Abri meus olhos lentamente. Sonhei que eu caía e que alguém me salvava. Detalhes? Suas mãos eram fortes. E pertenciam a um garoto. A única coisa que vi foi o tom de seus olhos. Brilhavam no azul mais belo e gélido que eu já vira.

Sentei em minha cama e agarrei um travesseiro. Olhei para o meu relógio. Eram 8:00. Eu tinha que me arrumar, já que hoje eu iria para uma escola nova. Na verdade... A escola seria a minha nova casa. Era um internato para garotos e para garotas. Levantei-me sem fazer barulho.

Assim que os meus pés tocaram o chão de mármore, despertei. Abri a porta do meu quarto e esperei minha mãe gritar;

– Se apresse! O trem sai às 14:00 e precisamos nos arrumar, conferir suas malas e ir para a estação, que fica à uma hora daqui!

Corri para o banheiro e tomei um banho rápido. Não lavei o meu cabelo, já que a temperatura lá fora estava meio baixa.

Coloquei uma blusa comprida com um decote em V preta e de lã e uma calça jeans escura. Também coloquei uma sapatilha prateada e comecei a verificar as minhas malas. Estava tudo em seu devido lugar.

Meu joelho estava dolorido de tanto tempo ajoelhada para ver o que tinha nas malas. Levantei-me e passei os olhos por todo o quarto. Estava tudo normal. Mas... O que era aquilo?

Andei até a minha escrivaninha e peguei um objeto que eu nunca vira em minha vida. Era como um colar. Leve e delicado. Seu cordão era de prata, e seu pingente era uma pedra de cristal em formato de um coração.

Acho que minha mãe havia me dado de lembrança.

Coloquei em meu pescoço e apanhei minhas coisas. Eu estava pronta para ir.

– Mãe? Está pronta?- gritei.

– Sim!

– Meu pai já está no carro?

– Sim!

Ela corria pela casa, arrumando suas coisas.

– Para onde vão depois?- perguntei.

– Pegar um avião. Vamos viajar à trabalho.

Olhei para baixo.

– Ah.

***

Chegamos à estação de trem. O trem chegaria em meia hora, então compramos um sorvete e ficamos sentados, esperando.

– Ouvi dizer que lá tem aula de música. — meu pai falou.

Eu gostava muito de música, mas mesmo assim não estava muito feliz de deixar a minha família. Meus irmãos agora deveriam estar na escola, e eu ia buscá-los todos os dias. Agora, eles começariam a voltar com uma babá.

Fingi empolgação.

– Que ótimo!

– Você vai gostar de lá, filha. — minha mãe falou. – É só um tempo para se acostumar. Podemos te visitar lá, alguns dias. Tem um dia no mês para isso.

– Legal. – falei. Tudo bem, eu iria sentir falta deles, mas a ideia de minha família na minha escola nova não me agradava muito. Meu pai faria piadas sobre os garotos. Minha mãe ficaria correndo atrás dos meus irmãos que, por mais que eu os ame, eles são umas pestes. Todos ficariam me olhando, e atenção demais definitivamente não é a minha praia.

Quando o trem chegou, meus pais se levantaram, e eu também. Apanhei as minhas coisas e andei até a porta mais próxima. O estranho foi que comecei a ficar ansiosa.

– Boa viagem. — ambos falaram e me abraçaram. — Amamos você.

– Obrigada. Também amo vocês.

Minha mãe olhou para o meu colar.

– Que lindo colar!

– Não foi você que me deu?

Ela balançou a cabeça negativamente e o trem apitou. Acenei, desconfiada, e entrei no trem.

Sentei-me em um banco e coloquei as minhas coisas na cadeira à minha frente. Encostei a minha cabeça no vidro da janela.

***

Avistei uma construção enorme e com um estilo meio gótico. Uma típica construção inglesa, aqui, nos Estados Unidos.

O trem começou a desacelerar

Pensei no que eu faria na faculdade. Acho que eu faria arquitetura. Eu amava observar os mínimos detalhes das construções, e eu queria muito fazer alguma coisa que eu gostasse no futuro.

Eu também poderia fazer teatro. Sempre me falaram que eu era boa atriz. Não por mentir, mas por esconder coisas e fingir não esconder nada. Também me diziam que eu tinha uma bela voz. Mas eu fazia de tudo para manter distância de palco.

O trem parou ao lado de uma casinha de madeira, com bancos velhos de pedra cheios de plantas. Ninguém se sentava, obviamente. Me levantei e andei até a porta do trem. Ela deslizou, abrindo-se, e eu fui a primeira a saltar. Arrastei a minha mala até umas meninas com os cabelos pintados de louro e blusas amarradas e curtas e shorts beirando as nádegas agarrarem-me os ombros. Uma delas falou, com uma voz completamente enjoativa;

– Bem vinda, caloura! Podemos te ajudar?

Parei e olhei para elas. Não pude evitar um sorriso.

– Vocês querem me ajudar?

Elas se entreolharam.

– Hã... Sim. – a que parecia ser a rainha delas, com a pele bronzeada brilhando e os olhos verdes piscando de modo meigo falou, desconfiada. Talvez, elas estivessem sendo simpáticas. Talvez, quisessem apenas tirar onda com a minha cara.

– Tudo bem. – falei. – Mas não preciso de ajuda, obrigada.

A rainha insistiu.

– E de amigos?

– Disso... Talvez. Pode me ajudar nisso, se quiser.

***

Entramos no colégio. Todos me olhavam como uma forasteira, porque eu realmente era.

O grupo de novatos andava atrás de nós, também. Estavam todos sozinhos, então agradeci por entrar naquele lugar acompanhada.

Subi as escadas, e percebi que as outras garotas sumiram. Eu estava só com a rainha.

– Qual é o seu nome, garota?- ela falou, respirando fundo.

– Sou Claire Springfield. E o seu?

– Sou Anne Hofstader. Tenho 16 anos, e você?

Suspirei.

– Eu também.

– Olhe, vai ter uma palestra, desejando boas vindas a todos. Depois, eles te dão a chave do seu quarto. Quer pegar a chave primeiro? A palestra não é obrigatória.

– Sim. –falei, suspirando. –Quero. Cadê as suas amigas?

– Devem estar paquerando alguns novatos. Eu as dispensei.

Estremeci. Será que eu queria ser amiga daquele tipo de pessoa?

– Não se preocupe. Você é... De certa forma, especial. Veio para cá por uma coisa que nem você sabe. Mas em breve, saberá.

Eu a olhei e levantei uma sobrancelha.

– Não posso dar mais detalhes, sinto muito.- ela falou e parou diante de uma porta de madeira escura. Abriu-a e trocou algumas palavras com uma mulher estranha, logo trazendo-me a chave.

– Você vai ser a minha nova colega de quarto. Relaxe, as meninas não vão te odiar. Elas vão te idolatrar, também. – ela me deu um abraço e deu um pulinho.

Eu nunca me imaginei tendo uma pessoa dessas como amiga.

Subimos mais um degrau da escada e ela me deu a chave.

– Abra!

Abri a porta. Tinha uma televisão gigante, um rádio, um ipod em cima de uma mesinha de cabeceira, duas camas de casal com um cobertor branco de algodão puro e cortinas lilás.

O quarto era feito para uma patricinha.

– Você pode decorar o seu lado. A minha cama é essa – ela apontou para uma cama que tinha uma cortina brega impedindo-me de ver o próprio colchão. – a sua é aquela.

Ela apontou para a outra cama que tinha suporte para uma cortina, que eu acho que colocaria, apenas por privacidade.

– Legal.

– Quer ir para a palestra, Springfield?

– Você quer?

– Hum...- ela coçou o queixo.- Não. Eu e você precisamos fazer algumas coisas.

Saímos do quarto e olhei para o outro lado do corredor. Um garoto passava por um quarto acompanhado por outro garoto. Um deles se encostou na parede, esperando o outro entrar. Pude ver o seu rosto.

Eu o conhecia. Mas não o conhecia. Eu tive uma sensação tão boa e ruim ao mesmo tempo. Seus olhos encontraram os meus, e vi a sua cor. Brilhavam num azul gélido, o mais belo que eu já vira...

Meu Deus.

Era o garoto do meu sonho.