Ao decair do último floco de neve...
16 ❄ Capítulo 16 - Algo a recordar ❄
Notas iniciais
O tempo fora de Quebec se passava da mesma forma, porém com algumas peculiaridades. O tal chamado Acampamento Meio-Sangue parecia ter sido coberto por magia para manter sempre a mesma temperatura, um clima ameno que não me era muito agradável e conhecido, mas que também não me afetava pelo fato da aura gélida que se acercava ao redor de meu corpo. Foi de fato uma surpresa descobrir que lady Quione possuía um chalé nos domínios, visto que eu era seu primogênito e que era a primeira vez que pisava em tal lugar. Curioso, mas nada extraordinário.
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O chalé era nada menos que um casebre de inverno com dois andares construído em madeira, da mesma forma que eram construídas as cabanas de férias de inverno que haviam no Canadá, acima dele havia uma pequena nuvem de onde caia uma constante e leve sequencia de flocos que dançavam no ar até que atingissem o telhado e os espaços que lhes eram permitidos, formando assim um manto branco sobre os tons da madeira. De acordo com os campistas aquele era um feitiço feito pelos filhos de lady Hécate, a deusa da magia, e devo admitir que seus pequenos sacerdotes haviam feito um bom trabalho. Era uma verdadeira visão a se admirar.
A temperatura permanecia a mesma até o momento em que atravessei os limites que separavam os arredores do chalé com o resto da área comum. Neste momento senti a velha brisa fria me abraçar novamente e depois de um pequeno momento de conforto, eu segui para as escadarias da varanda simples e vazia. A porta se abriu com um leve ranger e o local estava vazio, o que fazia sentido. Ao lado da parede, havia um interruptor simples que ascendeu as luzes assim que trocado de posição. Havia um tapete felpudo de cor creme sobre o chão em frente a lareira apagada, ao redor dele, poltronas e um sofá de dois lugares. Á direita se encontrava algo que se assemelhava a uma pequena cozinha, com um balcão e um fogão elétrico ao lado da pia, na altura do meu nariz estavam os armários, aos quais não toquei. As janelas estavam fechadas e espessas cortinas as cobriam, a escada para o andar superior, que presumi ser onde os quartos se encontravam, estava a direita da porta em frente à outra poltrona. Seria ótimo continuar a analisar e explorar o local em tons de marrom, cinza e bege, no entanto eu possuía outros deveres a serem executados, então deixei a mala ao lado da entrada a abrindo apenas para pegar meu terno cuidadosamente dobrado.
Haviam me dito que, naquela noite, haveria algum tipo de celebração ao redor na fogueira no acampamento, no entanto eu já tinha planos para aquela noite. Alinhei o terno uma última vez antes de prosseguir meu caminho pela costa da ilha em que agora estava e então segui a passos calmos. Não sabia exatamente onde me encontrava, mas era um pedaço de terra qualquer flutuando acima do oceano e não muito distante do acampamento. O que fiz logo de primeira foi procurar a árvore mais bela que pudesse encontrar, e assim o fiz. Preparei a clareira e então uni as mãos para criar enfeites de gelo em todos os tipos de tamanhos. Depois de uma hora, o trabalho meticuloso estava completo, milhares de flocos de neve, em todos os seus tipos e simetrias, algumas dezenas de globos vazados de gelo translúcido e outras de gotas cristalinas, todos pendurados aos galhos do carvalho por fios de cristal de gelo. Havia ainda uma fina camada de gelo por sobre a grama orvalhada e a luz da lua brincava com a reflexão da transparecia do gelo, tornando o ambiente ainda mais próspero para uma boa cerimônia.
Conferi as mangas do terno negro por sobre a camisa branca no mesmo tom de meus cabelos e admirei meu trabalho. Fechei os olhos e então pressionei o polegar próximo ao indicador sentindo o gelo tomar forma em minhas mãos. Ao abrir os olhos uma rosa vítrea brilhava á luz lunar em minha mão direita, a depositei junto às raízes da árvore que havia decorado e então me ajoelhei na neve.
— Milady Quione, cá estou eu novamente para lhe agradecer por toda a proteção e conhecimento que me proporcionou durante todos estes anos, eis aqui uma oferenda para ti, para que todos saibam que a natureza é mais bela com o toque de suas mãos. Minha lady, peço que aceite esta oferta de agradecimento e também que permaneça me guiando, e que aonde eu for possa sempre ver suas pegadas por sobre o manto branco do inverno, para que jamais me perca e para que se orgulhe de mim. Agradeço também pela oportunidade que a mim foi dada de conhecer este mundo fora de seu palácio, lhe prometo que sempre terá em mim um motivo para se orgulhar.
E assim permaneci de olhos fechados e pude sentir uma brisa fria acariciar meu rosto, como se a própria dama da neve que me trouxe a este mundo estivesse aceitando minha oferta. No entanto meu momento de silêncio e agradecimento não durou muito, devido a estranha presença que senti no local. Me levantei calmamente, mantendo minha postura e levei as mãos ás costas. O mais estranho não era o fato de alguém estar ali, mas sim de eu reconhecer, de alguma forma, aquela aura.
— Peço que por favor apareça... — Mantive meu tom calmo, porém firme. — Afinal de contas não é nada educado não anunciar sua chegada.
Ao ouvir o som das pegadas na neve em minha direção, me virei preparado para o que quer que fosse acontecer. Pelo menos pensei estar preparado. Havia uma garota a alguns passos de mim, seus cabelos eram brancos e levemente ondulados, eles lhe caiam sobre os ombros, e seus olhos eram no mesmo tom claro de azuis que os meus. Ela usava calças jeans e uma blusa de moletom cinza, o que fazia com que sua imagem facilmente se misturasse ao local. No entanto, o que me deixara mais desconfortável fora o fato de eu parecer conhecer ela.
— Mademoiselle.
Me curvei em mesura, após ler suas expressões e sua postura corporal conclui que ela não estava ali para me atacar nem nada do gênero.
— Boa noite, mas, se me permite é claro, que faz aqui?
— Meu nome é Tiffany, Tiffany Williams, e não sei bem, senti algo bem familiar neste local e então decidi vir ver o que era.
Tiffany... Não podia ser. O nome então se chocou contra mim como um expresso que cruza os trilhos em direção a seu destino. Aquele rosto, aquela voz, o fogo gélido que ardia por trás das íris azuis, tudo se encaixava. Eramos tão novos na época em que ela havia saído do palácio dos boréades que seu nome já nem estava mais presente em minha memória. Mas agora ela estava ali, em frente a mim.
Me aproximei cautelosamente até estar frente a frente com ela e então perguntei.
— Tiffany?...
— Sim?...
— Sou eu, Cameron...
O tempo pareceu paralisar e então se acelerar logo em seguida. Em seu olhar eu pude ver tudo que eu havia sentido a poucos segundos atrás, o choque não transparecia em seu rosto assim como não transparecera no meu, mas eu sabia que ela estava tão surpresa quanto eu. Senti seus dedos tocarem a maçã de meu rosto. A frieza de sua pele era reconfortante em meio à aquele novo ambiente no qual me encontrava.
— É realmente você Cam?
Eu então segurei sua mão e a puxei para um abraço. Demonstrar afeto não era algo que adentrasse minha lista de confortos, porém naquele momento senti que era a coisa certa a se fazer.
— Sim Tiff, sou eu.
Lentamente, as mãos dela se entrelaçaram em meu corpo da mesma forma que as minhas agora estavam o que me levou a um sorriso minimo, e então ali ficamos, a noite se passou de forma que não percebi já que a conversa se estendeu para muito mais além de apenas um "olá". Havia muito do que se recordar e novos assuntos a serem tratados e discutidos nos galhos do carvalho invernal.
Naquele momento eu soube que não importava o quão difíceis fossem as coisas dali para frente, eu sabia que não estava completamente só.
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