Ao mar

2 Tempestade


Os lustres iluminavam a enorme capela com pinturas de anjos, nuvens e pássaros sob as paredes de forma que tudo ganhava um ar celestial. Todos os bancos estavam sendo ocupados. Na frente, pelos mais nobres e próximos da família real e mais no fundo, pelos principais comerciantes que faziam a economia de Verena crescer. Do lado de fora, uma trilha de pessoas amontoadas esperando ansiosamente pelo momento em que a noiva pisasse nas escadarias da catedral como uma garota normal e retornasse tendo o título de rainha. A população inteira havia saído para as ruas para comemorar, até mesmo os que não haviam comparecido em pessoa.

Aramita esperava atordoada dentro de uma carruagem a alguns metros daquela euforia, um pouco impaciente. Marin, de frente para ela, dava palavras de incentivo e parecia não notar o quanto a tinha deixado incomodada com sua aparência.

Apesar de não ser sua intenção, Marin aparentava ser ela a própria rainha com seu vestido dourado escuro. Além dele, fitas douradas haviam sido presas discretamente deixando alguns dos cachos castanhos soltos na parte de trás. A coroa dourada com diversos diamantes chamava ainda mais a atenção e Aramita, por não estar usando nada sob a cabeça, acreditou que a enteada fazia aquilo por pura vontade de roubar seu momento.

Enquanto a noiva continuava em silêncio, Marin divagava olhando para fora se imaginando na igreja prestes a se casar com Henri.

Nunca esteve tão ansiosa para que a família aumentasse logo. Nunca sentiu vontade de governar. Essa era a dura verdade que tentava esconder do pai a todo custo. Ao longo da infância, nunca teve inclinação para mandar, era bem mais fácil fazer algo determinado por alguém. Nas horas vagas se dedicava à música, leitura e arte. Era péssima em qualquer coisa que tentasse retratar com fidelidade, mas criava quadros abstratos que faziam questão de dar para cada pessoa com quem criasse intimidade. As leituras se tornaram seu consolo a partir do momento em que passaram a lhe dar responsabilidades.

Com dez anos, acompanhava diariamente seu pai em reuniões com um bloco para anotar qualquer curiosidade ou dúvida. ela ficava ali apenas para escutar e absorver o peso que lhe seria dado no futuro, mas tudo o que fazia, era desenhar nos papéis do bloco rabiscos e sempre que possível, ficar perto da janela mais próxima do ambiente e observar a rua. Vendo que Marin não apresentava nenhum progresso, o rei decidiu dar mais tempo a ela para aproveitar um pouco mais a infância. Foi nesse instante que Lorena chegou ao palácio.

Aos doze anos, Marin começou a estudar política. Ou ao menos decorou tudo no momento para fingir que tinha aprendido. Nesse mesmo ano, seu primo chegou para iniciar estudos de administração, política, relações públicas e economia. Ela quase nunca o via, mas quando frequentavam a mesma aula, competiam com afinco para superar um ao outro. Passou quase um ano e ainda mantinham a mesma rixa para descobrir quem era superior, Lorena nessa época já havia desistido de tentar remediar conflitos e apenas assistia as discussões acaloradas entre eles. A rivalidade não durou muito após o incidente com Lorena . Os dois passaram a escutar um ao outro e se entendiam de modo que a amizade logo virou amor. Porém, por causa da certeza do rei de que o casamento dos dois viraria uma prisão para Marin, impedia qualquer futuro que os dois pudessem ter, mas mesmo assim, decidiram manter um relacionamento escondido.

Marin não tirava a razão de seu pai. Acreditava que o pai de Henry era a única coisa desfavorável a seu respeito, mas o amava demais para se casar com qualquer outro.

"Se não for com ele, não vai ser com mais ninguém " -pensou quando as duas atravessaram a trilha que abria o caminho naquela multidão nas escadarias.

As damas de honra, irmãs da noiva, todas com o mesmo tom de cabelo que Aramita, já estavam posicionadas apenas esperando que se aproximasse para sua entrada com as pétalas brancas.

Quando atravessou a porta logo depois da madrasta, todo o ambiente pareceu ainda mais iluminado, a expectativa e o olhar maravilhado de cada fileira, não passou despercebido. Marin sorria para todos que encontravam seu campo de visão e não deixou de perceber a discreta virada de Aramita em determinado momento para vê-la. Ao chegar no altar, a atenção dela se voltou completamente para Henry, que estava sentado na primeira fileira ao lado de seu pai. Ele estava usando um terno preto fosco e os cachos de seu cabelo pareciam ter sido enrolados um por vez. Não havia nenhum fio arrepiado à vista.

A cerimônia terminou, os noivos saíram na frente sendo saudados por todos, logo atrás as damas de honra, Marin e os mais próximos da família.

Tudo aconteceu rápido, mas Marin já estava exausta. Não sabia se teria disposição para participar da festa, mas como não queria dar uma impressão ruim logo no início do relacionamento com a madrasta, com um sorriso no rosto, recebia a reverência de todos com uma leve mensura e dava respostas vagas a quem perguntasse sobre o que achava da nova rainha. Quando foi a vez de Henry cumprimentá-la, foi difícil demonstrar indiferença assim como ele na frente do pai. Claro que devia saber algo a respeito dos dois, mas não precisava saber o quanto.

Depois de falar com quase todos, Henry apareceu ao seu lado dizendo o quão bela ela estava.

— Estou assim todos os dias, só agora que reparou? — respondeu ao elogio abrindo um grande sorriso.

Ele respondeu que agora todas as mulheres tinham consciência da própria beleza e que elogiar era a mesma coisa que apontar para algo que todos já estão olhando. Ele continuaria falando sobre o assunto se Marin não tivesse o interrompido para falar sobre o noivado dos dois.

— Não foi dessa vez- ela lhe disse soltando um suspiro de pesar.

— Ele lhe disse o motivo? Quando pedi a sua mão pela primeira vez, seu pai apenas disse que você era muito jovem para se casar — Henry contou olhando ocasionalmente ao redor para ver se ninguém mais estava ouvindo — Mas já se passaram três anos e novamente sua resposta foi um não, sem explicação nenhuma. Acredito que não goste mesmo de mim.

— Não é isso — Marin negou veemente. Resolveu contar sobre a desavença de seus pais, o mais baixo que conseguiu. Henry parecia surpreso, mas nem tanto. Conhecia o caráter do pai melhor do que qualquer um.

— Talvez ele até pense nisso- falou pensativo se referindo ao pai — Mas eu nunca permitiria — seu rosto agora estava sério olhando bem nos olhos dela — . Já não basta o controle que tenta exercer sobre mim... Eu prometo. Sempre a protegerei de qualquer coisa, principalmente de meu pai.

Henri segurou sua mão por breves segundos antes de soltá-la novamente.

— Não fique tão sério a respeito disso. — aconselhou Marin desfazendo a careta preocupada que havia aparecido em seu rosto — Nós ainda temos uma prisão. Qualquer coisa, nós apenas o colocamos lá. Simples assim.

Ele riu de seu comentário e logo sua atenção se virou para a entrada do outro lado do salão, onde se iniciava uma aglomeração. Sem dúvida, os recém casados enfim chegaram a festa.

— Melhor ir até lá. Não acho que seu pai ficará feliz em nos ver juntos hoje.

— Tem razão- concordou se preparando para ir até eles quando hesitou e perguntou sorridente — guarde uma dança para mim depois, está bem?

— Se vossa majestade quiser, guardarei todas. — debochou fazendo uma leve mensura.

Os dois deram uma gargalhada silenciosa e cada um foi para um lado.

Marin pedia licença e abria o caminho sem pressa entre as pessoas para parabenizar o casal. Seus pés doíam muito por causa do sapato e alguns laços já queriam se desprender do cabelo de modo que vários cachos já pendiam sobre a clavícula. Marin prometeu a si mesma que dançaria uma vez com Henri e logo em seguida iria para o quarto descansar.

O casamento tomou a manhã inteira mesmo sendo rápido, a festa com certeza não tinha um horário definido para terminar.

Quando estava perto o suficiente para ver a cabeça de seu pai acima das pessoas, escutou um grito esganiçado carregado de dor.

— Meu deus! — alguém gritou acompanhado de outras exclamações surpresas.

As pessoas começaram a se agitar. Marin se aproximou mais e ao ver a madrasta caída no chão gemendo e dizendo coisas incoerentes com sangue escorrendo de seu ventre, ficou completamente imobilizada pelo choque. tentou encontrar alguma expressão no rosto do pai, mas ele não disse uma palavra, apenas segurava o pescoço com os olhos arregalados em sua direção como se gritasse silenciosamente " fuja", caindo no chão logo em seguida com a cor se esvaindo aos poucos de seu rosto ao mesmo tempo que o sangue pela abertura no pescoço.

Ela não conseguia desviar o olhar do pai, nem para ver quem era o responsável. Todos ao seu redor tinham tido uma reação parecida. Ninguém se mexeu. A música continuava a tocar e o restante das pessoas no fundo nem tinha reparado ainda.

As pessoas só se moveram, quando vários homens entraram pela mesma porta que o casal com armas em punho escolhendo alvos específicos entre os convidados e indo em direção a eles de forma agressiva.

Com a correria geral, todos descobriram o que havia acontecido.

Marin se ajoelhou sob o corpo do pai e fechou os olhos dele com os dedos. O vestido dourado agora estava empapado com o sangue dele e sua mente não conseguia processar nada. Ninguém parecia vir em sua direção. Todos corriam como formigas prestes a serem pisadas. Gritos, gemidos, sangue... Tudo acontecia de forma tão rápida.

Ela sabia que tinha de fugir, mas suas pernas não obedeciam. Permanecia ao lado do corpo do rei falecido chamando e pedindo que abrisse os olhos que ela mesma havia fechado de forma incoerente.

— MARIN! -gritou desesperado. Henri tentava chegar até ela, mas a multidão correndo e os corpos no chão o tornavam lento, mas mesmo assim persistia — MARIN, SAIA DAI.

Marin virou o rosto contorcido de tristeza para ele bem devagar.

— MARIN!

Um dos invasores agarrou Henri por trás, mas ele se debateu e o jogou sob o corpo de uma mulher vestindo lilás com leve tom de vermelho. Tentando retomar seu trajeto, outros dois o agarraram e bateram com algo em sua cabeça que Marin não conseguiu ver porque foi igualmente pega.

Era como se visse tudo em terceira pessoa. Só podia ver a cena, mas nunca interferir nela.

Ao virar a cabeça para cima a fim de ver quem a arrastava, ficou mortificada ao reconhecer o rosto contraído do tio.

Os dois deixaram o salão tingido de vermelho e coberto de gritos se dirigindo para o quarto mais próximo. Ele a jogou num divã de forma brusca e Marin caiu como se fosse uma boneca que não se movia sem ajuda.

Seu tio pegou uma corda de linho grosso e amarrou as mãos dela sob as costas. Marin tentou se mexer e acabou caindo do divã para o chão.

O tio a virou e a sacudiu para se certificar se estava de fato viva. Com nojo de estar no mesmo ambiente que ele, Marin virou novamente o rosto para o chão com os cabelos grudando cada vez mais por causa das lágrimas que saíam sem parar.

Pai.Pai. Pai. Meu pai. Ele está morto. Seu sangue está no meu vestido. Consigo sentir o cheiro. — pensava ela — Pai. Pai. Pai. Você pode me escutar?

Parecia que não havia fim para as lágrimas de Marin. seu tio que até agora estava sentado no divã, se levantou e espiou a janela antes de falar.

— Por que está desse jeito Marin? Deveria estar agradecida por ter sido poupada. — ele dizia aquelas palavras como se estivesse repreendendo uma criança malcriada -Estava tão linda hoje. Uma verdadeira rainha. Não estrague isso agindo assim .

Ao escutar aquelas palavras, a raiva e a tristeza a deram coragem de reagir.

— Por quê? — perguntou com a voz esganiçada carregada de mágoa — Por quê? Meu pai...Por que fez isso? Você é da família!

Com o rosto colado ao chão ela não conseguia ver seu rosto e a impotência fez com que mais lágrimas caíssem.

— Posso ser da família, mas ele não pensou nisso quando se casou com Aramita.

— Ela poderia ter recusado! — quase gritou se debatendo tentando de todo o jeito se soltar.

— Claro, gananciosa como era, não deixaria de aproveitar a oportunidade de virar rainha. Aquela meretriz poderia estar ao meu lado se não fosse tão tola! — sua voz estava carregada de ódio e pesar — Você tem sorte de possuir o amor de um bandido, senão estaria junto de seu pai agora. Não pense que nunca gostei de você, mas é que a senhorita é a única que pode me atrapalhar.

— Bandido?

A porta foi aberta com violência e Marin não conseguiu ver de imediato quem era por causa do cabelo sob a face

—Disse que não faria nenhum mal a ela! — brandiu irritado a erguendo do chão com apenas um puxão.

Marin não conseguia reconhecer a voz.

— Ela está viva, não é mesmo? Saia logo daqui antes que eu mude de ideia.

Uma espada foi sacada na mesma hora na direção da garganta do homem.

— Melhor não fazer ameaças agora majestade — ele praticamente cuspiu aquelas palavras. — Ainda não conseguiu o que tanto almeja oficialmente.

— Ela nunca mais pode colocar os pés neste reino, está ouvindo? — rugiu mesmo com a faca perto do pescoço.

— A princesa está morta junto com o pai e a meretriz. Se descobrir que você está navegando por perto, irei mandar alguém para enviar seu navio para as profundezas.

O homem ignorou o comentário,cortou as cordas do pulso de Marin e a levou em direção a porta para ir embora.

Marin passou pelo salão banhado de vermelho sendo puxada pelo pulso a passos rápidos, como se o homem não quisesse que ela visse o ambiente ao redor, mas era impossível ignorar a cena. Seu pai ainda estava no mesmo lugar e posição. Marin até tentou ir ao seu encontro, mas foi impedida.

A maioria dos corpos no chão eram homens e Marin não conseguiu identificar Henri em nenhum deles. Com um suspiro ela torceu para que estivesse bem. Seu tio não poderia fazer nada com o filho ao menos. Era seu único legado, assim como ela, era o único de seu pai.

Marin mal conseguia acompanhar o ritmo dele e ficava se perguntando do porquê de tudo aquilo. Para onde iria? Quem era ele de verdade?

Alguém capaz de invadir o castelo e ajudar a matar dezenas. Um bandido...

Marin não conseguia pensar com coerência enquanto tudo se desenvolvia com rapidez.

O homem a levou para os estábulos onde lhe deu uma roupa mais discreta, mas igualmente refinada e botas para que conseguisse prosseguir sem dificuldades. Enquanto tirava o vestido com cheiro de ferrugem, procurou por um meio de defesa entre o feno e a cerca, mas só encontrou um longo prego enferrujado quase do tamanho de sua mão.

Henri dizia que era sempre bom ao menos ter uma opção ao invés de ser resignado e Marin decidiu que aquilo faria ao menos ela se sentir menos indefesa. Era um prego no fim das contas. Já tinha escutado que era possível matar alguém até mesmo com uma chave, não que fosse essa a sua intenção. Enfiou o prego na bota com a mão trêmula rezando silenciosamente para não ter que usá-lo.

—Já terminou? — ele perguntou fazendo menção de se aproximar do cercado onde Marin tinha se trocado.

—S-Sim. — respondeu saindo de forma apressada dali.

—Vamos logo- ele pegou novamente seu pulso, mas Marin o puxou contra o peito com o rosto contraído de indignação sem dizer nada — Está bem, vá na frente.

Mesmo assim ele colocou a mão em seu ombro como se tivesse medo que Marin corresse para longe a qualquer instante.

Ela de fato sentia vontade de correr, mas não tinha certeza de que conseguiria estar em segurança no palácio, com aquela carnificina logo no salão principal.

Do lado de fora do grande portão de ferro, havia um grande carroção atrelado a dois garanhões com alguns homens. Vários deles tinham atuado no ataque e possivelmente qualquer um poderia ter matado o pai de Marin. Com o pânico evidente no rosto da princesa, o homem apenas se desculpou e colocou um pano em seu rosto a fazendo adormecer para evitar qualquer aborrecimento. No estado em que se encontrava, desmaiar não foi algo difícil. Ela precisava de um tempo para assimilar o que tinha acontecido. E ficar inconsciente era o ideal para não passar o caminho inteiro até o porto na presença dos responsáveis pelo massacre que haviam deixado seu lar manchado de sangue.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.