Apaixonados por maçãs
12 Sacrificada em prol da justiça

Começava mais um dia de trabalho no Japão. Para alguns o trabalho era arriscado. Mas por aquela altura todos concordavam que os detetives que trabalhavam no caso Kira eram dos que corriam mais riscos. Essa percepção porém parecia não afetar a mente dos homens justiceiros. Ao menos a maioria deles. Um homem estava na recepção da base da investigação, esperando os colegas. O nervosismo era patente na sua face. Quando levou a xícara de café aos lábios, esta tremeu uma única vez.
– Bom dia, Mr.Maki! – Cumprimentou o seu colega de trabalho, Mr.Light. O homem deu um meio sorriso e cumprimentou saudosamente o outro. Podia ser pai do rapaz que mais odiava, que destratara a sua filha, mas continuava a ser um homem de confiança a quem quase se podia chamar amigo.
– Bom dia, Mr.Light! Veio para a convocatória de L? – Perguntou o primeiro homem, pousando a xícara e aguardando ansiosamente a resposta.
– Sim.
– Ele disse qual o assunto que iria ser tratado nesta reunião?
– Sabe que não. L é cauteloso, não iria espalhar boatos que podiam não chegar até nós na sua totalidade. Descobriremos quando falarmos com ele pessoalmente. – Reparou em como o outro estava pálido. – Aconteceu alguma coisa? O senhor não parece estar a sentir-se muito bem.
– Oh, não é nada. Tenho tido alguns problemas pessoais e toda esta pressão no trabalho não ajuda. – Desabafou focando o olhar nas nuvens que se viam da ampla janela.
– Entendo...
Os restantes membros da polícia foram chegando um a um e quando estavam já todos reunidos na exígua sala, tomando café e conversando sobre temas banais do dia a dia, a recepcionista caminhou até eles e disse com voz doce e profissional:
– Senhores, mandaram chamar-vos no quarto 419. Aqui está a chave. Tenham um bom dia! – Deu um sorriso e estendeu a chave que foi prontamente agarrada por Mr.Maki, já que ele se adiantou aos colegas. Os 6 homens subiram no elevador até chegarem ao andar indicado pela recepcionista. Bateram à porta e ouviram a já familiar voz de L.
– Entrem!
Mr.Maki colocou a chave na fechadura e rodou-a. Um estalido indicou que a porta tinha sido destrancada e os seis entraram deparando-se com o chefe de investigação, o famoso L. Ele convidou os presentes a sentarem-se na mesa à sua volta. Eles assim o fizeram. L estava sentado naquela sua posição única que lhe era característica e ficou nessa posição durante todo o relato. Os olhos aparentemente inexpressivos não deixavam de fitar o senhor Maki fazendo o mesmo ficar ainda mais nervoso. L sabia. Ele suspeitava dele. Conteve-se para não engolir em seco e tentou prestar atenção às palavras do detetive mas a sua mente viajava em planos que estavam longe de serem bons.
– Acha que a história que essa mulher contou tem alguma veracidade? – Perguntou o pai de Raito. – Não será apenas mais um a querer atenção? Ultimamente temos recebido centenas de chamadas de gente a dizer que conhece o paradeiro de Kira e a sua identidade. Todas elas eram falsas.
L tinha ido buscar ao frigobar do hotel uma sobremesa de morango e estava agora a levar a colher cheia de doce à boca.
– Talvez. Mas a história é deveras impressionante e não devemos descartar nenhuma hipótese. Queria mesmo muito que vocês a ouvissem da boca da mulher que a contou. Cada um irá fazer o seu próprio julgamento.
Todos se levantaram e seguiram L. A meio caminho este voltou-se e disse para Mr. Maki.
– O senhor não! Eu prefiro que fique aqui de vigia. Watari não pôde vir hoje e não é uma atitude inteligente baixar a guarda a esta altura do campeonato.
Dito isto deixou o homem completamente perplexo para trás. Quando a porta se fechou, Mr.Maki não conseguia acreditar na sua própria sorte. L deixara-o sozinho na base de investigação com tudo disponível para a sua busca. Apressou-se a procurar por todo o quarto. Revirou gavetas e armários. Ele tinha de ter, obrigatoriamente algo que revelasse a sua verdadeira identidade. A Mr.Maki só lhe bastava o nome! O verdadeiro nome de L! Ouviu claramente atrás de si um revólver a ser carregado. O sangue fugiu-lhe do rosto. Voltou-se lentamente para encontrar Mr.Light, apontando a arma diretamente para o seu coração. A desilusão estava expressa no seu rosto.
– Um espião! O senhor é um espião, Mr.Maki?! – Acusou. – L tinha razão. Bastou deixá-lo sozinho por três segundos e as suas verdadeiras intenções foram reveladas. Eu devia matá-lo neste preciso instante.
– Não aja de cabeça quente, Senhor Light! – Advertiu L, aparecendo ao lado do homem que ainda tinha a arma apontada ao outro. – Tenho a certeza de que Mr.Maki terá uma boa explicação para o seu comportamento. Assim como tenho a certeza de que não hesitará em contar-nos. Estou correto?
O lábio inferior do acusado tremia mas ele conseguiu balbuciar:
– É a minha filha, senhor L. Kira irá matá-la se eu falhar na missão que me impôs. Desculpe a traição... mas é a minha filha.
Os soluços do homem foram suplantados pela exclamação bem sonora de Mr.Light.
– O QUÊ? Encontrou Kira? Pessoalmente? Quem é esse demônio? QUEM? – Berrou exaltado o pai de Raito antes de L fazer sinal para que ele falasse mais baixo.
O pai de Kaori lançou um olhar repleto de pena para o homem que ainda o enfrentava de pistola em riste.
– Vamos acalmar os ânimos. Senhor Maki, vou querer ouvir essa história detalhada e com pormenores do princípio ao fim. Depois decidiremos o que fazer. – Decidiu L. – Watari!
O mais velho apareceu à porta da divisão. Estivera todo aquele tempo escondido para concretizar a farsa em que tinham capturado o espião.
– Chamou?
– Sim. Traga uma chávena com chá de Camomila! – Ordenou vendo Mr.Maki encolhido a um canto da parede com lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Depois virou-se para encarar o segundo homem que estava com ele. Mr.Light deixara cair o revólver e os seus olhos estava arregalados, percebendo talvez o que significara o olhar de compaixão que acabara de receber do homem que afirmava ter visto Kira. – Aliás, traga duas chávenas de Camomila.
******************************************************************************
1 semana antes:
Mr.Maki lia o jornal calmamente, encostado num posto de iluminação. Era quase noite, toda a família de Yagami Light estava em casa por aquela altura. Apetecia-lhe fazer uma pausa, deixar a investigação de lado, mas sabia que não podia, por isso continuava a olhar discretamente a casa por cima do jornal.
«Arg, estou enfastiado de ver a cara daquele nojento Raito!» Pensou o homem com uma careta. Tudo o que mais lhe apetecia no momento era bater na porta e, no momento em que Raito abrisse a porta, pregar-lhe um grande murro no focinho por todo o mal que ele tinha causado à sua filha.
Estava nestes pensamentos quando viu o universitário sair de casa. Ele veio colocar o saco do lixo para fora, mas, ao invés de voltar para a habitação, ele deu um olhar em redor e começou a caminhar apressadamente pela rua. O pai de Kaori achou aquela atitude, no mínimo, suspeita e apressou-se a seguir discretamente o rapaz.
Foi quando ele virou uma esquina para um beco sem saída que a sua desgraça começou.
Dois homens musculosos e vestidos de preto, confundido-se com a noite ao redor deles, socaram-no, um na barriga e o outro na cabeça. Apanhado de surpresa, Mr.Maki caiu no chão, a tossir sangue e o revólver foi imediatamente confiscado.
– Ora, se não é o pai de Kaori, a última idiota que caiu de amores por mim! – Ouviu a voz de Raito na sua frente. As palavras que ele empregou para o cumprimentar puseram-no a ferver de raiva. Como ele ousava... – Andavas a vigiar-me a mando de L, não é verdade? Pois bem, eu tenho um recadinho para ele. Queria enviar-lhe uma carta mas não sei o que pôr como destinatário, já que não sei o nome dele.
Ainda com a mão sobre a barriga, Mr.Maki, apoiou-se de gatas e acusou:
– Tu és Kira!
– Se sabes quem eu sou, também deves saber do que sou capaz. Pensei em eliminar-te, e vou fazê-lo, mas primeiro ser-me-ás útil. Quero saber o nome de L. O verdadeiro.
– Mesmo que soubesse não to diria! – Replicou corajosamente o detetive desarmado.
– É mesmo? – Raito abaixou-se até ficar ao mesmo nível dos olhos verdes do homem. – Nem mesmo se a vida da tua filhinha estivesse em jogo? Posso não saber o teu nome... mas sei que a tua filha se chama Kaori Maki. Lembro-me de cada detalhe da sua face. Posso matá-la neste preciso momento. Queres ponderar na resposta que deste? Sabes qual é o nome de L?
– Eu não sei! Ele nunca nos disse! Deverias saber isso, L não seria tão burro a ponto de andar a espalhar a sua identidade por aí.
– Mas viste-o pessoalmente. Eu sei que sim, porque os detetives mais próximos do caso Kira já se encontraram com ele. Sei disso através do meu pai. Por isso é melhor começares a descrevê-lo, ou Kaori sofrerá uma morte dolorosa.
Mr.Maki não teve outra alternativa senão obedecer. Em poucos segundos de descrição já Raito chegara à conclusão de que L era o rapaz esquisito que o igualara em pontos nas provas de admissão para a universidade. Então realmente, aquele era L. Agora só precisava do nome. Percebendo que não conseguia extrair mais informação do homem que rastejava no chão, já fraco do aperto que os bandidos que contratara efetuavam sobre as suas costas, mandou que ele se levantasse.
– Vou dar-te uma semana para descobrires o verdadeiro nome de L. Voltaremos a encontrar-nos aqui, neste mesmo beco, nesta mesma hora. É bom que tragas a informação que requisitei porque Kira não tolera atrasos. E lembra-te... qualquer passo em falso, e é Kaori quem pagará o preço.
Com estas palavras acompanhadas por um malicioso sorriso, Raito deixou partir do homem, ainda atordoado. Sem saber o que fazer, o loiro descabelou-se e caminhou até casa. Ao chegar na porta, recebeu logo um beijo da mulher e um «O que aconteceu?» alarmado, quando ela viu o estado miserável dele. Tinha um galo a crescer-lhe na cabeça, o bigode cor de farinha estava manchado de sangue seco.
– Eu envolvi-me com uns tipos beras, só isso. Nada de anormal, porém. Preparas-me um banho, por favor, querida?
Depois de recomposto, Mr.Maki desceu para a sala e ao ver Kaori não foi capaz de controlar-se e correu para apertá-la num forte abraço. Queria sentir que ela estava bem, queria sentir o coração da sua menina a bater.
– Papai, o que aconteceu?
– Ué, um pai não pode mais querer passar tempo com a sua filha?
Os olhos verdes de Kaori iluminaram-se.
– Quer dizer que vamos passar a tarde inteira a ver filmes, a comer pipocas de micro ondas? – Ao ver o pai acenar, ela arqueou uma sobrancelha. – Mas não trabalhas hoje? Estás sempre tão ocupado, às vezes acho que já não tens tempo para mim.
– Hoje vou passar o resto do dia só contigo, Kaori. Resolvi tirar uma folga... — «Uma folga forçada» — Que filme queres ver primeiro?
Kaori e o pai passaram a tarde juntos e já bem de noitinha, quando a menina adormeceu no colo dele, Mr.Maki decidiu que não iria perdê-la. Custasse o que custasse. Ele sempre fora ensinado que a justiça deveria estar acima de tudo. Mas Kaori sempre fora o seu ponto fraco na armadura impenetrável. Era seu dever protegê-la. E tornava-se extremamente egoísta quando os assuntos envolviam a rapariga dos olhos verdes.
******************************************************************************
Quando o silêncio voltou a pairar na divisão, nenhum dos policiais movia um músculo. Todos estavam abismados com as revelações repentinas. L, sempre a sangue frio, foi o primeiro a pronunciar-se.
– Kira não disse como matava as pessoas tendo o simples nome e rosto?
– Não, senhor. Eu contei-lhe tudo, reproduzi a conversa na sua totalidade.
– Onde está Mr.Light? – Voltou a perguntar o chefe de investigação.
– Ele saiu do quarto a meio da narrativa, acho que não suportou descobrir que o próprio filho é um assassino. – Respondeu um dos policiais.
L acenou.
– Entendo... impeçam que ele saia da recepção, tenho receio de que faça qualquer loucura. – L sentou-se de novo naquela estranha posição e entrou num estado de meditação. – Temos Kira nas mãos. Ele agiu precipitadamente na ânsia de me eliminar, iremos usar isso como uma vantagem. Já esbocei um plano, iremos capturá-lo e prendê-lo. Se algo der errado, um tiro poderá acabar com o assassino.
L explicou o plano aos presentes.
– Todos concordam? Mr.Maki?
O homem levantou a cabeça, incrédulo por L lhe estar a pedir permissão.
– Eu traí a equipa! Não pensei que me deixaria ter opinião sobre o plano.
– Porque não deixaria? O senhor não fez nada errado, quem sabe no seu lugar eu não teria feito o mesmo. Kira é fraco e aproveita-se da bondade no coração dos outros fazendo-os acreditar que isso é uma fraqueza. Além disso, o plano será essencialmente acionado pelo senhor,é preciso que concorde a 100% e que esteja totalmente empenhado. Enganar Kira não vai ser uma tarefa fácil.
Incentivado pelas palavras de L, Mr.Maki colocou a sua objeção:
– Esse plano é muito arriscado para a minha filha! Se Kira pode matá-la a qualquer momento, quando perceber que o encaminhei para uma armadilha, não hesitará em soltar os seus... poderes... e enviar a minha filha para a morte.
– Estou ciente dos riscos, Mr.Maki. No entanto é o melhor plano que temos!
O homem respirou fundo, tomando coragem. Devia pensar no bem da humanidade. Iria fazer de tudo para proteger Kaori, mas haviam grandes chances de ela não sobreviver à vingança de Kira. Para ele, aquilo podia parecer uma catástrofe mas para os outros era apenas uma vida... uma vida sacrificada em prol da justiça. E quantos inocentes não morriam todos os dias?
Fale com o autor