Apóstolos de Pedra

1 A garota que carregava o infinito


Notas iniciais
Aqui é onde tudo começa. Era para ser um conto sem o elemento fantástico ou algo mais disfarçado, subentendido.

A garota que carregava o infinito

Camile sempre ia à lanchonete nos dias de folga ou nos finais de semanas mais agitadas, algo que estava se tornando comum naqueles últimos meses. Sorridente, pedia o mesmo sanduíche e o mesmo sabor de refrigerante; às vezes suco, mas era sempre de laranja. Gostava de ficar sentada numa mesa isolada, perto da vidraça, mas não se incomodava em ficar num canto mais perto do balcão; desde que não fosse incomodada, não se importava. Normalmente lia algum livro ou ficava rabiscando desenhos, esvaziando a mente de qualquer pensamento ruim; era uma terapia. Quando saía, era bem tarde e a caminhada seguia em silêncio, com um fone de ouvido apenas, tocando alguma música suave, enquanto tudo, absolutamente tudo, ia se acalmando.

Ela parecia estar muito ligada em horários, rituais cotidianos, pois jamais chegava antes ou depois das seis da tarde nem saía antes ou depois das oito da noite. Era uma pontualidade digna de uma inglesa, embora fosse — aparentemente — uma garota brasileira que ralava a semana toda num trabalho não muito gratificante, porém que fazia sempre esboçando aquele sorriso.

Havia dias ruins, mas eram suportados com aquele jeito meigo, sempre gentil. Não era algo falso, como os que ela via quando um engraçadinho soltava algum gracejo ou uma cantada idiota, coisas que Camile ignorava e se desviava sem perder a simpatia.

Por isso, ir para aquela lanchonete, nas folgas e nos finais de semanas bem agitadas, fazia bem. Ela se esquecia por duas horas daquele trabalho não muito gratificante, os comentários rudes de homens imbecis, as correrias para quitar contas... apenas sabia que era Camile — e ter essa certeza era o bastante para deixá-la bem. Era o poder de estar sozinha consigo mesma, encontrar uma brecha a qual podia se refugiar e contemplar a plenitude da existência.

Se contasse para alguém, seria olhada com desconfiança e chamada de louca, contudo algo naquele lugar, entre clientes que entravam e saíam, consumindo calorias, rindo de besteiras e futilidades, lanches feitos para consumo imediato e bebidas nada saudáveis, era como um templo. Entre os cheiros de hambúrguer frito, molhos e outras guloseimas, ela sentia um aroma ímpar, ausente em qualquer outro local em que fosse. E uma aura carregada de positividade a invadia; foi o que a fez retornar após a primeira ida, por insistência de alguns colegas de trabalho.

A beleza da garota se destacava entre aquelas pessoas que passavam por ali, pois era sublime, de uma simplicidade que beirava à perfeição poética. E isso encantava os olhos mais delicados e os prendiam num fascínio platônico. A alma de Camile estava refletida não apenas naqueles olhos serenos, como também em sua pele branca, em seu jeito de mexer no cabelo — e sorrir, pois sempre sorria — ou quando tocava o infinito preso numa correntinha prateada.

O Pequeno Príncipe era um livro com camadas e símbolos muito bem distribuídos. Foi isso que a fez comprá-lo numa daquelas revistinhas de revendedoras de cosméticos, mas não se arrependia por isso. Aquela semana estava mais tranquila, apesar dos típicos homens rudes, problemas menores e necessidade de se isolar naquela lanchonete — uma vontade que era mais para saborear o livro do que por precisar ficar isolada.

Foi um evento singular.

Primeiro, por ir ao recanto em dias que não eram comuns ir; segundo, por dispensar o lanche e o refrigerante e pedir pão de queijo e café com creme de leite na superfície; e terceiro, por chegar meia hora antes e sair uma hora depois dos horários habituais. Detalhes insignificantes, mas que alteraram padrões acima da compreensão, desencadeando efemérides ali e aqui.

De gole em gole, numa velocidade impressionante, Camile foi viajando junto com o protagonista, descobrindo mundos curiosos e facetas humanas, emocionando-se com as lições aprendidas e ensinadas.

“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... É preciso que haja um ritual.”

Ela fez uma pausa, contemplando a chuva suave que banhava a cidade, borrando as luzes artificiais, fazendo as pessoas se apressarem — até as que tinham guarda-chuvas — para acharem abrigo ou chegarem longo em suas moradias, onde trocariam de roupas e se agasalhariam. Suspirou de leve, segurando o pingente do colar com a mão esquerda, pensando em coisas sem nomes.

Um ritual.

Sim, os dias acertados para ir à lanchonete, o mesmo pedido, os dois cantos frequentes, a solidão... tudo aquilo formava um ritual, uma forma de energizar, de encher-se de boas vibrações. Era tão enraizado em sua mente que dispensava relógios, pois o subconsciente já sabia exatamente quando deveria avisar ao consciente para ir para lá.

E havia quebrado o ritual naquela semana.

Um calafrio rápido percorreu seu corpo, arrepiando os pelos e a fazendo estremecer um pouco.

Desviou o olhar sereno da rua e retornou ao livro.

A chuva tinha o poder de borrar as cores. E deixá-las sombrias também. Contudo, ainda assim lindas, como aquarelas imensas e surrealistas. Certa vez, numa conversa com uma amiga, Camile ouviu que a chuva era como um choro celestial, o “choro dos anjos”, e servia para lavar nossas almas.

Andando pela calçada, sem pressa, com o guarda-chuva preto a protegendo parcialmente, a garota caminhou por aquelas ruas inundadas, pensando ainda no final do livro. Era uma tristeza gostosa, um aperto no peito semelhante ao que sentia quando ficava sozinha, apenas rabiscando, enquanto as horas passavam para o resto do mundo.

Não era muito religiosa, tampouco era descrente. A vida, de algum modo, achara um jeito de encontrar um meio-termo e encaixá-la. Ao mesmo tempo em que pensava acerca dos mistérios metafísicos, não compreendia o fanatismo. Soava meio estranho pensar sobre aqueles assuntos, mas a leitura de O Pequeno Príncipe acabou rendendo mais do que o esperado.

Como morava num bairro mais afastado do centro da cidade, a caminhada geralmente demorava de trinta a quarenta minutos; em noites chuvosas, como aquela, beirava sessenta com facilidade. Nunca reclamou ou se preocupou em comprar uma bicicleta ou qualquer outro meio de transporte, como também não pegava ônibus. Andar fazia bem, independente de qual fosse o clima.

— Você não se cansa, Camile, de ser boazinha demais com as pessoas? — perguntou, certa manhã, uma amiga, enquanto as duas aguardavam a vez de serem atendidas num supermercado. — Digo, sempre sorridente, deixando que as pessoas se aproveitem de você. Sabe, nunca experimentou dizer um “não” de vez em quando?

— Não sou “boazinha demais com as pessoas” — protestou ela, cerrando um pouco os olhos.

— Claro que é! Hoje mesmo, poderia muito bem ter se negado a ficar sem almoçar para aquela idiota sair mais cedo. Mas fez isso? Não! Preferiu passar fome e seguir direto.

— O filho dela tava doente e...

— Pura mentira! Que dia é hoje?

— Sexta.

— Não é hoje que tem aquela festa lá?

— É, acho que sim.

— Então, ela saiu cedo justamente para dar tempo de se arrumar para ir para a gandaia, enquanto você ficou passando fome para preencher o turno que a miserável não quis cumprir.

Qual era o problema em ser “boazinha demais”?

Ela não via defeito nisso, em se doar um pouco de vez em quando, e não considerava um excesso as tantas vezes que o fizera. Sentia-se bem assim. Não era de sair muito, de ir a festas ou baladas. Leva a vida que queria, do jeito que queria. Reclamar disso era bobagem.

Mas, e se a amiga estivesse certa? E se realmente estivesse cedendo demais, privando-se demais? Algumas negativas, quando bem administradas, poderiam poupá-la de gastar dinheiro na lanchonete?

O pingente, aquele belo infinito prateado, brilhava em contato com a mais tenra demonstração de luz noturna; e exercia algum poder em meios às penumbras chuvosas daquela noite. E sua portadora, após a leitura do livro, tinha muito que pensar.

Camile se espreguiçou, sentindo o corpo dolorido. Não iria trabalhar naquele dia, portanto não teve pressa de perder aquela moleza e cansaço tão rápido, apenas aproveitando cada segundo, deixando os sentidos acordarem um por vez.

O gato, de corpo esguio, pelos negros e olhos amarelados, mexeu-se próximos aos pés da garota, ronronando e se esticando, parecendo imitar a dona; mas não se levantou quando ela o fez, e sim voltou a se enroscar todo torto, num malabarismo que apenas os felinos conseguiam fazer.

— Manhoso — disse a garota, rindo daquela preguiça toda, ao se sentar na cama.

Bocejou uma ou duas vezes, terminando de se despertar. Olhou para o gato, que já voltava a dormir, enrolado em cobertas, numa posição fetal. Depois correu os olhos pelo quarto, aquele recanto de melancolia suave, de exclusividade. Por fim, fechou os olhos e fez uma breve oração, pedindo que aquele dia fosse tranquilo — e nada mais. Ao concluir, levantou-se.

Havia uma beleza poética na solidão. Um dos momentos mais belos da vida acontece quando se está só, deixando os pensamentos e as canções bailarem livres no vazio. Viver sozinha tinha um pouco disso, dessa poesia sensorial, apreciar cada instante, cada pequeno acontecimento... observar a vida deslizar pela janela de vidro, perder-se para, bem mais à frente, encontrar-se outra vez.

Fazia bastante tempo desde a última vez que teve companhia — além do gato preto. Foi numa época turbulenta, tão distante que mais parecia um sonho ruim, e ela não gostava de pensar nisso, tampouco reviver aquelas lembranças que marcaram sua existência. As lembranças, boas ou ruins, estavam todas trancadas num enorme baú ilusoriamente esquecido em algum porão.

Após tantos anos, as coisas foram se encaixando, a nova vida foi seguindo seu rumo. Comprou aquela pequena casa, arrumou um trabalho no qual a maioria dos homens agiam como imbecis, tinha Salém, aquele felino manhoso, como animal de estimação... e não reclamava de ter decidido esse rumo. Era o que lhe agradava mais, após tantas tentativas frustradas.

Quando alguém lhe perguntava sobre suas origens, respondia ser órfã, mas havia herdado uma pequena quantia, o que permitiu adquirir aquele espaço modesto e reconfortante; as pessoas acreditavam — e por que não acreditariam? — e a vida seguia seu curso tranquilo.

Era esquisito como uma jovem tão apegada a sensações simples não conseguia nutrir nada quando o assunto era família, amigos ou qualquer outro relacionamento. Talvez culpa dos anos vividos em monotonia, dos rituais impostos em seu cotidiano ou apenas fruto da certeza de jamais perecer. Ou apenas tinha o espírito livre, como uma pomba branca, e poderia voar para qualquer direção, sem precisar se explicar, sem se justificar. Sem apegos emocionais, sem novas tristezas.

O único elo, o fio que a lembrava diariamente quem era, estava visível a qualquer um, porém somente ela entendia o significado, o peso daquele pequenino infinito que lhe roçava o busto. Alguns tinham cicatrizes; Camile, tinha apenas um pingente. E a dor era a mesma, de qualquer forma, quando cutucada.

Salém miou, trazendo-a de volta à realidade.

— Já com fome? — indagou ela, sorrindo e afagando a cabeça do felino, que ronronava próximo, como se lembrasse que era a hora do desjejum. — Vamos ver o que temos para hoje.

O gato deu um pulo, ficando poucos centímetros de distância, lambendo a pata esquerda.

Camile caminhou até a cozinha, abriu a geladeira e pegou dois pacotes — carne cortada em pequenos cubos pro animal e uma porção de lasanha pra ela. Salém miou agudo junto aos seus pés, erguendo olhos grandes e de pupilas negras dilatadas.

— Nem vem, que a lasanha é minha! — exclamou a garota, rindo em seguida.

A chuva havia passado quando a garota saiu de casa, para um pequeno passeio. Iria apenas andar sem destino, explorar os mesmos lugares de sempre, mas que possuíam aquela aura gostosa que se assemelhava ao da lanchonete; não eram muitos, infelizmente, contudo ainda assim o bastante para recarregá-la por dias e dias.

Calça jeans cinzenta, tênis vermelho já surrado e blusa preta, cuja manga esquerda caía do ombro, deixando-o desnudo e mostrando a alça fina do sutiã branco; penteado despreocupado, cabelos negros caídos irregularmente, como se picotados por alguém sem o mínimo senso de moda. A pouca maquiagem — batom rosado, de um brilho tenro — era o suficiente para realçar aquela beleza que superou os séculos.

Após a madrugada e a manhã chuvosas, a tarde estava amena e tranquila, apesar da quantidade absurda de água empoçada, lama e obstáculos pelo caminho, entretanto nada que alguns saltos e desvios não resolvessem. Algumas pessoas varriam ou jogavam água nas calçadas, retirando parte dos destroços antes presos em telhados e parapeitos ou trazidos pelas correntezas que desciam ladeiras, como torrentes de um pequeno rio, e ventos que se intensificaram perto do amanhecer.

Para aqueles que praguejavam, Camile imaginava como reagiriam diante de inundações como as que viu em outros países, muito tempo atrás. Reclamavam por tão pouco, diante de perdas e prejuízos tão insignificantes, quando poderiam ter perdido muito mais do que uma fachada.

Ela às vezes sonhava com o que testemunhou, com as dores do mundo, com as guerras sangrentas que presenciou, com o sofrimento estampado no semblante de uma mãe ao saber que o filho morreu por um país que pouco se importava com quantas vidas mais tombariam para que seus ideais tolos fossem realizados. Não se condoía tanto quanto antes, pois aquelas emoções estavam trancadas naquele baú no porão — e lá deveriam permanecer.

Se pudesse, todavia, preencheria aqueles corações rasos com aquela energia que captava nos lugares em que visita periodicamente; sabia que ninguém compreenderia — como não compreendera nos tempos médios, quando foi condenada à fogueira por bruxaria —, e aquilo a incomodava. Tantas angústias poderiam ser curadas apenas um fragmento de esperança, de sentir aquela emanação que vinha da Terra... de viver a existência mais do que qualquer outro evento.

A indiferença vinha por entender que a humanidade não estava preparada para aquela revolução. Monstros, demônios, deuses e toda a horda de criaturas surgiam quando a mente não conseguia explicar; e a fé, como bem se lembrava de ouvir um religioso pregar, era um ato mais de confiança do que de questionamento.

Havia conhecido homens santos, e estes ou não tinham religião ou seguiam os princípios de modo puro, sem se desviar daquilo que os deuses que acreditavam haviam pregado. E também conheceu os que se achavam santos, os mesmos que não compreenderam sua natureza, sua essência, aquilo que a diferenciava dos demais — e por não haver compreensão, houve perseguição.

Camile gostava daquela cidade, daquela aura que emanava dos cantos mais discretos, onde podia se sentar e relaxar, esquecer-se e se encontrar. Era bom ir à lanchonete ou se deitar na grama da praça, deixar que os poros se enchessem de energia. Lembrou-se de um tempo em que mais pessoas conseguiam sentir aquilo, ter aquela imersão sensorial; e não eram, ainda assim, semelhantes a ela, uma exceção da natureza humana. Quando foi que a humanidade deixou de sentir?

Ao se fixar ali, abandonou os nomes que tinha, optou por um mais simples, que a deixasse como gostaria de ser: comum. Sabia que, quando se desprendesse de nomes antigos, uma nova vida começaria; era aquele recomeço que sempre fazia, de lugar após outro, fugindo cada vez mais de seu ponto de origem. Um dia — era um fardo que carregaria para a eternidade —, em algum momento, alguém a encontraria de novo, obrigando-a a se esconder, a desaparecer e mudar de nome, a abandonar tudo o que tinha e quem era... iniciar outro recomeço.

Camile chegou a casa quase meia-noite. Sentou-se no chão, chutando para longe os tênis e sendo recepcionada por Salém, que miou e ronronou num ritmo bonito, deitando-se em seu colo, aninhando-se ali enquanto ela o afagava com carinho. Os olhos amarelados se fixaram no pingente reluzente, num encantamento hipnótico; miou num tom diferente, mas firme, como se falasse algo.

— Eu sei — foi tudo o que a garota respondeu, suspirando.

Tabacaria era, de longe, o poema preferido de Camile. E achar ao acaso, num sebo, um volume antigo, com capa dura e letras douradas, que reunia todas as obras do poeta português era um deleite ímpar. Fernando Pessoa — e suas centenas de heterônimos — era um conhecedor de segredos; ela desconfiava que talvez o artista, como poucos, sentisse aquela aura que a fortalecia, que a fazia sentir a plenitude. E teria adorado conhecê-lo, mas estava em outro continente na época em que ele viveu.

Aquela semana estava propícia para a chuva, e dia após outro, fosse num tom intenso ou ameno, o céu escorreu suas lágrimas, limpando parte do mundo com seu choro. E quebrando o ritual outra vez, a garota foi todos os dias para a lanchonete, bolsa de um lado, junto ao corpo, e guarda-chuva no outro, protegendo o que pudesse.

Depois de fazer o pedido — que variava entre o suco ou refrigerante de laranja e sanduíche e café com creme de leite em cima e pães de queijo —, sentava-se num dos cantos costumeiros e abria o livro, lendo um a um dos poemas, deixando o tempo transcorrer a bel-prazer. Poucas vezes chegou antes ou saiu um pouco além dos horários fixos, mas essas exceções foram resultantes daquele tempo chuvoso quase constante.

Naquele final de tarde, Tabacaria era o poema mais importante, o qual leu e releu incontáveis vezes, catando as entrelinhas, apreciando a poesia sublime, os versos sem medo, a filosofia poderosa e metafísica. Conheceu homens e mulheres assim, com o poder de canalizar palavras — escritas e faladas — e abrir os olhos dos demais para questões profundas; alguns deles, inclusive, iniciaram movimentos resistentes até os dias atuais.

Pessoa — ou Álvaro de Campos — teria sido, talvez, noutro período, um dos grandes sábios fundadores de religiões e correntes filosóficas, mas a vida preferiu ser ainda mais generosa: sem cultos desviados do propósito, sem seguidores cegos por mentiras inseridas ao longo das eras... e o deixou apenas poeta. E poesia — Camile bem sabia — era algo que mais havia para se descobrir no mundo.

Bebendo um gole leve de café, marcando o lábio superior com o branco do creme de leite, ela contemplou por um momento um menino que brincava com um carrinho recém-ganhado de presente; deveria ser seu aniversário, a julgar pelas roupas que usava — e que ainda tinham aquele cheiro de algo novo —, as caixas maiores que, segundo ouviu a mãe dele dizer, seriam abertas em casa. A seguir, desviando o olhar, viu um cachorro passar correndo na rua, abrigando-se numa lata virada, encolhendo-se no mais fundo possível; pareceu bastante assustado.

— Por que alguém imortal se contentaria com coisas tão fúteis? — perguntou uma das poucas pessoas que sabiam de seu segredo. — Digo, você pode curtir a imortalidade como bem entender, pode ser uma deusa para o mundo. Nada pode matá-la. Quem ousaria desafiar uma pessoa que desafia os limites da vida e da morte?

— Porque quero. Apenas isso — respondeu ela, ficando séria. — Se nasci assim, imortal, é porque há um motivo mais importante do que uma megalomania. Não sinto inclinação para tiranias ou ditaduras, nem para desonrar aquilo que acredito. Gosto da simplicidade, das coisas mais fúteis. Gosto de olhar as estrelas em noites sem lua e a lua em noites em que ela fica tão redonda e cheia quanto possível. Gosto de andar em meio a uma tempestade, ser levada pelo vento, sentir as dores dessa aventura fatal aos humanos comuns. Gosto de receber flores, de preferências as silvestres, cujos aromas lembram as terras que conheci e deixei para trás. Gosto de lutar por uma paixão, e não de ser facilmente conquistadora de um coração, assim como também gosto que me conquistem aos poucos. Não é errado ser demasiadamente humana, certo? Pois eu sou, apesar de não ter o peso dos anos escorrendo nem a certeza de que um dia não acordarei mais.

Camile havia aprendido muito com aquela longa existência. O tempo lhe era favorável para ser o que quisesse, para conquistar qualquer coisa, para ir aonde achasse que deveria ir... Quando notou que não envelhecia como os demais, entendeu que era diferente, que os deuses haviam a escolhido para algo maior. Sofreu em cada enterro, para cada um dos familiares, parentes e amigos que viu envelhecer e perecer. Amou diversas vezes, doendo o peito quando era a hora de deixar partir; com o passar de alguns séculos, a dor da perda e do luto se esvaiu.

Simplicidade se mostrou um belo caminho.

E isso a tornou sábia, embora ainda errasse e precisasse melhorar e se corrigir em muitos pontos. A imortalidade lhe deu a capacidade de aprender, de absorver o máximo de conhecimento possível, guardá-lo e jamais esquecê-lo, se assim quisesse. Na verdade, era uma troca: as lembranças pessoais ficavam num baú, trancafiadas num porão, e as coletivas, os fatos históricos, tudo o que o mundo oferecia era deixado mais à superfície.

Tanto conhecimento a transformou, alterando seu propósito de vida, o modo como via a vida e a vivia. E tinha aquela sensação, aquela energia que sentia desde o primeiro segundo de existência, uma recordação estranha e envolta em sombras.

Ninguém nunca conseguiu explicar satisfatoriamente o que era aquela força que a acalmava e a energizava por completo; e tampouco parecia haver interesse em classificar o que era e como comprometia o mundo. Ela sabia que afetava — e não de forma negativa ou ruim —, mas queria entender como e até onde. Era como se aquilo, aquela presença constante em determinados pontos do planeta, estivesse em sincronia com Camile, com sua alma infinita, presa num corpo sempre jovem e belo.

E quanto mais simples, mais delicado fosse um momento, um ser vivo ou um lugar, mais intensa era aquela sensação. Estava nas borboletas que ela contemplava, no pôr do sol, no sorriso de uma criança, na chuva que caía numa tarde, na neve que cobria as ruas... o planeta inteiro emanava aquela pureza invisível aos olhos, mas presente em tudo.

Ainda lia os poemas de Fernando Pessoa — e seus heterônimos —, a xícara de café com creme de leite em cima, numa camada bem generosa, pães de queijo sobre um pratinho, ainda fumegando. Ainda chovia entre a tarde e a noite, lavando a cidade com águas suaves — o choro dos anjos, talvez —, fazendo alguns reclamarem e outros se sentirem bem. Ainda tudo seguia uma rotina, um ritual monótono, um ciclo de acordar, trabalhar, estudar, comer, sobreviver, viver, namorar, brigar, dormir... morrer. E ainda existia muita energia naquela lanchonete.

Camile estava graciosa. O pingente, aquele infinito prateado, parecia reluzir mais do que os demais dias, em contraste com a blusa branca que usava; o cabelo liso amarrado na nuca por uma fita vermelha, enquanto uma pequena parcela formava uma franja heterogênea, em camadas de tamanhos variados. E estava bem concentrada na leitura.

Tudo, menos o tédio, me faz tédio.

Quero, sem ter sossego, sossegar.

Tomar a vida todos os dias

Como um remédio,

Desses remédios que há para tomar.

Tanto aspirei, tanto sonhei, que tanto

De tantos tantos me fez nada em mim.

Minhas mãos ficaram frias

Só de aguardar o encanto

Daquele amor que as aquecesse enfim

Frias, vazias,

Assim.

Soltou um suspiro, fitando a vidraça molhada; as gotas escorriam em ritmos diversos, unindo-se ou apenas se separando — seria uma metáfora para a vida? Captou uma pequena — e significativa — oscilação, o que arrepiou todo o corpo, fazendo-a procurar o motivo daquele abalo.

Era um homem robusto. Ou deveria ser um homem aquela silhueta em meio à penumbra de um vão entre prédios mal iluminado. Aparentava ter quase dois metros de altura, e aquelas roupas — calça folgada, em tom escuro, com bordados em ouro e prata, tendo cintos e tiras pelo tronco sem camisa, que prendiam três enormes bainhas, duas nas costas e uma na cintura — lhe davam um aspecto assustador. Parecia ter barba, mas esta se misturava ao tom enegrecido da pele, parecendo uma coisa só. E aquele par de olhos, num tom turquesa, cintilantes e frios, de brilho fraco, assim como as marcas que ostentava no pescoço, ombros e mãos.

Por um momento, tudo congelou ao redor de Camile. Não foi mais que dois segundos, porém o suficiente para que o Apóstolo pétreo se aproximasse. E sua aparência era exuberante e sinistra na claridade da lanchonete; andando devagar, com a calça e as botas pretas — que iam até perto dos joelhos — encharcadas, adentrou o estabelecimento e se sentou em frente à garota, que o encarou com seriedade. Ele era totalmente feito de pedra celestial, com turquesas preenchendo os talhes simbólicos.

— Niciel — falou ela, sem emoção no tom.

— Precisamos de você, de sua ajuda — replicou o homem de pedra, sem rodeios.

Sua voz era cavernosa, como um eco que propagava num buraco. E cada palavra saía acompanhada de um mínimo estalar de duas pedrinhas se chocando.