Ao seu lado
1 Capítulo 1
Janela aberta:
uma respiração serena
ao meu lado
O quarto em que dormiam não podia ser chamado de silencioso, não raro eram os vários tipos de roncos e barulhos. Era um verdadeiro mistério como os seis irmãos conseguiam cair em um sono profundo todas as noites. Ou melhor, em quase todas. Havia vezes em que um deles acabava ficando com insônia, a fama quase sempre recaía sobre o terceiro filho. Porém, esta noite era exceção, sendo o quarto filho, quem dormia na extrema ponta esquerda, que estava sofrendo desse mal.
Isso se devia aos sons serenos que vinham do seu lado. A respiração regular de Karamatsu. Se apurasse os ouvidos podia acompanhar o movimento uniforme do diafragma expandindo e comprimindo, garantindo a manutenção da vida. Poderia até se embalar nessa melodia e, enfim dormir, não fosse ela também a causa de sua insônia. Afinal, era tão somente o fato de Karamatsu existir que o mantinha acordado.
O lampejo veio de súbito, momentos antes de se deitarem. Karamatsu lhe dirigira um breve sorriso, uma inocente oferta de chá quentinho preparado com todo o amor, um escárnio tão típico, um ato de prepotência que enfatizava uma vez mais sua incapacidade de agir por si só. Quão dependente devia ser de seus irmãos mais velhos, ou era só de Karamatsu? E então, na tentativa de responder a essa pergunta, um turbilhão de outros pensamentos o invadiu tirando-lhe o sono. Em sua maioria se deixava ser conduzido pelo irmão, deixava-se se admirar por ele, se encantar. Karamatsu era tudo que sonhava em ser.
Quando estavam na secundária o irmão começou a frequentar o clube de teatro do colégio. Nos primeiros meses fazia papéis secundários, geralmente com poucas falas, ainda assim era capaz de cativar o público de uma tal maneira que o professor passou mais tarde a lhe dar os papéis principais. Foi durante um ensaio para uma apresentação de Othello que sentiu algo se metamorfoseando dentro de si. Olhava o irmão declamar as falas de Iago com tal paixão, pensava até que a peça se chamava Iago, que sentia vontade de ser seu comparsa. Na volta para casa era o assunto que mais saía da boca dos dois, Karamatsu enchia o peito de um orgulho sedutor, ele ia ao seu lado dando todo o apoio, seus olhos brilhavam, o irmão ia com certeza roubar a cena neste fim de semana.
Em todas as apresentações, ele se sentava o mais próximo possível do palco. Chegava a sentir o odor das cortinas de pano antigas, um misto de sol e poeira, sentia o clarão dos holofotes e das luzes de palco, e principalmente seu coração bater mais forte em cada cena do irmão, cada monólogo recitado era uma brisa fresca contra seu peito. Sim, Ichimatsu queria estar mais uma vez ao seu lado. Só não sabia na época o significado daquilo.
Foi descobrir mais tarde. O nome dela era Rumi. Era dois anos mais nova que Karamatsu e pertencia ao mesmo clube de teatro. Em certa temporada o professor, seguindo o cronograma de Shakespeare, resolveu que iriam encenar Romeu e Julieta. Claro, o irmão iria ser Romeu e sua Julieta, Rumi. Não havia nada ocorrendo entre os dois, Ichimatsu sabia disso, ainda assim tinha a impressão em todos os ensaios de ver faíscas lançadas de um olhar ao outro, se fosse poeta diria que um era o satélite natural e a outra a sua estrela, ou seria planeta? Não que se importasse com isso, mas se importava com Rumi. Na verdade, durante toda aquela temporada, imaginou-se ainda mais como o comparsa de Iago, qual era o nome dele mesmo? Othello? Se imaginou como ele.
Foi então, a partir daí, que percebeu, estava irremediavelmente apaixonado.
Era um sentimento trágico, devia levar à morte dos dois, assim como na peça, afinal era de uma impureza de dar asco a qualquer um. Era verdade que todos os seis tinham o mesmo rosto, mas aos olhos de Ichimatsu era fácil distinguir Karamatsu dos demais, ele era o único, desde aquela temporada de primavera a possuir um brilho especial. Chegou até a desejar com todo ardor e febre que não tivessem nascido irmãos consanguíneos.
Sua mão começou a formigar, sentia vontade de chegar mais perto, traçar com a ponta do dedo seus contornos tão relaxados pelo sono, mas tão logo se repreendeu. Num ímpeto virou para o outro lado, mirando a parede. Sentiu seus olhos marejarem, e talvez por influência da brisa da noite, seus lábios tremerem. Levou uma das mãos à altura do peito e apertou com força o tecido do pijama.
Não há como eu confessar a você, mano. Como toda noite meu sangue aquece e se espalha por todo o meu corpo só de estar ao seu lado. Só um lixo da sociedade para ter tais pensamentos, eles combinam comigo, não é mesmo? E ainda assim... Alguém incrível como você, mano, não teria porque corresponder a tais sentimentos.
Sim, talvez tenham sido eles que me mostraram o quão podre eu sou. Graças a você, mano, descobri que não tenho valor para sociedade.
Sim, era tudo culpa dele, desse maldito Karamatsu. Com seu maldito sorriso de escárnio.
Deu um sorriso amargo. Sentia seu rosto aquecer e fechou com força os olhos. Resolveu virar-se novamente para o lado e para sua surpresa Karamatsu havia se revirado no sono, seus rostos agora estavam a poucos centímetros de distância um do outro. A respiração de Karamatsu roçou suas bochechas, percebeu que sua boca estava entreaberta. Talvez por instinto, sem se dar conta num primeiro momento, apalpou-se por cima do pijama, os olhos fixos no irmão. A sensação era reconfortante e se perdia completamente nela, lembranças vinham em tempestade e se confundiam. De repente apenas o tecido não era suficiente, adentrou a mão e começou um movimento de ir e vir por toda a extensão, dolorosamente ereta. Um gemido fraco se formava na ponta da garganta e relutava em sair. Quase perdendo o controle se aproximou ainda mais do irmão podendo sentir o calor de seu corpo e seu cheiro natural. Sua mente apagou-se e veio com força na palma de sua mão.
Quando recobrou a consciência sentiu-se envergonhado. Não era a primeira vez que fazia isso, mas sempre se sentia ainda pior depois. Tendo que limpar o estrago levantou-se e com cuidado foi até o banheiro, tirou uma caixa de lenços do armário em cima da pia e passou alguns sobre o pênis flácido e o tecido do pijama. Terminada a tarefa jogou os lenços sujos no cesto perto da porta e voltou para debaixo das cobertas. Caiu no sono logo em seguida, embalado pela suave respiração.
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