Ao decair do último floco de neve...
9 ❄ Capítulo 9 - Algo sobre dezembro... ❄
Notas iniciais
A neve caia lentamente lá fora enquanto o sol fraco despontava no horizonte escuro, não saberia dizer por que estava ali sentado em meu quarto com as luzes apagadas observando aquela paisagem... Havia acordado 10 minutos antes do que eu deveria mas aquele dia era um dia único para mim, o primeiro dia do mês de dezembro, o dia em que, a 5 anos atrás eu nascera. O pijama eram peças simples na cor azul tão claro que quase chegava ao branco, um shorts e uma regata.
O tempo ali incomodaria qualquer um, mas não a mim... Eu adorava sentir aquela brisa gélida que entrava pela janela trazendo consigo os flocos de neve que se prendiam em meus cabelos castanhos. Os braços envolviam minhas pernas e o queixo estava apoiado sobre o joelhos, os olhos munidos de íris azuis cristalinas estava atentos a cada floco de neve que caia e graciosamente era levado pelo vento, um sorriso se formou em meu rosto aos poucos, as bochechas estavam rosadas e eu me desejei um feliz aniversário em silêncio.
Nos livros que eu lia, as crianças ganhavam festas repletas de presentes e fitas e sorrisos, quanto a mim? Eu ganhava minha rotina, que incluía um treinamento matinal no qual eu deveria estar fora da cama as seis em ponto, olhei para os ponteiros do relógio e decidi me levantar. O aniversário não era motivo para surpresas e presentes, a única coisa que eu poderia comemorar era o fato de ainda estar vivo depois de dois anos de treinamentos intensivos e algumas falhas na missão de cuidar do jardim de inverno de minha mãe. Tirei meu pijama e abri o armário no qual se encontravam algumas peças de roupas peguei a usual camiseta branca regata e as calças feitas de um tecido confortável.
Eu já era bem independente para a minha idade, não dependia de ninguém para me vestir, comer, e até mesmo solucionar alguns pequenos problemas, o senhor Tats. me dissera que este era o melhor modo de se viver, sendo independente e já me acostumara ao horário obrigatório de para estar de pé e alinhava minha roupas em frente ao grande espelho que havia em meu quarto, os pesadelos com o reflexo dele em certa noite ainda me atormentavam mas eu deveria ser forte.
"O medo é uma barreira Cameron, não pule por cima, não desvie... destrua!"
Era uma de muitas frases do treinador que giravam em minha mente, suspirei para meu reflexo e alinhei a postura deixando a determinação assumir meu semblante, ao menos tanto quanto uma criancinha de cinco anos poderia parecer confiante sem estar risonha. Os fios de meus cabelos agora ganhavam mechas num tom de castanho claro em meio aos prevalecentes e dominantes fios castanho escuro, uma prova de minha melhora e empenho no treinamento, como prometido por lady Quione meus cabelos estavam clareando ao passo que os treinamento se tornava mais intensivo e mesmo caindo eu sempre levantava.
Irrompendo pelo corredor a fora, caminhei ao longo do tapete passando por diversas portas repletas de arabescos delicados e perfeitos cada uma com sua beleza única realçada pelos primeiros raios de luz solar. Ao fim do corredor uma silhueta muito conhecida se encontrava a porta, como sempre ele me esperava de costas para a porta, a ameça dele era que se eu não chegasse no horário ele fecharia a porta e então eu teria de entrar de algum modo ali...
— Bom dia senhor Tats...
— Bom dia Cameron, vamos começar.
Assim que passei ele nos fechou ali dentro da sala de treinamentos, uma ambiente com teto abobadado e repleto de armas nas paredes, haviam também uma pequena pista de obstáculos e outras armadilhas que aquele homem de barba cerrada branca como os cabelos de sua cabeça sempre prepara para mim. Naquela manhã o treino começara com uma seção de abdominais, flexões, corrida e golpes em um saco de pancadas feito de gelo puro, algo ao qual você não iria querer socar e tentar se desviar em seguida.
[...]
Passadas algumas horas eu já estava exausto e completamente molhado pelo suor, a respiração era frenética e assim teria de se manter, ele sempre me dizia para despertar meus instintos naturais de batalha por meio da adrenalina. Aquilo era excruciante e doloroso, já havia enfrentado a pista de obstáculos, corrido ao redor do palácio e encarado um saraivada de espinho de gelo aos quais eu tinha que desviar ao ponto de sair intacto e pelos cortes espalhados pelo corpo onde os filetes de sangue vertiam sobre os membros e tingindo as roupas de vermelho era óbvio o meu fracasso. Só mais um desafio e eu poderia concluir aquele dia, lutar contra um golem de gelo que era um pouco maior do que eu.
Com um comando de meu mestre a luta se iniciou e socos e chutes foram disparados pelo ar, giros e urros de dor e descarga de energia enquanto eu buscava a vitória ou ao menos um desempenho satisfatório. Certo tempo depois com o estômago doendo e assim com o joelho direito e a maçãs do rosto, eu me encontrava de bruços no chão com as lágrimas sendo seguradas nos olhos marejados.
— Vamos lá Cameron, não dê uma de fraco agora, pare de se comportar como um bebê chorão e se levante e lute como um homem! Não acredito que dará um desgosto desses a vossa mãe.
Senhor Tats. falava em um tom frio e sem emoções encostado na parede, eu não podia deixar aquilo acontecer, não agora e nem naquela data! Os punhos trêmulos se cerraram e então comecei a me reerguer aos poucos esfregando os olhos e engolindo o grito de dor preso na garganta, meu oponente estava trincado em alguns pontos e eu precisava pensar...ergui os punhos de mãos dedos finos
e pequenos e então cerrei a expressão, prometi não chorar, não coraria nunca mais! Avançamos um contra o outro e na colisão uma explosão de neve ocorreu bloqueando a visão do local, assim que aquele tempestade abaixou meu treinador sorriu satisfeito, meu braço atravessava o peito do golem apesar de suas mãos estarem em volta de meu pescoço o apertando.
— Até que enfim, já pode se retirar... ah e Cameron, feliz aniversário.
Meu oponente desmoronou em blocos de gelo e montes de neve enquanto senhor Tats. se virava de costas e saia da sala pela porta que havíamos entrado, mesmo cansado ainda consegui sorrir ante de recolher o braço, alguém lembrava além de mim... Não perdi tempo em voltar para o quarto, já que o treino dos poderes e concentração seria apenas mais a noite, e assim que fechei as portas me dirigi até o banheiro para tomar um banho frio e em seguida até a caixa de primeiros socorros na estante, aquilo era parte da rotina já que eu era proibido de usar qualquer tipo de cura mágica, a dor era algo necessário eles diziam não acreditava tanto nisso pelo fato de eles não estarem a sentindo mas o que eu faria? Me rebelar contra todos não seria lá um ideia muito inteligente.
Suspirei, o que fez a dor aumentar um pouco e dei incio aos curativos começando pelos punhos onde os nós dos dedos se rasgaram e passando para o peito e depois a perna até recobri-los de unguento e as faixas. Coloquei então as roupas sociais e sai novamente. Durante o banho havia pensado sobre algo prazeroso para fazer sem que fosse considerado desnecessário o que só me levou a uma alternativa, a biblioteca.
O lugar era repleto de conhecimento, mas estudar não era minha prioridade naquele momento, cruzei as portas e continuei a andar em meio as prateleiras até o centro da biblioteca que abrigava um belo piano de calda branco, o carpete era macio como a própria neve e eu adorava aquela época do ano, não só pelo meu aniversário mas também pela chegada do natal, obviamente era um feriado cristão, mas havia caído no gosto popular e possuía diversas outras formas como o Hanukkah ou o Kwanzaa, mas o que eu gostava mesmo era de poder passear pela cidade de Quebec, a vendo toda iluminada e tão bonita... tal lembrança me fez sorrir enquanto eu me sentava no banco e abria o tampo revelando as teclas brancas e negras.
Só tinha aprendido uma música até ali, um clássico de Beethoven chamado Sonata 25 Op.79 — II — Andante e mesmo assim ainda errava certas notas, mas antes de toca-la eu precisava fazer algo, olhei pelos arredores e soltei um risinho inocente e baixo, dedilhei o piano tocando uma versão de "Happy Birthday to You" cujo a partitura eu havia "pego emprestado" de um livro dali mesmo. Na minha versão eu cantava "Happy Birthday to Me" e sorria ao ouvir o som certo sair das cordas do piano, realmente eu estava feliz, era mais um ano de vida e eu havia conseguido novamente algo que faria por muitos outros anos a frente... viver. Passei ao fim para a música do grande e renomado Ludwig Van Beethoven, trocando as partituras e colocando as mãos enfaixadas sobre as teclas daquele magnifico piano a música me levava a um mundo onde a dor já não existia mais, o mundo dos sonhos de um pequeno floco de neve...
Fale com o autor