu corpo quando o dono do sorriso perverso que brotava nos lábios apertou seus ombros, sorrindo.
– Nós vamos acabar com eles. – o empurrou propositalmente, Chester teve que fazer um esforço para não cair e ainda rindo ele passou pelo irmão que ainda processava a reação de Joshua. O vampiro andou até o sofá onde Rebecca estava sentada e sorriu maliciosamente antes de se sentar ao seu lado, passando o braço pelos seus ombros. Aproximou-se do seu ouvido e disse:
– Bom dia raio de sol! – ela deu um pulo, se afastando imediatamente. Joshua pendeu a cabeça pra trás em uma gargalhada. Chester franziu o cenho e sentou-se no meio deles.
– Vocês dois...
– Não! – responderam juntos, se olharam por um instante e desviaram o olhar. Em outro canto da sala Francis ria.
– O que é esse barulho todo? – o homem de olhos espremidos, cabelos desgrenhados e roupas largas perguntou assim que adentrou a sala. Os presentes olharam um para o outro e explodiram em uma alta gargalhada, Azazel cruzou os braços a espera que os ânimos se acalmassem. – Vejo que estão bem animados hoje.
– Azz... – Rebecca se levantou. – Chester vai passar uns dias conosco, ele não pode voltar para o covil de monstros. E da próxima vez, deixe-me seguir meus instintos, ele estava em perigo.
– A culpa é minha?
– Claro que é. – diz descaradamente.
– Carmen e Joel ainda não sabem que fugi da prisão. Essa é a minha vantagem... – Chester explicou. – Temos que agir pacientemente e com cuidado.
– Você sabe algo sobre PEAM? – Joshua perguntou, parecendo ler a mente de Rebecca.
– Não... – Chester respondeu sem muita certeza, vasculhando sua memoria em busca de algo.
– Achamos que seus pais querem exterminar os apanhadores de medo pra sempre. – Rebecca lhe explicou.
– Na verdade isso faz sentido... – começou. – A minha mã... A Carmen, sempre disse que para não nos metermos com apanhadores, ela acha que é uma raça desprezível e imunda... Desculpe.
– Não fico espantada, sempre achei que ela me tratou daquele jeito por ser filha de quem sou.
O silencio se instalou na sala, Azazel voltou para cima para se vestir com roupas mais descentes. Francis e Rebecca se encaravam parecendo brincar de quem ria primeiro. Francis perdeu.
•••
Victoria estacionou na frente do portão principal de prata, que estava sempre destrancado. Ela observou a fachada da mansão e checou o endereço no papel amassado em suas mãos suadas, o enfiou dentro do bolso enquanto saia do carro, Ivan seguiu seus passos, entrando na propriedade de Azazel logo atrás dela. Eles caminharam na estradinha de pedra até a porta que dava pra o hall de entrada em pleno silencio.
– Eu posso sentir o cheiro de medo em você. – diz enquanto sobem as escadas. – Acho que vou descobrir o porquê agora. – ele aperta a campainha rapidamente.
– Quero que saiba... Que eu não queria nada disso. Eu sinto muito. – o olha nos olhos.
– Victoria... – ele ia dizer mais alguma coisa, mas a porta se abriu antes que pudesse, revelando uma jovem moça de cabelos curtos.
– Posso ajuda-los? – perguntou olhando da mulher para o homem.
– Nós estamos procurando por Azazel. — omitiu seu sobrenome.
– Rebecca... – Chester apareceu no hall de entrada para checar quem era a porta. E quando viu o rosto do homem, ele ficou paralisado.
– Eles estão procurando por Azazel. – diz de costas, não podendo ver a expressão do vampiro, que parecia mais pálido do que já era. – Desculpe. Qual o nome de vocês?
– Victoria e Ivan. Ivan Friedrich. – a mulher disse observando a reação de Rebecca, que rapidamente olhou para Chester, ele tinha os mesmos olhos arregalados.
– Oh. Meu. Deus. – diz pausadamente esperando as frases coerentes lhe voltarem à mente. Ela apenas abriu mais a porta para que eles pudessem entrar. – A sala de estar é por aqui. Ao chegar à sala Chester tomou a frente e anunciou a Joshua e Francis.
– Este é Ivan Friedrich. – e depois notou a mulher. Mas só depois de Joshua ficar tenso em no sofá, o corpo ficando rígido em um segundo. – E... Victoria.
– Eu... Vou ver Azazel. – Rebecca deu as costas para a sala. Chester foi atrás dela.– Mas que diabos esse homem esta fazendo aqui?
– Eu não sei, mas estou com medo da reação de Azazel. – Rebecca pensava na mesma coisa. Azazel.
– Reação a quê? – Azazel desce as escadas aos olhos dos dois amigos. – O quê? Viram um fantasma? Se por acaso viram não me espantará muito, nós vivemos em um mundo sobrenatural.
– É quase isso. – Rebecca diz receosa. – Azazel, você vai ter que manter a calma...
– Eu sempre mantenho a calma. O que é?
– É melhor ver com os próprios olhos. – o vampiro de olhos castanhos responde.
Rebecca e Chester vão à frente. Ela aperta o braço dele quando chegam à sala. Azazel vem logo atrás e parece estar paralisado quando vê o homem perto da janela que ao sentir a presença de Azazel, se vira para encará-lo. Mas ele passa por entre os dois e caminha até o homem. Frente a frente, os demônios em seus olhos brigavam entre si inconscientemente. Ninguém se arriscava em dizer uma palavra. Ivan franziu o cenho e olhou para Victoria, que desviou o olhar de pai e filho. Todos esperavam uma reação. Mas não esperavam por aquilo. Um soco. Bem no nariz. O rosto do homem virando, Rebecca gritando o nome de Azazel, mas ele nada ouvia, sua visão se tornava vermelha. Joshua sorriu aprovando o ato, mas Azazel não viu. Apesar de todos ficarem alarmados, não se aproximaram deles. Ivan passou o dedo no nariz, e tudo parecia ser feito em câmera lenta. Dois homens no chão, brigando.
– Mas quem diabos é você garoto? – grita em sua face, enquanto segura-o no chão pelo pescoço. Rebecca joga o corpo pra frente, mas Victoria a impede de chegar mais perto. Uma gota de sangue pinga na blusa de Azazel.
– Azazel... Friedrich. Não reconhece seu próprio filho? – a mão afrouxa um pouco no pescoço dele. Mas Ivan não o solta.
– Não pode ser. Eu não tenho filhos. – sua declaração faz Azazel confuso.
– Eu acho que está aqui pode nos explicar... Não é bruxa? – Joshua aperta o ombro de Victoria com força.
– Ivan... Ele é seu filho. Mas eu posso explicar. – Ivan explodiu para a direção de Victoria.
– O que fez comigo sua cretina? Por que eu não me lembro? – apertou seu pescoço como fez com Azazel, mas com mais força, para matá-la.
– Se você me matar... Nunca vai saber. – com dificuldade ela fala.

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