Apagando as Sombras
4 A terceira sombra.
Notas iniciais
Era quinta naquele dia e não importava o nome do dia apenas a data.
Quando acordou soube que ele não estava em casa que mais uma vez a insônia o assombrava e como um bom covarde seu filho se entregava a rotina.
Não havia mais lágrimas, nem um breve choro antes de dormir. Apenas a imensurável ausência dele. Ela sentia falta de quando trançava o seu cabelo, do mal hálito do beijo de bom dia e do jeito peculiar que ele a olhava. Ela sentia falta de tudo até dos pequenos detalhes e eram esses o que mais importavam.
Ela desejava que ele estivesse ao seu lado pra que mesmo sendo fraca pudesse dividir o peso da dor. Que ainda que não dissesse nada pudesse abraçar seu filho enterrando a cabeça em seus ombros e derramar as últimas lágrimas. A simples presença dele seria suficiente pra que não estivesse sozinha, pra ter alguém que entendesse ao menos um pouco.
. . .
Orion se mantinha acordado esperando uma pergunta que não teria a resposta, na maioria das vezes ele sabia um pouco mais não era pra isso que lia tantos livros de história ele queria saber tudo. Pra provar pra si mesmo que entendia algo.
— Qual o nome da estratégia russa usada contra Alemanha quando Napoleão tentou conquista-la? - Os olhos da anciã passavam pela turma cansados demais pra reparar no menino ou como ele fazia o ignorava por puro esporte.
Orion tinha a resposta na ponta da língua e assim que a mente ousou lembrar recordou de sua mãe Judith, sozinha no cemitério. Ele fugia não querendo aceitar que mais uma vez perdia alguém querido... Alguém que o destino levará cedo demais.
— Terra... arrasada. — Havia um sabor ácido no fundo da boca e uma dor peculiar em seu peito. Assim estava quebrado por dentro e remendado do lado de fora.
— E por que teve êxito? — Não era curiosidade seria algo a mais escondido atrás da pergunta quem sabe o tom da voz revelasse o impasse se ao menos oscilasse.
— Por que não é uma boa invadir um dos países mais frios do mundo no inverno ainda mais quando os russos fazem questão de não deixar nada pra trás. - Ele queria estar certo e assim pensava e um pequeno sorriso arqueava os lábios.
— Não Orion. Napoleão falhou por que como você foi afobado e arrogante. Ele sabia e podia conquistar a Rússia na primavera poderia demorar mais e não seria derrotado pelo inverno russo. — Ela respirou fundo quase decepcionada mais se a conhecesse saberia que atrás do semblante pesado havia um pouco de aprovação. -Mais o povo russo ainda assim o derrotaria a todo custo em algum outro solstício.
Antes que percebesse a aula acabava e a pouca informação que seu cérebro guardava era substituído por um personagem sem importância ou carisma. O menino encarou o quadro odiando não ter memória seletiva ou memoria fotográfica pra decorar ao menos dez por certo do conteúdo passado.
Os olhos ardiam e mesmo do fundo da sala alçou os primeiros passos ao recreio. O lanche era uma gororoba nova quase experimental demais para ele e com a mente exausta pois se andar pelo colégio tentando encontrar o valor de perder algo, porém isso só lhe mostrava quão valioso era o pouco que tinha.
Sua mente não estava ali, não depois de tantas voltas no mesmo lugar e a música que tocava eram tão aleatória quanto o capuz esvoaçante ao seu lado.
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