Apaixonados por maçãs

9 Cúmplice por silêncio


Notas iniciais
Desculpem mesmo a demora, fiquei quase um mês sem postar. É que eu já terminei de postar a fic num outro site e esqueci completamente deste. Desculpem mesmo, nem sei se alguém mais ainda lê a história, mas aqui está:

A família Maki comia em silêncio. O único algo que produzia qualquer tipo de som era a televisão que fora deixada acesa, uma tentativa da mãe de Kaori para acabar com o constrangimento que o silêncio poderia provocar. Tentativa inútil, Kaori cortava o bife, mas sem olhar para o prato. Os seus olhos verdes estavam postos na mãe e interrogavam, com alguma súplica e tristeza porque esta não estava a conversar com ela.

Kaori tentava lembrar-se o que ela havia feito de errado para receber este tratamento de desprezo. Sakura enchia a boca de alface sem arranjar palavras para dizer à filha, só lembrando o ocorrido do dia anterior. Ver Kaori falar sozinha fora um grande transtorno para a mulher.

A porta abriu-se e o pai de Kaori entrou. Ansiosa por livrar-se do olhar de Kaori, Sakura levantou-se e deu um beijo no marido, recebendo-o calorosamente. Despiu-lhe a jaqueta e o símbolo da investigação secreta brilhou-lhe no cinto.

Kaori não conseguia tirar os olhos do distintivo dourado. A garganta secou-lhe e uma vontade de contar tudo nasceu-lhe e morreu-lhe no peito. Tentava manter ciente que se contasse ao seu pai quem era Kira, só estaria a colocar toda a sua família, incluindo ela, em perigo. Mas... era tão difícil manter aquilo sigiloso. Kaori só queria bater com a cabeça em algum lugar e esquecer tudo. Tudo mesmo...

Quando o pai dela se sentou à mesa, Kaori desviou logo o olhar para o prato. Aquele homem era um policial de respeito, muito ligado à profissão, saberia ver-lhe nos olhos o que Kaori teimava em esconder. Mesmo com todas as devidas precauções, a voz do pai soou, autoritária.

– Não tens nada para me contar, Kaori? Estás muito estranha!

Kaori conseguiu evitar arquejar, mas de imediato o coração começou a bater-lhe mais forte no peito e as mãos suavam. Os garfos teimavam em escapar-lhe das mãos.

– Eu estou a sentir-me um pouco indisposta, só isso! – Mentiu. Soprou uma madeixa loira da frente dos olhos e forçou um sorriso.

– Soube que foste humilhada na escola... – Kaori sentiu-se como se tivesse levado um bofetão. «Maldição, ter um pai que trabalha em investigação policial é dose!» — ... por te teres envolvido com o Light.

Kaori mordeu o lábio inferior, nervosa. A sua situação só piorava. Conseguia imaginar-se numa sala de interrogatório, sentada numa cadeira elétrica, enquanto o seu pai a interrogava impassível e duramente, enviando um feixe de luz para a sua cara.

Piscou, momentaneamente cega pela luz imaginária mas manteve-se calada. Qualquer coisa que dissesse podia ser usada contra ela.

– Afasta-te do Yagami Light! Ele é mau... rapaz para ti! – Continuou o pai com uma convicção que intrigou Kaori.

«Será que eles sabem que o Raito é Kira? Será que eles desconfiam? Ou será que é só o meu pai que não foi com a cara dele?»

A televisão pescou Kaori deste mar de especulações ao anunciar mais uma vaga de mortes. A Media não falava de outra coisa. Os nomes e as fotografias dos criminosos foram surgindo e desaparecendo na tela uma por uma enquanto a voz da jornalista dava pormenores das suas mortes. Todos eles de ataque cardíaco. Falava-se de Kira, com um misto de respeito e temor. Kaori levantou-se abruptamente da mesa e correu para a casa de banho.

Logo os pais a ouviram a deitar fora tudo o que tinha jantado. Depois de ter vomitado, ela levantou-se, ainda trêmula e trancou-se no quarto. O pai já não duvidava da inocência da filha. Afinal, a sua atitude fora mesmo gerada por uma indisposição.

Só que, na verdade, a sua atitude é que gerara a indisposição! Kaori estava a passar muito mal, não aguentava mais ouvir o noticiário. Todas aquelas mortes...

Kaori era cúmplice das mesmas. Porque sentia que podia evitá-las. Ela era cúmplice, sim! Cúmplice por silêncio. E a menina sentia que aquele sangue lhe estava a manchar a alma. Sentia-se a maior das pecadoras. Saltou da cama e procurou o seu ipod. Em vez de meter no aleatório, como sempre fazia, foi pesquisar à internet o Heavy metal e o rock mais pesado que existia. As batidas estrondosas no início quase a levaram a desistir da ideia, mas logo se habituou. Aquele tipo de música que ela sempre achara insuportável surgia agora como um refúgio. O som fazia-a esquecer-se dos problemas e ela dava tudo, mesmo a saúde dos seus tímpanos, para parar de rever o momento em que folheara do Death note, que encarara Raito, que ouvira a voz do shinigami que ela ainda não sabia se era aliado ou inimigo.

Kaori não sabia como lidar com a situação. Por isso, apenas esperou. Passou os piores dias da vida dela, adoeceu e isso quase foi uma bem valia, pois era a desculpa perfeita para não ir às aulas. O pai, entretanto, voltou a achar que Kaori lhe escondia algo e apertou o cerco em volta da filha. Sentindo-se tão pressionada, Kaori começou a passar longos períodos de tempo fora de casa.

Numa terça feira voltou à escola.

Ao passar os portões de entrada, empalideceu com a perspectiva de que iria voltar a ver Raito. Tinha medo de deitar tudo a perder. Tinha a sensação de que se Raito olhasse para ela, a sua cara de desespero o faria desconfiar, senão mesmo ter a certeza, de que ela sabia do Death note. Por isso, Kaori decidiu faltar à aula de Biologia.

Era algo que ela nunca fizera, baldar-se a uma aula, mas o que importavam os cloroplastos em comparação com a chacina, com toda aquela trama onde Kaori estava também envolvida?

Sentou-se na berma do telhado, balançando as curtas pernas sobre um abismo de metros de altura. Podia ter-se resguardado, escolhendo um local mais interior, mais perto das escadas que conduziam ao topo do edifício, mas Kaori sentia que começava a perder a noção do perigo. Confiante de que não caíria, debruçou-se e ficou a ver os pequenos pontos que se movimentavam.

«Que engraçado isto. Parece que sou um anjo e que os vejo a todos, pairando numa nuvem. Como se não fosse um deles.»

Entregou o rosto à brisa e soltou um suspiro entristecido com a sua difícil situação atual.

– Não achas perigoso estar aí? Podes cair! A menos que te queiras matar, não vejo porque te arriscas.

Kaori não se voltou. Continuou ali sentada, focando os olhos no horizonte.

– Não compreenderias... os humanos têm algo que os faz querer superar os medos, que os faz querer pôr as vidas em risco. Enfrentar a morte é algo que dá muita adrenalina. Acho que posso morrer sim... mas não caindo do edifício.

Olhou pela primeira vez para o shinigami que lhe falara já diversas vezes.

Ryuuku pôde ver, claro, que o seu olhar se tornou assustado e ele tinha de admitir que a sua aparência não lhe dava uma boa primeira impressão. Kaori manteve os olhos arregalados durante um longo momento mas logo o verde se amenizou, como se o vento tivesse parado de sacudir as folhas dos seus olhos.

– És um pouco... diferente do que eu tinha imaginado. Achei que terias chifres! – Ela deu um sorriso tímido.

– Sabes, para uma humana que parece tão frágil e emotiva, até que estás a lidar bem com esta situação. – Observou o Shinigami. Ele continuava parado a uns bons metros, com receio de assustar Kaori se avançasse alguns passos.

– Se eu fosse uma humana normal, provavelmente já me teria atirado ali para baixo. – Constatou a rapariga. Ela levantou-se e permaneceu de pé em cima da beirada. Ryuuku temeu que ela se desequilibrasse, mas Kaori permaneceu firme, mesmo com o vento a soprar contra ela. Era como se espíritos a segurassem. – Mas a minha avó contou-me sobre os shinigamis. Ela nunca viu nenhum mas ouve muitas histórias de outras almas. Eu sei como é... lá no céu.

– Tu falas com a tua avó mesmo ela estando morta? É uma capacidade...

– Estranha, eu sei! Os meus familiares ponderaram enviar-me para um manicômio. Sou grata aos meus pais, por eles terem me defendido até agora.

– Eu ia dizer que é uma capacidade fascinante. E podes crer que se eles te enviassem para tal lugar se tornariam seres desprezíveis. Humanos... não sei porque insistem em vedar e fazer coisas terríveis a pessoas que têm capacidades especiais.

Kaori encolheu os ombros. Ela também não sabia.

Como prometido, Ryuuku explicou-lhe tudo sobre o Death note.

– Como vês, é muito perigoso enfrentares o Raito. Eu consegui convencê-lo de que tu apenas tinhas visto uma barata, e que foi por isso que ficaste assustada, mas ele ficou muito desconfiado. Eu nunca soube mentir muito bem, é uma coisa terrível.

Kaori já estava de novo sentada. Queria perguntar mas não sabia como...

– Sabes, aquele dia em que o Raito saiu comigo... eras tu, certo? Como foi isso? Uma possessão ou algo parecido?

Ryuuku resmungou constrangido.

– Troca de corpos. E eu agradecia que não tocasses nesse assunto... por enquanto. Não sei se tenho o direito, mas gostava de pedir-te que não fizesses perguntas sobre aquele dia. E nem algo do tipo: «Porque me salvaste?» «Porque não deixaste o Raito me matar com esse Death note?»

Kaori assentiu.

– Tudo bem. Vou tentar então não tocar nesse assunto.

No entanto, a curiosidade nos olhos da menina, fez com que o shinigami ficasse meio constrangido. Ele não sentia firmeza na promessa.

– É melhor eu voltar para junto do Raito, ele vai notar a minha falta!

Kaori impediu-o.

– Espera, tu tens um nome?

– É Ryuuku.

– Ryuk... podemos encontrar-nos noutro dia?

O shinigami ficou espantado mas também agradado.

– Queres mesmo?

– E porque não? Já disse que sou curiosa! Podes responder-me só a mais uma perguntinha hoje? Shinigamis têm sentimentos?

– Eu acho que não...

Mas assim que Ryuuku proferiu as palavras, soube que elas eram uma mentira, pois tinha mais do que uma certeza: estava apaixonado por Kaori. E, se isso não era um sentimento, então nada mais seria.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Comentários são bem vindos! (Embora eu não os mereça T.T)