Após o Despertar

3 Capítulo 3: Toc-Toc


Notas iniciais
“O mundo é deveras cômico, mas a piada está na raça humana.” —H. P. Lovecraft

Cogitar a possibilidade de que as obras escritas por Lovecraft possuíssem alguma base na realidade, soava como uma piada, mas era uma piada que não fazia ninguém rir nesse momento. Mariana pensava em como seu maior problema na semana anterior era o sono, ela havia comentado com a mãe sobre estar tendo dificuldades para dormir a noite toda, quando não eram sonhos confusos, ela simplesmente acordava as vezes no meio da madrugada, com certeza, nenhum dos seus problemas anteriores ou pesadelos era pior que a realidade atual que o mundo parecia estar enfrentando agora. Ela gostaria de acordar e perceber que foi tudo um sonho ruim, mas isso não aconteceria, então lhe restava assistir ao jornal para tentar acompanhar tudo que acontecia, era tudo tão surreal que parecia fantasia, ela se perguntava se realmente estava tudo tão ruim do lado de fora, mas não tinha coragem de tentar descobrir por conta própria.

Desde o dia anterior ela refletia sobre o que Gabriel havia dito, e aquela filmagem que ele a enviou era inegavelmente uma evidencia para corroborar sua teoria, por mais extraordinária que pudesse ser. A conclusão que a garota chegou foi de que a hipótese de seu amigo poderia possuir alguma base na realidade, talvez aquela criatura que saiu do mar fosse algo semelhante aos Antigos dos contos de Lovecraft; e aquelas pessoas encapuzadas, que falavam palavras sem sentidos, que foram filmadas por alguns noticiários nos últimos dois dias também poderiam possuir paralelos com cultos e adorações a divindades esquecidas pelo tempo. Mas seria tudo que Lovecraft escreveu realidade? Os medos e paranoias do autor possuíam de fato uma base concreta? Todos aqueles nomes e seres vieram de alguma inspiração pessoal ou fora tudo revelado a ele de alguma forma? A garota não chegou à resposta de nenhuma dessas perguntas, sua atenção foi roubada pela imagem na televisão que passou a transmitir um pronunciamento presidencial, ela procurou pelo controle e o encontrou em meio as almofadas do travesseiro, aumentando o som da TV, escutou ao que era falado.

— A anarquia e o atos de terrorismo acontecendo nas ruas não serão tolerados de maneira alguma, todos os ataques as igrejas e templos são um absurdo, faculdades, sanatórios e bibliotecas em todo o país também foram atacados, e eu lhes garanto que os culpados serão devidamente punidos. A mídia cria um alarde e um pânico que são desnecessários, pois já estamos fazendo tudo para que a situação atual seja contida e dentro de alguns dias, tudo voltará ao normal, isso terá sido somente um pequeno contratempo na história do nosso país... — Mariana suspirou, ela não sabia dizer se tudo que era falado era uma tentativa de manter as pessoas acalmadas, ou se o presidente realmente acreditava no que dizia sobre tudo voltar ao normal em questão de dias, ainda assim ela continuou assistindo. — Sei que a população também está preocupada com aquele animal enorme que saiu do Oceano Pacífico, e por isso estou aqui para garantir a todos que ele não representará nenhuma ameaça para nós, nem causará nenhum tipo de destruição como tem causado aos nossos países vizinhos. Pois, em um acordo mútuo entre as forças militares do Brasil, Chile, Argentina e Bolívia, estaremos lançando um ataque contra aquela besta dentro de algumas horas. Nós enviaremos os nossos caças AMX A-1, muito bem carregados, para uma ofensiva aérea que botará um fim ao avanço daquele...

Uma batida forte no portão da casa assustou Mariana e fez a garota soltar um curto grito de espanto. Os olhos arregalados se voltaram para a porta da casa, o suor escorria pela testa enquanto ela apertava o botão do controle para desligar a televisão, ela andou lentamente até a janela da sala enquanto tentava escutar lá fora. A janela e a porta estavam fechadas, e ela não queria abrir para não fazer qualquer tipo de ruído, mais duas batidas contra o portão, a jovem ficou ainda mais nervosa do que antes, a primeira batida não foi acidental, alguém, ou algo, estava na rua. O muro de sua casa era bem alto, o que ela e sua mãe sempre acharam uma vantagem para evitar tentativas de qualquer um pular, o portão de entrada era a cerca de dois metros ao lado do portão da garagem e não possuíam qualquer tipo de aberturas para se ver através, Mari olhou para a pequena fresta entre o portão e o chão, apesar do sol não parcialmente escondido entre nuvens, podia se ver a sombra que era projetada confirmando a presença de algo do outro lado.

Mais algumas batidas, a garota se sentia segura ali dentro de casa, porém um leve sentimento de estar presa também veio a ela. O interfone ficava logo ao lado do portão, mas fosse quem fosse, não o estava utilizado, e a câmera instalada no muro estava estragada a semanas, com a jovem e sua mãe sempre dizendo que deviam mandar para o conserto, mas nunca realmente o fazendo. Depois de algumas batidas fortes repetidas vezes, a garota respirou fundo enquanto abria a janela de uma só vez e praticamente cuspiu a pergunta pra fora.

— QUEM TÁ AI?

A resposta veio em forma de um urro assustador, Mari não sabia nem dizer se aquilo havia saído das cordas vocais de um ser humano. A garota no instante seguinte se arrependeu de ter feito a sua pergunta, as batidas ficaram mais fortes e com frequência selvagem, ela pensou que foi uma tolice fazer isso já que agora havia confirmado que existia alguém dentro da casa, alguém encurralada e desesperada.

Sem saber ao certo o que fazer, ela fechou a janela novamente e correu até a cozinha, pegou a vassoura que foi o primeiro objeto que pensou para tentar se proteger e voltou até a sala, enquanto ouvia as batidas no portão que lhe davam a impressão de fazer seu coração bater ainda mais rápido, ela olhou para a porta e pensou em bloqueá-la de alguma forma, foi até o sofá e começou a empurrá-lo até a porta.

O que mais ela poderia fazer? Ela se perguntava isso enquanto olhava ao redor, seu instinto dizia para ela pegar o celular ligar para a mãe, mas sua mente logo a lembrou de como essa atitude seria totalmente sem sentido. Talvez uma pesquisa no google rápida sobre o que fazer se invadirem a sua casa, provavelmente alguém já passou por isso. Foi então que ser raciocínio finalmente acordou para o que se fazer em situações de emergência, mais tarde ela se sentiria estupida por não pensar nisso antes, mas agora já sabia o que fazer.

A garota correu até o outro lado da sala, pegou o celular que estava com o carregador conectado na tomada, estava prestes a discar para a polícia quando ouviu um som de pneus de carro cantando na esquina de sua rua, como se algum veículo tivesse feito a curva em uma velocidade consideravelmente acelerada e depois freado bruscamente, e em seguida veio o som do carro passando pela rua dela a toda velocidade. Ela ouviu outro urro que fez os pelos do seu corpo eriçarem, e então, junto do som do carro se afastando, também o som de movimento de, talvez pessoas? Talvez coisas? Que seguiam atrás em perseguição, incluindo aquilo que antes batia em seu portão e gerava uma sombra.

Ao notar que estava sozinha com o silencio novamente Mariana deixou a respiração em ritmo acelerado tomar conta, o nervosismo da situação fez os olhos se encherem d’água novamente, ela apertava as almofadas do sofá com força. Ela não voltou a ligar a televisão aquele dia, nem sequer assistiu vídeos no celular sobre novidades quanto ao pandemônio lá fora, ela acabara de ter uma experiência pequena se comparada e de muitos, e agora, ela só queria ficar ali no silencio.

Quando a noite caiu, a garota, agora mais tranquila, se deu conta de que precisava pensar nos dias que estavam por vir. A tendencia, por mais sombrio que fosse considerar isso, é que as coisas ficassem ainda mais intensas e árduas, ela se lembrou novamente da teoria de seu amigo, e torceu para que o tal ataque que seria feito contra a criatura tivesse obtido sucesso em detê-la. A moça também tinha noção que mesmo se vivesse de biscoitos e água, isso não duraria pra sempre na sua casa, e ela não tinha certeza do que faria quando os alimentos acabassem, e muito menos alguma ideia de para onde poderia ir caso seu lar não oferecesse mais toda a proteção que até hoje ela nunca questionara, essas coisas que pareciam tão básicas do seu dia a dia agora eram de suma importância, e ela ficou horas a fio pensando a respeito dessas incertezas.

As respostas aos questionamentos de Mariana vieram no dia seguinte, enquanto ela lia nas redes sociais sobre uma nova decisão tomada pelo governo nacional, a contragosto de alguns dos líderes políticos, de que a população deveria se dirigir as escolas mais próximas de seus lares, com exceção de universidades, visto que estas foram alvos dos ataques desde o início de todo o caos. As pessoas não seriam obrigadas a ir, mas era fortemente recomendado que o fizessem, pois, as forças policiais e, se disponível nas proximidades, as forças armadas, estariam no local para assegurar o bem estar das pessoas em meio a essa crise e proteger as pessoas das ameaças dos tais terroristas, aos quais não se tinha quase nenhuma informação além do fato que agiam de forma caótica e destrutiva em diversos locais, e essas ações, poderiam afetar você, direta ou indiretamente, quando você menos esperar.