Apaixonada pelo Mal
1 O Pior Dia
Notas iniciais
–Liv, a paciente do quarto quatorze já está te esperando – Anuncia Rose, uma das enfermeiras mais antigas do hospital.
–Avisou a ela que seu turno acabou? – Perguntei terminando de lavar as mãos.
–Sim, sim. Ela já está avisada – Responde Rose – A paciente está há mais de dez horas em trabalho de parto. Você vai ser a segunda enfermeira a acompanha-la, expliquei tudo para ela e ela não pareceu muito contente... – Diz suspirando.
–Elas nunca estão – Murmuro – E como está o avanço da paciente?
A resposta foi exatamente o que pensei. Longo e doloroso. Hoje vai ser uma noite daquelas.
Trabalhar como enfermeira obstetra tem muitas vantagens e desvantagens. A maior e mais abençoada vantagem é ajudar a trazer ao mundo uma nova vida, um pequeno ser cheio de chances e muitas vezes perfeito. Agora as desvantagens... A dor, os gritos, mães neuróticas e familiares ansiosos, mas fazer o que?! Eu amo meu trabalho.
Rose me acompanhou até o quarto da paciente me contando tudo que havia acontecido nestas dez longas horas de trabalho de parto. Mãe e bebê estavam estressados, o que significava que a qualquer hora uma emergência poderia acontecer.
Assim que entramos no quarto a mãe estava se contorcendo de dor, rangido tão forte os dentes que mesmo distante da cama podíamos ouvir. Eu corri para segurar seus braços para que ela parasse de se mexer tão bruscamente e Rose pegou uma tala especial para que a paciente mordesse.
Um minuto depois ela voltou ao normal. Vermelha e ainda ofegante.
–Oi, sou Olivia, vou substituir Rose no seu acompanhamento, tudo bem? – Murmurei suavemente aquela frase profissional que uso tantas vezes. Ajudei ela se ajeitar na cama e olhei os batimentos de mãe e filho.
–Você? –Disse surpresa – Mas você é tão jovem para ser enfermeira!
–É verdade! Quantos anos você tem?! – Perguntou uma senhora que logo deduzi ser a mãe da paciente.
Dei um sorriso profissional e novamente respondi aquela pergunta irritante.
–Tenho vinte e quatro anos, senhora. Não se preocupem este não é meu primeiro parto, já ajudei mais de cem bebês a virem para o mundo – Respondi gentil.
–É verdade, não precisam se preocupar, ela é capacitada – Disse Rose com aquela voz calma de sabedoria que só as pessoas mais velhas conseguem ter.
Depois disso os familiares pareceram relaxar e pude fazer meu trabalho tranquilamente, sem ser interrogada a todo instante. Depois de mais duas horas de dor, uma quase autorização para uma cesariana, o bebê nasceu. Um lindo menino de quase quatro quilos, incrivelmente por parto normal.
Depois de ajeitar todo o quarto para que mãe pudesse descansar, fui correndo para ver como estava o bebê, ele ainda estava fazendo os primeiros exames, então segui para minha recém-chegada segunda paciente.
A noite é longa e os bebês não podem esperar...
***
Dez horas depois meu turno acabou.
No caminho até o vestuário cumprimentei as pessoas que chegavam ou estavam saindo do seu turno. Era mais um dia comum de trabalho. Nada de anormal ou extraordinário. Troquei minha roupa e saí.
Como habitual depois de sair de um turno noturno fui tomar meu café da manhã no Hob’s, uma das confeitarias mais antigas e charmosas perto do Central Park.
Mal me sentei-me à mesa e Cathy veio me atender.
–Liv! – Disse animada – Bom dia, amiga!
–Oi, Cathy! Bom dia – Sussurro.
–Nossa... Sua cara tá péssima... Outra noite daquelas no hospital?
–Sim... O bebê da segunda paciente teve complicações...
–Ah! Não me conte! Argh! Dá nervoso até de imaginar! – Diz fazendo uma careta e eu ri.
–Tudo bem, tudo bem! – E ri novamente – Pode me trazer o especial da casa? E bem caprichado, por favor, estou faminta – Pedi.
–Claro – Disse Cathy anotando e seguiu para a outra mesa.
Depois de comer me despedi de Cathy e fui ao banco pagar algumas contas, ainda estava cedo e aproveitaria que o banco estava vazio nesse horário.
Para minha sorte não havia fila, logo paguei minhas contas, falando esporadicamente com o atendente, quando estava me virando para sair vi cinco homens encapuzados entrando.
–Todo mundo no chão! – Gritou um deles com uma arma imensa nas mãos.
As pessoas começaram a gritar, se jogando no chão, mas eu estava paralisada.
–Eu disse no chão! – Gritou um deles no meu lado, me dando um susto. Ele pegou meu braço e me jogou no chão, longe do caixa.
Minha bolsa tinha várias partes de metal, o que me deixava ver o que eles estavam fazendo, mesmo deitada.
Um deles pulou no caixa onde eu estava segundos antes e bateu com a arma do rosto do atendente, o derrubando no chão. As pessoas gritaram e eles começaram a bater nas pessoas que gritaram, inclusive nas mulheres.
–Calados, porra! – Gritou um dos assaltantes, o robusto.
Eles começaram a discutir entre si sobre a hora, mas limpando todos os caixas, enchendo algumas bolsas. Dois deles estavam nos vigiando e nos colocaram deitados um do lado do outro, com as mãos erguidas. Duas mulheres estavam do meu lado, chorando e rezando. Minha respiração estava tão alta que todos podiam ouvir.
–Três para nove! Onde está o gerente? – Gritou um deles.
Um dos assaltantes pegou um senhor que estava deitado pelo colarinho e o jogou contra o cofre.
–Você vai abrir isso para nós assim que destravar, está me entendendo? Ou todos aqui vão pelos ares! – Gritou no rosto do gerente.
Nessa hora um dos assaltantes me puxou pelo cabelo, me fazendo rangi de dor.
–Espero que você tenha gostado de ver o show – Murmurou só para mim, chutando minha bolsa para longe.
Ele começou a por um colete em mim cheio de fios e com uma bateria.
–Se eu fosse você ficaria bem quietinha ou então cabum! – Disse e os outros riram.
Eles pegaram mais três pessoas e fizeram o mesmo.
–Por favor, não! Não, por favor! – Disse uma mulher chorando e ele bateu no rosto dela.
–Quieta vadia! Ou você vai ser a primeira! – Gritou.
–Nove horas! Vai! Abre essa porra agora! – Gritou um assaltante com a arma na cabeça do gerente.
Cada vez que o gerente errava a numeração batiam nele, espirrando sangue no cofre e no chão.
Quando o cofre abriu um deles atirou no gerente fazendo todos gritarem apavorados, três deles entraram correndo e tiraram uma quantia inimaginável, blocos de dinheiro em um curtíssimo tempo. Um deles já estava preparado na porta com uma escuta no ouvido e outro ainda estava nos vigiando.
–Alguém assinou o alarme silencioso! Vamos porra! Cinco minutos! – Disse o cara da porta.
O outro que estava no vigiando apertou um botão que estava preso na sua roupa e o colote que eu estava usando se acendeu, pitando sem parar.
Eu arfei completamente em choque.
–Se não sairmos daqui todo mundo morre, seus filhos da puta! – Gritou o cara da porta e o vigia começou a bater nas pessoas que estava no chão, as separando.
–Quem acionou o alarme?! Quem acionou o alarme?! – Repetia sem parar, batendo nas pessoas sem piedade.
– Vamos, porra! Vamos! – Disseram os três caras saindo do cofre, carregando cada um duas bolsas imensas lotadas de dinheiro.
O cara robusto me pegou e outra mulher pelos cabelos e nos levaram para frente do banco correndo, nos jogando em um furgão branco com o slogan da prefeitura.
Os outros foram para dentro de um carro forte, junto com os outros dois reféns.
Assim que fecharam a porta do furgão ouvimos o barulho das sirenes.
–Vamos! Porra! Vamos! – Disse um dos caras dentro do furgão.
O furgão deu uma arrancada brusca fazendo eu e a outra mulher sermos lançadas na porta.
–Se segurem! Porra! Querem explodir!? – Disse um dos caras nos puxando pelo braço, enquanto o outro olhava desesperado pela janela segurando o botão que ele havia apertado antes.
–Vamos! Eles vão cortar pela 27 com a Bloor! – Disse o cara que havia nos puxado, com uma escuta na orelha.
–Eu sei, Dog! Porra! – Disse o robusto que dirigia.
O furgão foi cada vez mais rápido, nos lançando para todos os lados da van. A mulher do meu lado não parava se chorar. Eu prendi meu pé contra a roda reserva e segurei na janela, aprendendo-a junto de mim, para que não balançássemos mais.
O cara que controlava a bomba que estava presa na gente pegou uma arma e se ajoelhou perto da janela. O furgão entrou em uma viela a toda velocidade, derrubando tudo a sua frente. Quando entramos em uma espécie de clareira entre os prédios o furgão girou com toda a velocidade, lançando todo mundo contra a porta.
Eu ainda estava me recuperando quando o cara com a escuta abriu a porta e me puxou para fora, me arrastando pelo chão, eu me levantei e vi que deixaram a outra mulher para trás. Os três assaltantes entraram em uma picape preta que estava esperando por eles, me arrastando junto. Assim que entramos a picape deu uma partida.
–Vamos! Vamos! Aquela idiota já deve estar tirando o colete! – Gritou o cara da bomba.
A picape voltou a dirigir na avenida principal, perto do Central Park. O cara com a escuta colocou um capuz na minha cabeça e prendeu minhas mãos.
Foi quando escutei uma explosão.
–PUTAQUEPARIU! – Gritaram perto de mim.
Houve uma gritaria generalizada, o furgão começou a andar em zigue-zague, entre os barulhos de carros buzinando e alarmes disparados.
–Olha isso! Puta que pariu! Olha o tamanho da fumaça! – Disse um dos caras.
O furgão começou a andar com mais calma, um dos caras me empurrou para o chão do carro, deixando-me de joelhos. Eu só ouvia o barulho de carros de polícia e dos bombeiros por onde o carro passava.
Eles iam me matar. Eles iam me matar.
–JK! JK! – Disse um barulho de rádio.
–Estou ouvindo! – Respondeu um deles, tenso.
–Há dois deles nos cercando! Estamos a três quadras da Times! – Disse o cara do rádio agitado e pude ouvir o barulho de disparos.
–Solte um dos caras com a bomba! Entre na avenida diagonal com a Maison e o jogue! Eles vão parar! Eles já estão avisados sobre a bomba! — Gritou em resposta.
O furgão deu uma freada brusca, me fazendo cair de bunda no chão do carro, minha cabeça bateu com força contra a porta, o que me desnorteou por alguns segundos.
Então houve outra explosão.
–Caralho! – Disse um dos caras e mais pessoas gritaram distante.
Um deles pisou no meu joelho para ir para o banco da frente, eu escutei quando ele se jogou no banco.
–Siga reto! Vamos atravessar a ponte! Vamos para o porto velho! – Gritou um dos caras.
O furgão acelerou. Nós estávamos indo para o Queens, eu conhecia o porto velho.
–O cara explodiu! Nós saímos do alcance deles! Vamos nos livrar desse carro e seguir pela Roots Stark! – Disse o cara do rádio.
–Nós vamos nos livrar dessa aqui e dar a volta! Depois de fazer o serviço, encontramos com vocês! – Disse um dos caras do furgão em resposta.
Se livrar... Eles iam me matar...
O barulho do vento aumentou e eu sabia que estávamos atravessando a ponte.
–Vamos nos livrar desse viadinho aqui e falo com vocês – Disse o cara do rádio e escutei um chiado.
Minutos depois o carro parou. O som de máquinas e o cheiro de maresia eram predominantes. Alguém abriu a porta atrás de mim e me puxou para fora, bati a cabeça na porta e depois senti as pedras do chão.
–Vá andando em silêncio! Vamos ande! – Disse um dos caras, provavelmente o robusto e me empurrou.
Eu comecei a andar pelo caminho que ele havia me empurrado, foi quando comecei a chorar.
Eles iam atirar em mim enquanto eu andava.
Minhas pernas tremiam a cada passo que eu dava, o som dos maquinários foi aumentando ao mesmo tempo em que o barulho que a bomba.
Foi então que escutei o barulho o carro partindo, por um segundo parei de andar, mas depois continuei mais de devagar. Contei mentalmente dois minutos e levantei minha mão, tirando o capuz.
Eu estava em uma rua industrial, antiga e suja. Perto do rio. Olhei para os lados e não havia nenhum furgão, somente carros estacionados, havia gente ali.
Foi quando comecei a gritar por socorro.
Gritei até minha garganta doer, mas eu não saí do lugar, estava petrificada, minhas mãos ainda estavam presas e eu não conseguia parar de tremer. Minutos depois dois homens apareceram ofegantes, um deles com uma arma.
Assim que eles viram o colete com a bomba em mim, ficaram pálidos.
–Chamem a policia! Por favor! Chamem a policia! Eles vão disparar a bomba! Vão! Agora! – Gritei enlouquecida, atropelando as palavras.
Eles saíram tropeçando e entraram em um portão cinza, logo mais três saíram e me olharam aterrorizados. Eles conversaram comigo, perguntaram se eu era uma das pessoas-bombas do assalto ao banco e eu respondi que sim.
Eles estavam com medo tanto quanto eu, mesmo assim pediram que eu não me mexesse, que eu aguardasse a policia e o esquadrão anti-bomba, logo várias pessoas estavam ali, me tranquilizando. Eles pegarão vários extintores e mantiveram uma distância segura de mim. Todos estavam com medo, com ódio pelo que fizeram em Manhattan, mas todos queriam me ajudar.
O local lotou, as fábricas desligaram tudo, incluindo a energia elétrica, caso houvesse uma explosão, para fogo não se alastrasse.
Oito minutos.
Oito malditos minutos e a policia chegou.
Inúmeras viaturas, com cães e um carro dos bombeiros.
Um cara com um alto falante se afastou das viaturas e olhou para mim.
–Qual o seu nome? – Perguntou o policial pelo alto falante.
–Olivia! Olivia Bennet! – Gritei.
–Tudo bem, Olivia. Fique calma, okay?! Sou o Tenente McGrey da Divisão Especial de Manhattan. Você foi uma das reféns do assalto ao banco? – Perguntou e eu concordei – Certo, agora vou precisar que você colabore com a gente, okay?
–Certo... – Respondi nervosa.
–Primeiro quero que você nos diga o que está vendo da bomba no colete, okay? Assim nos ajudará a dizer com que tipo de bomba estamos lidando.
–Mas se eu tirar vai explodir! Eu os ouvi dizendo! – Gritei em resposta.
Ele parou por um breve instante.
–Tudo bem! Não precisa ficar nervosa! Diga o que está vendo e nós vamos desarma-la antes de você tira-la, certo? Fique calma e nos ajude – Disse McGrey pelo alto-falante.
–Há três fios finos entrando no colete e presos na bateria preta, eu não sei se começam na bateria ou terminam, mas os bolsos estão pesados e a bateria está quente e pitando! – Disse nervosa.
–Muito bem, Olivia. Agora quero que me diga se você consegue ver alguma corrente ligando a bateria, okay? Algo incomum, pode ser um fio de telefone, uma arame...
–Não estou vendo nada por fora... – Respondi e encolhi o peito para ver dentro do colete. Ouvi todos arfarem – Estou vendo! É um arame! Ele está preso com uma fita isolante no zíper do colete!
–Ótimo! Ótimo! Agora me ouça com atenção! Quero que você toque em cada um dos três fios do lado de fora do colete e os segure por cinco segundo cada! Quando você sentir uma corrente em um deles você me diz!
Eu fiz o que ele pediu, mas não senti nada.
–Não estou sentindo nada! Nada! – Disse em desespero.
–Fique calma! Tente de novo, com atenção! – Pediu e eu o fiz.
Primeiro foi o vermelho e nada, o segundo o amarelo, no azul quando eu ia tirar a mão eu senti uma leve pulsação.
–Ah! Eu senti! É o azul! – Gritei.
–Ótimo! – Ele disse eufórico e me lançou um alicate – Agora corte somente o fio azul! – Disse Mc Grey.
Todos se abaixaram, mesmo assim eu o fiz. Primeiramente cortei o torniquete que prendia meus pulsos e respirei fundo. Era agora ou nunca. Assim que cortei o fio fechei os olhos, mas nada aconteceu. As pessoas começaram a comemorar.
–Olivia você foi muito bem até agora! Agora terá que ser rápida! Vá tirando esse fio preto de dentro do colete de cima para baixo, na parte de baixo você vai achar esse fio preto se ligando a outros e você deve cortar essa ligação, depois tire o colete e o jogue no rio! Okay?! – E eu assenti – Vai! Agora!
Fui abrindo o colete e tirando cada fita isolante, soltando o fio preto até chegar a uma ligação com outros cinco fios, havia somente uma ligação ali e foi exatamente o que eu cortei.
O restante foi muito rápido para que eu pensasse, só agi.
Joguei o colete com toda minha força no meio de rio e saí correndo em direção ao policial, ele me segurou na hora e abaixou quando a bomba explodiu espirrando água em todo mundo.
Eu me encolhi e comecei a chorar, meus ouvidos zuniam por causa do barulho da explosão.
–Pronto! Acabou! Acabou! – Dizia McGrey sem parar no meu ouvido.
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