Apanhador De Medo
11 O Caçador e a Apanhadora - Parte I
Notas iniciais

A sombra crescia gradativamente na parede com tijolos expostos naquele beco escuro, o barulho de seus passos lentos no chão molhado ficava mais alto para o casal abraçado no fim do beco sem saída. “Ele nos encontrou.” Ela sussurrou para seu parceiro de olhos negros, observou o quão apavorado ele estava e o olhou por alguns segundos até colar seus lábios no dele, como um adeus. Com as pernas um pouco trêmulas, ela se separou dele, andando em direção da onde o som vinha. Francis permaneceu no chão assistindo ela se afastar, estava se sacrificando por ele, e ele estava a deixando fazer isso até encontrar forças para ir até ela em sua velocidade vampiresca.
– Eu não vou deixa-la fazer isso Anne. – disse apressado, não tinham muito tempo.
– Você precisa correr, encontrar Joshua e alertá-lo sobre o caçador. – ela segurou o rosto dele entre as mãos. – Nós precisamos fazer isso Francis. Eu vou enfraquecê-lo enquanto você foge, mas seja rápido, eu não sei quanto tempo sou capaz de aguentar.
– Olhe só quem eu encontrei. – o negro de olhos espremidos, barba mal feita e sorriso debochado se aproximou. – A bruxinha e o vampiro. Vocês formam um belo casal.
Ele parou com as pernas um pouco separadas e braços cruzados.
– Nós não vamos dizer nada sobre Joshua ou Azazel. – Anne cuspiu as palavras, e apertou a própria mão com força.
– Ótimo, assim pulamos o interrogatório e vamos direto para a carnificina. Quem vai primeiro?
Anne levantou uma das mãos na direção dele, a expressão séria e mente concentrada.
– O que você pensa que pode fazer? – ele gargalhou. – Você sabe, não pode me matar.
Ela fechou os olhos e começou a invocar os ancestrais, lutando com alguns espíritos que eram contra o que ela estava fazendo. Fraülin gemeu caindo de joelhos, levou às mãos a cabeça agoniando no chão. Francis assistiu com os olhos arregalados.
– Vá! – Anne disse entre os dentes, sangue começava a sair de seu nariz. Francis sumiu por entre as ruas de Londres, enquanto Anne segurava Fraülin em suas mãos o quanto podia, até que não foi mais capaz de impedi-lo de quebrar seu pescoço.
– Estúpida. – ele disse no chão, se recuperando enquanto olhava em direção a rua. A bruxa tinha conseguido exatamente o que queria, proteger Francis pra que ele pudesse entregar uma mensagem a Joshua.
Pouco tempo depois ele retirou um isqueiro de sua jaqueta e jogou-o em cima do corpo da jovem de pele negra e cabelos cacheados. O celular vibrou no bolso, mas não atendeu, não queria admitir a Joel que havia falhado. Estava preocupado com como Anne conseguiu atingi-lo e se existia outras bruxas capazes de enfrenta-lo daquele jeito.
•••
Rebecca se mexeu na cama durante o cochilo que tirava, e esbarrou em algo, ou melhor, alguém do seu lado. Abriu os seus olhos imediatamente encontrando os azuis de Joshua que tinha o rosto apoiado no punho fechado. Ele sorriu junto com os olhos e Rebecca se afastou alarmada com sua presença no quarto, esfregou os olhos e se sentou na cama sob o olhar dele.
– O que está fazendo aqui? – perguntou ela voltando seu olhar para ele, que agora estava deitado olhando para o teto.
– Tédio. – diz ele apenas. Ela revira os olhos.
– Então você costuma assistir pessoas dormindo quando está entediado.
– Pessoas bonitas. – enfatizou.
– Obrigada pelo elogio, mas ainda sim te acho um psicopata. – ela passou as mãos pelo cabelo, se levantando. Estava indo em direção ao banheiro quando Joshua parou na sua frente, seus rostos próximos, ele observava cada detalhe do rosto dela. – O que você está fazendo? – ela disse pausadamente.
– Eu preciso falar com o Joshua. É caso de vida ou morte. – uma voz fez os ouvidos de Rebecca e Joshua ficar atentos, ele se afastou dela e foi em direção ao andar de baixo.
– Quem é você? – Azazel perguntou para o jovem de cabelo loiro enquanto Joshua descia as escadas.
– Francis, o que faz aqui? – o loiro entrou sem permissão e foi de encontro ao homem.
– Anne. Ela está morta. – disse de uma vez. Joshua apertou o punho. – Foi Fraülin, ele veio atrás de nós.
– Quem diabos é Fraülin? – Azazel pergunta.
– O caçador. – Joshua responde, sombrio. Ele olha para o topo da escada, onde Rebecca está há alguns segundos. – O homem que viu com Joel e Carmen.
Ela desceu as escadas se juntando aos homens.
– Esse é Francis, um vampiro que conheci durante minhas viagens. – ele apertou a mão apenas de Rebecca, parecia nervoso.
– Rebecca Moore. – diz ela. – Tem certeza que é seguro estar aqui?
– Sim. Fraülin não me seguiu.
Estavam acomodados na sala de estar, ele contou a história do inicio, de como Anne se sacrificou para que Francis pudesse vir até eles. Azazel olhava com uma expressão séria, ter mais um hospede não estava em seus planos.
– E esse... Fraülin... – ela testou o nome dele em sua boca enquanto eles prestavam atenção nela. – Quão perigoso ele é?
– Ele é um ser sobrenatural, como nós. Ele foi criado para eliminar seres sobrenaturais que perturbassem a paz dos humanos. – diz Joshua entrelaçando as mãos e apoiando os braços nas pernas. – Mas Fraülin, ele passou a trabalhar para os meus... Para Joel e Carmen, depois que eles salvaram sua filha.
– Como o matamos? – Joshua deu uma risadinha depois de olhar para Azazel e Francis.
– É impossível sem a Anne. Ela era uma bruxa poderosa, ela conseguiu paralisar Fraülin pra que eu fugisse.
– Mas ela não morreu por nada. Tem que haver outro jeito. – Rebecca disse fazendo-os ficar em silencio.
Rebecca olhava para o teto repousando suas mãos na barriga, sua cabeça latejava um pouco e a visão começava a ficar turva quando ela pegou no sono.
Quando ela abriu os olhos estava em um jardim florido, seus cabelos estavam soltos e longos, o vestido amarelo que vestia ia até os pés que estavam descalços assim poderia sentir a grama sob eles. Ela olhou para além do lago avistando uma casa de arquitetura antiquada exatamente como seu vestido, ela passou os dedos pelo tecido sentindo sua maciez e nem percebeu quando um homem se aproximou correndo.
– Olivia! Algo me dizia que estaria aqui. – ela olhou para o homem e franziu as sobrancelhas. As bochechas dele estavam rosadas e não tinha nenhuma marca no rosto, mas era idêntico a alguém que conhecia. – Você está bem?
– Por que me chamou de Olivia? Azazel? Onde estamos? – ele se aproximou dela preocupado e pôs as mãos no rosto dela, a olhava com ternura. Definitivamente não era Azazel.
– Amor, nós estamos no jardim da sua casa e você está me assustando... – diz ele. – Por que me chamou de Azazel? Meu nome é Noah. Quem é esse? Seu amante?
– Não... – ela virou-se de costas.
– Olivia, o que tem de errado? – ela estava confusa, fechou os olhos com força. Agora ela estava em outro lugar, uma praia de areia fina e deserta.
– Rebecca. – uma voz doce a chamou e com as mãos segurando os cabelos que voavam olhou para o lado.
– Quem é você? O que faz no meu sonho? – cuspiu as palavras para a garota que vestia um vestido colorido e esvoaçante, muito a cara daquele lugar. Rebecca ainda vestia o mesmo vestido amarelo em camadas.
– Eu te trouxe aqui. Eu sou Anne, já ouviu fala de mim. – ela sorriu docemente. – Não fique confusa. Eu vou te explicar tudo que precisa saber.
– Saia da minha cabeça! – ela disse entre dentes.
– Você não quer saber por que Noah parecia tanto com o Azazel? – ela tombou um pouco a cabeça para o lado, a observando. – Foi o que pensei. Eu preciso te explicar tanta coisa... – ela se sentou na areia. – Vamos, sente-se.
Ela percebeu que Rebecca estava um pouco desconfortável com o vestido armado.
– Esse é o mundo dos sonhos, você pode fazer aparecer o que quiser. – explicou. – Apenas feche os olhos e imagine.
Rebecca tomou folego e fechou os olhos se concentrando em imaginar seus shorts jeans e blusa regata.
– Ótimo. – Anne sorriu quando ela abriu os olhos. – Agora sente.
– Por que me trouxe aqui? – ela foi logo perguntando.
– Você não se lembra deste lugar? – ela perguntou para Rebecca que olhou para o horizonte.
– Deveria? – franziu o cenho.
– Eu te mostro. Me dê suas mãos. – ela pediu. E relutante ela estendeu as mãos.
Ela viu flashes enquanto estava de mãos dadas com Anne. Ela e Azazel naquela praia, ela andava depressa enquanto ele tentava alcança-la, a expressão de ambos era de raiva, quando ele a alcançou com suas pernas longas, apertou seu braço forte a trazendo pra bem perto de si.
– Você não pode me tratar daquele jeito e dar as costas depois. – ele gritou em sua face.
– Você me trata como lixo! – ela grita também.
– Eu só dou o tratamento que você merece. – ela cospe em seu rosto.
– Como ousa... – ele aperta mais seus pulsos. Ela estava sentindo a dor quando puxou suas mãos das de Anne.
– O que é isso? – ela massageia seus pulsos, pareceu tão real.
– Uma das suas outras vidas. – diz Anne. – Você teve muitas delas, e Azazel sempre esteve lá. Ás vezes amava um ao outro, outras se odiavam. Mas sempre estiveram juntos.
– O que isso significa? – pergunta. – O quê? Azazel e eu somos alma-gêmeas?
– Não exatamente. Vocês estão predestinados a algo importante por milhões de anos. Mas nunca chegaram tão perto quanto agora...
– Tão perto do quê?
Ela tomou postura e ficou atenta a algum som, Rebecca também ouvia, era um som de passos vindo em sua direção.
– Alguém está vindo. – ela disse como se não fosse obvio. – Você precisa acordar, a resposta que precisam está no livro, mas não conte a ninguém sobre o seu destino e de Azazel, nem mesmo a ele. Agora acorde!
Ela abriu os olhos abruptamente e se levantou tomando fôlego. Parecia ter voltado à vida, pôs uma mão no pescoço e olhou para o lado onde Francis estava parado a observando, tinha o cenho franzido esperando que ela falasse. Muito conveniente ele estar aqui, Rebecca pensou em seu subconsciente.
– O que está fazendo aqui? – era essa a pergunta que ele esperava.
– Vim te acordar, estamos indo à casa de Anne na cidade, não achei seguro deixa-la aqui. – explicou, Rebecca se livrou do cobertor. – Você sempre acorda assim?
– Foi apenas um sonho. – ela saiu pelo o outro lado da cama.
– Pra acordar assim teve ter sido um pesadelo. – diz ele.
– Se não se importa, eu vou me trocar, desço daqui a 5 minutos. – disse o encarando, ele saiu em silencio.

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