Sora despertou com o cheiro agradável de comida que inundou o quarto, substituindo o cheiro das árvores da região montanhosa do Japão. Abriu lentamente os olhos e escanou o lugar atentamente, levando um tempo pra perceber onde ela estava. Um sorriso apareceu em seus lábios, que rapidamente se desfez quando ela girou na cama e viu o outro lado vazio. Piscou algumas vezes e sorriu novamente. A jovem se levantou e foi se preparar. Seu plano ia começar agora.

Yamato foi até o quarto depois de ter cortado algumas frutas pra colocar na bandeja e surpreender sua amada, porém tinha medo de derrubar tudo por causa do peso. Por isso levou a bandeja antes e ficou admirando-a enquanto dormia tranquilamente. Ele se sentiu muito feliz e sortudo por ter ela na sua vida. Sora era tudo o que ele procurava sem nem mesmo saber que estava procurando. Ela era doce, compreensiva, determinada e romântica, mas não de forma exagerada. Mas o que ele mais admirava nela era a forma que ela o inspirava a ser uma pessoa melhor e que ela sempre o incentivava a seguir seus sonhos. E ela teve um papel fundamental na sua decisão de ser astronauta.

Ele entrou no quarto distraído e colocou os potes na bandeja. Quando se virou pra acordá-la, encontrou a cama vazia. Em cima havia um bilhete dobrado. Ele o pegou e abriu.

Você já sentiu a grama sob seus pés hoje?

Ele não conteve seu sorriso enquanto percebia o que estava acontecendo. Ele queria surpreendê-la e ela teve a mesma ideia. Era tão típico dela transformar coisas que eram sobre ela pra outras pessoas. Ele guardou o bilhete no bolso de trás da bermuda e abriu a porta do quarto que levava ao jardim atrás da casa.

O sol já brilhava forte e Yamato teve que se ajustar à mudança brusca de luminosidade. Quando conseguiu, ele olhou ao redor e nem sinal dela.
"Sora!" Ele cobriu a boca com as mãos para ampliar o som de sua voz, mas sabia que ela não iria responder mesmo se estivesse perto. "Mas é claro, ela quer que eu a encontre. Então eu devo pisar descalço na grama.”
Ele tirou os chinelos e deu alguns passos à frente. No começo, a grama pinicou seus pés, mas logo depois sentiu a água do orvalho que ainda restava sobre elas os molhando. O loiro continuou andando e apreciando a sensação até que uma coisa no chão chamou sua atenção.

Era outro bilhete. Yamato se abaixou e pegou, rapidamente o abrindo atrás de uma pista.

Você viu como as águas daqui são limpas?

Ele deu uma risada suave, ainda não acreditando que Sora tinha planejado tudo isso em segredo. Isso estava ficando interessante. Ele dobrou o bilhete e guardou no mesmo bolso onde estava o primeiro e continuou sua caminhada.

No meio do caminho para o lago perto da casa, havia uma pequena plantação de mini-rosas vermelhas perto de uma cerejeira. Yamato parou rapidamente e pegou uma das rosas. A flor favorita dela. Ele aproveitou e pegou uma pequena flor de cerejeira de um dos galhos que pendiam ao chão pelo peso.

Quando ele finalmente a avistou próximo ao lago, escondeu as mãos atrás dele. Ela estava de costas observando a linda paisagem e ele ficou contemplando sua figura. Ela estava usando o vestidinho azul bebê florido que ele havia lhe dado no seu último aniversário. Ele era péssimo com roupas para presente, especialmente para ela, mas o sorriso largo e os olhos dela brilhando lhe mostraram que ele tinha acertado em cheio na escolha.
"Pra quem é bom em resolver enigmas, você até que demorou." Ela disse sem se virar.
"Na minha defesa, eu não estava preparado pra isso." Ele respondeu. "Como sabia que eu estava aqui?"
"Eu senti. Além disso, seu perfume é inconfundível." Sora olhou pra baixo e sentiu seu rosto corando levemente.
Mesmo estando juntos há quase 8 anos, ela ainda se sentia envergonhada com algumas situações.
"Eu fico feliz que seja inconfundível pra você."
Havia um tom de malícia na voz dele, o que fez Sora corar um pouco mais. Ela respirou fundo e apertou a caixinha em suas mãos. Yamato deu mais alguns passos e diminuiu a distância entre eles.
"Você não vai me perguntar pra que tudo isso?"
"Eu estava esperando que me dissesse."
Ela respirou fundo e finalmente tomou coragem para se virar. Suas mãos ainda seguravam a caixinha fortemente. O loiro sentiu seu coração disparar no momento em que seus olhares se encontraram. Mesmo depois de tantos anos, ele ainda se sentia do mesmo jeito de quando descobriu que estava apaixonado por ela.
"Nós percorremos um longo caminho até aqui, não é?"
Ele finalmente entendeu o motivo de todo esse mistério.
"Sora."
"Deixa eu continuar." Ela levantou a mão e ele se calou. "Quantas pessoas podem dizer que conhecer o amor da vida delas na infância? Acho que poucas, e fui sortuda o bastante pra ser uma delas."
Lágrimas se formaram nos cantos dos olhos dela.
"Nós tivemos nossos momentos de altos e baixos e passamos por muitas coisas juntos, especialmente recentemente.” Ela pausou para não chorar.
Ele sabia exatamente do que ela estava falando. Enquanto ele estava lidando com a perda com a ajuda do Taichi, ela enfrentou tudo sozinha. Somente semanas depois, ela conseguiu falar sobre isso e ele se sentiu culpado por não ter ajudado ela a superar, mesmo ela dizendo que estava tudo bem. A dor ainda vai demorar a passar, mas desde então eles têm se ajudado diariamente a superar isso.
“Mas eu sempre acreditei em nós, Yamato. Eu sempre acreditei no nosso amor, no que sentimos um pelo outro. Eu espero que você também."
Ele deu um sorriso tímido e olhou para baixo. Sora sabia que esse era o jeito dele dizer sim.
"Eu pensei muito antes de tomar essa decisão e na minha cabeça ela era inevitável." Ela finalmente revelou a caixinha nas mãos. "Yamato, você quer se casar comigo?"
Ele estava parado casualmente, ainda com as mãos para trás e com uma expressão neutra no rosto.
"Esse é o momento em que você diz se aceita ou não."
Ele então diminuiu totalmente a distância entre eles, o que acabou com o nervosismo dela de uma resposta negativa, mas fez seu coração acelerar. Seus olhos azuis a olharam atentamente com a mesma expressão neutra. Sora estava tão hipnotizada por eles que mal percebeu ele colocando uma mecha de cabelo atrás de sua orelha pra colocar a flor de cerejeira que tinha pegado momentos atrás.
“O que é isso?”
“Uma flor?”
Sora revirou os olhos, rindo. “Disso eu sei. Mas de onde ela surgiu?”
A expressão neutra no rosto de Yamato se desfez com um sorriso. “Você é tão boa com surpresas, e não prestou atenção aos pequenos detalhes. Estavam comigo o tempo todo, eu estava com as mãos escondidas.”
“Oh.” Foi tudo o que ela conseguiu dizer.
O loiro recuou um pouco e ergueu o queixo dela para poder observar ela com a flor presa no cabelo. Sua expressão suavizou e suas pupilas dilataram brevemente quando ele se deteve nos lábios dela.
“Yamato? Estou esperando uma resposta.”
Ele saiu de seu transe ao ouvir a voz dela. “Ah, verdade.” Ele ergueu a mão com a rosa. “Para você.”
Ela olhou a flor com uma expressão confusa por uns segundos. “Ela é linda.”
“Assim como você.”
A mulher sentiu se rosto corar novamente.
“Você fica tão linda quando fica envergonhada.” Ele colocou a mão na bochecha dela, do lado oposto da flor de cerejeira. A outra a abraçou pelas costas, trazendo-a mais para perto dele e colando seus corpos. “Sim, eu quero me casar com você.”
Sora sentiu todos seus músculos relaxarem e não tinha percebido que estava segurando a respiração até aquele momento. Ela colocou seus braços ao redor do pescoço dele enquanto inclinava a cabeça para o lado. Yamato colocou o outro braço na nuca de sua noiva e fechou a última distância entre eles. Ela correspondeu ao beijo imediatamente e sentiu suas pernas ficarem bambas, literalmente caindo em cima do loiro. Ele tentou segurá-la, mas não conseguiu e os dois foram ao chão.
“Meu Deus, me desculpa!” Ela rapidamente se levantou, envergonhada pelo que tinha acabado de acontecer.
“Meu beijo te deixou bamba, não é?” Ele disse com tom de quem estava se gabando. “Ele tem esse efeito.”
“Para sua informação, eu só estava emocionada por termos ficado noivos e pela surpresa. Então, não, não foi por causa do seu beijo.” Ela disse num tom descontraído.
“Se você precisa acreditar nisso.” Ele rebateu no mesmo tom dela.
Os dois riram da situação toda por alguns minutos.
“Ainda bem que estamos sozinhos aqui.”
“Não iam deixar a gente em paz se tivesse plateia.”
A expressão no rosto dele ficou séria. “Eu nunca vou entender como você consegue transformar coisas que deveriam ser pra você sobre outra pessoa.”
“Eu imaginei que talvez você fosse fazer alguma coisa. Alugar uma casa nas montanhas do Japão pelo fim de semana? Você já se entregou ao fazer isso, já que não é muito fã de frio.”
Yamato olhou pra baixo e deu uma risada sem graça. “Você me conhece tão bem.”
“Seria estranho se não conhecesse, estando juntos por quase 10 anos agora. Me surpreende você não ter percebido que eu estava planejando alguma coisa também.”
“Acho que parte de mim percebeu, mas não quis acreditar até agora de manhã.” Ele ergueu o rosto. “Então, você viu tudo o que aconteceu antes de acordar.”
“Sim. Eu vi você levando a bandeja. Eu acho que foi um gesto muito fofo e romântico.”
Um sorriso apareceu no rosto dele e seus olhos brilharam de felicidade. Sora sorriu ao ver a expressão dele.
“Eu amo como seus gestos são simples, mas cheios de significados.”
“Isso porque você não esperou pra ver o que mais eu tinha feito pra você.”
Sora ia perguntar o que era, mas se lembrou de algo e começou a procurar ao seu redor. “A caixinha com as alianças!”
Ela não estava tão longe deles, então ela engatinhou até o objeto e logo voltou a sentar ao lado de Yamato. Ela abriu a caixinha e eles olharam as alianças com encanto.
“Elas não são lindas?”
“Elas me parecem familiares.”
“Sério?” Sora engoliu em seco.
Yamato pegou a caixinha e tirou uma das alianças, examinando atentamente. “Hmmm. Você mandou gravar os nomes dos nossos brasões?”
“Sim, mas inverso.” Ela suspirou de alívio quando ele mudou de assunto. “Eu vou usar a do seu brasão e você, a do meu.”
“Muito esperta.” Ele pegou a mão dela e colocou a aliança. “Assim vamos estar sempre um com o outro.”
“Nós já estamos. Para sempre.” Foi a vez dela colocar no dedo dele.
“Para sempre.” Ele acariciou a bochecha dela e ela fechou os olhos com o toque suave da sua mão. “E eu estou curioso para saber como você conseguiu pegar as alianças que eu tinha comprado pra te pedir em casamento.”
“O Takeru me ajudou.” Ela deitou na grama e olhou para o céu sem nuvens.
“Mas é claro. Ele entrou no meu quarto sem que eu soubesse e as pegou.
“Foi exatamente isso.”
Ele deitou ao lado dela e ambos ficaram contemplando a paisagem acima deles. O loiro pegou a mão dela e a trouxe para seu peito.
“Eu preciso admitir que seu pedido foi muito melhor do que o meu.”
“Sério? O que você tinha planejado?”
“Nós íamos jantar num restaurante e eu ia pedir ali. O mesmo clichê que a maioria dos casais normais fazem.”
“Acho que somos tudo, menos um casal normal.”
“Você tem razão.”
“Você não ficou chateado por eu ter feito o pedido, ficou?”
“Claro que não.” Ele se apoiou no cotovelo e a encarou; suas mãos ainda entrelaçadas.
“Ainda quero saber o que mais você fez.”
“Eu escrevi uma música sobre nós.”
“Uma música?” Ela tentou se levantar, mas ele a puxou de volta. “Yamato, isso é ótimo! Faz algum tempo que você não escreve! Eu quero ouvir.”
“Nós vamos ter tempo pra isso depois. Agora eu quero ficar um pouco aqui fora e aproveitar essa paisagem.”
“Eu gosto dessa ideia.” Ela olhou para o alto. “Você já tinha feito isso antes?”
“Uma vez com o Takeru, quando éramos crianças. Mas foi no quintal de casa. No meio da natureza, é a primeira vez. E você?”
“Eu costumava ir à pracinha perto do meu prédio no final do dia e ver o pôr-do-sol.” Ela virou o rosto e o olhou. “Eu te amo, Yamato.”
“Eu também te amo, Sora.” Ele se inclinou sobre ela, mirando seus lábios e a beijou apaixonada e profundamente. Debaixo do céu azul.

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