Apanhador De Medo
20 O Diabo Veste Prada
Notas iniciais
A goteira no teto de concreto o mantinha são, procurava por qualquer barulho para saber que continuava no mesmo mundo dos que lhe prenderam ali, a cela escura e com as paredes úmidas cobertas por lodo estava caindo aos pedaços e o homem estava encostado na parede havia dias, às vezes se deitava tentando dormir, mas seus sonhos pareciam mais com alucinações. Já havia visto Rebecca e Azazel se sentarem a frente dele, e até mesmo Joshua, mas no fim era só ele e a água pingando insistentemente no chão. Os lábios estavam começando a rachar de tão secos e sua garganta arranhava, a sede era quase insuportável, mas tinha que se manter focado mesmo com a possibilidade de permanecer ali por séculos.
Chester estava ali há cinco dias. Para se manter focado ele elaborava o que faria quando saísse dali. Depois de saciar sua sede, ele pensava, saciarei a outra. Se fosse preciso se juntaria a Joshua, para se vingarem de seus pais, traidores profissionais.
Cinco dias atrás
Chester pisou forte para fora do carro, respirou fundo no caminho curto que fez até a porta principal. Soltou o ar mais uma vez antes que empurrar a porta e a fechar atrás de si, apertou os olhos esperando seus pais e Abbie chegarem até o hall de entrada. Girou fitando seus sapatos e por fim decidiu encara-los de uma vez, Abbie tinha uma expressão confusa no rosto enquanto Carmen e Joel mantinham a expressão séria e ensaiada de sempre. Não tinha outra maneira para explicar o que aconteceu do que dizer que falhou e que não pode trair Azazel e Rebecca como eles fizeram com ele.
– Ches... – Abbie diz primeiro e olha para os pais.
– O que você fez? – Joel perguntou, devia estar escrito ‘culpado’ na testa de seu filho para a primeira pergunta ser aquela.
– Eu falhei. – fala encarando seu pai. – Não pude ser tão frio, mesmo sendo um Powell.
– Chester! – sua mãe disse afetada. – Onde está Fraülin?
– Está morto. – atira na cara dos dois, que se espantam com a revelação. – De algum modo Rebecca tinha esse poder.
– Você salvou aquela vagabunda? – Abbie esbravejou.
– Cale a boca Abbie. – Ches diz ameaçando ir pra cima dela, mas se controla.
– Você é um traidor, garoto. – seu pai cruza os braços. – O que mais você fez?
– Se você quer saber se contei sobre o PEAM, não, eu não contei. Mas você sabe o quanto acho esse plano desprezível. – apertou os punhos.
– Eles são uma ameaça para nós Chester. – Carmen explica.
– A única coisa que ameaça nossa segurança são vocês mesmo. – diz entre dentes.
– Você está do lado deles... – Joel diz o analisando. – Parece que lhe fizeram uma lavagem cerebral.
– Não! Eu percebi que não faço parte dessa família. – explodiu. – Não sou como vocês.
– Rebecca está te manipulando. – Ches segura o pescoço de sua irmã, as veias saltando. – Chester, me solte.
– Diga o nome dela de novo e eu quebro seu pescoço. Ela é muito mais digna de respeito do que você... – diz à irmã que está com os olhos arregalados. Joel faz um sinal para os dois vampiros parados no corredor, em um movimento rápido eles derrubam Chester no chão, segurando seus dois braços. – O quê? O que estão fazendo? Deixem-me ir!
– Você não pode ir. – Carmen disse o observando de cima, e deu as costas amparando Abbie, a guiando para o corredor. Ela deu uma ultima olhada em Joel e em seu filho e sumiu.
– Pai... – diz ainda sendo segurado pelos dois vampiros. Joel se aproximou.
– Eu sinto muito filho, mas nós precisamos fazer isso. – dito isso, ele assente aos homens e deixa o hall de entrada.
– Pai! Não! — ele grita antes de ter o pescoço quebrado e entrar em um profundo sono.
Horas depois ele acordou naquela cela, resistiu um pouco por alguns minutos, mas teve que aceitar no final, que Joshua estava certo sobre seus pais. Enquanto estava ali não tinha noção das horas, e não saber se era dia ou noite era mais uma das coisas que o poderia levar a um estado intenso de insanidade. Se por acaso aprendeu algo bom com seus pais foi ser difícil de derrubar, iria aguentar até o ultimo minuto. Ele mudou de posição, encostando seu rosto no chão gelado, a sensação era boa, constatar que ainda tinha essa possibilidade.
Fechou os olhos esperando o sono vir, mas uma luz entrando pela porta que não era aberta há dias o afugentou para o canto da cela. Era apenas a luz de uma lâmpada fluorescente, mas parecia ter a mesma força do sol sob a pele branca de Chester. Com os olhos espremidos ele conseguiu enxergar um par de saltos vermelhos, a porta foi fechada, mas a luz continuava a entrar por entre as grades da janelinha que fora aberta na porta. Ele sentiu os olhos da mulher bem vestida sobre ele, ele subiu seus olhos medrosos pelas pernas da moça, sua saia de cintura alta desenhava bem suas curvas e a blusa tinha um decote discreto, mas sensual.
– Olá Chester. – ele ficou um pouco mais aliviado ao ver o rosto conhecido da moça. Já havia visto algumas vezes nos corredores da empresa de sua família, provavelmente se não tivesse toda aquela beleza, nunca a teria reconhecido. O sotaque australiano era fraco depois de anos na Inglaterra, mais ainda estava ali.
– Natasha certo? – diz com a voz arrastada. – O que está fazendo aqui? Você deve saber que eu estou faminto. – suas veias saltaram.
– Eu sei. – ela diz calmamente e tira de sua bolsa com a marca Prada reluzindo em uma letra elegante, uma bolsa de sangue. – É por isso que te trouxe isso. – jogou em suas mãos.
Chester estava faminto de mais para desconfiar de sua gentileza. Ele rasgou o plástico com os dentes e não parou de sugar até beber a ultima gota de sangue na bolsa. Jogou a bolsa vazia ao seu lado para questionar Natasha que o observava com um sorriso perverso no canto dos lábios.
– Por que isso? – respondeu, a voz estava menos arrastada, mas o sangue era pouco para recuperar todas as suas forças.
– Eu vou precisar de você recuperado se quisermos vingança. – dessa vez ela sorriu com todos os dentes.
•••
– Eu estou preocupada com o Chester, ele não atende minhas ligações. – diz Rebecca adentrando a sala de estar, sua pele cheirava a lavanda. Azazel estava no mesmo lugar de quando ela subiu para tomar banho.
– Talvez ele só precise de um tempo. – diz para ele em um tom zombeteiro. Rebecca bufa e se joga no sofá, deitando de um jeito que ainda pudesse encarar Azazel. – Ele sabe se cuidar.
– Mas se passaram malditos cinco dias. E você sabe, eu não gosto de esperar. – sorri fraco, não estava muito para sorrisos sinceros. – O que fazemos agora?
– Nós esperamos. – ele fala para desgosto de Rebecca. – Não há nada que possamos fazer. Você não pode ir até a casa dos Powell ou a delegacia procurar pelo Chester sem ser morta...
– Você está errado, mas nós podemos invadir o clã Chelsea e resgatar seu pai.
– Nós somos quatro enquanto eles são muitos... – Rebecca se sentou, ficando irritada de repente.
– Como você consegue ser tão paciente em situações como essa? – diz com o cenho franzido, sua voz saiu em um rosnado.
– Paciência requer pratica Rebecca... – ele diz fazendo-a suspirar e se jogar no sofá novamente.
– Estou entediada. — sua fala faz Azazel rir pelo nariz. – O que é tão engraçado que fez o mal humorado Azazel sorrir? Vamos, fale.
– Não é nada. – ele desviou o olhar para o outro lado da sala, mas sabia que Rebecca o continuava encarando. Então ele cedeu. – Eu só estava recordando todas as ideias malucas que você tinha pra sair do tédio na Alemanha... – ela sorriu depois do comentário.
– Parece que faz um século. – ela encarava o teto. – Você era mais divertido quando nós estávamos... – ela o encara por um instante. – Juntos.
Azazel pigarreia e se mexe inquieto na poltrona, Rebecca ri diante do desconforto dele.
– Então... Você não está curiosa sobre essa sua tatuagem?
– É claro. – e sobre muitas outras coisas, ela pensa. – Eu vou investigar... Um dia.
– Medrosa. – ele cantarola. Ela apoia o rosto em uma das mãos para encará-lo.
– O quê? Eu não sou medrosa. – descansa a cabeça na almofada. Ela fecha os olhos por um segundo e volta a falar. – Azz, você precisa saber... – começou com uma expressão séria. Mas mudou de ideia no meio da frase.
– O que foi? – ela respirou fundo.
– Você é um pé no saco! – ela jogou a almofada nele e gargalhou com sua expressão. Esquecendo-se de seus problemas por um momento. Ele jogou de volta, mas errou. – Ops! Você errou.
– Que tipo de pessoa fala ‘pé no saco’? – era raro vê-lo assim, tão descontraído, leve, ele sempre estava tenso com alguma coisa. Aquela sensação não era boa apenas para ele, mas para Rebecca assistia de fora.
– Acho que Rebecca Moore. – ela apontou para si mesma e piscou pra ele. – Então, você vai vir me pegar ou não? – deu uma risada maliciosa.
– Eu preciso caçar. – ele se levantou e passou por ela no sofá, ela pegou em sua mão, e ficou apenas o encarando. – O quê?
– Você não vai me convidar? – sorriu olhando ele de baixo.
– Seu método de caça é diferente do meu, você sabe... – explicou.
– Eu sei. Mas eu estou entediada, você sabe... – o encarou, esperando a sua resposta.
– Ok. Mas apenas essa vez, eu gosto de privacidade. – diz se soltando da mão dela, Rebecca foi atrás, não se importando de trocar os shorts que vestia por uma calça. Não ia morrer de frio, isso tinha certeza.
Saíram da casa e entraram no carro de Azazel, que estava quente e aconchegante. O rádio estava no volume baixo, criando um clima agradável durante o trajeto pequeno até o centro. Se Azz não fosse fã de tortura, não precisariam do carro para fazer um caminho tão curto. Ele estacionou o carro em frente a um beco sem saído, ao sair do carro ela sentiu o vento frio em suas pernas e tremeu um pouco.
– Você pode ir caçar e nos encontramos aqui. – Azz sugeriu, ela deu a volta no carro e ficou de frente pra ele.
– Eu não preciso caçar hoje. Só quero assistir você. – ela entrelaçou o braço no dele sem pedir permissão e ficou o mais colado possível em seu corpo. – O quê? Eu estou com frio.
– Podia ter trocado de roupa antes de sair. – diz começando a andar.
– Eu não podia correr o risco de você me deixar pra trás e me deixar de fora da diversão.
– Vamos, isso é só uma desculpa pra você se agarrar a mim. – o comentário lhe rendeu um soco no braço.
– Então, o que vai ser hoje? Loira, morena...? – brincou.
– Não faça isso ser mais estranho do que já é. – eles estavam se divertindo, isso é bom.
Eles andaram mais um pouco antes de Azz escolher a vitima, ele levava aquilo muito a sério. Observava os mínimos detalhes.
– Olhe, ela está sozinha, tem no mínimo 24 anos e está lendo Crepúsculo, o que significa que ela deve sonhar com um Edward e por isso não arruma namorado... – analisa. Rebecca o olha como se fosse louco. – Eu estou brincando.
– Talvez devesse apresenta-la pro Chester e não mata-la. – sugeriu. – Vamos, deixa-a em paz. Escolha... Aquela. – ela apontou para a ruiva do outro lado da rua.
– Por que ela? – perguntou intrigado.
– Eu não sei, não fui com a cara dela. Ela me lembra uma amiga de infância, que roubou meu namorado no ensino médio. – diz pondo as mãos na cintura. Ela olha para Azazel, que a encara com uma expressão divertida. – O que foi?
– Você nunca me contou que levou um chute de alguém. – põe as mãos no bolso.
– Eu não fui chutada. Podia tê-lo de volta quando quisesse. – explicou. – Mas eu não quis, ele não era tão interessante assim. – deu de ombros.
– Sei... – Azz diz fazendo Rebecca bufar.
– Você vai atrás dela ou não? Ela está se afastando. – diz impaciente.
– Ok, mas você espera aqui.
– Eu odeio esperar. – diz, mas deixa-o ir atrás da mulher.

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