Duas semanas depois, Elsa ainda estava revolvendo cada pequena atitude de Merida e das amigas. Já tinha colecionado outras desde o fim de semana do jogo, mas não conseguira decifrar a intenção de cada uma. E por orgulho e constrangimento, ainda não havia decidido se valia a pena pedir ajuda a alguém. Somente Nokk sabia dos pormenores.

— Então bebeu direto da minha garrafinha e disse que era um beijo indireto — Elsa contou, diminuindo o tom de voz na última parte. — O ponto em que eu quero chegar é: ela sempre fez esse tipo de brincadeira e eu só comecei a perceber agora? Ou é uma coisa nova?

Nokk resfolegou baixinho, sacudindo a cauda com prazer quando ela deslizou a escova pelo seu lombo.

— Parece que há tantas coisas novas… — Elsa parou por um instante, refletindo. — E tudo começou depois do castigo, como se a Anna e o Kristoff tivessem aberto um portal para mim. Isso é não maluquice?

Em outra baia, um cavalo roncou animado ao ao chamado do dono.

— E o que a Pocahontas quis dizer exatamente com “dar uma chance para a Merida”? — Elsa perguntou baixinho, temendo ser ouvida. — Ela e a Mulan agem como se alguém estivesse me oferecendo alguma coisa, como se só dependesse de mim aceitar. Mas isso é tão confuso, Nokk.

O cavalo soprou, levantando fios da crina prateada.

— É verdade. Se nem eu que sou humana entendo, quem dirá um cavalo mimado como você. — Ela sorriu, coçando o ponto favorito dele.

Escovar Nokk era sempre terapêutico. Ela tinha a chance de contar sobre sua semana, sem se preocupar com respostas -- embora às vezes elas fizessem falta --, e passar um tempo sossegado com ele. Nada de saltos pré-calculados, ou de corridas pesadas pelas pistas. Eram só os dois na baia, e os segredos que ela trazia.

— Você também acha que eu já perdi tempo demais? — Elsa perguntou, sem saber se estava falando com Nokk ou consigo mesma.

De repente, sentia-se área, flutuando como uma pena num lugar indefinido. Quem raios definia os prazos para confissões amorosas? Onde ela conseguiria uma tabela para comparar e catalogar seu tempo? De novo, estava fazendo aquilo da maneira certa? Ia mesmo fazer aquilo?

Elsa apoiou-se em Nokk, sentindo-o. Lentamente, forçou-se a voltar para sua baia no estábulo de DunBroch. Buscou a sensação de suas calças de montaria e do suéter, do peso que exercia sobre o chão, do pelo de Nokk contra a palma de suas mãos.

Na parede oposta, sob a prateleira de acessórios, o calendário que ela mesma desenhara pareceu piscar. Um círculo vermelho fisgou seu olhar, uma marca que seria atingida em uma semana e quatro dias.

— Ok, sabe do que eu preciso? De chocolate e tostadas da Tiana.

Elsa desceu do banquinho e depressa ajeitou-se para ir embora. Ela deixou Nokk com um afago carinhoso e um beijo em seu focinho, mas o cavalo resfolegou quando estava já fora da baia.

— Tudo bem. Eu não deveria, mas vou trazer uma tostada para você amanhã. — Sorriu, levando um dedo aos lábios, indicando segredo.— Se os professores continuarem me liberando mais cedo, vai ser difícil não ir até lá todo dia. Mas você não vai se empanturrar de tostadas, hein.

Ela acenou antes de apressar-se para os vestiários. Chocolate e tostadas não lhe dariam respostas melhores que as de Nokk, mas certamente a alegrariam também. Se tivesse sorte, também ajudariam com alguma inspiração para os trabalhos empilhados na escrivaninha de seu quarto.

E ela teria chegado a eles mais rápido, se não percebesse a senhora Elinor a chamando na varanda do prédio principal, quando estava já prestes a tomar o caminho para o estacionamento.

— Que raro ver você aqui pela tarde. — Ela sorriu, gesticulando para que se aproximasse. — Treinando muito?

— Espero que sim. — Elsa subiu os degraus de granito para alcançá-la, apertando a alça tiracolo da bolsa. — O início da temporada não está tão longe.

Na verdade, faltava ainda três meses para o início do período de competições das quais os atletas do Centro de Treinamento de DunBroch participavam. Mas a senhora Elinor também fazia parte do time de pessoas extremamente precavidas e competitivas.

— Nunca é cedo demais para começar a treinar com afinco — ela concordou. — Nós esperamos que você traga muitos troféus para DunBroch nessa temporada também.

Elsa tentou seu melhor sorriso lisonjeado. No entanto, aquilo pesou em seu âmago, e sua constante cobrança perfeccionista despencou de um alçapão em seu âmago, úmida e pesada.

— E por falar em temporada e troféus, acho que preciso da sua ajuda. — Elinor pendeu a cabeça para o lado, parecendo cansada naquele ângulo.

Um tanto hesitante e ligeiramente ansiosa para encher-se de tostadas, Elsa a seguiu para dentro do prédio. Passaram pelo saguão da secretaria e viraram diretamente no Corredor da Glória, como o senhor Fergus gostava de o chamar: o corredor dos prêmios. As paredes eram cobertas de medalhas, prateleiras para os troféus de maior pompa e cristaleiras abarrotadas de taças e estatuetas brilhantes. Era um dos lugares favoritos de Elsa em DunBroch, um dos lugares especiais.

Ao fundo, diante da maior cristaleira, alguém estudava os troféus guardados. Não demorou para que notasse a cascata de cachos, vermelho-vivos sob a luz dos candelabros, e reconhecesse Merida.

— Faz mais de meia hora que ela não sai daqui — Elinor cochichou, parando de andar. — Conversamos sobre a próxima temporada ontem no jantar. Merida ainda está chateada pelo desempenho na última, e já é a terceira vez que ela vem visitar os troféus hoje.

— Nossa…

Merida não se mexeu enquanto era observada. No fundo de um corredor tão extenso e resplandecente, parecia miúda, perdida. Uma folha de outono secando. Elsa sentiu que vê-la daquela forma a deixou menos ávida pelo açúcar das tostadas.

— Acha que pode me ajudar? — Elinor perguntou, num tom muito próximo da súplica.

Elsa comprimiu os lábios, pesou a situação por um instante.

— Acho que sim. Talvez eu saiba o remédio certo — sorriu, indo ao encontro de Merida.

Aproximou-se sorrateira, parando ao lado dela cautelosamente.

— Então você estava se escondendo aqui — sussurrou, fitando os troféus dourados na cristaleira.

Merida sobressaltou-se, deixando escapar um guincho. Ela pôs uma mão sobre o peito, de olhos arregalados, e respirou fundo.

— Céus, Elsa!

— Desculpa, não resisti. — Elsa ergueu a palma das mãos em sinal de defesa. — Você parecia tão fora de órbita.

— E estou — Merida confessou num tom taciturno.

Os troféus na cristaleira carregavam plaquetas com nomes da família DunBroch, desde antes dos bisavós de Merida. Eram majestosos, chamativos. Elsa havia gastado muitos minutos da infância admirando as figuras dos pequenos cavalos que os encimavam. E mesmo depois de ter decorado as formas -- sabia quantos troféus carregavam cavalos empinados --, o encanto não estava perdido.

— Esse é um dos meus favoritos. — Ela apontou para um pequeno troféu com asas nas laterais. A plaqueta na base levava o nome de Merida. — Gosto dele pelas memórias.

— Minha primeira competição de arquearia.

— Sim, você foi incrível naquele dia. — Elsa sorriu, embalando-se na recordação.

— Só naquele dia?

— Bem, em muitos outros. — Ela gesticulou para os troféus ao redor do primeiro.

— Não acho que vou ser tão brilhante nessa temporada. — Os ombros de Merida murcharam. — Não fui nem um pouco brilhante na última.

O rosto de Elsa contorceu-se num esgar desconfortável. No ano passado, Merida havia passado por uma maré de azar nas competições. Não fora exatamente horrível, mas sua colocação nas primeiras a tiraram da rota dos campeonatos estaduais. E ver Hamish, Hubert e Harris avançando para os nacionais,colecionando pódios, não tornou as coisas mais fáceis.

Elsa foi pega admirando a pequena coleção de troféus dos garotos.

— Eles provavelmente têm chances fortes de pegar todos os primeiros lugares até os estaduais nessa temporada. Hubert vai me superar na arquearia mais cedo ou mais tarde. — Merida apontou para para o suporte de medalhas ao lado da cristaleira. — Já está quase me alcançando.

— Você não tem que ser melhor do que ele — Elsa pontuou, firme. — Tem de focar em ser melhor que você mesma. Hubert nem sequer compete na mesma categoria que você.

Merida virou-se para ela com os lábios trêmulos. Oh-oh.

— Não chora! — Elsa pediu, segurando-a pelos braços. Era sua vez de arregalar os olhos. — Vamos comer tostadas da Tiana!

Aquelas eram as palavras mágicas. A aura melancólica de Merida não esmaeceu, mas uma brecha fora aberta. E era tudo o que Elsa precisava.

— O que ela tem? — Tiana indicou Merida com o queixo.

— Está sofrendo por antecipação.

Elas observaram Merida do balcão por alguns segundos. Ela estava concentrada em fazer tiras de um guardanapo.

— Mas tenho certeza de que essas tostadas maravilhosas vão ajudar. — Elsa inspirou com gosto, deleitando-se do cheiro doce das tostadas. — E claro, o chocolate quente especial do seu pai.

— Acho que a situação pede reforço — Tiana pontuou, sumindo atrás do balcão. No retorno, segurava dois pequenos pacotes de tecido translúcido. — Voilà: biscoitinhos de canela. Estou testando ainda, mas acho que vou levar na Festa da Fogueira.

Elsa tomou os pacotes e os girou à luz das lamparinas que pendiam do teto. Os biscoitos eram folhas de massa fina, e exalavam o cheiro tentador da canela.

— Vou guardar para a viagem. — Elsa gracejou, pondo os pacotinhos no bolso do casaco de lã.

Tiana a ajudou a levar os pratos de tostadas e chocolates quentes para a mesa. O rosto sardento de Merida iluminou-se ao ver a amiga, porém, quando Tiana se despediu para voltar para a cozinha, seu sorriso sumiu. Ela apoiou o queixo numa das mãos com um ar desolado. E as tostadas, ainda mornas, pareceram sem importância.

— As tostadas vão ficar ofendidas com o seu descaso — Elsa gracejou, sentando-se.

Estavam numa das mesas com vista para a rua no primeiro andar. A luz cinzenta da tarde nublada vazava pelas janelas e criava gradientes escuros pelas paredes. Elsa adorava tardes assim para se deliciar com chocolate quente, mas estava desconfiando que começaria a associá-las com tristeza.

— Vamos — encorajou, apanhando um das tostadas e esticando sobre a mesa. — Uma mordidinha e você vai ficar melhor.

Merida olhou dela para a tostada, e ainda deteve-se por dois longos segundos até arriscar a mordida. Um sorriso ergueu os cantos da boca de Elsa. No entanto, ela teve de desfazê-lo quando a ponta de seus dedos resvalaram no o lábio de Merida.

— Ok, talvez eu só precisasse mesmo disso. A comida da Tiana cura qualquer coisa.

— Talvez nem tudo — Elsa murmurou para si mesma, servindo-se de uma tostada.

Anna lhe diria que não havia nada para curar, mas ela duvidava disso às vezes. Pensou em Nokk e no abalo que tivera na baia. Ia mesmo fazer aquilo? E se fizesse, quais seriam as consequências? Elsa não havia tido coração o bastante para levantar e considerar as variáveis com cuidado.

— Acho que meu pai deixar Hubert acender a fogueira primeiro nesse ano — Merida falou por entre migalhas de açúcar.

Elsa foi obrigada a sair do transe antes que ele começasse. Na festa, a fogueira principal era acesa por tochas de fogo da equipe de arquearia. E por quatro anos seguidos, Merida fora a arqueira do primeiro tiro. Era estonteante vê-la assumir o campo, mirar e então disparar contra o céu do crepúsculo.

— Vocês não podem atirar juntos?

— E deixar todo mundo saber que ele está me alcançando?

— Merida, isso não significa nada. — Elsa sorveu um gole longo do chocolate, derretendo-se pelo sabor. — Hubert fala sobre ser o primeiro arqueiro desde que você, porque te admira. A Festa da Fogueira não é uma competição, é uma comemoração. Não pode dar um espaço para ele?

Merida mastigou mais uma tostada. Suas feições indicavam a propensão a bancar a teimosa.

— Acho que sim — exasperou-se, abandonando o corpo contra o espaldar da cadeira. — Mas só dessa vez.

— É um começo já. — Elsa riu.

Terminaram os chocolates enquanto Merida narrava a semana confusa que tivera na universidade. Então, Tiana trouxe canecas fumegantes de chá e muffins de banana. E história da vez foi o quase banho de Merida no cocho de água dos cavalos. Elsa deixou que ela se derramasse em detalhes, em gestos para ilustrar os relatos com mais emoção e sorriu e riu o tempo todo.

Vê-la assim era como dar um pulo em algum dos anos da infância, quando brincavam de guerreiras que precisavam derrotar feiticeiros do mal, princesas que fugiam e salvavam a si mesmas, explorados que descobriam tesouros secretos em DunBroch. Era familiar, mavioso.

Em situações assim, o prazo que a atormentava não passava de uma mera impressão delirante. O mundo revolvia a coisas mais simples e doces, como o prazer de se provar as tostadas de Tiana e se sentar com Merida por uma hora.

— Esse foi o nosso segundo encontro? — ela brincou quando estava no caminho de volta para o centro.

— Nós já fizemos isso outras vezes. — Elsa a olhou de soslaio, traindo-se um pouco com um sorriso. — Então, se isso contar como um encontro, já tivemos vários.

— Acho que então o Shang tem razão. Nós somos mesmo um casal, só não oficializamos.

Elsa gargalhou com ela, cada uma tentando se enganar de que era uma ideia absurda. Mas a Festa da Fogueira estava batendo à porta, e aquele mais era uma centelha cadente entre elas.