Ao decair do último floco de neve...

5 ❄ Capítulo 5 - A base de um guerreiro ❄


Notas iniciais
Trilha Sonora: Radioactive - Imagine Dragons

Já haviam se passado três anos desde que o garotinho de cabelos negros nascerá. Ele possuía muito da mãe. A pele pálida, os cabelos lisos de ébano, porém o que mais chamavam atenção eram os olhos... Eram azuis como os de Matthew, em um tom tão claro que chegava a parecer um reflexo em uma placa de gelo. Aquilo fazia Quione recordar do passado mas ela não ficou muito tempo com o bebê, já se via livre da gravidez que a prendia e não suportava a ideia de permanecer parada, mesmo sendo uma mãe agora. Um ano após o nascimento do garoto, Quione havia voltado a se aventurar no mundo mortal e acabado por gerar outra criança... Uma garotinha de cabelos pálidos como a própria neve cujo o nome era Tiffany.

Cameron crescia em um ritmo comum e em seu terceiro ano de vida já havia aprendido a andar, nada havia mudado muito no palácio já que eram os servos que tomavam conta da criança, porém os boréades permaneciam vigilantes no semideus. Certo dia, um dia frio de janeiro, Quione pensava calmamente sentada em seu trono. Naquele momento a sala estava silenciosa e seu pai, Bóreas, havia se ausentado por motivo de uma convocação de Éolo, o senhor dos ventos. A promessa lhe rondava a cabeça dia após dia e agora ele teria mais de um guerreiro para criar para sua família. Ela moveu a mão e a neve rodopiou pela sala se concentrando logo a frente de seu trono e tomando forma de uma humanoide que permaneceu ajoelhado perante ela.

— Traga-me o Tatsume, agora mesmo.

Sua voz imponente ressoou pela sala e o humanoide de neve se levantou e se moveu. Os boréades possuíam uma vasta coleção em seus jardins e na sala do trono, coleção essa composta de estátuas de gelo de pessoas reais. Aquela não eram meras esculturas, era um grande número de pessoas e seres que já haviam sido congelados por vingança, desobediência ou pura vontade. O boneco de neve se moveu por entre os rostos aterrorizados e então chegou ao de um homem que cerrava os punhos com a expressão firme. Ele se assemelhava à um soldado pronto para a batalha mas sem ter armas em punho. A estátua fora levada até a sala do trono e o servo de neve se desfragmentou assim que reverenciou a deusa. Ela examinou com cautela o homem de pele azulada pelo frio e em seguida soprou o ar fando com que a camada de gelo que o cobrisse se derretesse instantaneamente.

— Nous saluons le retour, Tatsume. Aproveitou seu descanso?

A ironia estava presente na voz da deusa e seu sorriso frio era destacado. Tatsume tremia violentamente por conta do frio e acabou por cair ajoelhado diante de Quione. Ele abraçou o corpo enquanto a mandíbula batia e Quione suspirou impaciente, com outro movimento de mãos ela fez o frio se afastar do homem que continuou abraçando o corpo.

— E então? Vai ficar ai o dia todo? Não é nada educado não manter contato visual durante uma conversa...

— O que você quer de mim? — Ele disparou instantaneamente erguendo a cabeça.

— Assim esta bem melhor.

Ela sorriu. Tatsume era apenas um mortal canadense com origens asiáticas que chegara até o palácio dos deuses em busca de um favor a muitos anos atrás. Apesar de não ser um semideus sua ancestralidade antiga lhe deu um toque de grego e ele possuía o dom de ver através da névoa, foi assim que conseguira chegar tão longe e por isso o mantiveram vivo. Há muitos anos atrás, na época da guerra algo-americana de 1812, aquele homem havia fugido de sua colonia em busca de ajuda para o Canadá, que era uma colônia britânica e estava sendo invadido pelos estados unidos. Havia um antigo pergaminho em sua família que lhe foi dado por seu pai e que atravessava as gerações, a lenda dizia que assim que seus antepassados imigraram da Asia para aquela colônia, um misterioso homem os ajudara a achar o caminho até um vilarejo e oferecera uma pequena ajuda no futuro, mas apenas em caso emergencial. Aquele homem era Bóreas e aquele pergaminho era um mapa.

Tentando fugir da desgraça, fome, doença e destruição que se abatia sobre suas terras, Tatsume fugiu para Quebec em uma longa jornada com apenas uma coisa em mente... Salvar aqueles que amava. É claro que os tempos haviam mudado e ele não foi tão bem recebido pelo poderoso vento norte. Bóreas não concordou em ajudar a salvar o seu lar por que alegava que Éolo o proibiria mas resolveu manter a vida de Tatsume intacta. Agora ele encarava aqueles olhos frios da garota... Tão gélidos quanto os de seu pai.

— Eu tenho uma missão para você, mon ami, um acordo por assim dizer.

— E por que ajudaria? Sua fa-fa-família se mostrou um tanto quanto rude para comigo e com meus en-entes.

— Mas meu pai salvou sua pobre e miserável existência, além da de seus antepassados. Em todo o caso você tem duas escolhas, aceitar minha oferta ou morrer por hipotermia.

O sorriso leve brincava na face de Quione, aquele mero mortal não iria interferir em seus planos. Ela o escolhera por que ainda se lembrava da boa postura e também por causa de seus relatos até ali. Antes de ser trancafiado no esquife de gelo, seu pai havia submetido aquele homem há alguns testes e ele não se saíra tão mal em todos. Se alistara no exercito e estava em combate contra os invasores quando teve de voltar para o lar e recebeu a ordem do pai que já estava velho, era um bom lutador. Em contra partida, Tatsume tremia no chão, ajoelhado e sem forças suficientes para lutar contra um força maior ele se via encurralo como um rato em um beco de gatos. Não havia escapatória. Ele presava por liberdade de sua prisão mas não podia dizer quantos tempo já havia se passado. Para ele não era mais que algumas horas mas o palácio já se encontrava totalmente diferente. Seus dentes batiam freneticamente e os espasmos estavam piorando.

— Tolo, você não tem mais que alguma horas, talvez até minutos, de vida antes que o seu corpo sucumba as baixas temperaturas. Escolha!

Ela adorava aquilo. O poder de uma vida estava em suas mãos e ela não poderia perder, sabia que teria dele o que queria e se deixou permanecer calma e frigida.

— Que a-a-acordo é esse?

— É bom ver que esta indo pelo pensamento certo. Eu tenho um guerreiro para deixar à seus cuidados, seu nome é Cameron e ele é minha prole. Preciso que ensine a ele como lutar e se defender da forma mais rude que puder, não quero que poupe forças, ele precisa aprender a cair e se levantar sem que uma lágrima escorra.

O homem não podia acreditar no que ouvia. Aquela mulher só podia estar maluca. Mesmo tendo uma rígida educação, Tatsume jamais ouvira alguém falar daquele modo. Os pensamentos sobre uma jovem daquela ter um filho o fez sentir dó da criança. Ele ansiava saber o que havia acontecido com sua família mas antes precisava de mais detalhes.

— Quantos a-a-anos?

— Três. Mas quero que comece o mais rápido possível. Providenciarei para você tudo que precisa incluindo um quarto, novas fardas e um rápido treinamento adequado porém terá de jurar fidelidade aos boréades e nunca mais poderá sair deste castelo. É pegar ou largar.

Era pior do que ele pensava. Apenas três anos e ser obrigado a conviver com seres tão cruéis? Pobre criança. O gelo se acumulava entre os cabelos lisos e também lhe cobria as mãos que, como os lábios, já estavam tomando um leve tom de roxo. Não havia escolhas e aquela era a sua melhor chance... A única chance. No futuro quem sabe ele pudesse acertar um novo acordo para com aquela família.

— E-e-eu aceito...

O sorriso que Quione se fez presente. Vitória confirmada.

— Agora, diga em alto e bom tom "Eu, Tastsume Higashi, juro em nome da neve do norte servir à família dos Boréades de agora em diante e para sempre, até o fim dos meus dias ou dos tempos. Entrego minha vida nas mãos de Quione e que assim seja."

Ele repetiu tremendo. Já era incontrolável. O frio estava queimando e corroendo suas veias a ponto de ele ter que se curvar para a frente, mas assim que terminou o juramento algo começou a acontecer. Os flocos de neve caiam e rodopiavam pelo salão e os ventos criavam um casulo ao redor dele, a temperatura começou a lhe parecer mais agradável a cada instante.

Quione estava mais que satisfeita, ela sempre conseguia o que queria e observou o homem à sua frente mudar aos poucos. Sua pele ficou mais pálida, seus cabelos se tingiram de branco desde a raiz até as pontas assim como a barba rala que estava por fazer, e suas íris assumiram um tom leitoso que contrastava com os pequenos pontos azulados de as pupilas negras e profundas. Ela não revelou a ele que assim que assinasse o acordo ele perderia todas as memórias de seu passado mas não era um fato tão importante, ela precisava de um treinador e não de um qualquer. Assim que a neve parou de espiralar e começou a se dispersar ela deu de cara com um novo homem em posição de reverência com uma joelho e um punho co chão esperando as ordens de seus senhores.

— Levante-se Tatsume.

Ele a obedeceu e se erguem sem problemas, parecia novo em folha. Tinha expressão rígida porém calma e se mantinha em excelente postura... Era perfeito para seus planos. As roupas também haviam sido repostas por peças completamente brancas, uma calça leve, sapatos e até mesmo uma camiseta de manga longa.

— Já tem conhecimento de sua missão. Agora você serve os boréades e treinará meu filho Cameron para que ele seja um guerreiro digno de honrarias. Já pode se retirar aos seus aposentos, peça para a serviçal na porta para que o leve a seus aposentos e esteja preparado pela manhã para começarmos os planejamentos.

— Sim, majestade.

Ele a reverenciou e se retirou da sala dos tronos sem pressa. Por algum motivo já não se afligia com a temperatura e tampouco com seu destino, era hora de mudanças. A mulher de vestido simples o encontrou na saída e o cumprimentou, eles conversaram rapidamente e ele fez um pedido seguido de uma explicação. Ela assentiu e o levou pelos corredores do palácio até chegar a duas portas com alguns desenhos entalhados. Era padrões geométricos simétricos como os flocos de neve. Amos adentraram o local e deram de cara com um berço onde uma pequena criança de cabelos brancos dormia de forma calma e inocente. O homem segurou nos estrados do berço e deu um leve sorriso mantendo a voz baixa.

— Olá pequeno Cameron, é um prazer conhece-lo... Sou Tats e temos muito trabalho a fazer...

Notas finais
Como puderam ver, as coisas começam a ficar mais interessantes agora. Será que Tatsume se lembrará de sua família algum dia? E quanto ao pequeno Cameron? Ele sobreviverá ao que lhe aguarda? Difícil dizer, então esperemos para que a próxima brisa de inverno nos traga as respostas...