Notas iniciais
Vamos a mais uma capítulo... Até logo.

Ainda não era segunda não pra ele, enquanto pudesse negar diria ainda não é segunda mais a triste verdade era que não era só segunda como também cinco e pouco da manhã. Mais uma vez o sono lhe resistia, como um amante infiel se entregava a outros o deixando sozinho ao longo da madrugada.

O corpo estava cansado e a cabeça latejava pedindo um descaço que ele mesmo não conseguia encontrar. Não havia nada de bom pra assistir, nada que o fizesse dormir mesmo por poucos horas. Ele escutava a música centenas de vezes como um viciado e cada vez que ouvia parecia mais mágico como se de certa forma aliviasse algo dentro de si o deixando mais leve.

Aquela posição o incomodava então mudou, ouviu o ruído da coberta caindo da cama e o miado agudo de Dandara que dormia com ele. Assim que ela se aninhou em seu lado pediu desculpas apenas movendo os lábios, porém a gata já dormia pela milésima vez.

Já eram seis e meia e ainda o sono não dera as cara. Orion sabia que se dormisse não acordaria a tempo e embora gostasse de ficar sozinho não ficaria assim em casa. Seria deprimente demais, isolado demais e como ele mesmo diria trágico demais.

Antes que percebesse estava de uniforme, rosto lavado e com o gosto de Fanta Uva no fundo da boca. Ele estava a caminho e varias vezes se perguntou quem o vestira? Quem lavou seu rosto e por fim de onde veio a fanta uva? Sem resposta alguma culpou o sono e o fato de estar no automático.

Assim que chegou sentou na escadaria tentando desvendar no horizonte as respostas pros seus poucos problemas, porém tudo que encontrou foi um azul indeciso, nuvens opacas e um sol tímido para anunciar o dia.

Ele ouviu os rangidos do portão sendo aberto e a pequenos grupos se transformar em uma multidão de desconhecidos. Parecia estranho a ele, seu último ano, mais do que sentiria falta das pessoas que nunca conheceu? Da ração de cachorro com iogurte ou do chá com bolacha? Quem sabe da bibliotecária ou dos muitos livros que perderia o acesso. De fato mais uma vez ele não sabia. Tudo que tinha era um grande vazio que resumia tudo em nada.

A aula de matemática estava no meio quando entrou na sala. A primeira coisa que fez depois de atravessar a porta foi procurar seu lugar que mais uma vez estava ocupado. Orion poderia revirar os olhos e esperar a pessoa se retirar, mas isso chamaria atenção demais mesmo que fosse um novato.. Antes de pegar o livro que tinha sequestrado da biblioteca fitou o quadro devorando cada ponto e virgula e quando se sentiu seguro puxou o tomo vagarosamente e pois se a ler durante o resto da aula.

Não demorou muito pra que o professor substituto viesse em sua direção, não precisava olhar pra saber que a gazela entrava na toca do leão. Ele mal havia aberto a boca quando os olhos de Orion foram ao seu encontro.

— Não vai ao menos copiar a lição? — havia um receio nato em sua voz, mas um sorriso desmotivado no canto dos lábios. — Se não foi pra aprender por que veio?

Talvez o silêncio fosse a sua melhor resposta ou teria que contar a verdade particionando de tantas formas que seria tão boa quanto uma mentira vaga e desmotivada.

— 12, -30, 3,5, 53, 1/2, 93, 67, 81, 0,9 e 2. — Respondeu Orion todas as questões fugindo da verdadeira pergunta enquanto apontava pra cada uma.

O menino gostou da pequena chama atrás das densas lentes do professor, do sorriso que crescia em seus lábios e o leve espanto que lembrava as feições de seu pai.

— Pra ser desafiado... — Provocou ele resgatando o livro sobre a carteira — E por você veio aqui? — Não havia curiosidade na pergunta só desejava o manter falando enquanto lia.

— Já copiaram tudo? — O professor foi ao quadro observando as duas últimas equações e voltado a turma questionou animando. Não precisou de resposta apenas observou os olhos cansados e sonolentos de todos.

O homem rabiscou colchetes, frações e alguns expoentes deixou algo em aberto criando uma questão que só ele saberia a resposta.

— Para motiva-los aprender! — Devolveu ao garoto que lia.

Ele baixou os olhos do livro encarando o professor por breves segundos então foi ao quatro. Assim como uma questão gramatical a resposta foi se entregando aos poucos e antes de se perguntar quem era o assassino da trama ele já tinha uma resposta.

— doze raízes de Pi — Orion gostou daquilo da labareda se transformando em chama, torcia apenas que não fosse momentâneo mais se pudesse seria um verdadeiro incêndio.

Ele pôs as mãos na cintura pronto pra dizer algo e pois a encarar seu pequeno monstro mais uma vez. Passou a mão nos cabelos negros onde alguns fios grisalhos surgiam antes dos tempo.

— Certo... — Alegou ele contrariado desejando em seu íntimo que estivesse errado, mas diferente de nós os números não mentem só são mal calculados ou interpretados. — Pode voltar a ler, mas estarei pronto na próxima aula.

Não foi com tristeza que se jogou na cadeira fitando a turma que cochichava. Enquanto um pensamento ecoava em sua mente: "Ele não saberá responder a próxima!" Não era ódio, apenas um professor motivado.

Sem perceber o tomo escorria de seus dedos, a cabeça pendia até encontrar a carteira gelada e os olhos aos poucos eram fechados.

Notas finais
... Diga conselhos criticas, mandem uma mensagem.