Notas iniciais
Esta história é inspirada no livro de Stephen Chbosky, "As Vantagens de ser Invisível".
Livros como "Hamlet", "The Great Gatsby" e "Peter Pan" citados não somente aqui, como também no próprio livro do autor.

Era a foto de eu beijando o Adam. A legenda dizia: Parece que ela não mudou tanto assim, afinal...

E quem tinha enviado? Óbvio que era Sam. E aquilo tinha me irritado profundamente. Fiquei ainda pior ao lembrar que Charlie iria receber a foto também.

Jasmine Stuart: Que foto é essa, Valerie? O Adam? Sério?

Valerie Paxtie: Difícil de explicar, Jasmine. Não me interprete mal.

Foi só isso que eu a respondi. E, na verdade, para muitos outros que fizeram basicamente a mesma pergunta sobre a foto. Queria saber o que Charlie pensaria sobre principalmente aquela legenda mal-feita.

Eu apenas esperava que quando segunda-feira chegasse, ninguém comentasse mais daquela foto ridícula.

Mas não foi o que aconteceu. Assim que cheguei na escola, vi fotos espalhadas pelos armários. Dava pra acreditar nisso? Aquilo era muita infantilidade. Estávamos no 2º ano, caramba! Mas parecia que ninguém se importava muito com isso. E sim, com o amasso que eu tinha dado no Adam.

Todos riram de mim e comentaram sobre aquilo assim que botei os pés lá. Era tudo muito patético. Eu só esperava ver Charlie logo.

Assim que entrei na sala, Charlie estava lá sentado com um sorriso escondido olhando para um livro, lendo-o.

- Ei, Charlie. — eu disse.

- Oi, Valerie. — ele sorriu e fechou o livro rapidamente.

- É... Acho que você deve ter visto as fotos por ai... — eu comecei sentando-me ao lado dele.

- Ah, hum, vi. — ele disse.

- Não acredito que o Sam fez isso... É tão infantil.

- É sim. Mas é o que eles fazem. Eles fazem essas coisas pra chamar atenção. Você não devia ligar pra isso. — disse ele.

Ele parecia tão tranquilo ao falar tudo aquilo. Sabe? Como se fosse realmente desnecessário eu me importar com algo como aquilo. E bem, era.

Eu apenas sorri pra ele que olhou pra mim e abriu um sorrisinho também. Ele parecia feliz. Digo, feliz mesmo.

- Bem, mas tirando isso... A festa foi ótima, não achou? — eu perguntei pra ele olhando-o nos olhos.

- Com certeza foi.

Eu me tranquilizei e ele voltou a ler um pouco do livro dele. Era Fitzgerald. Logo, o professor de filosofia entrou e começou todo aquele pensamento confuso. Charlie tentou me ajudar a entender um pouco daquilo, mas eu estava ocupada demais pensando em como os olhos dele eram azuis e profundos.

Durante aquela aula, ou melhor, antes daquela aula, todos que entraram na sala faziam algum tipo de piada ou riam da minha cara, o que era totalmente desnecessário.

Depois de todas as aulas estressantes, era hora do almoço. Eu sentei-me com Thomas, Ian e Charlie dessa vez. Antes sentava-me apenas com Charlie. Mas senti que ele havia se enturmado, mais ou menos, com Thomas e Ian na festa.

- Oi, meninos. — eu disse colocando minha bandeja em cima da mesa e puxando uma cadeira. Charlie fez o mesmo. — Lembram-se do Charlie?

Eles fizeram que sim com a cabeça.

- E ai, cara? — eles disseram.

Ele apenas deu um sorrisinho e sentou-se do meu lado.

- E ai? Já se acostumou com as piadinhas de hoje? — riu Thomas.

- Ah... Já. Eles não crescem, né?

- Hum. Vocês sabem como eles são. Mas, afinal, por que você beijou o Adam? E não venha me dizer que queria. — disse Ian.

- Ah, hum. — eu olhei para Charlie que pareceu se sentir culpado. — Não foi nada. Apenas aconteceu. — eu disse.

Provavelmente, Charlie se sentiria muito mal se eu dissesse que tinha sido para protegê-lo. Afinal, isso não era lá coisa de homem. Eu não o culpava, é claro. Eu não me importava nem um pouco de ter que salvá-lo de vez em quando. Ele era meu amigo agora. E o mais importante era que eu era amiga dele também. E eu não iria desapontá-lo com uma bobagem como essa.

- Hum. — resmungou Thomas que decidiu não perguntar mais nada sobre o assunto, assim como Ian.

Charlie e eu sorrimos levemente um para o outro. Foi aquele sorriso bem tímido e meio que feliz por eu não ter dito nada a eles.

- Já fizeram o trabalho de literatura para semana que vem? — lançou Thomas.

- Ah, já é pra semana que vem? — eu disse chateada. — O que tem que fazer?

Charlie virou-se pra mim.

- Era pra ler o livro "The Great Gatsby" e fazer uma análise. — disse ele.

Foi ai que me lembrei que ele estava lendo aquele mesmo livro naquela manhã. O autor era o Fitzgerald, como eu já havia mencionado.

- Ah, você estava lendo-o hoje, não?

- Sim. Vou terminar hoje. Se quiser, te conto como é... — ele sorriu pegando sua maçã da bandeja.

- Não, Charlie. Não quero que você faça o trabalho sozinho.

Thomas e Ian apenas nos olhavam sem dizer muita coisa, apenas conversando entre si falando sobre o livro e como parecia ser incrivelmente chato, diferente da opinião de Charlie, claro.

- Valerie. — ele disse meu nome docemente. — Eu não me importo em te contar a história. Mas caso, você queira ler, te empresto amanhã.

Eu sorri pra ele.

- Obrigada, Charlie. Eu pego emprestado amanhã então.

Ele sorriu pra mim e olhamos para Thomas e Ian que estavam rindo agora. Apenas porquê falavam do bigode da professora de literatura.

O sinal bateu e era hora de aturar algumas outras matérias mais ou menos insuportáveis.

A aula inteira fiquei pensando no que tinha acontecido na festa. No beijo terrível no Adam e em como Charlie pareceu me olhar enquanto eu beijava outro cara bem na frente dele. Ele parecia ter ficado magoado, de certa forma, mas tentou não deixar aquilo na cara e mudou o rosto para algo mais compreensível, ao olhar dele. Ele passou então a me olhar mais sério entendendo a razão pela qual eu estava beijando Adam, deixando claro que entendia que aquilo era para salvá-lo.

Eu estava confusa. Estava mesmo. E aquela imagem daquele beijo e dos olhos de Charlie não saiam da minha cabeça agora.

O último sinal da aula tocou e era hora de eu voltar pra casa. Vi Charlie pegando sua mochila azul da Jansport e pondo os livros e cadernos dentro dele normalmente.

- Nossa. Quantos livros você carrega ai? — perguntei assustada com o peso que ele deveria levar.

- Ah, hum, só alguns. — ele disse meio sem graça.

- Não, Charlie. São muitos. Suas costas devem estar caindo. — eu arregalei os olhos olhando de perto a mala dele.

- Ah, — ele quase riu. — talvez um pouco.

- Por que você não coloca alguns no armário? — eu peguei minha mala também que era lilás.

- Eu gosto de ficar com eles...

- Hum... Charlie. Eu to até vendo você daqui a dois anos todo corcunda. Faça-me o favor de tirar alguns desses livros dessa mala!

Ele riu dessa vez e coçou a nuca.

- Mas... Eu não confio em deixar no armário daqui... — ele disse.

Eu então tive uma ideia. Até que era uma boa, porque por um lado eu ia saber se ele confiava ou não em mim.

- Ok. Então por que não deixa eu levar alguns livros seus comigo? Eu posso ir trazendo conforme você for me pedindo. Enquanto isso, eles ficam na minha casa. E quem sabe eu não os leio também? — eu sorri. — Você confia em mim para ficar com eles, não?

Ele pareceu surpreso e até impressionado com a minha proposta. Percebi também que ele ficou sem graça em responder.

- Ah, hum, é claro...

- Charlie? Se você não quer, tudo bem.

- Não, Valerie. É uma ótima ideia e além disso, tenho certeza que vai adorar os livros. — ele sorriu e me entregou dois deles. Tinham quatro na mala dele.

Eu li a capa "Peter Pan" e "Hamlet" e sorri pra ele enquanto ele fechava o zíper da mala pressionando os lábios um no outro.

- Hum, agora é a sua mala que vai ficar pesada. — murmurou ele.

- Agora é a sua mala que vai ficar menos pesada. — eu repliquei.

Ele riu e eu fui direto para o meu carro e ele para o dele.

- Até mais, Charlie. — eu disse acenando.

Ele fez o mesmo e sorriu docemente pra mim.

Assim que voltei pra casa, peguei um dos livros de Charlie, abri nas primeiras páginas e comecei a passá-las com a mão.

Hamlet parecia melhor do que diziam. Depois de folhear o livro um pouco, voltei a primeira página onde havia o nome dele escrito: Charlie Kalouway.

E eu sei que não deveria ter feito isso, mas eu simplesmente não resisti. Ao lado do nome dele eu desenhei um coração minúsculo. Era muita ousadia, será?

Só sei que fechei o livro e coloquei-o de volta em minha mala, indo descer as escadas para ver Vampire Diaries na TV de baixo.

Fiquei apenas olhando aquela típica cena de amor entre a Elena e o Damon e me entediei ao perceber que Damon era praticamente ruim para Elena, ao contrário de Charlie pra mim.

Eu saí de lá e fui fazer um sanduíche de presunto, queijo, alface e tomate e relaxei mais um pouco deitando no sofá e olhando para a lição que eu ainda não tinha feito de história.

O ponto alto daquela minha tarde sofrida foi uma mensagem de texto de Charlie:

Charlie Kalouway: Sem ideia nenhuma para começar a lição de história.

Eu sorri, afinal eu estava na mesma.

Valerie Paxtie: Estou com você nessa. Página 15?

Charlie Kalouway: Página 15.

Foi o que ele repetiu pra mim. Fiquei pensando em como ele começaria aquele exercício. Tinha que ler dois textos e relacioná-los um com o outro, fazendo um resumo com suas palavras e etc... Ou seja, um inferno.

Mesmo assim, relutantemente com algumas ajudinhas significativas de Charlie, consegui terminar aquele texto perto da hora do jantar.

Minha mãe me chamou para ir comer o velho e bom rango dela de sempre e eu parei de falar com Charlie por alguns minutinhos.

- Está indo tudo bem na escola? — perguntou minha mãe.

- Está sim... — respondi pacientemente. — O Charlie tem me ajudado muito.

- É, sobre esse menino... Fico muito feliz por você estar finalmente fazendo amizades que possam ser gratificantes pra você, Valerie. — sorriu ela espetando um pedaço de alface.

- É, o Charlie ajuda todo mundo. — eu sorri de volta.

- E onde foram parar a Jessica e a Amber?

- Ah, hum, elas não falam mais comigo, mãe.

Ela franziu o cenho.

- E por que não? Não vá me dizer que é por causa da amizade com esse menino.

- Também. Mas principalmente porque eu não ando bebendo mais nas festas igual elas e bem, elas não gostam disso...

- Nossa. Então para ser amigas delas, você tem que ser igual a elas? É isso mesmo?

- Infelizmente, sim.

- Bem, uma pena elas serem assim. Mas, por um lado, foi bom você ter afastado de pessoas assim, Valerie. Elas não valem a pena, você sabe certo?

- Sei, mãe... — eu respondi com a voz cansada.

Logo, subi de volta ao meu quarto para tomar um longo banho refrescante depois daquele calor dos infernos.

Voltei contente por ver a lição de história finalizada completamente, tudo graças ao Charlie, é claro.

Fui então checar as mensagens no meu celular e não tinha mais recados dele. Peguei logo um de seus livros e olhei novamente para o coraçãozinho minúsculo que eu tinha desenhado ao lado do nome dele. Me deu uma vontade imensa de riscá-lo. Não tinha como ele não ver aquele coração lá. E ele ia saber o significado daquilo. E eu não queria que ele soubesse. Não mesmo. Sem pensar mais de duas vezes, peguei uma caneta e fiz vários risquinhos em cima do coração. Agora ele não ia entender o porquê daqueles rabiscos. E caso ele perguntasse algo, eu diria, hum, qualquer coisa.

Eu estava quase indo dormir quando vi a mensagem de Charlie:

Charlie Kalouway: Terminei o "The Great Gatsby". Posso te emprestar amanhã.

Valerie Paxtie: Ótimo, Charlie. Obrigada. Amanhã eu leio e fazemos o trabalho.

Charlie Kalouway: :)

Fiquei feliz por saber que ele tinha me avisado sobre isso. Eu queria realmente ler aquele livro. Quem sabe eu poderia descobrir algumas coisas sobre ele? Não sei. Quem sabe?

No dia seguinte, encontrei-o na cadeira de sempre com outro livro na mão já.

- Já ta lendo outro? — eu ri.

Ele olhou pra mim por dois segundos e sorriu:

- Ah, sim... Já terminei o outro. Por que não começar mais um?

- Claro, Charlie. O "The Great Gatsby" ta ai?

- Aqui. — ele o pegou na mala e me entregou meio apreensivo.

Não entendi muito bem porquê, mas apenas sorri e o coloquei na minha mala.

- Então... O que fez ontem a noite? — eu perguntei gentilmente.

- Não muito. Vi o jogo de futebol com meu pai e fiquei a maior parte do tempo lendo o livro. E você, Valerie?

Eu adorava quando ele dizia meu nome. Ele pronunciava cada sílaba tão docemente.

- Nada de mais. Fiquei olhando os seus livros um pouco... — eu disse apenas.

- Ah, e o que achou?

- Parecem bons... Eu só dei uma folheada, na verdade. — eu sorri meio tímida quase mordendo a manga de meu suéter cinza.

Ele me olhou com um sorriso bastante tímido que quase não dava para enxergar. Ele parecia maravilhado, por um lado.

- Quando você ler "The Great Gatsby" tenho certeza que vai gostar.

- Espero que sim.

O professor de química entrou na sala e acabou com a nossa conversa interessante sobre os livros de Charlie. Infelizmente e eu comecei a ficar bastante confusa e entediada com aquela aula.

Tudo o que eu queria era saber qual seria a reação de Charlie quando visse o risquinho no livro e me perguntasse o porquê daquilo, se é que ele iria me perguntar...

De qualquer modo, logo veio a hora do almoço e eu, o Thomas, o Ian e óbvio, o Charlie nos sentamos na mesma mesa do dia anterior.

Logo, Adam e seus amiguinhos idiotas vieram até mim para falar daquele foto de novo. E eu achando que aquilo já tinha acabado.

- O que vocês querem? — eu perguntei.

- Uhm, calma. Ela é nervosa, né Charlie? — disse Adam.

Charlie nada respondeu e eu achei bem bom ele não ter dito nada. Mas bem, era claro que ele não ia dizer nada.

- Desembucha, Adam. — eu disse.

- Queria te dar essa foto pra guardar de lembrança... — ele abaixou, beijou minha bochecha e me entregou a foto.

Era a foto do nosso beijo, óbvio. Eu olhei e sei lá de repente aquela foto parecia mais atraente do que antes e eu nem sei porquê. Não, eu não estava gostando de Adam nem nada daquilo, mas não podia negar que ele era bem bonito.

Voltei a Charlie então que olhava para o nada como se quisesse desesperadamente encontrar um livro onde pudesse pelo menos mergulhar.

- Nos vemos depois, amorzinho. — disse Adam curtindo com a cara de Charlie, sem que eu conseguisse entender porquê. Ele estava querendo deixar Charlie enciumado ou algo do tipo? Porque aquilo não ia funcionar. Charlie não gostava de mim... Quer dizer, ele não parecia gostar de mim, não daquele jeito...

Mesmo assim, eu olhei pra ele que fez aquele sorrisinho fofo que eu tanto admirava nele, aquele de pressionar um lábio um no outro como se estivesse pensando no que falar ou no que não falar de modo que não o fizesse ficar mal. Apenas observei-o bater as mãos levemente em sua calça jeans como se quisesse dizer algo com isso, o que eu não soube traduzir naquela hora.

O sinal por fim tocou e ai que eu reparei nos olhares esquisitos de Ian e Thomas esperando alguma reação minha já que eu estava com os olhos parados no tempo.

- Tudo bem, Valerie? — perguntou Ian.

- Ahn? O que? Tudo... — disse eu balançando a cabeça depois de um quase sono profundo.

- Vamos então? — riu Thomas.

- Vamos. — eu e Charlie nos levantamos e fomos para a aula.

Eu não estava com cabeça para ir a aula. O professor Hiddle não parava de falar cuspindo usando sua caneta vermelha perfeitamente colocada no lado direito do bolso. Acho que ele tinha aquele tal problema de TOC ou algo do tipo.

- Charlie. — eu sussurrei.

Ele se aproximou de mim lentamente com medo de o professor dar alguma bronquinha nele.

- Sim?

- Você está gostando dessa aula?

- Nem um pouco. — ele disse sinceramente.

- Quer jogar um jogo? — eu perguntei.

- Que tipo de jogo? — ele franziu o cenho. Eu sorri e escrevi algo em um papelzinho e joguei pra ele.

"Vou escrever nomes de cada uma das pessoas da sala e você tem que me dizer o que acha de cada uma delas", eu escrevi. Eu sabia que era um risco, porque obviamente eu teria que colocar o meu nome também. Mas o que de tão ruim poderia acontecer? Ele poderia escrever "uma grande amiga" e acho que não seria motivo algum para eu sair por ai chorando.

Eu entreguei o papelzinho a ele e ele quase deu risada e então escreveu "Ok".

Eu então comecei escrevendo sobre a menina mais bonita da nossa sala: Natalie Fitzburg.

"Bonita, mas triste e dá pra perceber que a todo tempo tenta ser o que os outros esperam que ela seja", ele me respondeu. Aquilo era tão típico do Charlie.

Eu sorri pra ele e escrevi outro nome: Michael L'Horan.

"Gente boa, mas parece meio sozinho".

E eu continuei escrevendo muitos e muitos nomes, incluindo os de Thomas e Ian para saber o que ele achava sobre eles. No fim, só faltava um nome. E Charlie sabia qual nome era.

Valerie Paxtie, escrevi por fim.

E surpreendentemente eu não pude acreditar no que ele tinha escrito sobre mim.