Apanhador De Medo
34 Governar o Mundo
Notas iniciais

Com a mão que estava livre dos ombros de Rebecca, Chester abriu a porta e eles adentraram o hall de entrada novamente. No entanto foi a mulher que fechou a porta atrás de si e virou-se para ele, que tinha os braços cruzados atrás do corpo.
– Eu acho que é isto que uma mãe sente quando seu filho deixa a casa. – ela comentou, o que arrancou risadas de Chester.
– Quem diria, Rebecca Moore apegada a um vampiro. – aproximou-se, parando a centímetros dela, o sorriso malicioso brincando no canto de seus lábios.
Rebecca estendeu a mão e a levou até o rosto de Chester, que observou atentamente o gesto.
– Quem diria, Chester com ciúmes. – com estas palavras ela deferiu um tapa de leve em seu rosto e se afastou dois passos. – Da ultima vez que chequei você também era um vampiro.
O sorriso no rosto de Chester cresceu gradativamente e ele se aproximou, os braços estendidos prontos a abraçar Rebecca.
– O que está fazendo? – ela se desvencilhou do abraço com habilidade.
– Nós estamos tendo um momento... Tudo indica que temos de nos abraçar. – diz, tentando a encurralar entre seus braços. Por fim ela pegou firme nos dois braços e olhou bem em seus olhos ao dizer.
– Isto não vai acontecer. – ela fala entre um riso e outro. – Não estamos tendo um momento.
– Certo, eu desisto. – Chester abaixa os braços e bufa. – Você não me pareceu tão relutante em abraçar o Francis. Eu sinto... Que você me substitui.
– Ei... – ela apertou um de seus ombros com certa força, e ele ergueu os olhos irritados para a morena. – Você é Chester, uma das pessoas impossíveis de substituir.
Ele pareceu tocado com a declaração e não retribuiu de primeira quando Rebecca lhe deu um abraço, que durou pouco tempo.
– Certo. – afastou-se sem dar chance de Chester falar. – Do que você e Joshua riam ontem à noite? Parece-me que fizeram as pazes.
Chester franziu o cenho por alguns segundos e parecendo lembrar-se, riu em resposta.
– O Sr. Olhos azuis grandes e assustadores... Não é muito de sorrir.
– Ele nem sempre foi assim Becca... – Chester assumiu uma expressão mais séria. – As circunstâncias o fizeram assim.
– Ok... Mas eu estou curiosa. – Chester abriu um sorriso, mas não disse nada, ganhando um tapa no braço.
– Ok, ok... Nós estávamos relembrando... Uma história de infância.
– Você teve uma infância... Com Joshua? – Rebecca estranhou.
– Meus pais acharam melhor me transformar quando fosse mais velho... O que eu achei esperto da parte deles. – refletiu. – Bom, esta história fica pra outra hora. Agora, eu preciso de um banho.
Dito isso ele subiu as escadas apressadamente, pulando alguns degraus deixando uma Rebecca pensativa para trás. Em passos lentos os seus pés a levaram para a sala de estar, Ivan estava observando janela a fora, parecendo inerte olhando as nuvens. Na poltrona Azazel tinha um exemplar de Guerra e Paz em mãos, enquanto Joshua lia o jornal do dia no conforto do sofá. Quando notou a presença de Rebecca, ele não abaixou o jornal, mas não deixou de alfinetá-la.
– Olhe quem veio juntar-se a nós, a Sra. Friedrich. – diz em alto e bom som, o que fez Azazel revirar os olhos.
– Isso tudo é amor reprimido Joshua? – agora foi a vez de ele revirar os olhos. Rebecca andou com leveza em cima das botas para ir de encontro a Azazel, parou em frente a ele, que não levantou os olhos para lhe olhar. Ela o analisou por um minuto antes de tomar o livro de suas mãos e o colocar na mesinha mais próxima.
– O quê... – ela o impediu de falar sentando-se em seu colo, segurando firme em seu pescoço. – Rebecca...
– Cale a boca. – não esperou que ele calasse, o calou com um beijo arrebatador, que não foi muito demorado, mas que foi suficiente para reacender a chama que ardia em seus corpos. Ao fim Rebecca afastou-se, satisfeita com um sorriso no rosto.
– Está fora de si. – Azazel comentou enquanto Rebecca ainda mantinha as mãos em seu rosto.
– Eu sei exatamente o que estou fazendo Friedrich. – a frase saiu de seus lábios em um sussurro. Ela estava os levando para o pescoço do homem, quando Joshua se pronunciou.
– Ah, vamos, tem uma centena de quartos nessa casa... Basta escolher um.
– Mal amado! – Rebecca explana em sua direção. Ele estava prestes a retrucar quando o grito de Ivan invadiu a sala, o que a fez pular do colo de Azazel, que ficou apreensivo observando o homem levar as mãos à cabeça. Joshua apenas levantou o jornal para a altura dos olhos e continuou sua leitura.
Demoraram exatos dez segundos para que Ivan se entregasse a dor e ficasse fora de órbita ajoelhado no chão. Toda lembrança ele assistia de um ângulo diferente e dessa vez não estava em carne assistindo-a, mas podia sentir todos os cheiros e sensações. A primeira coisa que sentiu quando sua mente abriu-se para a lembrança foi o forte cheiro de éter, e depois ouviu os sons de passos apressados no piso. Sua visão se clareou e ele pode identificar onde estava, em um hospital.
Um Ivan sem barba e com aparência mais jovial, não tão castigada pelo tempo, empurrou as duas portas que davam acesso a ala da maternidade, elas ficaram se batendo por algum tempo depois que passou, diminuiu o passo para olhar as portas com os números em azul nas placas pratas cintilantes. Parou em frente ao quarto de número 38 e entrou sem bater, a enfermeira que acomodava Karol em sua cama girou a cabeça para olhá-lo. Sua esposa de cabelos agora curtos fez um pouco de força nas mãos para sentar-se na cama.
– Obrigada. – agradeceu a enfermeira, sua expressão denunciava que ainda sentia dor.
A enfermeira assentiu e disse-lhe que buscaria o bebê no berçário. Ivan a impediu de passar pela porta antes de falar.
– Qual é o estado dela? – perguntou, pesando a quantidade certa de preocupação.
– O parto foi difícil, ela vai permanecer sob cuidados durante um ou dois dias. – o homem fitou a esposa na cama, que sorriu levemente. – Com licença.
Ivan se demorou na porta a analisando, Karol o encarava com curiosidade, pareciam conversar pelos olhares. Por fim ela suspirou.
– Eu conheço Sr. Friedrich. Eu já o conhecia quando decidi casar com você. – deu uma pausa breve. – Não te culpo por não ter assistido o nascimento do nosso filho ou por ter me deixado intensamente... Frustrada. Eu o conheço... E eu amo você.
Após essas palavras Ivan aproximou-se da cama e se pôs ao lado de Karol, que o olhou de baixo. Ela segurou na mão do marido.
– Você veio, isso basta. – eles se olharam por mais alguns instantes, Ivan não disse uma sequer palavra. Para Karol o ato de ter ido até o hospital já era uma demonstração de afeto da parte de Ivan, o que era raro.
A enfermeira de cabelos loiros adentrou o quarto novamente, mas dessa vez com um bebê nos braços. Ele não parava de mexer os bracinhos e os olhos eram atentos, espertos a movimentação. Ivan se afastou da cama dando passagem para que a enfermeira entregasse o bebê nos braços de Karol, que já tinha os seus estendidos. Com delicadeza ela segurou o pequeno corpo da criança envolvida em uma manta azul, passou a mão em seu rosto, murmurando coisas para ele.
– Não quer segurar? – perguntou para Ivan, um sorriso brincando em seus lábios.
– Acho que não é uma boa ideia... Ele é frágil, mole... – a enfermeira o encarou com uma expressão estranha. – Vai escorregar das minhas mãos.
– Ivan... – ela estendeu um pouco os braços e o bebê logo encarou o pai, mantendo os olhos fixados no seu rosto. Tinha poucas horas de vida e ainda sim era muito esperto. – Pegue-o.
Escondendo sua apreensão ele pegou o filho dos braços de Karol. Ele era frágil, mas a sensação de segurá-lo foi arrebatadora para Ivan, ele engoliu aquela sensação para permanecer em segredo. Era um menino, um lindo e saudável menino.
– Já tem um nome para ele? – a enfermeira, que chamava-se Agatha questionou com um tom dócil.
– Ivan? – ela chamou a atenção do marido. – Um nome.
Ele voltou seus olhos para a criança e disse, a voz grossa e carregada com o sotaque alemão:
– Azazel.
Ivan voltou à sala puxando o ar para os pulmões, ele ofegava. Rebecca estava à frente dele já fazia alguns minutos, ele não deveria ficar fora de órbita por tanto tempo, ela pensara.
– Você ficou na escuridão por uma hora. – comentou quando Ivan já estava mais recuperado. – Isso é normal?
Ele apenas levantou os olhos para o seu rosto e em seguida ergueu-se do chão sem nenhuma ajuda, apressado para sumir da sala e evitar olhar para Azazel.
– É incrível como o temperamento de vocês é parecido. – Rebecca diz encarando Azazel na poltrona. Ele bufa. – O que será que ele se lembrou dessa vez? Bom, não vai ser eu que vou perguntar...
Rebecca fita os dois uma ultima vez, ambos haviam voltado para suas posições iniciais. Relaxando os ombros em um suspiro, ela segue o caminho curto até o quarto elegante. Abre o guarda-roupa recém-arrumado, passando os olhos pelas roupas, vestidos, camisetas e calças jeans, todos em tom escuro, ela ria mentalmente a gaveta de roupas intimas, entre os conjuntos um papel cor-de-rosa emanava um perfume doce e estava dobrado ao meio. Ela fechou a cara e puxou o papel do meio das peças, encontrando uma caligrafia delicada.
“O sangue é a resposta. Cuide-se.
Com amor...”
– Anne. – Rebecca diz em um sussurro.
– Falando sozinha Becca? – era Chester, que agora estava parada no batente da porta. Rebecca pôs o papel de volta a gaveta e virou-se para o amigo.
– Não é nada. – o vampiro resolveu não questionar. Sentou-se na cama esperando que ele viesse até ela e se sentasse ao seu lado, o que ele fez imediatamente.
– Então, você e o Azazel... – ela analisou sua expressão, que era divertida e maliciosa e nem um pouco ciumenta.
– Nós nunca seremos um casal Chester. – sorriu de leve.
– E você não me parece incomodada com este fato... Estou errado?
– Nem um pouco...
– Bom, se demorassem mais um pouco eu os trancaria no quarto. – Rebecca o olhou incrédula e o empurrou. Eles riram juntos, dando inicio a uma conversa sobre relacionamentos passados.
•••
A pele de Carmen cheirava a pêssego quando saiu do banho, de frente para o espelho pensava em diversas formas de vinganças, as ideias malignas sendo filtradas em sua mente no meio de outras preocupações sobre o futuro da empresa. Apoiou as mãos no mármore negro e frio, fitando seu reflexo, vestia um hobby felpudo e branco. Em ouro estava bordado o sobrenome da família no lado esquerdo do peito. Estava perto de tomar uma decisão quando duas mãos a agarraram pela cintura, os lábios frios roçaram em seu pescoço e ela fechou os olhos diante da sensação dos pelos arrepiando. O homem de cabelos grisalhos levantou a cabeça para olhar a esposa pelo espelho, a girou pegando em seus cotovelos e a puxou para um beijo caloroso.
– O que há de errado com você? – Carmen questionou desconfiada ao se afastarem.
– Acabo de fechar contrato com a ultima empresa. – comunicou, a mulher não reagiu com o mesmo entusiasmo com que ele falara. – Não está feliz? O plano deu certo. Nós vamos acabar com a raça dos apanhadores.
– Estou satisfeita. – afirmou, as mãos espalmadas no peito do marido, que ainda vestia o terno. – Mas só vou estar feliz quando puser as mãos no pescoço de Joshua e enfiar uma estaca em seu coração. E então vou prender Chester em uma cela por pelo menos mil anos.
Joel se calou por alguns instantes, processando as maldades de Carmen.
– Não acha que está sendo muito inflexível com Chester? – ela o fuzilou. – Ele é nosso sangue.
– Eu já lhe falei e falarei novamente... – olhou bem nos olhos dele. – Chester deixou de significar algo pra mim quando se juntou com aquela raça imunda.
Dito isso deixou Joel no banheiro com seus suspiros e pensamentos. Vestiu-se rapidamente e ajeitou os cabelos, era hábito se vestir bem até quando estava em casa, preparada para uma visita inesperada. Desceu as escadas e foi em direção a sala de jantar, onde Charlotte ajeitava seu uniforme, quando avistou Carmen ficou ereta perto da porta, as mãos em frente ao corpo.
– O café sai em 5 minutos senhora. – diz em um tom quase arrogante, que Carmen ignora.
– Onde está Abbie?
– Ela está fora desde cedo.
– Abbie sumiu? – Joel chegou a sala de jantar, já vestido com outras roupas e diferente de Carmen, cumprimentou Charlotte, mas ele ser mais simpático que a mulher não o fazia melhor que ela.
– É o que parece... – Carmen sentou-se em sua cadeira habitual.
– Você acha que...
– Se acha que ela foi atrás de Chester, sim, eu acho a mesma coisa.
•••
Um conversível vermelho estacionou em frente ao portão da mansão, a mulher que botou os pés para fora dele vestia jeans e camiseta, não usava salto – algo raro para ela -, seu emocional estava dilacerado, no interior da mansão Azazel terminava um capitulo do livro quando o celular na escrivaninha vibrou no mesmo momento em que Rebecca descia as escadas de volta para o primeiro andar depois de um banho relaxante, dessa vez tinha a companhia de Chester, deixando o livro de lado ele abriu uma mensagem de texto enviada por Charlotte.
Fique atento a uma visita indesejada de certa Powell.
Azazel encostou-se ao sofá depois de ler a mensagem e quando Rebecca e Chester chegaram à sala, que começava a ficar escura, ele ainda encarava o celular.
– O que foi? – Rebecca perguntou, chamando sua atenção.
– Estou prestes a descobrir. – diz se referindo ao barulho que vinha de fora da casa. Mais um carro fora estacionado em frente a mansão, dessa vez uma Mercedes, da onde saiu dois homens. O mais velho tinha olhos azuis como o do mais novo, mas não eram parentes apesar de se tratarem como irmãos. Entraram na propriedade quando Abbie Powell já estava em frente a porta, mas hesitava tocar a campainha, provavelmente já tinham sentido sua presença. Seu dedo estava a centímetros da campainha quando uma voz a impediu.
– Abbie? – ele perguntou, assustando a vampira.
– Troy. – arregalou os olhos. E depois sua expressão foi de raiva. – Troy! Você me deixou!
– Eu sinto muito por isso. – ele parecia estar sendo sincero. – Este é Max. O que está fazendo aqui?
Ela cruzou os braços para ele.
– Muito bem. – ele estendeu a mão um pouco e tocou a campainha. Em menos de um minuto Rebecca abriu a porta e olhou-se, atônita. – Rebecca! É assim que recebe um amigo?
Troy a abraçou enquanto ela olhava de Max para Abbie, não sabia qual visita abalaria mais os ânimos da casa.
– Entrem. – ela disse em tom duro, quando Troy e Max passaram por ela, segurou o braço de Abbie. – O que está fazendo aqui?
– Eu vim ver meu irmão, e não adianta negar que ele está refugiado aqui. – fala entre dentes.
– Chester está aqui, mas você não tem motivos para procurá-lo... Você não fez nada para ajudá-lo. – elas se encaravam, saia faíscas de seus olhos.
– Rebecca, deixe-a, eu lido com isso. – Chester interviu, a alguns passos delas ele observava.
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